9.1.09

Poderá o corpo ser responsabilizado por um estado mental?




Uma colega vossa coloca aqui uma questão bastante pertinente.



Pergunta: Não será possível alguém advogar que, uma vez que a mente é um aspecto pessoal e impossível de analisar cientificamente, é permissível desenvolver certos actos prejudiciais para a maioria apenas porque o agente alega que ocorreram na sua mente processos mentais muito agradáveis e impossíveis de ocorrer na mente de outrem? Ou então alegar que o corpo não pode ser responsabilizado por algo que a mente domina e com o qual não estabalece uma relação assim tão próxima: uma coisa é o corpo, outra é a mente. Desta forma, não havendo castigos para a mente e estando esta separada do corpo, não faria sequer sentido castigar o corpo: eles iriam manter a sua "discórdia".


Resposta: O problema da mente-corpo é estudado pela filosofia da mente e pelas ciências cognitivas e pode ser formulado do seguinte modo: "Qual é a relação entre a mente e o corpo?". Há quem não veja relação nenhuma entre mente e corpo, que a mente não é mais do que o resultado de sinapses, de correntes eléctricas e bioquímicas produzidas pelo cérebro (que é um órgão do corpo). Estes são designados por fisicalistas, defendendo uma posição demasiado materialista, segundo a qual, nós, seres humanos, não somos mais do que um efeito da evolução e, se esta, se deu no sentido da complexificação dos seres vivos, produzindo alguns com capacidade para terem consciência de si mesmos, então, tudo se resume às leis deterministas e nós, seres humanos, temos de perder a mania de nos julgarmos soberanos na Natureza.

Contudo, esta visão do ser humano e da sua mente está longe de ser aceite pelos filósofos. A posição que vigorava até ao surto das ciências do cérebro (ou neurociências), era a de que a mente é independente do corpo. Platão, S. Agostinho, Descartes escreveram páginas sobre isso, ao passo que os gregos epicuristas já alegavam, antes de cientistas como António Damásio nascerem, que a mente é material.

A questão colocada contém uma refutação por redução ao absurdo à tese dualista. De facto, se a mente for independente do corpo, no sentido em que têm uma natureza e um propósito diferentes, será possível alegar que não posso responsabilizar o meu corpo pelas emoções, crenças e desejos que a minha mente produz? Se respondessemos afirmativamente a esta questão, teríamos de conceber a possibilidade de perante um caso de carjacking, o criminoso alegar em sua defesa: " Prendam a minha mente que foi ela que teve a intenção de roubar, que o meu corpo não tem responsabilidade nenhuma nisso, ou se tem, diminuam-lhe a pena!" É, de facto, um absurdo.

Uma resposta mais consensual ao problema da mente-corpo é o da teoria do aspecto dual. Apesar de os pensamentos, sentimentos, desejos e crenças serem despoletados por mecanismos complexos ocorridos no cérebro, a mente não se restringe ao cérebro. Um exemplo: quando cheiras uma flor, o seu cheiro é uma propriedade da flor ou uma propriedade que atribuis à flor através da informação recebida pelos teus órgãos sensoriais? Para os defensores da teoria do aspecto dual, quando cheiras uma flor ocorre em ti dois processos: um físico através do teu cérebro que vai processar a informação colhida pelos órgãos sensoriais, o que é o mesmo que dizer que implica tansformações eléctricas e químicas; outro mental que é a tua experiência do cheiro da flor. Um neurologista a meio de uma intervenção cirúrgica ao cérebro é incapaz de saber o que o indivíduo que está a operar sentiu, efectivamente, quando cheirou uma flor. Esta teoria é, de facto, interessante, porque ao excluir o dualismo, exclui igualmente uma posição demasiado materialista e "fisicista" das experiências pessoais e vivências mentais privadas.

À questão de se será permissível desenvolver certos actos prejudiciais para a maioria apenas porque o agente alega que ocorreram na sua mente processos mentais muito agradáveis e impossíveis de ocorrer na mente de outrem, o mais sensato é defender que não, apesar de esta questão não se prender com o problema da mente-corpo. A experiência subjectiva de que possuímos certos estados mentais é apenas uma prova de que a mente não se restringe ao cérebro e não uma justificação para ilibarmos um serial killer. Extrapolar o problema para questões morais é iniciar uma nova cadeia de perplexidades. De facto, um agente faz acontecer algo em estreita conexão com os seus estados mentais. Se teve a intenção de causar dano a outrem, então deve ser moralmente responsabilizado por isso, ou seja, deve responder pelo acontecimento que provocou intencionalmente.

Apesar de parecer absurda a independência entre mente e corpo, não conseguimos desembaraçar-nos dela num ápice. Quantas vezes não nos apeteceu, quando desejamos a pessoa errada, dizer-lhe: "Gosto do teu corpo, mas não gosto da tua mente!" ou vice-versa?

8.1.09

Retórica da fragilidade

Este texto foi publicado por mim aqui há uns meses. Decidi adaptá-lo ao Logos-ecb porque hoje, numa aula de 11.º ano, os alunos surpreenderam-me pelo modo como caracterizaram a mentalidade dos jovens (como indiferentes ao saber e às manifestações culturais). Fica aqui, como proposta de reflexão, algumas ideias, ... aguardo por outras!

Um dos mitos que é necessário banir do ensino secundário é o de que só é bom aluno a Filosofia aquele que melhor souber escrever. É natural que quando pretendemos expor as nossas ideias necessitamos de usar correctamente a língua na qual trabalhamos. Contudo, há quem confunda escrever bem e bem escrever. O escrever bem é uma competência fundamental que todos os alunos escolarizados deverão ter, mas bem escrever não será tão necessário, pelo menos no que toca à disciplina de Filosofia.Por escrever bem entendo a capacidade de usar a língua portuguesa de modo proficiente, ora redigindo ora apresentando oralmente um discurso organizado, coerente, sem infracções na ortografia, na sintáctica e na gramática. Bem escrever consiste na arte de redigir um discurso ornamentado por figuras de estilo e outros recursos estilísticos, revelando destreza no uso de metáforas e de metonímias, fazendo da língua um instrumento artístico e embelezador.

Em Filosofia, privilegia-se o equilíbrio entre o escrever bem e o pensar bem. Não quero com isto dizer que noutras disciplinas isso não aconteça. Como há uma relação bem íntima entre pensamento e discurso, as regras lógicas deverão orientar as regras gramaticais.Quando se penetra no íntimo da disciplina, na especificidade dos seus problemas (a existência de Deus, a origem do conhecimento, o livre-arbítrio, a natureza da arte, ...), quais são as ferramentas para se poder filosofar?

a) Conceitos – conceptualizar
b) Problemas – problematizar
c) Teoria (conjunto articulado de teses)
d) Argumentos (provas racionais para se mostrar que uma determinada tese é verdadeira) – argumentar

Conceptualizar, problematizar, argumentar correspondem ao trabalho filosófico ele mesmo, e são estas capacidades que se exigem dos estudantes. Esta concepção de trabalho filosófico está longe de ser consensual, pois muitos filósofos recorrem a um estilo (bem escrever!) hermético para expressar as suas ideias, violando logo o princípio filosófico da clareza, da evidência, da inteligibilidade, que num dado período se pensou alcançar-se unicamente pela via lógica.
Há muitos filósofos que mais parecem escritores (e bons escritores) do que técnicos de produção de conhecimento. Há muitos filósofos que enveredam por um caminho obscuro na transmissão do seu conhecimento, tornando-se difícil distinguir os argumentos apresentados dos argumentos a refutar.

Considerar que a Filosofia é difícil, que é preciso escrever algo que ninguém entenda, é uma tendência do que designo por retórica da fragilidade. Por retórica da fragilidade entendo a inépcia com que se arranjam subterfúgios retóricos para mostrar que se tem razão, sendo necessário reclamar toda a espécie de autoridade para se esconder que não se sabe pensar (seja pela forma de citação abusiva e descontextualizada, seja pela forma como se aventam ideias confusas só para se enxertar profundidade na superficialidade).


A retórica da fragilidade não é apenas uma noção aplicável ao trabalho filosófico, é também uma característica moral de quem argumenta. Tal torna-se visível na incapacidade de arranjar provas racionais para mostrar a verdade de uma determinada posição através da desculpabilização, relegando a culpa para o interlocutor, considerando-o inapto para compreender as profundidades do orador.

Os estudantes estão a ficar despojados de uma formação humanista, fundamental para a inserção dos indivíduos numa sociedade. A iliteracia funcional, elevada a um dos problemas com os quais a teóricos da educação se debatem actualmente, só pode ser multiplicada nesta lógica da produtividade de alunos com o 12º. ano, mas privados de disciplinas que enriqueçam o seu currículo humano, cívico e crítico; na ausência de instrumentos que os possam ajudar a singrar no mundo do trabalho e no cumprimento da cidadania, tornar-se-ão, à mercê da retórica da fragilidade, elementos de um exército bem artilhado mas que não sabem usar as armas que têm. É esta a consequência da perda da Filosofia para disciplinas de carácter técnico (que são importantes, mas que por si só, pouco valor têm sem o suporte de enriquecimento cultural e humanístico). É esta a retórica que levou à suspensão dos Exames Nacionais de Filosofia como provas de ingresso ao Ensino Superior, no momento em que, por obra do Processo de Bolonha, as universidades portuguesas exigem alunos com capacidades intelectuais e críticas que sustentem o espírito de emulação com as universidades europeias.


Para discussão: Será o argumento de Calvin aceitável?

3.1.09

O problema da mente humana

Será possível penetrar nos pensamentos íntimos de uma outra pessoa? Terá a comunicação humana limites? Será a mente humana um programa semelhante ao dos computadores num organismo biológico? Qual é a relação entre mente e corpo?
Este livro alude a estas e outras questões relacionadas com a filosofia da mente, constituindo assim um exemplo de como a literatura pode abrilhantar os nossos pensamentos filosóficos e até mesmo servir de mote para a reflexão crítica.
Ralph Messenger (talvez não seja um mero acaso uma das personagens principais ter como apelido o nome de um programa que permite conversar com os outros) é um prestigiado professor da Universidade de Gloucester e director do Centro de Ciências Cognitivas Holt Belling da mesma Universidade, preocupado com a Inteligência Artificial e com todas as repercussões filosóficas que esta problemática encerra. Helen Reed é professora convidada de Literatura na mesma Universidade e escritora, que toma por verdadeira a premissa de que pensar a consciência só é possível a partir da literatura. De facto, quando estamos a ler ficção temos a percepção de que o autor nos está a comunicar os seus pensamentos mais secretos, aqueles que não chega a partilhar com mais ninguém, nem com a mulher, com os filhos ou com os gatos.
Ralph Messenger colige os seus pensamentos mais secretos, seguindo a noção de consciência como fluxo de William James, gravando tudo o que lhe ocorre ao pensamento consciente. Helen Reed recolhe e guarda os seus pensamentos num diário. Messenger está interessado em trocar os seus pensamentos com os de Helen, embora esta rejeite e encare tal investida como uma "perversão".
Os diálogos deste romance estão repletos de referências filosóficas e científicas sobre a mente e a cognição. Se pensar é o diálogo da alma consigo mesma, como defendeu Platão, dialogar é partilhar os pensamentos que ocorrem nessa conversa interior. Contudo, quem é que está agora a pensar no que hei-de escrever neste "post"? Será que os pensamentos que quero reproduzir nesta janela virtual são independentes dos dedos que pululam por este teclado? Qual é, afinal, a relação entre a mente, que permite que eu tenha pensamentos, e o corpo que tanta vezes me afasta do pensamento e me obriga a ver televisão de um modo desenfreado?

Os filósofos encaram estes problemas como um só: o problema da mente. Este pode ser formulado do seguinte modo: será a mente independente do corpo? As respostas a este problema aparecem agrupadas em duas categorias: 1) dualismo, que defende que a mente é independente do corpo e por isso lhe pode subsistir após a morte; 2) monismo, alegando que a mente é uma parte do corpo.

Neste livro, as referências a experiências mentais usadas por filósofos e cientistas (que se dedicam às ciências cognitivas, como a personagem do livro) são várias: o morcego de Thomas Nagel, para provar que os qualia (crenças, desejos) são inéfáveis, tornando-se impossível qualquer investigação científica sobre a consciência; o dilema do prisioneiro; o quarto chinês de John Searle (no manual do 11.º ano aparece mais informação sobre esta experiência mental); a cientista da cor de Frank Jackson ou o gato de Schrodinger; mediante os quais se ilustra a inconsistência de uma tese funcionalista da mente humana.

Por outro lado, a conotação religiosa de alma vai-se dissolvendo à medida que a investigação cognitiva aumenta. Helen parece preocupada, pois a crença na existência da alma humana levou-a a preservar na memória o marido que falecera há uns meses, acontecimento que a reaproximou da religião católica. A mentalidade evolucionista (ou materialista) de Messenger entra em rota de colisão com a mentalidade religiosa de Helen, embora isso não sirva para reprimir o desejo de se apaixonarem um pelo outro.

Trespassado pelo humor inteligente, a que Lodge já nos habituou noutros livros, bem como pelo estilo claro e preciso, Pensamentos Secretos é um livro que se lê de um só fõlego, em que chegados à ultima página a única ideia que nos assalta é a de o reler.
Dos muitos diálogos interessantes que este romance contém, transcrevo um, no qual Messenger e Helen discutem sobre o problema central que dá título ao livro: os pensamentos secretos.


«-[...] Hoje em dia já são muito poucas as pessas inteligentes que acreditam na história contada pela religião, embora continuem a agarrar-se a ela e a procurar consolo em alguns dos seus conceitos, tais como a alma, a vida para além da morte, e por aí fora.
- Penso que é precisamente isso que o incomoda, não é? - diz Helen. - Que a maior parte das pessoas continue teimosamente a acreditar que existe um espírito dentro da máquina por mais que os cientistas e os filósofos lhes digam que não.
- Não me «incomoda» propriamente - diz Ralph.
- Incomoda, sim - diz Helen. - É como se estivesse apostado em eliminá-lo da face da terra. Que nem um inquisidor determinado a pôr fim às heresias.
- Só acho que não devemos confundir aquilo que gostaríamos que fosse com aquilo que realmente é - diz Ralph.
- Mas admite que temos pensamentos que são privados, secretos, conhecidos apenas de nós próprios.
- Sim, claro.
- Admite que a minha experiência deste momento, estar aqui refastelada na água quente a contemplar as estrelas, não é exactamente a mesma que a sua?
- Estou a ver aonde quer chegar - diz ele. - Está a dizer que existe algo que lhe pertence só a si, ou a mim, uma certa qualidade da experiência que é exclusivamente sua ou minha, que não pode ser descrita com objectividade nem explicada em termos puramente físicos. Aquilo a que poderíamos chamar um eu imaterial ou alma.
- Sim, penso que sim.
- Pois eu digo que continua a ser uma máquina. Uma máquina virtual dentro de uma máquina biológica.
- Então é tudo uma máquina?
- Tudo o que processa informação é, sim.
- Acho essa ideia aterradora.
Ele encolhe os ombros e sorri. - Você é uma máquina que foi programada pela cultura para não reconhecer que é uma máquina.»

26.12.08

Filosofia e Democracia

1. A Filosofia renovou-se na Grécia Antiga aquando da democratização da cidade de Atenas, no século V a.c.. Designa-se por viragem antropológica a inclusão do ser humano, na sua dimensão ética e política, no cerne das problemáticas filosóficas, além das preocupações com a Natureza que aparecem em todos os autores do período pré-socrático.
1.1. Há autores que referem o século V a.c., em Atenas, como um período de transformação cultural e da mentalidade semelhante à do Iluminismo do século XVIII, o que determinou, de facto, a evolução da Humanidade consubstanciada com os novos princípios filosóficos.

1.2. A implantação da democracia na cidade de Atenas exigiu que os cidadãos se emancipassem intelectualmente para poderem participar na política. Assim, a Filosofia tornou-se num meio privilegiado de preparação de uma cidadania esclarecida, activa e participada. Neste período, houve um conflito entre retores (sofistas) e filósofos na preparação intelectual dos jovens cidadãos. Os primeiros defendiam que, como toda a verdade é relativa, basta saber tornar persuasiva uma crença para se poder governar, enquanto os segundos defendiam que os jovens cidadãos deveriam ser educados, não na retórica, mas na aquisição do conhecimento do bem e do justo, para poderem governar de modo a alcançar-se o bem comum.

2. Revolução Francesa:1789. Após séculos de domínio teológico sobre a Filosofia, esta voltou a localizar-se no espaço que lhe pertence por natureza: a democracia. Assim, em 1795, Joseph Lakanal propõe a criação de um curso de Filosofia, com o objectivo de pôr termo à revolução na República Francesa e iniciar uma no espírito humano (em 1781 é publicada a primeira edição da Crítica da Razão Pura, em que Kant propõe uma segunda Revolução Coperniciana, com o intuito de revolucionar o entendimento humano).

2.1. Em França, por herança da Revolução de 1789, dinamiza-se o ensino da Filosofia, sendo criado um curso de Filosofia gratuito e obrigatório.

3. Após duas guerras mundiais e a dissolução de muitas ditaduras no mundo ocidental, a Unesco, em 1995, elaborou um estudo que revela que o ensino da Filosofia se desenvolve no mundo ao ritmo da democracia. Assim sendo, em muitos países que se democratizaram, foram criados cursos de Filosofia.

3.1. A Unesco desde a sua origem que tem recorrido à Filosofia para que se promovam os ideais que serviram de alicerces a esta organização.

3.2. A Unesco considera prioritário tornar acessível os estudos filosóficos. Por esta razão, na página da Unesco pode ler-se que dois dos seus objectivos são: "disponibilizar instrumentos internacionais para o progresso dos estudos filosóficos; colocar a filosofia ao serviço da educação internacional das nações. "

3.3. Considerando indispensável o ensino da Filosofia para a manutenção das democracias, a Unesco criou, em 2002, o Dia Internacional da Filosofia, que é celebrado na terceira quinta-feira do mês de Novembro.

4. Tendo em consideração a ligação essencial entre democracia e Filosofia, a revista francesa Philosophie Magazine, na edição de Junho de 2007, publica um estudo da Unesco que pretende mostrar que a consequência natural da democratização de um Estado é a promoção de cursos de Filosofia. O mapa que se segue foi extraído dessa edição e nele se pode verificar o vínculo entre o abandono de regimes totalitários e o progresso dos estudos filosóficos.

Com estes pontos, pretendemos elucidar o correlato existente entre democracia e filosofia. A democracia é, por um lado, o espaço onde o filosofar melhor se desenvolve a par da liberdade de expressão e de pensamento, sem nos vergarmos à autoridade; por outro lado, a filosofia contribui para a manutenção do regime democrático, seja pela preparação de cidadãos conscientes e críticos, seja pela preservação do rigor e exactidão na consecução do saber.
Para discussão: Será que o apagamento da filosofia pode significar uma crise na democracia?

Anotação



«Mas em todos os assuntos sobre os quais a diferença de opinião é possível, a verdade depende de um equilíbrio a ser atingido entre dois conjuntos de razões que estão em conflito. Até na filosofia natural há sempre outra explicação possível dos mesmos factos; uma teoria geocêntrica em vez de uma teoria heliocêntrica; um flogisto em vez de oxigénio; e tem de se mostrar por que não pode outra teoria ser a verdadeira: e até se mostrar tal coisa, e até que saibamos como é mostrado, não percebemos os fundamentos da nossa opinião. Mas quando passamos para assuntos infinitamente mais complicados, para a ética, a religião, a política, as relações sociais e os assuntos da vida, três quartos dos argumentos a favor de cada opinião controversa consistem em dissipar as aparências que favorecem uma qualquer opinião diferente dela. [...] O que Cícero fazia para alcançar sucesso retórico precisa de ser imitado por todos os que estudam qualquer assunto de modo a chegar à verdade. Aquele que conhece apenas o seu lado da questão, sabe pouco acerca do seu lado. As suas razões podem ser boas, e pode ser que pessoa alguma tenha sido capaz de as refutar. Mas se ele é igualmente incapaz de refutar as razões do lado oposto; se nem sequer sabe quais são, não tem quaisquer fundamentos para preferir qualquer das opiniões. A posição racional para ele seria a suspensão do juízo, e, a não ser que se contente com isso, ou é conduzido pela autoridade, ou então adopta, como a maior parte das pessoas, o lado para que está mais inclinado.»

John Stuart Mill, Sobre a Liberdade. Lisboa, Edições 70, 2006, pp. 78-79.


O significado de conhecimento

Este conceito abstracto fomenta as maiores questões metafísicas, entre as quais se destaca a noção de realidade.
É certo que o conhecimento se entende pelo contacto cognitivo entre o sujeito consciente e a realidade. Além disso, é ainda possível afirmar que o conhecimento provém da experiência realizada pelo sujeito, assente na realidade em que está envolvido. Todavia, o próprio sujeito está inserido numa determinada cultura e sociedade, sendo, por isso, influenciado por crenças e preconceitos que diferenciam a sua realidade da realidade de qualquer outro ser com uma cultura e sociedade distintas. Dessa forma, este conceito torna-se relativo e, por conseguinte, o próprio conceito de conhecimento torna-se relativo. Contudo, tal dedução é errada, pois dessa forma não poderíamos aceitar qualquer descoberta que provenha do conhecimento, visto que, esta iria ser distinta para cada povo, e não universal como acontece actualmente com as descobertas científicas.



Portanto, através da relação entre a realidade, o conhecimento e o sujeito consciente, não conseguimos definir os conceitos referidos.
Por convenção aceita-se por realidade aquilo que vemos, tocamos… enfim, presenciamos. No entanto, não será o mundo que nos envolve uma mera ilusão resultante dos nossos sentidos falaciosos?

Escher desenvolve uma nova realidade para definir aquela em que está inserido. Define o mundo sensível como sendo a existência. O inteligível não passa de um mero alicerce para tudo o que é criado mentalmente, mais verdadeiro e pormenorizado do que o que podemos tocar. É nesta realidade que ele se insere enquanto pessoa.

Também Descartes defende que as representações elaboradas pelo pensamento são as que correspondem à realidade. Porém, não seremos apenas marionetas que desfilam no limite da ilusão, comandados por algo?
A meu ver não. O pensamento explica este conceito e desenvolve o conhecimento… Afinal, apenas existo pensando.
Liane Canas (11.º B)

12.12.08

"A mais bela Carta..."

A Carta que também é de Amor... pela Humanidade! fez 60 anos. Os nossos ideais mais belos ganharam forma de compromisso colectivo assumido.
Quando Eleanor Roosevelt se tornou a primeira presidente da Comissão dos Direitos Humanos, o mundo rasgou um sorriso de esperança. Hoje, volvidas seis décadas, pouco ou nada avançamos.
A maior parte do mundo vive em pobreza extrema e observamos nos ecrãs da vida, a violação contínua dos princípios mais básicos.
A hipocrisia de quem tem deveres políticos mais elevados, continua a sobrepor-se aos compromissos assumidos. As recentes negociações para a proibição das bombas de fragmentação, abandonadas pelos Estados Unidos, Rússia e China, são apenas um exemplo.
Temos meios, mas falta-nos a Vontade!.
Dá que pensar...

25.11.08

Um Ano de Improvisações em Dó Menor

Embora com algum atraso, o Logos-ecb não quer deixar de dar os parabéns ao Improvisações em Dó Menor por um ano de existência. Esperamos que a Marta Santos continue a presentear a blogsfera com os seus improvisos.

Da (in)utilidade da Filosofia

"Para que pode servir a filosofia contemporânea?
Para viver juntos da melhor maneira: no debate racional, sem o qual não existe democracia, na amizade, sem a qual não existe felicidade, finalmente na aceitação, sem a qual não existe serenidade. Como escreveu Marcel Conche a propósito de Epicuro, "trata-se de conquistar a paz (pax, ataraxia) e a philia, ou seja, a amizade consigo próprio e a amizade com o outro." Eu acrescentaria: e com a Cidade, o que é política, e com o mundo - que contém o eu, o outro, a Cidade... - o que é sabedoria. Dir-se-á que isso não é novo... A Filosofia nunca o é. A Sabedoria é-o sempre."

André Comte-Sponville
(in Preâmbulo do Programa de Filosofia)

15.11.08

Será que Deus Existe?

Excelente artigo sobre Filosofia da Religião por Álvaro Nunes. Clique aqui.

Filosofia com Crianças

Artigo introdutório à Filosofia com Crianças, por Dina Mendonça. Aqui.

Dina Mendonça é Mestre em Filosofia com Crianças pela Montclair State University (New Jersey, USA) e Doutora em Filosofia pela University of South Carolina (Columbia, USA). É investigadora do Instituto de Filosofia da Linguagem da Universidade Nova de Lisboa, bolseira de pós-doutoramento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e membro da direcção da Sociedade Portuguesa de Filosofia.

Informação recebida de Lekton mailing list

A Alegoria da Caverna



Uma forma diferente (actual?) de abordar o célebre mito platónico.

12.11.08

Crítica


A Crítica é o instrumento daqueles que, amando as ideias claras,
se fazem artífices da simplicidade.

(Agradecemos a ilustração à aluna Beatriz Silva do 11.º F )

28.10.08

Realidade

Excelente artigo de Desidério Murcho, sobre um dos problemas fundamentais da filosofia:
a questão de saber se toda a realidade é empírica. Clique aqui.

26.10.08

Picasso, Guernica

As novas tecnologias de som e imagem, aliadas ao génio de Picasso,
para nos proporcionarem uma fruição única do trágico na nossa condição.

Vídeo gentilmente enviado pela colega Teresa Agostinho.

21.10.08

Sugestão de leitura




















Gilles Lipovetsky (Millau 24 de Setembro de 1944) é um filósofo francês, professor de filosofia da Universidade de Grenoble, autor obras como A Era do Vazio, O luxo eterno, O império do efémero, O crepúsculo do dever e, mais recentemente, A felicidade paradoxal.



Em O crepúsculo do dever, publicado em Portugal em 1994, procura compreender as mudanças de que é alvo a sociedade pós-moderna, marcada, segundo ele, pelo desinvestimento público, pela perda de sentido das grandes instituições morais, sociais e políticas, e por uma cultura aberta que caracteriza a regulação superficial das relações humanas.


A reflexão sobre as vivências actuais, no trabalho, no sexo, no desporto, na família, a filantropia mediática ou a consciência verde, são realizadas em pequenos capítulos, bem identificados no índice da obra, o que nos permite fáceis e breves consultas, como convêm ao zapper pós-moderno, numa escrita clara que expressa um pensamento que nunca se apresenta como peremptório.

“ (…) não existe outra utopia senão a moral, o século XXI será ético ou não será, de todo…
(…) Duas tendências antinómicas moldam as nossas sociedades. Uma incita aos prazeres imediatos, quer eles sejam consumistas, sexuais ou distractivos: sobrevaloriza a pornografia, droga, bulimia de objectos e de programas mediáticos, explosão do crédito e endividamento doméstico. (…) Em contrapartida a outra privilegia a gestão racional do tempo e do corpo, o profissionalismo a obsessão pela excelência e a qualidade (…)
(…) a cultura da felicidade light induz uma ansiedade crónica de massa mas faz desaparecer a culpabilidade moral (…) a consciência culpada torna-se mais temporária, a figura do zapper substitui a do pecador, a depressão, o vazio ou o stress é que nos caracterizam, não o abismo da má consciência mortificadora.
(… A era pós-moralista (…) deve reafirmar a primazia do respeito pelo homem, denunciar as armadilhas do moralismo, promover éticas inteligentes nas empresas, na relação com o ambiente, assentes em princípios humanistas de base, mas em consonância com as circunstâncias e as exigências de eficácia.
(…) Não sendo os homens nem melhores nem piores do que noutros tempos apostemos colectivamente na ciência e na formação, na razão pragmática e experimental (…) menos sublimes mas mais aptas, menos puras mas mais capazes de corrigir os diversos excessos ou indignidades das democracias. (…) As injustiças e as infâmias nunca desaparecerão: tudo o que podemos fazer é limitá-las, reagir mais inteligentemente, acelerar a operacionalização dos contra-fogos.”







15.10.08

Do tempo que vivemos


José Saramago, o nobel da Literatura, adiantou numa entrevista a Pilar del Rio no último número da revista "Única", suplemento do semanário Expresso:
«Vivemos uma época de esquizofrenia, com um pé no hoje, e até, nalguns casos, vivemos com um pé no amanhã, e o outro pé ficou atrás. (...) Nós somos assim, doentes e não fazemos nada. Faz-se tudo para curar as doenças que sobrevêm à doença de origem, mas muito pouco para enfrentar essa doença de origem. Se não parecesse pretensioso com isto... mas enfim, atrevo-me a dizê-lo: acho que na sociedade actual falta-nos filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de reflexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência. Falta-nos reflexão, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma.»
José Saramago, "Esplendor de Portugal - entrevista", Expresso, 11 de Outubro de 2008.

14.10.08

Leituras


-Mas os inconvenientes agradam-me.-(…) Nós preferimos fazer as coisas com todo o conforto.

-Mas eu não quero o conforto. Quero deus, quero a poesia, quero o autêntico perigo, quero a liberdade, quero a bondade, quero o pecado.

-Em suma, você reclama o direito de ser infeliz.

-Pois bem, seja assim! – respondeu o Selvagem em tom de desafio – Reclamo o direito de ser infeliz.

-Sem falar no direito de envelhecer, de ficar feio e impotente, no direito de ter a sífilis e o cancro, no direito de não ter de comer, no direito de ter piolhos, no direito de viver no temor constante do que poderá acontecer amanhã (…).

-Reclamo-os a todos – disse, por fim, o Selvagem.


[in Aldous Huxley, Admirável mundo novo]
Ana Pereira (11.º B)

9.10.08

O tema da clonagem tem sido muito discutido nos meios de comunicação social, mais ou menos de forma cíclica, isto é, há alturas em que se ouve mais falar de clonagem, outras que nem tanto.
Eu queria lançar uma questão relativa a este tema e gostaria muito de ouvir as vossas (fundamentadas) opiniões!
Eis a questão: Clonagem terapêutica e clonagem reprodutiva - sim ou não?

8.9.08

Bem vindos!

Uma vida que não é examinada não merece ser vivida. (Sócrates)

Aos alunos do ECB:

Este blogue pretende ser um espaço de partilha de recursos, de ideias e, acima de tudo, troca de argumentos.
Porque a Filosofia é uma actividade que se treina e se exercita com os outros, pretendemos ensaiar neste espaço debates filosóficos em torno de problemas actuais e que têm merecido a reflexão dos filósofos.

Sê bem vindo ao Logos-ecb e abre-te à verdadeira condição de viver humanamente: a de examinar o que se vive e como se vive.

Aguardamos pelas tuas contribuições e comentários!