Ter autonomia de espírito, ter consciência do mundo e fazer fazer escolhas próprias é melhor, de longe, do que ser passivamente feliz em prejuízo destas coisas. (Anthony Grayling)
13.1.09
Um jogo de futebol hilariante
O humor dos Monty Python.
9.1.09
Poderá o corpo ser responsabilizado por um estado mental?

8.1.09
Retórica da fragilidade
Um dos mitos que é necessário banir do ensino secundário é o de que só é bom aluno a Filosofia aquele que melhor souber escrever. É natural que quando pretendemos expor as nossas ideias necessitamos de usar correctamente a língua na qual trabalhamos. Contudo, há quem confunda escrever bem e bem escrever. O escrever bem é uma competência fundamental que todos os alunos escolarizados deverão ter, mas bem escrever não será tão necessário, pelo menos no que toca à disciplina de Filosofia.Por escrever bem entendo a capacidade de usar a língua portuguesa de modo proficiente, ora redigindo ora apresentando oralmente um discurso organizado, coerente, sem infracções na ortografia, na sintáctica e na gramática. Bem escrever consiste na arte de redigir um discurso ornamentado por figuras de estilo e outros recursos estilísticos, revelando destreza no uso de metáforas e de metonímias, fazendo da língua um instrumento artístico e embelezador.
a) Conceitos – conceptualizar
Conceptualizar, problematizar, argumentar correspondem ao trabalho filosófico ele mesmo, e são estas capacidades que se exigem dos estudantes. Esta concepção de trabalho filosófico está longe de ser consensual, pois muitos filósofos recorrem a um estilo (bem escrever!) hermético para expressar as suas ideias, violando logo o princípio filosófico da clareza, da evidência, da inteligibilidade, que num dado período se pensou alcançar-se unicamente pela via lógica.
Há muitos filósofos que mais parecem escritores (e bons escritores) do que técnicos de produção de conhecimento. Há muitos filósofos que enveredam por um caminho obscuro na transmissão do seu conhecimento, tornando-se difícil distinguir os argumentos apresentados dos argumentos a refutar.

3.1.09
O problema da mente humana

Será possível penetrar nos pensamentos íntimos de uma outra pessoa? Terá a comunicação humana limites? Será a mente humana um programa semelhante ao dos computadores num organismo biológico? Qual é a relação entre mente e corpo?
Este livro alude a estas e outras questões relacionadas com a filosofia da mente, constituindo assim um exemplo de como a literatura pode abrilhantar os nossos pensamentos filosóficos e até mesmo servir de mote para a reflexão crítica.
Ralph Messenger (talvez não seja um mero acaso uma das personagens principais ter como apelido o nome de um programa que permite conversar com os outros) é um prestigiado professor da Universidade de Gloucester e director do Centro de Ciências Cognitivas Holt Belling da mesma Universidade, preocupado com a Inteligência Artificial e com todas as repercussões filosóficas que esta problemática encerra. Helen Reed é professora convidada de Literatura na mesma Universidade e escritora, que toma por verdadeira a premissa de que pensar a consciência só é possível a partir da literatura. De facto, quando estamos a ler ficção temos a percepção de que o autor nos está a comunicar os seus pensamentos mais secretos, aqueles que não chega a partilhar com mais ninguém, nem com a mulher, com os filhos ou com os gatos.
Ralph Messenger colige os seus pensamentos mais secretos, seguindo a noção de consciência como fluxo de William James, gravando tudo o que lhe ocorre ao pensamento consciente. Helen Reed recolhe e guarda os seus pensamentos num diário. Messenger está interessado em trocar os seus pensamentos com os de Helen, embora esta rejeite e encare tal investida como uma "perversão".
Os diálogos deste romance estão repletos de referências filosóficas e científicas sobre a mente e a cognição. Se pensar é o diálogo da alma consigo mesma, como defendeu Platão, dialogar é partilhar os pensamentos que ocorrem nessa conversa interior. Contudo, quem é que está agora a pensar no que hei-de escrever neste "post"? Será que os pensamentos que quero reproduzir nesta janela virtual são independentes dos dedos que pululam por este teclado? Qual é, afinal, a relação entre a mente, que permite que eu tenha pensamentos, e o corpo que tanta vezes me afasta do pensamento e me obriga a ver televisão de um modo desenfreado?
Os filósofos encaram estes problemas como um só: o problema da mente. Este pode ser formulado do seguinte modo: será a mente independente do corpo? As respostas a este problema aparecem agrupadas em duas categorias: 1) dualismo, que defende que a mente é independente do corpo e por isso lhe pode subsistir após a morte; 2) monismo, alegando que a mente é uma parte do corpo.
Neste livro, as referências a experiências mentais usadas por filósofos e cientistas (que se dedicam às ciências cognitivas, como a personagem do livro) são várias: o morcego de Thomas Nagel, para provar que os qualia (crenças, desejos) são inéfáveis, tornando-se impossível qualquer investigação científica sobre a consciência; o dilema do prisioneiro; o quarto chinês de John Searle (no manual do 11.º ano aparece mais informação sobre esta experiência mental); a cientista da cor de Frank Jackson ou o gato de Schrodinger; mediante os quais se ilustra a inconsistência de uma tese funcionalista da mente humana.
Por outro lado, a conotação religiosa de alma vai-se dissolvendo à medida que a investigação cognitiva aumenta. Helen parece preocupada, pois a crença na existência da alma humana levou-a a preservar na memória o marido que falecera há uns meses, acontecimento que a reaproximou da religião católica. A mentalidade evolucionista (ou materialista) de Messenger entra em rota de colisão com a mentalidade religiosa de Helen, embora isso não sirva para reprimir o desejo de se apaixonarem um pelo outro.
Trespassado pelo humor inteligente, a que Lodge já nos habituou noutros livros, bem como pelo estilo claro e preciso, Pensamentos Secretos é um livro que se lê de um só fõlego, em que chegados à ultima página a única ideia que nos assalta é a de o reler.
Dos muitos diálogos interessantes que este romance contém, transcrevo um, no qual Messenger e Helen discutem sobre o problema central que dá título ao livro: os pensamentos secretos.
«-[...] Hoje em dia já são muito poucas as pessas inteligentes que acreditam na história contada pela religião, embora continuem a agarrar-se a ela e a procurar consolo em alguns dos seus conceitos, tais como a alma, a vida para além da morte, e por aí fora.
- Penso que é precisamente isso que o incomoda, não é? - diz Helen. - Que a maior parte das pessoas continue teimosamente a acreditar que existe um espírito dentro da máquina por mais que os cientistas e os filósofos lhes digam que não.
- Não me «incomoda» propriamente - diz Ralph.
- Incomoda, sim - diz Helen. - É como se estivesse apostado em eliminá-lo da face da terra. Que nem um inquisidor determinado a pôr fim às heresias.
- Só acho que não devemos confundir aquilo que gostaríamos que fosse com aquilo que realmente é - diz Ralph.
- Mas admite que temos pensamentos que são privados, secretos, conhecidos apenas de nós próprios.
- Sim, claro.
- Admite que a minha experiência deste momento, estar aqui refastelada na água quente a contemplar as estrelas, não é exactamente a mesma que a sua?
- Estou a ver aonde quer chegar - diz ele. - Está a dizer que existe algo que lhe pertence só a si, ou a mim, uma certa qualidade da experiência que é exclusivamente sua ou minha, que não pode ser descrita com objectividade nem explicada em termos puramente físicos. Aquilo a que poderíamos chamar um eu imaterial ou alma.
- Sim, penso que sim.
- Pois eu digo que continua a ser uma máquina. Uma máquina virtual dentro de uma máquina biológica.
- Então é tudo uma máquina?
- Tudo o que processa informação é, sim.
- Acho essa ideia aterradora.
Ele encolhe os ombros e sorri. - Você é uma máquina que foi programada pela cultura para não reconhecer que é uma máquina.»
26.12.08
Filosofia e Democracia
1.2. A implantação da democracia na cidade de Atenas exigiu que os cidadãos se emancipassem intelectualmente para poderem participar na política. Assim, a Filosofia tornou-se num meio privilegiado de preparação de uma cidadania esclarecida, activa e participada. Neste período, houve um conflito entre retores (sofistas) e filósofos na preparação intelectual dos jovens cidadãos. Os primeiros defendiam que, como toda a verdade é relativa, basta saber tornar persuasiva uma crença para se poder governar, enquanto os segundos defendiam que os jovens cidadãos deveriam ser educados, não na retórica, mas na aquisição do conhecimento do bem e do justo, para poderem governar de modo a alcançar-se o bem comum.
2. Revolução Francesa:1789. Após séculos de domínio teológico sobre a Filosofia, esta voltou a localizar-se no espaço que lhe pertence por natureza: a democracia. Assim, em 1795, Joseph Lakanal propõe a criação de um curso de Filosofia, com o objectivo de pôr termo à revolução na República Francesa e iniciar uma no espírito humano (em 1781 é publicada a primeira edição da Crítica da Razão Pura, em que Kant propõe uma segunda Revolução Coperniciana, com o intuito de revolucionar o entendimento humano).
2.1. Em França, por herança da Revolução de 1789, dinamiza-se o ensino da Filosofia, sendo criado um curso de Filosofia gratuito e obrigatório.
3.1. A Unesco desde a sua origem que tem recorrido à Filosofia para que se promovam os ideais que serviram de alicerces a esta organização.
3.2. A Unesco considera prioritário tornar acessível os estudos filosóficos. Por esta razão, na página da Unesco pode ler-se que dois dos seus objectivos são: "disponibilizar instrumentos internacionais para o progresso dos estudos filosóficos; colocar a filosofia ao serviço da educação internacional das nações. "
3.3. Considerando indispensável o ensino da Filosofia para a manutenção das democracias, a Unesco criou, em 2002, o Dia Internacional da Filosofia, que é celebrado na terceira quinta-feira do mês de Novembro.
4. Tendo em consideração a ligação essencial entre democracia e Filosofia, a revista francesa Philosophie Magazine, na edição de Junho de 2007, publica um estudo da Unesco que pretende mostrar que a consequência natural da democratização de um Estado é a promoção de cursos de Filosofia. O mapa que se segue foi extraído dessa edição e nele se pode verificar o vínculo entre o abandono de regimes totalitários e o progresso dos estudos filosóficos.
Com estes pontos, pretendemos elucidar o correlato existente entre democracia e filosofia. A democracia é, por um lado, o espaço onde o filosofar melhor se desenvolve a par da liberdade de expressão e de pensamento, sem nos vergarmos à autoridade; por outro lado, a filosofia contribui para a manutenção do regime democrático, seja pela preparação de cidadãos conscientes e críticos, seja pela preservação do rigor e exactidão na consecução do saber.Anotação

s assuntos da vida, três quartos dos argumentos a favor de cada opinião controversa consistem em dissipar as aparências que favorecem uma qualquer opinião diferente dela. [...] O que Cícero fazia para alcançar sucesso retórico precisa de ser imitado por todos os que estudam qualquer assunto de modo a chegar à verdade. Aquele que conhece apenas o seu lado da questão, sabe pouco acerca do seu lado. As suas razões podem ser boas, e pode ser que pessoa alguma tenha sido capaz de as refutar. Mas se ele é igualmente incapaz de refutar as razões do lado oposto; se nem sequer sabe quais são, não tem quaisquer fundamentos para preferir qualquer das opiniões. A posição racional para ele seria a suspensão do juízo, e, a não ser que se contente com isso, ou é conduzido pela autoridade, ou então adopta, como a maior parte das pessoas, o lado para que está mais inclinado.»O significado de conhecimento
É certo que o conhecimento se entende pelo contacto cognitivo entre o sujeito consciente e a realidade. Além disso, é ainda possível afirmar que o conhecimento provém da experiência realizada pelo sujeito, assente na realidade em que está envolvido. Todavia, o próprio sujeito está inserido numa determinada cultura e sociedade, sendo, por isso, influenciado por crenças e preconceitos que diferenciam a sua realidade da realidade de qualquer outro ser com uma cultura e sociedade distintas. Dessa forma, este conceito torna-se relativo e, por conseguinte, o próprio conceito de conhecimento torna-se relativo. Contudo, tal dedução é errada, pois dessa forma não poderíamos aceitar qualquer descoberta que provenha do conhecimento, visto que, esta iria ser distinta para cada povo, e não universal como acontece actualmente com as descobertas científicas.
Portanto, através da relação entre a realidade, o conhecimento e o sujeito consciente, não conseguimos definir os conceitos referidos.
Por convenção aceita-se por realidade aquilo que vemos, tocamos… enfim, presenciamos. No entanto, não será o mundo que nos envolve uma mera ilusão resultante dos nossos sentidos falaciosos?
Escher desenvolve uma nova realidade para definir aquela em que está inserido. Define o mundo sensível como sendo a existência. O inteligível não passa de um mero alicerce para tudo o que é criado mentalmente, mais verdadeiro e pormenorizado do que o que podemos tocar. É nesta realidade que ele se insere enquanto pessoa. Também Descartes defende que as representações elaboradas pelo pensamento são as que correspondem à realidade. Porém, não seremos apenas marionetas que desfilam no limite da ilusão, comandados por algo?
A meu ver não. O pensamento explica este conceito e desenvolve o conhecimento… Afinal, apenas existo pensando.
12.12.08
"A mais bela Carta..."
Quando Eleanor Roosevelt se tornou a primeira presidente da Comissão dos Direitos Humanos, o mundo rasgou um sorriso de esperança. Hoje, volvidas seis décadas, pouco ou nada avançamos.
A maior parte do mundo vive em pobreza extrema e observamos nos ecrãs da vida, a violação contínua dos princípios mais básicos.
A hipocrisia de quem tem deveres políticos mais elevados, continua a sobrepor-se aos compromissos assumidos. As recentes negociações para a proibição das bombas de fragmentação, abandonadas pelos Estados Unidos, Rússia e China, são apenas um exemplo.
Temos meios, mas falta-nos a Vontade!.
Dá que pensar...
25.11.08
Um Ano de Improvisações em Dó Menor
Da (in)utilidade da Filosofia
Para viver juntos da melhor maneira: no debate racional, sem o qual não existe democracia, na amizade, sem a qual não existe felicidade, finalmente na aceitação, sem a qual não existe serenidade. Como escreveu Marcel Conche a propósito de Epicuro, "trata-se de conquistar a paz (pax, ataraxia) e a philia, ou seja, a amizade consigo próprio e a amizade com o outro." Eu acrescentaria: e com a Cidade, o que é política, e com o mundo - que contém o eu, o outro, a Cidade... - o que é sabedoria. Dir-se-á que isso não é novo... A Filosofia nunca o é. A Sabedoria é-o sempre."
André Comte-Sponville
(in Preâmbulo do Programa de Filosofia)
15.11.08
Será que Deus Existe?
Filosofia com Crianças
Dina Mendonça é Mestre em Filosofia com Crianças pela Montclair State University (New Jersey, USA) e Doutora em Filosofia pela University of South Carolina (Columbia, USA). É investigadora do Instituto de Filosofia da Linguagem da Universidade Nova de Lisboa, bolseira de pós-doutoramento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e membro da direcção da Sociedade Portuguesa de Filosofia.
Informação recebida de Lekton mailing list
A Alegoria da Caverna
Uma forma diferente (actual?) de abordar o célebre mito platónico.
12.11.08
Crítica

se fazem artífices da simplicidade.
(Agradecemos a ilustração à aluna Beatriz Silva do 11.º F )
28.10.08
Realidade
a questão de saber se toda a realidade é empírica. Clique aqui.
26.10.08
Picasso, Guernica
para nos proporcionarem uma fruição única do trágico na nossa condição.
21.10.08
Sugestão de leitura
A reflexão sobre as vivências actuais, no trabalho, no sexo, no desporto, na família, a filantropia mediática ou a consciência verde, são realizadas em pequenos capítulos, bem identificados no índice da obra, o que nos permite fáceis e breves consultas, como convêm ao zapper pós-moderno, numa escrita clara que expressa um pensamento que nunca se apresenta como peremptório.
“ (…) não existe outra utopia senão a moral, o século XXI será ético ou não será, de todo…
(…) Duas tendências antinómicas moldam as nossas sociedades. Uma incita aos prazeres imediatos, quer eles sejam consumistas, sexuais ou distractivos: sobrevaloriza a pornografia, droga, bulimia de objectos e de programas mediáticos, explosão do crédito e endividamento doméstico. (…) Em contrapartida a outra privilegia a gestão racional do tempo e do corpo, o profissionalismo a obsessão pela excelência e a qualidade (…)
(…) a cultura da felicidade light induz uma ansiedade crónica de massa mas faz desaparecer a culpabilidade moral (…) a consciência culpada torna-se mais temporária, a figura do zapper substitui a do pecador, a depressão, o vazio ou o stress é que nos caracterizam, não o abismo da má consciência mortificadora.
(… A era pós-moralista (…) deve reafirmar a primazia do respeito pelo homem, denunciar as armadilhas do moralismo, promover éticas inteligentes nas empresas, na relação com o ambiente, assentes em princípios humanistas de base, mas em consonância com as circunstâncias e as exigências de eficácia.
(…) Não sendo os homens nem melhores nem piores do que noutros tempos apostemos colectivamente na ciência e na formação, na razão pragmática e experimental (…) menos sublimes mas mais aptas, menos puras mas mais capazes de corrigir os diversos excessos ou indignidades das democracias. (…) As injustiças e as infâmias nunca desaparecerão: tudo o que podemos fazer é limitá-las, reagir mais inteligentemente, acelerar a operacionalização dos contra-fogos.”
15.10.08
Do tempo que vivemos

14.10.08
Leituras

-Mas eu não quero o conforto. Quero deus, quero a poesia, quero o autêntico perigo, quero a liberdade, quero a bondade, quero o pecado.
-Em suma, você reclama o direito de ser infeliz.
-Pois bem, seja assim! – respondeu o Selvagem em tom de desafio – Reclamo o direito de ser infeliz.
-Sem falar no direito de envelhecer, de ficar feio e impotente, no direito de ter a sífilis e o cancro, no direito de não ter de comer, no direito de ter piolhos, no direito de viver no temor constante do que poderá acontecer amanhã (…).
-Reclamo-os a todos – disse, por fim, o Selvagem.
9.10.08
Eu queria lançar uma questão relativa a este tema e gostaria muito de ouvir as vossas (fundamentadas) opiniões!
Eis a questão: Clonagem terapêutica e clonagem reprodutiva - sim ou não?