17.3.09

Será a pena de morte compatível com um mundo civilizado?

Um dos problemas que mais preocupa a humanidade é o problema da justiça, não de um ponto de vista político, mas sim de um ponto de vista pessoal. De facto, o ser humano vê-se obrigado a ver a vida como uma luta por um objectivo estando muitas vezes sujeito à injustiça; no entanto, a injustiça está também relacionada com assuntos do foro criminal. É dentro deste último grupo que se encontra o problema da pena de morte. Este é um problema filosófico que se insere na ética e moral mas que, no fundo, põe em confronto os nossos valores mais básicos com o desejo insaciável de justiça.
A pena de morte consiste, assim, em condenar um ser responsável por um determinado crime ao mais alto castigo existente. Se pensamos ter uma intuição muito forte contra este tipo de pena, ela desvanece-se quando pomos a hipótese de um mundo em insegurança. Quando confrontamos os nossos intuitos, a compaixão, a tradição ou até a religião à qual pertencemos com o desejo de materializar os nossos impulsos, vimos que os nossos sentimentos vacilam. A importância do problema está directamente relacionada com o mundo que desejamos para os nossos descendentes. Este é um problema não consensual que tem levantado várias questões: será a pena de morte moralmente aceitável? Será possível aboli-la racionalmente? Na resposta a estas questões salientam-se duas vertentes: os pró - pena de morte (a favor desta pena) e os abolicionistas.

Por um lado, aqueles que se opõem à pena de morte (abolicionistas), vêem-na como um acto de violência irreversível, que viola o direito à vida assegurado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. Acrescentam que esta pena é tortura: quer a dor física, quer a dor psicológica sentidas pelo condenado são incomensuráveis. Baseiam-se em estatísticas para afirmar que este castigo é discriminatório: é maior o número de condenados à morte que são de raça negra, pobres ou de baixo estatuto social. Referem que existe a possibilidade de condenar inocentes sem que exista a hipótese de reverter a situação. Afirmam ainda que esta pena tem um efeito dissuasor duvidoso, ou seja, que não faria com que outros assassinos deixassem de praticar os seus crimes, uma vez que estes têm muitas vezes problemas do foro psicológico. Para além disto, consideram que este tipo de punição pode ser usado como arma política (como meio de obter votos por parte daqueles que, inocentemente, querem a justiça mesmo que seja desumana). Acrescentam que um castigo deve ser educativo e não a materialização da vingança e apresentam a prisão perpétua como um meio de evitar esta pena. Mas não será este tipo de prisão uma forma de morte, também? Como poderiam aceitar os abolicionistas viver lado a lado com criminosos como Hitler?
Assim, de outro lado estão aqueles que consideram que a pena de morte nos lembra que as nossas acções têm consequências e que quem mata um inocente suicida-se perante a sociedade e perde o direito à vida. Acrescentam que a justiça deve ser capaz de aplicar uma pena adequada a determinado crime mas salientam que adequado é diferente de igual, criando uma maior abrangência para os crimes que, na sua opinião, deveriam ser punidos com o castigo em causa. Quando confrontados com a possibilidade de condenar inocentes à morte, não desmentem que tal facto exista, pois o erro está adjacente a qualquer acção humana no entanto, é importante perceber que ninguém é condenado à morte ao acaso e que, até à data da execução, o indivíduo é considerado culpado. Quanto ao efeito dissuasor, baseiam-se no valor da vida para afirmar que a diferença entre o morrer e o “quase morrer” é abissal e que este facto pode levar a dissuadir assassinos futuros. Opõem-se aos abolicionistas afirmando que a pena de morte é retribuição e não vingança: a vingança implica raiva e a retribuição serve de meio de atenuar a dor dos familiares. Deixam a recuperação do criminoso para segundo plano, afirmando que em primeiro plano deve estar a segurança da sociedade.
Assim, conclui-se que este problema questiona intuições e promove a arte de pensar. Percorre os corredores do pensamento à medida que percorre os corredores da morte nos quais esperam dolorosamente, vários assassinos. A meu ver, mais do que saber se a pena de morte deve ser abolida, importa saber se ela é compatível com um mundo civilizado. Por um lado, vimos a criminalidade a aumentar, por outro vimos a tendência do mundo para acabar com esta pena. Por exemplo, Barack Obama considera determinados crimes abomináveis e ele é hoje, a materialização da esperança. Na verdade, ainda nada há que justifique a diferença entre matar alguém e matar um criminoso: não será a gravidade semelhante? Considero, assim, que esta pena não é adequada ao mundo civilizado que pretendemos no qual existe um ser único e irrepetível que não está a ser respeitado. Esse ser somos nós. Por último, refiro que é necessário rever as penas aplicadas para que não seja necessário recorrer a métodos de punição desumanos como meio de castigar um criminoso.
Filipa Isabel Serrazina
11.º C
Imagens Google: Edvard Munch, O Grito e Jacques Lois David, A Morte de Sócrates.

13.3.09

Penso, logo serei contratado!



No Telegrapho de Hermes foi publicado um artigo brasileiro que revela a nova tendência de contratação de trabalhadores, insistindo-se em competências adquiridas a partir de uma formação filosófica.
É o cogito cartesiano adaptado às novas exigências relativas ao perfil do trabalhador!

8.3.09

Revista Crítica

De acordo como blog da Revista Crítica, todos os artigos da mesma se encontram temporariamente acessíveis ao público em geral.
Aproveite para conhecer uma das melhores revistas de filosofia e avalie por si mesmo.

28.2.09

Aforismos

«O conhecimento do conhecimento ensina-nos que apenas conhecemos uma pequena película da realidade. A única realidade que é cognoscível é co-produzida pelo espírito humano, com a ajuda do imaginário. O real e o imaginário estão entretecidos e formam o complexo dos nossos seres e das nossas vidas. A realidade humana em si mesma é semi-imaginária. A realidade é apenas humana, e apenas parcialmente real. »
Edgar Morin

14.2.09

Filosofia com Crianças

A Filosofia para Crianças pode aumentar o Q. I. em 6,5 pontos, revela um estudo realizado no Reino Unido. Ler toda a notícia aqui.

27.1.09

Será que este "post" é real?

René Magritte, "Isto não é um cachimbo"

O homem que está sentado a escrever neste momento sou eu. Eu sei que sou o homem que está neste momento a escrever este texto, logo como sei disso, posso dizer que existo. Esta conclusão torna-se demasiado precipitada... há que voltar atrás e reformular o argumento. Afinal, existe a possibilidade de eu não estar neste momento a escrever este texto. [Entretanto, o leitor ajeita os óculos, se os usar, ou então soergue-se da cadeira e julga que o mundo está de pernas para o ar]
De facto, não posso deixar de colocar a possiblidade de não estar neste momento a escrever este texto. Posso estar a ter um sonho tão vívido que parece real. Naturalmente que esta hipótese é absurda porque consigo distinguir o estado de vigília do estado de sono.
Começo por admitir que este post é real. Posso lê-lo, editá-lo ou reescrevê-lo. Posso discuti-lo com os meus amigos, posso ser enxovalhado por algum deles em ter escrito este parágrafo. Posso desistir de o escrever e ficar-me por aqui, sem colocar um ponto final sequer
Todas as justificações que me fazem acreditar que este post é real podem ser imediatamente dissipadas por um filósofo céptico, mostrando-me que: 1) estou a sonhar e confundo o sonho com a realidade; 2) em algumas ocasiões, as minhas sensações não passam de meras aparências do que é real, por isso, nada me garante que a sensação que estou a ter neste momento não pertence à mesma categoria de outras tantas que se revelaram falsas; 3) posso estar a padecer de uma alteração do meu estado de consciência (ou estou embriagado para pensar em coisas destas ou estou a experienciar uma alucinação que me faz acreditar que este post é real). Em conclusão, perante estas objecções, fico ainda mais confuso e estou prestes a admitir que a minha crença (segundo a qual este post é real) não passa de uma ilusão. Da argumentação do suposto filósofo céptico, houve dois pontos que merecem destaque:

a) Se algo é real, então não pode ser uma ilusão.
b) Se algo está a ser experienciado pelo meu corpo, poderá não ser real.

Explicitarei os dois pontos anteriores.

1. Se a) é verdadeira, então os conteúdos dos sonhos não são reais. De facto, já sonhei ser o Presidente dos Estados Unidos e não sou, de facto, o Presidente dos Estados Unidos. Portanto, enquanto estive convencido no meu sonho de que era o Presidente dos Estados Unidos vivenciei algo que não era real. Se sair para a rua e gritar "Eu sou o Presidente dos Estados Unidos", as pessoas vão tomar-me como um louco e ser-me-á diagnosticada esquizofrenia. De facto, não posso ser o que não sou, embora gostasse de ser o Presidente dos Estados Unidos ou o namorado da Scarlett Johansson. Do que foi exposto, posso aduzir que a) é verdadeira. Vivenciamos experiências que se tornam ilusões, e se o são é porque não são reais. A realidade é a propriedade fundamental de todos os objectos que podem ser conhecidos.

Assim, os filósofos empenharam-se em distinguir realidade de aparência. X é real se não for ilusório ou uma ficção. Contudo, dado que as ilusões existem e as ficções também, será que não são reais? Apesar de serem ilusões são reais precisamente porque não são ilusões. Imagine-se que o Pedro acredita que é Napoleão Bonaparte. Não é real que o Pedro seja Napoleão Bonaparte porque isso é apenas uma fruto da sua imaginação. Mas esta suspeita é real precisamente porque o Pedro julga ser Napoleão Bonaparte. Portanto, é verdade que o Pedro acredita que é Napoleão Bonaparte, mas é falso que o Pedro seja, de facto, Napoleão Bonaparte. Em consequência disto, é real o que for passível de ser verdadeiro ou factivo.

2) Nem tudo o que é experienciado pelo corpo é real. Se o Pedro se encontra no deserto à deriva durante dois dias sem ingerir líquidos, o seu cérebro irá compensá-lo dando-lhe a ilusão de que está uma fonte jorrar àgua mesmo à sua frente. Mas não se trata de nenhuma fonte, apenas a cabeça de um dromedário a aproximar-se. Acreditamos que tudo o que é objecto de captação sensível (tudo o que vejo, toco, cheiro, saboreio, ...) é real, contudo várias vezes somos enganados nessas experiências. O leitor que me permita que lhe vende os olhos. Não vê nada? Nada, nada? Muito bem! Então agora vou pedir-lhe que toque neste objecto. Tocou? O que lhe parece que é este objecto? Vai dizer-me que tem a certeza de que se trata de um cachecol. Neste momento julga que é real o que está a percepcionar. Peço-lhe que levante a venda e repare, parece um truque de magia, mas o objecto que tocou não é um cachecol, mas um caniche bebé. Não o convenci; vai dizer-me que o tacto não é um sentido tão viável quanto a visão. Então repare nesta pintura de Salvador Dali: o que é que os seus olhos lhe estão a mostrar? O mesmo seria perguntar o que quer que os seus olhos vejam?
Certamente que consegue vislumbrar o perfil da Gala (a mulher de Dali) a contemplar o mundo exterior a partir de uma janela. Mas se se afastar um pouco mais, sim o mais que puder, verá algo que lhe parece um rosto. E é mesmo. É o rosto do famoso Presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln. Mas afinal, trata-se de Gala a passear os seus olhos pela linha do horizonte ou o retrado de Lincoln? O que vêem os seus olhos? Certamente que verão algo de diferente dos meus ou dos do Pedro ou de outra pessoa qualquer. Então o que lhe parece real (por exemplo a figura desnuda de Gala) não é mais do que ilusório para mim, que vislumbrei o rosto de Lincoln.


Será que este post é real? Se não estiver a ser iludido pelos meus sentidos ou a padecer de uma alucinação, nem a vivenciar um sonho, posso julgar que este post é real. É real porque existe em função do sujeito e segundo a perspectiva do sujeito pensante. Esta ideia aproxima-nos da posição de muitos filósofos que julgaram que o real é o que se dá ao pensamento. Se penso num determinado objecto (de natureza empírica ou racional), esse objecto é real, de modo que a sua realidade é justificada pelo pensamento racional. Nada do que escape ao pensamento racional é, por esta razão, real.
P.S.: Para começar, dada a curiosidade de muitos colegas vossos, é importante reconhecer que a realidade é um conceito filosófico que se entende melhor pelo que não é do que pelo que é. Assim sendo, desde Parménides (séc. VI a.c.) que a realidade (aquilo que é) não é senão o oposto de aparência (o que parece ser, mas não é).

26.1.09

O que é a Realidade? II

A BBC apresenta-nos neste documentário, uma fascinante viagem pela cosmologia contemporânea. Uma abordagem poética mas cientificamente rigorosa, que dá muito que pensar. Ver aqui.

Para saber mais:


Elcio Abdalla, Teoria quântica da gravitação: Cordas e toria M, in Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 27, n. 1 p. 147 - 155, (2005)
Stephen Hawking, O Universo numa Casca de Noz.

Imagem Google - Vieira da Silva, Jogo de Xadrês

O que é a realidade? I


Esta questão tão abrangente, profunda e inquietante, foi-nos sugerida como tema de discussão. Não se trata de pretendermos encontrar uma resposta, o que seria impossível, mas tão só fornecer alguns elementos para reflexão. Assim, inciamos hoje um conjunto de pequenas notas que, esperamos, sejam «provocadoras» no sentido de suscitarem em nós o diálogo.


Realidade em sentido lato e de acordo com a enciclopédia Logos, significa tudo o que existe ou é, por oposição à aparência. Todas as filosofias apresentam uma concepção implícita ou explícita de realidade.
Pensa-se ter sido Parménides (séc. VI a. C.) o primeiro filósofo que, verificando não se poder confiar nos sentidos, sustentou que só é verdadeiramente, o que pode ser pensado.
Esta questão, pela sua abrangência prende-se com a noção de Cosmos, termo que foi pela primeira vez usado por Pitágoras, no mesmo século e segundo a mesma fonte, para designar a ordem e harmonia do sistema planetário e sideral.
Imagens Google: Claude Monet, Impressão: Nascer do Sol
"A Verdade não é impressionista."

24.1.09

Leituras filosóficas








O livro de Nigel Warburton, Elementos Básicos de Filosofia é uma excelente iniciação ao filosofar para todos os que desejam reflectir com mais rigor sobre temas como: a Ciência, a Arte a Mente, Deus, o Bem e o Mal ...

" Uma razão importante para estudar filosofia é o facto de esta lidar com questões fundamentais acerca do sentido da nossa existência. A maior parte das pessoas, num ou noutro momento da sua vida, já se interrogou a respeito de questões filosóficas. Por que razão estamos aqui? Há alguma demonstração da existência de Deus? As nossas vidas têm algum propósito? O que faz com que algumas acções sejam moralmente boas ou más? Poderemos alguma vez ter justificação para violar a lei? Poderá a nossa vida ser apenas um sonho? É a mente diferente do corpo, ou seremos apenas seres físicos? Como progride a ciência? O que é a arte? E assim por diante.
A maior parte das pessoas que estudam filosofia acha importante que cada um de nós examine estas questões. Alguns até defendem que não vale a pena viver a vida sem a examinar." (pág. 19)

22.1.09

Aforismos

« Sempre há um pouco de loucura no amor, porém sempre há um pouco de razão na loucura.»
Friedrich Nietzsche

« Para quê repetir os erros antigos quando há tantos erros novos a cometer?»
Bertrand Russel

« A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida olhando-se para a frente.»
Soren Kierkegaard

« A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo.»
Merleau-Ponty

17.1.09

Cérebro e Música

A propósito da imagem da mente como fluxo musical...
artigo sobre a relação cérebro-música aqui.

Leituras filosóficas

O texto abaixo foi retirado e traduzido do site http://www.askphilosophers.org/ (vale a pena visitar!) no qual os cibernautas podem colocar perguntas a um vasto painel de filósofos e obter resposta. O livro de Alexander George, Que Diria Sócrates?
Filósofos Respondem Às Suas Perguntas Sobre O Amor, O Nada E Tudo O Resto, recentemente publicado pela editora Gradiva, baseia-se em perguntas que foram seleccionadas de entre as muitas enviadas para este popular site.


PERGUNTA:
Têm sido propostos muitos argumentos que visam dar suporte à proposição que afirma que Deus existe. Até agora, parece que nenhum deles foi convincente. Pensa que é possível que um argumento que conclua ‘Deus existe’ venha a ser alguma vez convincente? Se um tal argumento não puder ser convincente, não podemos inferir que nenhum argumento que procure estabelecer a existência de Deus é convincente? Ou pensa que podemos vir a tomar conhecimento de um argumento que possa ser convincente?

RESPOSTA (de Allen Stairs):

Se por “convincente” quer dizer algo como “acima de qualquer dúvida”, a resposta é quase de certeza não. No entanto, isto não é algo exclusivo dos argumentos acerca da existência de Deus. A tese que afirma que Deus existe tem pelo menos em comum com as teses filosóficas em geral o facto de haver bastante margem de manobra para se argumentar a favor ou contra.
Por outro lado, se a questão é saber se existem argumentos para acreditar em Deus que alguém possa achar convincentes sem cair na irracionalidade, a resposta é quase de certeza sim. Mas, uma vez mais, isto não é algo exclusivo dos argumentos acerca da existência de Deus. Pense no que quer que seja em que os filósofos estejam em desacordo e verificará que alguns filósofos no seu perfeito juízo se deixam convencer por argumentos que outros não consideram persuasivos.
Pode alguém, razoavelmente, considerar um argumento persuasivo, mesmo tendo consciência de que este dá azo a objecções que ainda não obtiveram resposta? Se um padrão de razoabilidade é alcançável pelos seres humanos, a resposta é também sim. Em parte, isto deve-se ao facto de haver duas maneiras de encarar objecções. Uma, é pensar nelas como refutações; outra, como problemas a resolver: ‘se calhar esta questão que me atormenta vai ser fatal para as minhas convicções’; ou ‘se calhar, com algum jeito, eu ou outra pessoa, acabaremos por descobrir uma resposta convincente’. Pessoas razoáveis podem diferir, e diferem, sobre como encarar cada caso. Na verdade, o facto de os filósofos e outro género de teóricos diferirem quanto a isto é uma das coisas que os vai mantendo ocupados!
Tradução Carlos Marques.
Carlos Marques e Helena Serrão
Texto publicado no Blog: Logosfera

Haverá filósofos em Portugal?

É com frequência que nos perguntam se há filósofos em Portugal, pois é estranho estudarmos apenas filósofos estrangeiros. O Logos-ECB inquiriu um filósofo profissional português bem reconhecido por vós, Desidério Murcho e foi presenteado com a reflexão que se segue. Além de ser um dos autores dos vossos manuais Arte de Pensar, é professor de Lógica e Metafísica na Universidade Federal de Ouro Preto, colaborador semanal no jornal Público, autor de vários artigos, livros e antologias e, sobretudo, um exímio divulgador de Filosofia.
Agradecemos a generosidade e a prontidão demonstradas por Desidério Murcho em querer dialogar com os alunos do ECB.


Haverá filósofos em Portugal?
Sim, há filósofos em Portugal. Na medida em que há pessoas que estudaram filosofia, fizeram mestrados e doutoramentos, dão aulas de filosofia e publicam trabalhos sobre filosofia, há filósofos em Portugal. Mas esta resposta deixa as pessoas insatisfeitas. Para se compreender porquê é melhor fazer uma analogia.
Haverá músicos em Portugal? Sim, claro que há. Na medida em que há pessoas que compõem música e a interpretam, há músicos em Portugal. Mas haverá em Portugal músicos como Beethoven ou Philip Glass? Ou como a Madonna? Não; não há músicos desse género, isto é, músicos em Portugal com amplo impacto internacional. Analogamente, não há também em Portugal filósofos com amplo impacto internacional. Quando se pergunta se há filósofos em Portugal tem-se em mente, muitas vezes, filósofos com amplo impacto internacional, como Searle, Dennett, Nagel ou Peter Singer, para referir apenas alguns. Filósofos desse género não há em Portugal. Mas também não há provavelmente pintores, economistas, engenheiros ou arquitectos desses em Portugal. Tal como não há provavelmente matemáticos, físicos ou biólogos desses.
Será o impacto internacional um bom critério para avaliar a qualidade de um filósofo, de um músico ou de seja o que for? Não é certamente um critério decisivo, mas é um critério que nos dá uma indicação razoável da qualidade do trabalho produzido entre nós. O critério não é decisivo porque alguns filósofos com muito impacto internacional podem fazer um trabalho de menor qualidade do que outros filósofos com menos impacto internacional, ou com nenhum ou quase nenhum impacto internacional. Além disso, o impacto internacional precisa de ser qualificado: estamos a falar de impacto internacional em que meios? Há filósofos com muito impacto público, e muito conhecidos, mas quase sem impacto junto de outros filósofos, como é o caso de Rorty. Assim, o critério do impacto internacional não é decisivo, apesar de dar uma indicação razoável sobre a qualidade do trabalho.
Poderá vir a haver filósofos portugueses com amplo impacto internacional? Sim. Antes de isso acontecer é preciso chegar ao patamar em que neste momento estão os matemáticos ou os físicos portugueses, que publicam regularmente nas melhores revistas académicas da especialidade. No caso da filosofia, nem isso ainda existe. Se trabalharmos correctamente, contudo, criamos as condições para que os doutores mais jovens cheguem a esse patamar, para depois se poder chegar ao patamar seguinte: ter filósofos amplamente reconhecidos internacionalmente. Nunca poderá haver muitos, contudo, dada a dimensão do país. Na verdade, a maior parte dos países do mundo, ao longo de toda a sua história, nunca teve um só filósofo com amplo impacto internacional. Por isso não é de espantar que Portugal também não os tenha. O que é de espantar é que a Alemanha, França, Grécia Antiga, Reino Unido e Estados Unidos da América os tenham, e tenham tantos.
Desidério Murcho (Universidade Federal de Ouro Preto, Brasil)

16.1.09

150 anos depois, estará o Darwinismo fora de prazo?

Comemora-se em 2009 os 200 anos do nascimento de Charles Darwin e 150 anos da publicação do seu livro a Origem das Espécies, que viria a marcar profundamente a Ciência moderna. No dia 23 de Janeiro, sexta-feira, às 10h 30, o filósofo Michael Ruse, da Universidade da Florida, EUA, mostra como o darwinismo, passado século e meio, ainda não está “fora de prazo”.E a demonstrar isto a comunidade científica portuguesa, através do Conselho dos Laboratórios Associados, colabora com a Ciência Viva na organização das comemorações deste Ano de Darwin. Uma oportunidade para divulgar junto do público a investigação que se faz em Biologia e como o trabalho de Charles Darwin foi determinante para esta área do conhecimento. Durante este ano são organizadas palestras e exposições, propostas actividades práticas e desafios experimentais para todos os níveis de ensino, divulgada a investigação feita em Portugal em Evolução Biológica, entre outros. Para estar atento a todas estas iniciativas, visite o Website http://www.darwin2009.pt/A entrada é gratuita mediante inscrição. Pode também acompanhar a palestra em directo através da Ciência Viva TV.



Fonte: Lekton-fórum de Filosofia

Desafios!



Lanço aos leitores um desafio.
Apesar de a natureza de um blogue não proporcionar as vantagens que se podem retirar de um fórum de discussão, podemos usar este espaço para trocar ideias e esgrimir argumentos.
Por isto, sugiro que nos escrevam para o endereço do blogue - logosecb.gmail.com - e apresentem as vossas questões. Tais questões filosóficas serão publicadas no blogue e discutidas por todos os intervenientes, com o objectivo de aprendermos, um pouco mais, uns com os outros. Questões de natureza ética, dilemas morais, são sempre sugestivas para a discussão, de modo a esclarecermos as nossas crenças básicas.

15.1.09

9.1.09

Poderá o corpo ser responsabilizado por um estado mental?




Uma colega vossa coloca aqui uma questão bastante pertinente.



Pergunta: Não será possível alguém advogar que, uma vez que a mente é um aspecto pessoal e impossível de analisar cientificamente, é permissível desenvolver certos actos prejudiciais para a maioria apenas porque o agente alega que ocorreram na sua mente processos mentais muito agradáveis e impossíveis de ocorrer na mente de outrem? Ou então alegar que o corpo não pode ser responsabilizado por algo que a mente domina e com o qual não estabalece uma relação assim tão próxima: uma coisa é o corpo, outra é a mente. Desta forma, não havendo castigos para a mente e estando esta separada do corpo, não faria sequer sentido castigar o corpo: eles iriam manter a sua "discórdia".


Resposta: O problema da mente-corpo é estudado pela filosofia da mente e pelas ciências cognitivas e pode ser formulado do seguinte modo: "Qual é a relação entre a mente e o corpo?". Há quem não veja relação nenhuma entre mente e corpo, que a mente não é mais do que o resultado de sinapses, de correntes eléctricas e bioquímicas produzidas pelo cérebro (que é um órgão do corpo). Estes são designados por fisicalistas, defendendo uma posição demasiado materialista, segundo a qual, nós, seres humanos, não somos mais do que um efeito da evolução e, se esta, se deu no sentido da complexificação dos seres vivos, produzindo alguns com capacidade para terem consciência de si mesmos, então, tudo se resume às leis deterministas e nós, seres humanos, temos de perder a mania de nos julgarmos soberanos na Natureza.

Contudo, esta visão do ser humano e da sua mente está longe de ser aceite pelos filósofos. A posição que vigorava até ao surto das ciências do cérebro (ou neurociências), era a de que a mente é independente do corpo. Platão, S. Agostinho, Descartes escreveram páginas sobre isso, ao passo que os gregos epicuristas já alegavam, antes de cientistas como António Damásio nascerem, que a mente é material.

A questão colocada contém uma refutação por redução ao absurdo à tese dualista. De facto, se a mente for independente do corpo, no sentido em que têm uma natureza e um propósito diferentes, será possível alegar que não posso responsabilizar o meu corpo pelas emoções, crenças e desejos que a minha mente produz? Se respondessemos afirmativamente a esta questão, teríamos de conceber a possibilidade de perante um caso de carjacking, o criminoso alegar em sua defesa: " Prendam a minha mente que foi ela que teve a intenção de roubar, que o meu corpo não tem responsabilidade nenhuma nisso, ou se tem, diminuam-lhe a pena!" É, de facto, um absurdo.

Uma resposta mais consensual ao problema da mente-corpo é o da teoria do aspecto dual. Apesar de os pensamentos, sentimentos, desejos e crenças serem despoletados por mecanismos complexos ocorridos no cérebro, a mente não se restringe ao cérebro. Um exemplo: quando cheiras uma flor, o seu cheiro é uma propriedade da flor ou uma propriedade que atribuis à flor através da informação recebida pelos teus órgãos sensoriais? Para os defensores da teoria do aspecto dual, quando cheiras uma flor ocorre em ti dois processos: um físico através do teu cérebro que vai processar a informação colhida pelos órgãos sensoriais, o que é o mesmo que dizer que implica tansformações eléctricas e químicas; outro mental que é a tua experiência do cheiro da flor. Um neurologista a meio de uma intervenção cirúrgica ao cérebro é incapaz de saber o que o indivíduo que está a operar sentiu, efectivamente, quando cheirou uma flor. Esta teoria é, de facto, interessante, porque ao excluir o dualismo, exclui igualmente uma posição demasiado materialista e "fisicista" das experiências pessoais e vivências mentais privadas.

À questão de se será permissível desenvolver certos actos prejudiciais para a maioria apenas porque o agente alega que ocorreram na sua mente processos mentais muito agradáveis e impossíveis de ocorrer na mente de outrem, o mais sensato é defender que não, apesar de esta questão não se prender com o problema da mente-corpo. A experiência subjectiva de que possuímos certos estados mentais é apenas uma prova de que a mente não se restringe ao cérebro e não uma justificação para ilibarmos um serial killer. Extrapolar o problema para questões morais é iniciar uma nova cadeia de perplexidades. De facto, um agente faz acontecer algo em estreita conexão com os seus estados mentais. Se teve a intenção de causar dano a outrem, então deve ser moralmente responsabilizado por isso, ou seja, deve responder pelo acontecimento que provocou intencionalmente.

Apesar de parecer absurda a independência entre mente e corpo, não conseguimos desembaraçar-nos dela num ápice. Quantas vezes não nos apeteceu, quando desejamos a pessoa errada, dizer-lhe: "Gosto do teu corpo, mas não gosto da tua mente!" ou vice-versa?

8.1.09

Retórica da fragilidade

Este texto foi publicado por mim aqui há uns meses. Decidi adaptá-lo ao Logos-ecb porque hoje, numa aula de 11.º ano, os alunos surpreenderam-me pelo modo como caracterizaram a mentalidade dos jovens (como indiferentes ao saber e às manifestações culturais). Fica aqui, como proposta de reflexão, algumas ideias, ... aguardo por outras!

Um dos mitos que é necessário banir do ensino secundário é o de que só é bom aluno a Filosofia aquele que melhor souber escrever. É natural que quando pretendemos expor as nossas ideias necessitamos de usar correctamente a língua na qual trabalhamos. Contudo, há quem confunda escrever bem e bem escrever. O escrever bem é uma competência fundamental que todos os alunos escolarizados deverão ter, mas bem escrever não será tão necessário, pelo menos no que toca à disciplina de Filosofia.Por escrever bem entendo a capacidade de usar a língua portuguesa de modo proficiente, ora redigindo ora apresentando oralmente um discurso organizado, coerente, sem infracções na ortografia, na sintáctica e na gramática. Bem escrever consiste na arte de redigir um discurso ornamentado por figuras de estilo e outros recursos estilísticos, revelando destreza no uso de metáforas e de metonímias, fazendo da língua um instrumento artístico e embelezador.

Em Filosofia, privilegia-se o equilíbrio entre o escrever bem e o pensar bem. Não quero com isto dizer que noutras disciplinas isso não aconteça. Como há uma relação bem íntima entre pensamento e discurso, as regras lógicas deverão orientar as regras gramaticais.Quando se penetra no íntimo da disciplina, na especificidade dos seus problemas (a existência de Deus, a origem do conhecimento, o livre-arbítrio, a natureza da arte, ...), quais são as ferramentas para se poder filosofar?

a) Conceitos – conceptualizar
b) Problemas – problematizar
c) Teoria (conjunto articulado de teses)
d) Argumentos (provas racionais para se mostrar que uma determinada tese é verdadeira) – argumentar

Conceptualizar, problematizar, argumentar correspondem ao trabalho filosófico ele mesmo, e são estas capacidades que se exigem dos estudantes. Esta concepção de trabalho filosófico está longe de ser consensual, pois muitos filósofos recorrem a um estilo (bem escrever!) hermético para expressar as suas ideias, violando logo o princípio filosófico da clareza, da evidência, da inteligibilidade, que num dado período se pensou alcançar-se unicamente pela via lógica.
Há muitos filósofos que mais parecem escritores (e bons escritores) do que técnicos de produção de conhecimento. Há muitos filósofos que enveredam por um caminho obscuro na transmissão do seu conhecimento, tornando-se difícil distinguir os argumentos apresentados dos argumentos a refutar.

Considerar que a Filosofia é difícil, que é preciso escrever algo que ninguém entenda, é uma tendência do que designo por retórica da fragilidade. Por retórica da fragilidade entendo a inépcia com que se arranjam subterfúgios retóricos para mostrar que se tem razão, sendo necessário reclamar toda a espécie de autoridade para se esconder que não se sabe pensar (seja pela forma de citação abusiva e descontextualizada, seja pela forma como se aventam ideias confusas só para se enxertar profundidade na superficialidade).


A retórica da fragilidade não é apenas uma noção aplicável ao trabalho filosófico, é também uma característica moral de quem argumenta. Tal torna-se visível na incapacidade de arranjar provas racionais para mostrar a verdade de uma determinada posição através da desculpabilização, relegando a culpa para o interlocutor, considerando-o inapto para compreender as profundidades do orador.

Os estudantes estão a ficar despojados de uma formação humanista, fundamental para a inserção dos indivíduos numa sociedade. A iliteracia funcional, elevada a um dos problemas com os quais a teóricos da educação se debatem actualmente, só pode ser multiplicada nesta lógica da produtividade de alunos com o 12º. ano, mas privados de disciplinas que enriqueçam o seu currículo humano, cívico e crítico; na ausência de instrumentos que os possam ajudar a singrar no mundo do trabalho e no cumprimento da cidadania, tornar-se-ão, à mercê da retórica da fragilidade, elementos de um exército bem artilhado mas que não sabem usar as armas que têm. É esta a consequência da perda da Filosofia para disciplinas de carácter técnico (que são importantes, mas que por si só, pouco valor têm sem o suporte de enriquecimento cultural e humanístico). É esta a retórica que levou à suspensão dos Exames Nacionais de Filosofia como provas de ingresso ao Ensino Superior, no momento em que, por obra do Processo de Bolonha, as universidades portuguesas exigem alunos com capacidades intelectuais e críticas que sustentem o espírito de emulação com as universidades europeias.


Para discussão: Será o argumento de Calvin aceitável?

3.1.09

O problema da mente humana

Será possível penetrar nos pensamentos íntimos de uma outra pessoa? Terá a comunicação humana limites? Será a mente humana um programa semelhante ao dos computadores num organismo biológico? Qual é a relação entre mente e corpo?
Este livro alude a estas e outras questões relacionadas com a filosofia da mente, constituindo assim um exemplo de como a literatura pode abrilhantar os nossos pensamentos filosóficos e até mesmo servir de mote para a reflexão crítica.
Ralph Messenger (talvez não seja um mero acaso uma das personagens principais ter como apelido o nome de um programa que permite conversar com os outros) é um prestigiado professor da Universidade de Gloucester e director do Centro de Ciências Cognitivas Holt Belling da mesma Universidade, preocupado com a Inteligência Artificial e com todas as repercussões filosóficas que esta problemática encerra. Helen Reed é professora convidada de Literatura na mesma Universidade e escritora, que toma por verdadeira a premissa de que pensar a consciência só é possível a partir da literatura. De facto, quando estamos a ler ficção temos a percepção de que o autor nos está a comunicar os seus pensamentos mais secretos, aqueles que não chega a partilhar com mais ninguém, nem com a mulher, com os filhos ou com os gatos.
Ralph Messenger colige os seus pensamentos mais secretos, seguindo a noção de consciência como fluxo de William James, gravando tudo o que lhe ocorre ao pensamento consciente. Helen Reed recolhe e guarda os seus pensamentos num diário. Messenger está interessado em trocar os seus pensamentos com os de Helen, embora esta rejeite e encare tal investida como uma "perversão".
Os diálogos deste romance estão repletos de referências filosóficas e científicas sobre a mente e a cognição. Se pensar é o diálogo da alma consigo mesma, como defendeu Platão, dialogar é partilhar os pensamentos que ocorrem nessa conversa interior. Contudo, quem é que está agora a pensar no que hei-de escrever neste "post"? Será que os pensamentos que quero reproduzir nesta janela virtual são independentes dos dedos que pululam por este teclado? Qual é, afinal, a relação entre a mente, que permite que eu tenha pensamentos, e o corpo que tanta vezes me afasta do pensamento e me obriga a ver televisão de um modo desenfreado?

Os filósofos encaram estes problemas como um só: o problema da mente. Este pode ser formulado do seguinte modo: será a mente independente do corpo? As respostas a este problema aparecem agrupadas em duas categorias: 1) dualismo, que defende que a mente é independente do corpo e por isso lhe pode subsistir após a morte; 2) monismo, alegando que a mente é uma parte do corpo.

Neste livro, as referências a experiências mentais usadas por filósofos e cientistas (que se dedicam às ciências cognitivas, como a personagem do livro) são várias: o morcego de Thomas Nagel, para provar que os qualia (crenças, desejos) são inéfáveis, tornando-se impossível qualquer investigação científica sobre a consciência; o dilema do prisioneiro; o quarto chinês de John Searle (no manual do 11.º ano aparece mais informação sobre esta experiência mental); a cientista da cor de Frank Jackson ou o gato de Schrodinger; mediante os quais se ilustra a inconsistência de uma tese funcionalista da mente humana.

Por outro lado, a conotação religiosa de alma vai-se dissolvendo à medida que a investigação cognitiva aumenta. Helen parece preocupada, pois a crença na existência da alma humana levou-a a preservar na memória o marido que falecera há uns meses, acontecimento que a reaproximou da religião católica. A mentalidade evolucionista (ou materialista) de Messenger entra em rota de colisão com a mentalidade religiosa de Helen, embora isso não sirva para reprimir o desejo de se apaixonarem um pelo outro.

Trespassado pelo humor inteligente, a que Lodge já nos habituou noutros livros, bem como pelo estilo claro e preciso, Pensamentos Secretos é um livro que se lê de um só fõlego, em que chegados à ultima página a única ideia que nos assalta é a de o reler.
Dos muitos diálogos interessantes que este romance contém, transcrevo um, no qual Messenger e Helen discutem sobre o problema central que dá título ao livro: os pensamentos secretos.


«-[...] Hoje em dia já são muito poucas as pessas inteligentes que acreditam na história contada pela religião, embora continuem a agarrar-se a ela e a procurar consolo em alguns dos seus conceitos, tais como a alma, a vida para além da morte, e por aí fora.
- Penso que é precisamente isso que o incomoda, não é? - diz Helen. - Que a maior parte das pessoas continue teimosamente a acreditar que existe um espírito dentro da máquina por mais que os cientistas e os filósofos lhes digam que não.
- Não me «incomoda» propriamente - diz Ralph.
- Incomoda, sim - diz Helen. - É como se estivesse apostado em eliminá-lo da face da terra. Que nem um inquisidor determinado a pôr fim às heresias.
- Só acho que não devemos confundir aquilo que gostaríamos que fosse com aquilo que realmente é - diz Ralph.
- Mas admite que temos pensamentos que são privados, secretos, conhecidos apenas de nós próprios.
- Sim, claro.
- Admite que a minha experiência deste momento, estar aqui refastelada na água quente a contemplar as estrelas, não é exactamente a mesma que a sua?
- Estou a ver aonde quer chegar - diz ele. - Está a dizer que existe algo que lhe pertence só a si, ou a mim, uma certa qualidade da experiência que é exclusivamente sua ou minha, que não pode ser descrita com objectividade nem explicada em termos puramente físicos. Aquilo a que poderíamos chamar um eu imaterial ou alma.
- Sim, penso que sim.
- Pois eu digo que continua a ser uma máquina. Uma máquina virtual dentro de uma máquina biológica.
- Então é tudo uma máquina?
- Tudo o que processa informação é, sim.
- Acho essa ideia aterradora.
Ele encolhe os ombros e sorri. - Você é uma máquina que foi programada pela cultura para não reconhecer que é uma máquina.»