13.4.09

Série Cosmos



Carl Sagan, (1934-1996) astrónomo e biólogo norte americano, pioneiro e um dos maiores divulgadores de ciência de todos os tempos. É autor e co-autor de mais de uma dezena de livros. Destacamos Cosmos, celebrado best-seller, adaptado à televisão que influenciou, emocionou e inspirou milhões de pessoas, (ainda hoje é publicado).

Outra das suas obras: Contacto, foi adaptada ao cinema em 1997, realizada por Robert Zemeckis e protagonizada por Jodie Foster.

Para abrir o "apetite", aqui fica o link para o episódio três da série Cosmos, em português, organizado em sete partes, podendo ser vistas em separado. Parte 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7
A série completa pode ser visionada em astroPT.

Imagens retiradas do Google

9.4.09

Como poderemos justificar a nossa fé na indução?

É incontestável o papel que o raciocínio indutivo tem nas nossas vidas. Sem ele o nosso quotidiano tornar-se-ia impossível. Sabemos que, se estivermos à chuva, ficaremos molhados, se não estudarmos o suficiente, teremos dificuldades no teste…. As nossas vidas baseiam-se no facto de podermos fazer previsões fidedignas acerca do mundo e das consequências das nossas acções. No entanto, sabemos que o princípio da indução não é inteiramente fidedigno, já que a verdade das premissas não garante a verdade da conclusão. Para ilustrar este problema, Bertrand Russell usou o exemplo de uma galinha que acorda todas as manhãs pensando que, uma vez que foi alimentada no dia anterior sê-lo-á mais uma vez naquele dia. Um dia acorda e o camponês torce-lhe o pescoço.
Será que exemplos como este mostram a irracionalidade das nossas inferências indutivas? Que as nossas previsões sobre o futuro com base no passado não estão justificadas? Como planear o amanhã sem pressupor a sua existência?
Bertrand Russell pensa que, apesar de não estarem infalivelmente justificadas, há boas razões para confiar em inferências não dedutivas. A inferência a favor da melhor explicação ou abdução é disto um exemplo. Neste tipo de inferência, pondera-se a plausibilidade de uma hipótese em função do tipo de explicação que oferece. A melhor hipótese, a mais plausível é aquela que oferece a melhor explicação. Não há apenas uma conclusão possível, mas é razoável aceitar aquela que tem mais poder explicativo, assim: se encontramos fósseis de peixes ou conchas na serra dos Candeeiros, é razoável pensar que em tempos a serra esteve coberta pelo mar. Podemos pensar noutras hipóteses por exemplo que estas formações surgiram por acaso, ou que foram lá colocadas por terceiros para nos induzir aquela conclusão….
...Ora, apesar de não podermos excluir logicamente estas hipóteses, é razoável concluir que a serra já esteve coberta pelo mar e que este facto originou as ditas formações. Porque esta hipótese explica ainda outros factos geológicos já conhecidos acerca da mesma.
Imagem de Bertrand Russell retidada do Google
O que pensa o leitor?

4.4.09

O conhecimento é possível?

O conhecimento é um tema estudado pela Epistemologia, disciplina filosófica que aborda problemas como a possibilidade do conhecimento ou a sua definição. O problema da possibilidade do conhecimento é de enorme importância pois trata-se de saber se conhecemos de facto tudo o que julgamos saber, estando em causa a própria realidade. Defendo que o conhecimento é possível.
Os pensadores cépticos defendem que o conhecimento não é possível, baseados em vários argumentos. Existe quem defenda que a realidade que conhecemos não é verdadeira e, assim, não nos é possível ter conhecimento algum. Essas pessoas dizem que podemos estar a viver um sonho, em que tudo o que percepcionamos e sentimos é fruto do nosso pensamento.
Ora, para termos a noção de sonho, temos de ter obrigatoriamente a noção de vigília, pois só assim teríamos consciência da diferença de estados. Se estivéssemos sempre a sonhar, não poderíamos saber o que era, pois não haveria matéria para comparação. Assim, se nos é possível sonhar realmente mas também estar em estado de vigília, então não poderemos estar sempre a sonhar.
Outro argumento céptico centra-se na ideia de que toda a crença provém de uma crença anterior, havendo uma regressão infinita que impede o conhecimento. Ora, este argumento é muito discutível, pois existem crenças que não provêm de outras, no sentido em que não precisam de outras para se justificarem, como por exemplo as crenças que são definidas pelo homem (as convenções).
Os cépticos afirmam também, que não havendo um consenso em relação a tudo o que há, não pode haver conhecimento. Ou seja, defendem que para haver conhecimento é necessário que haja um consenso absoluto. Ora isto é absurdo, pois impediria o progresso. Se não houvesse discussão, nunca chegaríamos perto da verdade, pois só analisando as várias posições com rigor, podemos saber quais estão ou não correctas.
Por último, os defensores do cepticismo alegam que não podemos ter conhecimento porque nem tudo o que percepcionamos é real. Referem que as ilusões são algo que existe e que assim nunca podemos ter a certeza de algo. Os erros perceptivos existem de facto, mas isso não implica que não haja conhecimento, uma vez que nem todo o conhecimento deriva dos sentidos.
Posto isto, e pelo princípio da simplicidade, é razoável acreditar que existe conhecimento.

David Vicente
11.º C
Imagem retirada do Google

Magia? Não. É ciência.




O tacto ouve-se?

O virtuosismo de Pamelia Kurstin mostra-nos neste vídeo a natureza fantástica dos campos físicos.

3.4.09

Será possível viver em democracia sem a praticar?












Numa democracia a soberania é exercida pelo povo directa ou indirectamente. Um discurso manipulador pretende fazer com que um auditório pense da mesma maneira que o orador, sem este lhe mostrar as razões para tal. Um discurso persuasivo tem este mesmo objectivo, no entanto, dá ao auditório razões válidas para este pensar e agir dessa forma.
Em qualquer tipo de democracia são precisos cidadãos activos e livres. É impossível a prática de uma democracia directa se os cidadãos não comparecessem ao parlamento, mas também não é possível uma democracia indirecta na qual os cidadãos não exerçam o direito ao voto. Mas, para além de activos, estes devem ser livres e independentes, críticos, para o funcionamento da democracia.
Se num sistema de democracia indirecta, certos governantes com os seus belos e funcionais discursos manipuladores impingem as suas ideias a um povo sem lhes mostrar as válidas razões, deixa de haver democracia, pois não é o povo que pensa, mas sim uma ou duas pessoas que se aproveitam das fracas capacidades dos demais para implantarem as suas ideias.
José Mateus
11.º C
Imagens Google: Banda Desenhada, Mafalda e Parlamento dos Jovens em Lisboa

2.4.09



Deus, perfeição e verdade em Descartes
Uma breve reflexão

O raciocínio cartesiano, que leva o autor a afirmar que Deus existe, baseia-se numa ideia segundo a qual é essencial a existência de um ser perfeito, que permita, através do estabelecimento de comparações, perceber o quão “imperfeito” o ser humano é. Desta forma, Descartes defende que as verdades já estão instituídas por Deus, cuja perfeição as determina.

A posição que defende que Deus impregna a razão humana com algumas verdades essenciais, não está devidamente justificada já que, do meu ponto de vista, o processo de construção de verdades se revela evolutivo, e não pré-determinado. Senão, vejamos:

É evidente que os sentidos e mesmo a razão levam muitas vezes a conclusões dúbias e precipitadas cuja falsidade mais tarde reconhecemos. Todavia, não é um facto claro e distinto que o sentido do conhecimento humano seja o da perfeição, de tal forma que tenhamos como garantido o alcance da verdade; a procura da verdade revela-se, antes, um processo dinâmico e as proposições verdadeiras, de vigência temporária. O ser humano vai, simplesmente, construindo as verdades que lhe parecem mais adequadas em cada momento do processo.

Desta forma, também não posso aceitar como plausível que concebamos clara e distintamente a existência de Deus; se reconhecermos os paradigmas de perfeição como construções racionais e não como proposições pré-determinadas por um ser perfeito, nada há que me garanta que Deus constitui uma entidade que define as orientações lógicas do meu pensamento, não se mostrando essencial a sua existência.
Em suma, Deus não passa da figura que representa uma construção utópica da evolução racional humana.



Imagens do Google: A criação de Adão, Miguel Ângelo; Caricatura de Descartes
Paulo Batista, 11ºA

31.3.09

António Damásio



Amanhã, dia das mentiras, António Damásio vai ser entrevistado na RTP1, após o Telejornal, pela jornalista Judite de Sousa.
Promete revelar as respostas às grandes questões da humanidade. Porém, é dia das mentiras!
Mesmo assim, não percam, pois trata-se de um dos cientistas portugueses mais conhecidos no mundo e de um exemplo de como se divulga ciência para leigos. Além disso, na disciplina de Psicologia é um dos autores contemporâneos estudados.

30.3.09

Uma agulha no palheiro



Crónica de Nuno Crato no Expresso, sobre a importância da Ciência e da tecnologia. Clique aqui.
Imagem Google

20.3.09

«Penso, logo existo»: crença básica ou argumento?

Existir, para Descartes, não é uma consequência do pensamento: é uma condição.
Uma coisa que pensa é um ser pensante. Inevitável será duvidar da existência de um corpo, pois esse é um conhecimento a posteriori e facilmente podemos ser iludidos. Mas a certeza do pensamento é clara e distinta e, por isso, inteiramente verdadeira; de uma forma evidente podemos concluir que existimos porque pensamos, que eu “PENSO, LOGO EXISTO”.
O pensamento toma-se como sendo o reflexo de si mesmo e de todas as coisas exteriores a si. O cogito provém do sujeito que reflecte sobre o seu próprio carácter existencial através do “eu pensante”. A substância onde o pensamento se aloja é a própria existência, pois a essência do Homem é reflectir-se a si e ao mundo exterior, como se fôssemos condenados, desde sempre e para sempre, a nada mais que isso.
De facto, Descartes sempre assegurou que o cogito é uma crença básica e auto-justificada. No entanto, não podemos negar que a presença de uma conjunção conclusiva (logo) nos alicie a considerar que a crença básica de Descartes é, afinal, um argumento ou inferência.
Mas se Descartes defendesse que o cogito não é nenhum argumento ou inferência isso não significaria que existem duas crenças básicas. Aliás, tal acontecimento é impossível, pois o “Penso”, embora seja algo que sabemos ser indubitavelmente verdadeiro, não se pode desligar do “Existo”, até porque esta última proposição carece da força da primeira para ser suficientemente clara e evidente. Ora, será que daqui se segue que “Penso” é a crença básica e “Existo” a inferência que se extrai do pensamento? É que, como qualquer homem, Descartes era falível, e podia perfeitamente estar enganado ao afirmar que o cogito era uma crença. A meu ver, este não será o caso, pelos motivos que passarei, desde já, a expor.
A relação entre pensar, ser e existir é de tal forma vincada, que dificilmente as desligamos: existir sem pensar acaba por nem ser existir verdadeiramente, e pensar sem existir é incongruente; ser, por sua vez, é o meio-termo (PENSO, logo SOU coisa pensante, logo EXISTO como coisa pensante).
Uma crença básica é toda aquela que não decorre de nenhuma inferência, se justifica a si mesma e é verdadeira em qualquer circunstância, um pouco como as crenças primitivas e a priori. Neste tipo de crenças, não é preciso o apoio de qualquer tipo de argumento para se saber alguma coisa. Ilustremos com um exemplo: da mesma forma que “um quadrado é rectângulo, logo não pode ser redondo” é uma crença básica, também o cogito o é. Aliás, se fosse um argumento seria, claramente, falacioso, pois consistiria numa petição de princípio, já que a única razão para uma figura geométrica ser redonda é não ser rectangular (ou não ter outro ângulo qualquer). E, apesar de esta ser uma crença básica, também ali observamos uma conjunção conclusiva.
Assim sendo, se a única razão para existir é pensar, tomar o cogito como argumento seria incorrer numa falácia. Esta é uma crença básica e a priori, um conhecimento primitivo que não carece de qualquer justificação, daí ser capaz de bloquear o argumento da regressão infinita da justificação exactamente devido ao facto de se auto-justificar.
Como se pode observar, Descartes cumpriu perfeitamente o propósito de encontrar uma crença básica e primitiva que sustentasse todo o edifício do saber e, note-se, não um argumento nem duas crenças, mas uma só crença: cogito, ergo sum.
Imagem: Morning Sun por Edward Hopper
Ana Luísa - 11.º B

17.3.09

Será a pena de morte compatível com um mundo civilizado?

Um dos problemas que mais preocupa a humanidade é o problema da justiça, não de um ponto de vista político, mas sim de um ponto de vista pessoal. De facto, o ser humano vê-se obrigado a ver a vida como uma luta por um objectivo estando muitas vezes sujeito à injustiça; no entanto, a injustiça está também relacionada com assuntos do foro criminal. É dentro deste último grupo que se encontra o problema da pena de morte. Este é um problema filosófico que se insere na ética e moral mas que, no fundo, põe em confronto os nossos valores mais básicos com o desejo insaciável de justiça.
A pena de morte consiste, assim, em condenar um ser responsável por um determinado crime ao mais alto castigo existente. Se pensamos ter uma intuição muito forte contra este tipo de pena, ela desvanece-se quando pomos a hipótese de um mundo em insegurança. Quando confrontamos os nossos intuitos, a compaixão, a tradição ou até a religião à qual pertencemos com o desejo de materializar os nossos impulsos, vimos que os nossos sentimentos vacilam. A importância do problema está directamente relacionada com o mundo que desejamos para os nossos descendentes. Este é um problema não consensual que tem levantado várias questões: será a pena de morte moralmente aceitável? Será possível aboli-la racionalmente? Na resposta a estas questões salientam-se duas vertentes: os pró - pena de morte (a favor desta pena) e os abolicionistas.

Por um lado, aqueles que se opõem à pena de morte (abolicionistas), vêem-na como um acto de violência irreversível, que viola o direito à vida assegurado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. Acrescentam que esta pena é tortura: quer a dor física, quer a dor psicológica sentidas pelo condenado são incomensuráveis. Baseiam-se em estatísticas para afirmar que este castigo é discriminatório: é maior o número de condenados à morte que são de raça negra, pobres ou de baixo estatuto social. Referem que existe a possibilidade de condenar inocentes sem que exista a hipótese de reverter a situação. Afirmam ainda que esta pena tem um efeito dissuasor duvidoso, ou seja, que não faria com que outros assassinos deixassem de praticar os seus crimes, uma vez que estes têm muitas vezes problemas do foro psicológico. Para além disto, consideram que este tipo de punição pode ser usado como arma política (como meio de obter votos por parte daqueles que, inocentemente, querem a justiça mesmo que seja desumana). Acrescentam que um castigo deve ser educativo e não a materialização da vingança e apresentam a prisão perpétua como um meio de evitar esta pena. Mas não será este tipo de prisão uma forma de morte, também? Como poderiam aceitar os abolicionistas viver lado a lado com criminosos como Hitler?
Assim, de outro lado estão aqueles que consideram que a pena de morte nos lembra que as nossas acções têm consequências e que quem mata um inocente suicida-se perante a sociedade e perde o direito à vida. Acrescentam que a justiça deve ser capaz de aplicar uma pena adequada a determinado crime mas salientam que adequado é diferente de igual, criando uma maior abrangência para os crimes que, na sua opinião, deveriam ser punidos com o castigo em causa. Quando confrontados com a possibilidade de condenar inocentes à morte, não desmentem que tal facto exista, pois o erro está adjacente a qualquer acção humana no entanto, é importante perceber que ninguém é condenado à morte ao acaso e que, até à data da execução, o indivíduo é considerado culpado. Quanto ao efeito dissuasor, baseiam-se no valor da vida para afirmar que a diferença entre o morrer e o “quase morrer” é abissal e que este facto pode levar a dissuadir assassinos futuros. Opõem-se aos abolicionistas afirmando que a pena de morte é retribuição e não vingança: a vingança implica raiva e a retribuição serve de meio de atenuar a dor dos familiares. Deixam a recuperação do criminoso para segundo plano, afirmando que em primeiro plano deve estar a segurança da sociedade.
Assim, conclui-se que este problema questiona intuições e promove a arte de pensar. Percorre os corredores do pensamento à medida que percorre os corredores da morte nos quais esperam dolorosamente, vários assassinos. A meu ver, mais do que saber se a pena de morte deve ser abolida, importa saber se ela é compatível com um mundo civilizado. Por um lado, vimos a criminalidade a aumentar, por outro vimos a tendência do mundo para acabar com esta pena. Por exemplo, Barack Obama considera determinados crimes abomináveis e ele é hoje, a materialização da esperança. Na verdade, ainda nada há que justifique a diferença entre matar alguém e matar um criminoso: não será a gravidade semelhante? Considero, assim, que esta pena não é adequada ao mundo civilizado que pretendemos no qual existe um ser único e irrepetível que não está a ser respeitado. Esse ser somos nós. Por último, refiro que é necessário rever as penas aplicadas para que não seja necessário recorrer a métodos de punição desumanos como meio de castigar um criminoso.
Filipa Isabel Serrazina
11.º C
Imagens Google: Edvard Munch, O Grito e Jacques Lois David, A Morte de Sócrates.

13.3.09

Penso, logo serei contratado!



No Telegrapho de Hermes foi publicado um artigo brasileiro que revela a nova tendência de contratação de trabalhadores, insistindo-se em competências adquiridas a partir de uma formação filosófica.
É o cogito cartesiano adaptado às novas exigências relativas ao perfil do trabalhador!

8.3.09

Revista Crítica

De acordo como blog da Revista Crítica, todos os artigos da mesma se encontram temporariamente acessíveis ao público em geral.
Aproveite para conhecer uma das melhores revistas de filosofia e avalie por si mesmo.

28.2.09

Aforismos

«O conhecimento do conhecimento ensina-nos que apenas conhecemos uma pequena película da realidade. A única realidade que é cognoscível é co-produzida pelo espírito humano, com a ajuda do imaginário. O real e o imaginário estão entretecidos e formam o complexo dos nossos seres e das nossas vidas. A realidade humana em si mesma é semi-imaginária. A realidade é apenas humana, e apenas parcialmente real. »
Edgar Morin

14.2.09

Filosofia com Crianças

A Filosofia para Crianças pode aumentar o Q. I. em 6,5 pontos, revela um estudo realizado no Reino Unido. Ler toda a notícia aqui.

27.1.09

Será que este "post" é real?

René Magritte, "Isto não é um cachimbo"

O homem que está sentado a escrever neste momento sou eu. Eu sei que sou o homem que está neste momento a escrever este texto, logo como sei disso, posso dizer que existo. Esta conclusão torna-se demasiado precipitada... há que voltar atrás e reformular o argumento. Afinal, existe a possibilidade de eu não estar neste momento a escrever este texto. [Entretanto, o leitor ajeita os óculos, se os usar, ou então soergue-se da cadeira e julga que o mundo está de pernas para o ar]
De facto, não posso deixar de colocar a possiblidade de não estar neste momento a escrever este texto. Posso estar a ter um sonho tão vívido que parece real. Naturalmente que esta hipótese é absurda porque consigo distinguir o estado de vigília do estado de sono.
Começo por admitir que este post é real. Posso lê-lo, editá-lo ou reescrevê-lo. Posso discuti-lo com os meus amigos, posso ser enxovalhado por algum deles em ter escrito este parágrafo. Posso desistir de o escrever e ficar-me por aqui, sem colocar um ponto final sequer
Todas as justificações que me fazem acreditar que este post é real podem ser imediatamente dissipadas por um filósofo céptico, mostrando-me que: 1) estou a sonhar e confundo o sonho com a realidade; 2) em algumas ocasiões, as minhas sensações não passam de meras aparências do que é real, por isso, nada me garante que a sensação que estou a ter neste momento não pertence à mesma categoria de outras tantas que se revelaram falsas; 3) posso estar a padecer de uma alteração do meu estado de consciência (ou estou embriagado para pensar em coisas destas ou estou a experienciar uma alucinação que me faz acreditar que este post é real). Em conclusão, perante estas objecções, fico ainda mais confuso e estou prestes a admitir que a minha crença (segundo a qual este post é real) não passa de uma ilusão. Da argumentação do suposto filósofo céptico, houve dois pontos que merecem destaque:

a) Se algo é real, então não pode ser uma ilusão.
b) Se algo está a ser experienciado pelo meu corpo, poderá não ser real.

Explicitarei os dois pontos anteriores.

1. Se a) é verdadeira, então os conteúdos dos sonhos não são reais. De facto, já sonhei ser o Presidente dos Estados Unidos e não sou, de facto, o Presidente dos Estados Unidos. Portanto, enquanto estive convencido no meu sonho de que era o Presidente dos Estados Unidos vivenciei algo que não era real. Se sair para a rua e gritar "Eu sou o Presidente dos Estados Unidos", as pessoas vão tomar-me como um louco e ser-me-á diagnosticada esquizofrenia. De facto, não posso ser o que não sou, embora gostasse de ser o Presidente dos Estados Unidos ou o namorado da Scarlett Johansson. Do que foi exposto, posso aduzir que a) é verdadeira. Vivenciamos experiências que se tornam ilusões, e se o são é porque não são reais. A realidade é a propriedade fundamental de todos os objectos que podem ser conhecidos.

Assim, os filósofos empenharam-se em distinguir realidade de aparência. X é real se não for ilusório ou uma ficção. Contudo, dado que as ilusões existem e as ficções também, será que não são reais? Apesar de serem ilusões são reais precisamente porque não são ilusões. Imagine-se que o Pedro acredita que é Napoleão Bonaparte. Não é real que o Pedro seja Napoleão Bonaparte porque isso é apenas uma fruto da sua imaginação. Mas esta suspeita é real precisamente porque o Pedro julga ser Napoleão Bonaparte. Portanto, é verdade que o Pedro acredita que é Napoleão Bonaparte, mas é falso que o Pedro seja, de facto, Napoleão Bonaparte. Em consequência disto, é real o que for passível de ser verdadeiro ou factivo.

2) Nem tudo o que é experienciado pelo corpo é real. Se o Pedro se encontra no deserto à deriva durante dois dias sem ingerir líquidos, o seu cérebro irá compensá-lo dando-lhe a ilusão de que está uma fonte jorrar àgua mesmo à sua frente. Mas não se trata de nenhuma fonte, apenas a cabeça de um dromedário a aproximar-se. Acreditamos que tudo o que é objecto de captação sensível (tudo o que vejo, toco, cheiro, saboreio, ...) é real, contudo várias vezes somos enganados nessas experiências. O leitor que me permita que lhe vende os olhos. Não vê nada? Nada, nada? Muito bem! Então agora vou pedir-lhe que toque neste objecto. Tocou? O que lhe parece que é este objecto? Vai dizer-me que tem a certeza de que se trata de um cachecol. Neste momento julga que é real o que está a percepcionar. Peço-lhe que levante a venda e repare, parece um truque de magia, mas o objecto que tocou não é um cachecol, mas um caniche bebé. Não o convenci; vai dizer-me que o tacto não é um sentido tão viável quanto a visão. Então repare nesta pintura de Salvador Dali: o que é que os seus olhos lhe estão a mostrar? O mesmo seria perguntar o que quer que os seus olhos vejam?
Certamente que consegue vislumbrar o perfil da Gala (a mulher de Dali) a contemplar o mundo exterior a partir de uma janela. Mas se se afastar um pouco mais, sim o mais que puder, verá algo que lhe parece um rosto. E é mesmo. É o rosto do famoso Presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln. Mas afinal, trata-se de Gala a passear os seus olhos pela linha do horizonte ou o retrado de Lincoln? O que vêem os seus olhos? Certamente que verão algo de diferente dos meus ou dos do Pedro ou de outra pessoa qualquer. Então o que lhe parece real (por exemplo a figura desnuda de Gala) não é mais do que ilusório para mim, que vislumbrei o rosto de Lincoln.


Será que este post é real? Se não estiver a ser iludido pelos meus sentidos ou a padecer de uma alucinação, nem a vivenciar um sonho, posso julgar que este post é real. É real porque existe em função do sujeito e segundo a perspectiva do sujeito pensante. Esta ideia aproxima-nos da posição de muitos filósofos que julgaram que o real é o que se dá ao pensamento. Se penso num determinado objecto (de natureza empírica ou racional), esse objecto é real, de modo que a sua realidade é justificada pelo pensamento racional. Nada do que escape ao pensamento racional é, por esta razão, real.
P.S.: Para começar, dada a curiosidade de muitos colegas vossos, é importante reconhecer que a realidade é um conceito filosófico que se entende melhor pelo que não é do que pelo que é. Assim sendo, desde Parménides (séc. VI a.c.) que a realidade (aquilo que é) não é senão o oposto de aparência (o que parece ser, mas não é).

26.1.09

O que é a Realidade? II

A BBC apresenta-nos neste documentário, uma fascinante viagem pela cosmologia contemporânea. Uma abordagem poética mas cientificamente rigorosa, que dá muito que pensar. Ver aqui.

Para saber mais:


Elcio Abdalla, Teoria quântica da gravitação: Cordas e toria M, in Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 27, n. 1 p. 147 - 155, (2005)
Stephen Hawking, O Universo numa Casca de Noz.

Imagem Google - Vieira da Silva, Jogo de Xadrês

O que é a realidade? I


Esta questão tão abrangente, profunda e inquietante, foi-nos sugerida como tema de discussão. Não se trata de pretendermos encontrar uma resposta, o que seria impossível, mas tão só fornecer alguns elementos para reflexão. Assim, inciamos hoje um conjunto de pequenas notas que, esperamos, sejam «provocadoras» no sentido de suscitarem em nós o diálogo.


Realidade em sentido lato e de acordo com a enciclopédia Logos, significa tudo o que existe ou é, por oposição à aparência. Todas as filosofias apresentam uma concepção implícita ou explícita de realidade.
Pensa-se ter sido Parménides (séc. VI a. C.) o primeiro filósofo que, verificando não se poder confiar nos sentidos, sustentou que só é verdadeiramente, o que pode ser pensado.
Esta questão, pela sua abrangência prende-se com a noção de Cosmos, termo que foi pela primeira vez usado por Pitágoras, no mesmo século e segundo a mesma fonte, para designar a ordem e harmonia do sistema planetário e sideral.
Imagens Google: Claude Monet, Impressão: Nascer do Sol
"A Verdade não é impressionista."

24.1.09

Leituras filosóficas








O livro de Nigel Warburton, Elementos Básicos de Filosofia é uma excelente iniciação ao filosofar para todos os que desejam reflectir com mais rigor sobre temas como: a Ciência, a Arte a Mente, Deus, o Bem e o Mal ...

" Uma razão importante para estudar filosofia é o facto de esta lidar com questões fundamentais acerca do sentido da nossa existência. A maior parte das pessoas, num ou noutro momento da sua vida, já se interrogou a respeito de questões filosóficas. Por que razão estamos aqui? Há alguma demonstração da existência de Deus? As nossas vidas têm algum propósito? O que faz com que algumas acções sejam moralmente boas ou más? Poderemos alguma vez ter justificação para violar a lei? Poderá a nossa vida ser apenas um sonho? É a mente diferente do corpo, ou seremos apenas seres físicos? Como progride a ciência? O que é a arte? E assim por diante.
A maior parte das pessoas que estudam filosofia acha importante que cada um de nós examine estas questões. Alguns até defendem que não vale a pena viver a vida sem a examinar." (pág. 19)

22.1.09

Aforismos

« Sempre há um pouco de loucura no amor, porém sempre há um pouco de razão na loucura.»
Friedrich Nietzsche

« Para quê repetir os erros antigos quando há tantos erros novos a cometer?»
Bertrand Russel

« A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida olhando-se para a frente.»
Soren Kierkegaard

« A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo.»
Merleau-Ponty

17.1.09

Cérebro e Música

A propósito da imagem da mente como fluxo musical...
artigo sobre a relação cérebro-música aqui.