12.10.09

Hipátia uma filósofa em Alexandria


Os nossos alunos, estranhando a ausência de figuras femininas na história da filosofia, perguntam por vezes se nunca houve nenhuma filósofa. A resposta é sim. Além das muitas filósofas da actualidade, existiu Hipátia. Filósofa e matemática, nascida e educada em Alexandria, mais tarde em Atenas, onde estudou na Academia Neoplatónica, voltando depois a Alexandria para ocupar a cadeira de Plotino na Academia desta cidade. Esforçando-se por pôr em prática o ideal helénico: "Mente sã em corpo são", praticou também ginástica. Aos trinta anos já era directora da Academia. Foi também inventora, sendo-lhe atribuída a invenção do Astrolábio e do Planisfério por exemplo.

Soube, através do blog De Rerum Natura, que vai estrear: "Agora" um filme sobre a vida de Hipátia ou Hipácia; nascida em 370 e assassinada em 415, quando contava 45 anos de idade.

O filme é do realizador Alejandro Amenabar e tem Rachel Weisz no papel de Hipátia. Conta ainda com as participações de Oscar Isaac, Max Minghella, Ashraf Barhom, Michael Lonsdale, Rupert Evans e Howayouh Ershadi.

Uma excelente oportunidade para conhecer melhor esta mulher e a época em que viveu.

Sobre esta época escreveu Carl Sagan no seu livro "Cosmos":

"Há cerca de 2000 anos, emergiu uma civilização científica esplêndida na nossa história, e a base era em Alexandria. Apesar das grandes chances de florescer, ela decaiu. A última cientista foi uma mulher, considerada pagã. O nome era Hipácia. Com uma sociedade conservadora a respeito do trabalho da mulher e do seu papel, com o aumento progressivo do poder da Igreja, formadora de opiniões e conservadora quanto à ciência, e devido a Alexandria estar sob domínio romano, após o assassinato de Hipácia, em 415, a biblioteca de Alexandria foi destruída. Milhares dos seus preciosos documentos foram queimados e perdidos para sempre, e com ela todo o progresso científico e filosófico da época."

Um filme a não perder.

9.10.09

COMO LER OS TEXTOS?

«Quando lemos um texto de um filósofo devemos procurar o seguinte:

1. Que problema ou problemas está o filósofo a tentar resolver?

a) Como podemos formular de forma rigorosa o problema? Haverá formas subtilmente erradas de formular o problema, talvez semelhante à correcta mas enganadora?

b) Por que razão é esse problema importante? Será mesmo importante? Que diferença faz? Não será apenas uma confusão? Por que razão é uma confusão? E porque razão não é uma confusão?

2. Que teoria propõe o filósofo para resolver o problema?

a) Como poderemos formular e articular rigorosamente essa teoria? Quais são os aspectos mais subtis, que por isso mesmo nos podem escapar?

b) Será essa teoria adequada para resolver o problema? Será uma teoria aceitável? Que consequências tem? Quais são os seus pontos fracos? Quais são os seus pontos fortes?

c) Que outras teorias existem para resolver esses problemas? Será que esta teoria que estamos a estudar é melhor que qualquer outra? Porquê? Que vantagens tem (…) em relação às outras? E que desvantagens tem?

3. Que argumentos apresenta o filósofo?

a) Como podemos formular da forma mais rigorosa possível os argumentos centrais do filósofo?

b) São esses argumentos sólidos? Ou são falaciosos? Ou baseiam-se em premissas inaceitáveis? Se são inaceitáveis, por que razão?

c) Que outros argumentos podemos avançar para apoiar ou refutar as ideias do filósofo? Apresenta o filósofo alguns contra-argumentos aos argumentos que podemos avançar contra ele? Ou ignora-os por completo?

Ler os textos dos filósofos sem fazer estas perguntas é empobrecedor e transforma a filosofia num velório de Grandes Filósofos Mortos, em que nos limitamos a repetir as suas ideias sem as perceber muito bem. »

Desidério Murcho, A natureza da filosofia e o seu ensino, Plátano Edições Técnicas, Colecção Aula Prática, 1ª edição, Lisboa, 2002, pp 91-92.

6.10.09

A plasticidade da experiência humana ...

Lucas Murray, uma criança invisual que aprendeu a utilizar a audição para "ver". Um processo de ecolocalização semelhante ao dos morcegos.

4.10.09

Sobre a Arte e Sobre a Vida


SEIS PERSONAGENS À PROCURA DE AUTOR

Pela companhia Artistas Unidos, na sala principal do Teatro Municipal de S. Luís. Texto (de 1921) de Luigi Pirandello , tradução Mário Feliciano e Fernando José Oliveira, encenação Jorge Silva Melo, cenografia e figurinos Rita Lopes Alves e Luz Pedro Domingos. Com João Perry, Sylvie Rocha, Lia Gama, Pedro Gil, Cândido Ferreira, Pedro Luzindro, Alexandra Viveiros, John Romão, Vânia Rodrigues, António Simão, entre outros, e a participação especial de Mariema. Para maiores de 12 anos. De Quarta a Sábado às 21h00 e Domingo às 17h30; até 18 de Outubro.

Quando a acção começa, o que se vê em cima do palco é um ensaio de teatro. Encenador, produtor, técnicos e actores preparam-se: há ordens dadas alto, aquecimentos de voz, passos de dança, cenários a passar… até que entra uma família de luto que se anuncia como seis personagens à procura de um autor. Viveram um drama e agora vivem outro por terem sido abandonadas pelo seu criador e não haver autor para contar as suas vidas.

“Acredite, somos seis personagens fantásticas, se bem que à deriva”, diz o pai (João Perry) ao encenador incrédulo, que pergunta: “Mas onde é que está a peça?” e surpreendentemente a resposta é “ Está em nós, somos nós.”
A situação é tão bizarra que provoca sorrisos no palco e na plateia: como não há quem aproveite estas figuras, elas deambulam oferecendo-se e tentando convencer o encenador a “continuar as suas vidas interrompidas”, expondo a injustiça e o mérito dramático da sua condição.

Entre o absurdo da conversa compreende-se, com surpresa, o propósito de Pirandello: reflectir a arte enquanto representação da vida, pondo à prova o teatro e todo o talento maior dos actores que nunca chegará para representar a vida e a tragédia destas personagens que a vivem e revivem, repetidamente, presos ao papel que foi escrito para elas e cujo fim desconhecem. O que é vida e o que é ilusão? Para as seis personagens a realidade são elas e “o palco um lugar onde se brinca às verdades”, sem nunca sequer chegar à realidade. Não querem ser representadas pelos actores da companhia. Afinal, como alguém poderia representar melhor a vida de uma personagem do que ela própria?

Por outro lado, Pirandello conduz-nos a uma reflexão sobre a vida e a angústia do homem que busca a compreensão de si e da realidade e se reconhece só e abandonado à sua sorte pelo “autor” que, depois de o criar a ele e ao seu mundo, parece nada lhe dizer em relação àquilo que deve ser a sua conduta ou qual o sentido que deve dar à sua vida, vendo-se assim obrigado a deambular pela vida à procura de si próprio.
A não perder.

3.10.09

Poderemos recusar o filosofar?

Sócrates e Platão
«Pensa-se por vezes que se deve abandonar o pensamento filosófico enquanto não houver métodos científicos apropriados para investigar tais temas. Há nesta perspectiva dois aspectos que merecem reflexão. Em primeiro lugar, trata-se de uma ideia filosófica e não científica. Isto é, não se poderá provar em laboratório, ou através de cálculo matemático, que devemos abandonar o pensamento filosófico. A filosofia é irrecusável porque mesmo para a recusar é necessário argumentar filosoficamente, o que é auto-refutante.
Compare-se com a recusa da astrologia, que não exige que se argumente astrologicamente; e imagine-se quão ridículo seria um argumento contra a astrologia baseado num mapa astral. Pode-se recusar a reflexão filosófica sobre temas particulares, com argumentos filosóficos particulares, que mostrem que tais temas são insusceptíveis de reflexão séria, mas não se pode recusar a filosofia em bloco sem usar argumentos filosóficos, o que acarreta uma contradição óbvia.
A filosofia é apenas o exercício da capacidade para o pensamento crítico sobre qualquer tema susceptível de ser pensado sistematicamente, mas insusceptível de tratamento científico. E saber que temas são susceptíveis de serem pensados sistematicamente já é um problema filosófico.»

Desidério Murcho, (2006), «O Tempo e a Filosofia», Pensar Outra Vez, pág.177, in Criticamente, Artur Polónio e outros, Filosofia 10.º ano, Porto Editora

Problemas ...

«A melhor solução é normalmente a mais simples.»

25.9.09

Ciência e Filosofia

René Magritte, Golconde (1953)
«As minhas pinturas devem assemelhar-se ao mundo, de forma a evocarem o seu mistério»
Tal como a ciência, a filosofia, procura compreender o mundo resolvendo os seus enigmas, mas os problemas filosóficos não se confundem com os problemas científicos. Os problemas da ciência são empíricos. Quando é que nos encontramos perante um problema empírico? Quando, para o resolver temos de recorrer a observações, informação factual, manipulação de instrumentos, etc.
Os problemas da filosofia são conceptuais. Para lhes respondermos, temos de reflectir e só contamos com a nossa capacidade argumentativa. Os problemas da Matemática também são conceptuais mas, ao contrário do matemático que possui métodos formais de prova, o filósofo só conta com o laboratório da mente. Por exemplo: perguntar como está destribuída a riqueza, num determinado país, numa dada época é um problema empírico que podemos resolver observando, fazendo registos e tirando depois as conclusões. Mas, poderíamos perguntar: será essa destribuição justa? Agora não perguntamos qual o estado de coisas, mas se o estado de coisas é justo. Filosofar é perguntar: o que seria uma distribuição justa da riqueza? Atribuir o mesmo rendimento a todos? Mas isso pode ser injusto, se alguns trabalharem mais do que outros. Atribuir o mesmo rendimento a todos os que fazem o mesmo trabalho? Mas nesse caso, qual o tipo de trabalho que deve ser mais bem remunerado?. Só podemos encontrar a resposta, argumentando.

«(...) A filosofia é diferente da ciência e da matemática. Ao contrário da ciência não assenta em experimentações nem na observação, mas apenas no pensamento. E, ao contrário da matemática não tem métodos formais de prova. A filosofia faz-se colocando questões, argumentando, ensaiando ideias e pensando em argumentos possíveis contra elas e procurando saber como funcionam realmente os nossos conceitos».
Thomas Nagel, 1987, O que Quer dizer tudo isto?, Lisboa, Gradiva 1995

20.9.09

A relação mente/corpo

Ego

De MICK GORDON e PAUL BROKS, encenação JOÃO PEDRO VAZ, tradução FRANCISCO NICÉFORO, espaço cénico e figurinos MARIA JOÃO CASTELO, vídeo PEDRO FILIPE MARQUES, luz NUNO MEIRA. Com CATARINA LACERDA, GONÇALO WADDINGTON e ANTÓNIO FONSECA. Produção Teatro Nacional D. Maria II, em cena na Sala Estúdio até 11 de Outubro Maiores de 16 anos


Como é que um quilo e meio de carne se transforma em mente? Para Alex, como para muitos de nós, é um equívoco que nos leva a formular a nosso respeito um princípio de primeira pessoa do singular ,“Eu”, que descreve uma unidade interna que se resume, afinal, a um feixe de reacções físico-químicas dispersas por diversas zonas cerebrais. É o cérebro que dá continuidade às nossas ideias, emoções e experiências, contando-nos a “história que somos” e não a do Eu que a vive, como por vezes fantasiamos como vestígio do nosso pensamento mágico (como defende Alex).

Ego é o percurso desconcertante de Alex, um neurologista que não acredita na ideia de identidade - "nem essência, nem ego, nem Eu"- mas que, depois de uma experiência que corre mal, "uma viagem num teletransporte tipo Star Trek", se vê privado da vida com a mulher e acaba a questionar tudo. Alice tem um tumor no cérebro ,"Um glioma borboleta! Soou como uma coisa maravilhosa." que vai começar a afectá-la e a fazê-la perder mesmo a consciência da identidade do marido. A chave do problema é discutida pelo pai de Alice, Derek, que trabalha com Alex nas mesmas experiências científicas. O que começa por ser uma peça teórica sobre o cérebro acaba numa angustiante viagem emotiva. Se isso existe, esta peça é um “poema neurológico” , como o poema de Emily Dickinson com que Alex se declarou a Alice.


Um texto muito interessante, muito bem interpretado e com uma encenação clara e concisa no desejo de criar um espectáculo inteligente, capaz de nos espevitar o cérebro (ou mente) . A não perder.



14.9.09

O que é a Filosofia?

René Magritte, A Ponte de Heráclito, (1935)
O que é a realidade? Temos a certeza de ver o reflexo da ponte, teremos certeza da ponte real?
Para quem, pela primeira vez estuda filosofia, a pergunta é inevitável:
O que é a Filosofia?
(...) Uma das formas (...) de responder é dizer que a filosofia é aquilo que os filósofos fazem, indicando de seguida os textos de Platão, Aristóteles, Descartes, Hume, Kant, Russel, Wittgenstein, Sartre e outros filósofos famosos (...).
Outra forma de abordar a questão é indicar que a palavra «filosofia» deriva da palavra grega que significa «amor da sabedoria». (...)
Mas isto é muito vago e não responde efectivamente à questão. No primeiro caso apela-se apenas à História da Filosofia, no segundo caso apenas ao significado da palavra.
(...) A filosofia é uma actividade, uma forma de pensar acerca de certas questões. A sua característica mais marcante é o uso de argumentos lógicos. A actividade dos filósofos é, tipicamente argumentativa: ou inventam argumentos, ou criticam argumentos de outras pessoas ou fazem as duas coisas. Os filósofos também clarificam conceitos. (...)
Que tipo de coisas discutem os filósofos?
(....) Examinam crenças que quase toda a gente aceita acriticamente . (...) Por exemplo, muitas pessoas vivem as suas vidas sem questionarem as suas crenças fundamentais, tais como a crença de que não se deve matar. Mas por que razão não se deve matar? Que justificação existe para dizer que não se deve matar? Não se deve matar em nenhuma circunstância? E, afinal, o que quer dizer a palavra «dever»? Estas são questões filosóficas. Ao examinarmos as nossas crenças, muitas delas revelam-se firmes; mas muitas não. O estudo da filosofia não só nos ajuda a pensar claramente sobre os nossos preconceitos, como ajuda a clarificar de forma precisa aquilo em que acreditamos. Ao longo desse processo desenvolve-se uma capacidade para argumentar de forma coerente sobre um vasto leque de temas - uma capacidade muito útil que pode ser aplicada em muitas áreas (...) [na vida].
Porquê estudar filosofia?
(...) Uma razão importante (...) é o facto de esta lidar com questões fundamentais acerca do sentido da nossa existência (...)
Todos nós já nos interrogamos sobre questões filosóficas: Por que razão estamos aqui? As nossas vidas têm algum propósito? O que faz com que algumas acções sejam moralmente boas ou más? Poderemos alguma vez ter justificação para violar a lei? Poderá a nossa vida ser apenas um sonho? É a mente diferente do corpo, ou seremos apenas seres físicos? Como progride a ciência? O que é a arte? ... (...)

Para muitas pessoas, esta é uma actividade que dá imenso prazer. (...) Há mesmo quem pense que: "uma vida não examinada não merece ser vivida."

Nigel Warburton, Elementos Básicos de Filosofia, Gradiva, 2.ª edição (2007), tradução de Desidério Murcho e Aires Almeida, pp. 15-21, (texto adaptado)


O Regresso às Aulas.

Começaram as aulas!
Os professores de Filosofia desejam, a todos os alunos, um excelente ano de trabalho, cheio de boas experiências e muita diversão.
Aproveitamos para renovar o nosso convite à participação de todos no Logos-ecb.

11.9.09

7.9.09

Encontro de Filosofia Antiga

Informação recebida de Lekton Mailing List

Congresso de Filosofia


"Vai realizar-se, em Coimbra, nos dias 9-13 de Setembro de 2009 o congresso anual do Institut International de Philosophie. (...) O Instituto Internacional de Filosofia é a Instituição responsável pela organização dos congressos mundiais de Filosofia e desenvolve uma série de actividades de fomento da pesquisa filosófica e de disseminação dos seus resultados em estreita colaboração com a UNESCO e outros organismos internacionais."

Informação de Lekton Mailing List

5.9.09

Sobre a Liberdade

Aires de Almeida cita Stuart Mill, no Crítica:blog, a propósito de acontecimentos recentes da vida política nacional. Ver aqui.

4.9.09

Concurso: "Cassini Scientist for a Day"

No âmbito do Ano Internacional da Astronomia, está a decorrer um concurso dirigido aos alunos entre os 10 e os 18 anos. Consiste na elaboração de um texto, individual ou em grupo, no máximo com 500 palavras, sem imagens e sem anexos, sobre um dos três temas:
Saturno, Tethys ou Titan.
Os trabalhos devem ser enviados até 30 de Setembro para o seguinte endereço: scientistforaday@gmail.com.
Mais informação no AstroPT

3.9.09

Ética e Sociedade Global

Georg Baselitz, Forest upside-down, 1969

A Ética é uma disciplina central da filosofia que estuda a natureza do pensamento ético (metaética), os [seus] fundamentos gerais (ética normativa) e os problemas concretos da vida ética (ética aplicada) [ ou prática].”

A reflexão sobre o modo como devemos viver, sobre o bem e o mal ... tem sido uma constante no pensamento filosófico. Já Platão e Aristóteles reflectiram sobre estes problemas. Porém, é no início dos anos setenta que a ética prática ganha importância a par da ética normativa. Isto deve-se em parte a mudanças no seio da filosofia - uma concepção mais aberta da actividade filosófica que considera as discussões metaéticas insuficientes porque inoperantes e à emergência do debate público de problemas como: a eutanásia, o aborto, manipulação genética, liberdade de expressão, exclusão social, fome, justiça social, guerra, terrorismo, problemas decorrentes do avanço da tecnologia, problemas ambientais … e tantos outros. Todo o domínio da ética está em mudança.
Para Faustino Vaz, “as barreiras que separavam os vários domínios da ética quebraram-se (…) [e] as discussões de ética prática são [hoje] entendidas como centrais para se avaliar a correcção dos princípios normativos. (…) O campo da ética está hoje unificado.”

Para podermos argumentar séria e cuidadosamente, de modo informado, é fundamental conhecer contextos, possuir toda a informação empírica e filosófica relevante. Conhecer as teorias éticas mais importantes, até porque nenhuma teoria tem aplicação completa em todos os domínios da vida. Uma solução deontológica pode ser boa para resolver o problema da liberdade de expressão e não ser adequada para resolver o problema da justiça retributiva.

No mundo global, os desafios são mais que muitos e os problemas não conhecem fronteiras. Mas podemos colocar a tecnologia ao serviço da ética global da justiça e da responsabilidade. Esta é a posição defendida por Gordon Brown, neste vídeo:

(Com tradução em português do Brasil, para o efeito clicar em view subtitles)

28.8.09

Aparência e Realidade

"Imaginemos que habitamos um estranho país onde tudo é absolutamente plano. (...) Chamemos-lhe Planilândia. Alguns habitantes são quadrados; outros são triângulos; outros têm formas mais complexas. Corremos, apressados entrando e saindo dos nossos edifícios planos, ocupados com os nossos negócios e divertimentos chatos. Toda a gente na planilândia tem largura e comprimento mas não tem altura. Conhecemos o que é a direita e esquerda, à frente e atrás, mas não temos a mínima noção, nem um vestígio de compreeensão, do que é em cima e em baixo - com excepção dos matemáticos planos. E esses dizem-nos: «Oiçam lá, é muito fácil. Imaginem esquerdo-direito. Imaginem à frente-atrás. Tudo bem até aqui? Agora imaginem outra direcção, em ângulo recto com as outras duas.» E nós dizemos: «De que estão a falar? 'Em ângulo recto com a outras duas!' Há apenas duas dimensões. Onde está ela?» Os matemáticos desencorajados, afastam-se. Ninguém escuta os matemáticos.
Cada criatura da Planilândia vê outro quadrado como um curto segmento de recta, o lado do quadrado que está mais perto dela. Só vê o outro lado do quadrado se andar um pouco. Mas o interior do quadrado permanece para sempre um mistério, a menos que um terrível acidente ou uma autópsia quebre os lados e exponha as partes interiores.
Um dia, uma criatura tridimensional - do feitio de uma maçã, por exemplo - aparece na Planilândia, pairando sobre ela. Ao ver um quadrado particularmente atraente e de aspecto simpático a entrar na sua casa plana, a maçã decide cumprimentá-lo, num gesto de amizade interdimensional.
«Como está?», pergunta (...). Eu sou um visitante da terceira dimensão.» O infeliz quadrado olha em volta da sua casa fechada e nada vê. E, o que é pior, parece-lhe que a saudação, vinda de cima, emana do seu próprio corpo plano, como uma voz interior. Existe um pouco de loucura na família, talvez pense o quadrado, na falta de melhor explicação.
Exasperada por ser considerada uma aberração psicológica, a maçã desce na Planilândia. Uma maçã a deslizar pela Planilândia apareceria primeiramente como um ponto e depois como fatias mais ou menos circulares, progressivamente maiores. O quadrado vê um ponto aparecer numa sala fechada, no seu mundo bidimensional, e transformar-se lentamente num círculo próximo. Apareceu-lhe, não sabe de onde, uma criatura de forma estranha e mutável.
Rejeitada, infeliz com a obtusidade do próprio plano, a maçã empurra o quadrado e atira-o pelo ar, flutuando e girando, para a terceira dimensão. A princípio, o quadrado não consegue perceber o que está a acontecer; é algo absolutamente alheio à sua experiência. Mas acaba por perceber que está a ver a Planilândia de um ponto de vista especialmente vantajoso: de «cima». Pode ver para dentro das casas fechadas. Pode ver o interior dos seus companheiros planos. Está a ver o seu universo de uma perspectiva única e avassaladora. Viajar noutra dimensão proporciona por acaso, a vantagem de uma espécie de raio X.
Finalmente como uma folha que cai, o nosso quadrado acaba por regressar à superfície. Do ponto de vista dos seus conterrâneos planilandianos, ele desapareceu inexplicavelmente de dentro de uma casa fechada e depois materializou-se, estranhamente, vindo não se sabe de onde. «Pelo amor de Deus», dizem eles, «que te aconteceu?» «Penso», acaba ele por responder, «que estive 'lá em cima'.» Os outros dão-lhe palmadinhas nas costas e consolam-no. Na sua família sempre houve quadrados com visões."
Edwin Abbott, citado por Carl Sagan em Cosmos, pp. 304-306

Esta história citada por Carl Sagan, traz-nos à memória as nossas múltiplas limitações: a nossa inteligência, o lugar que ocupamos no universo, o tempo em que vivemos... Seremos irremediavelmente prisioneiros fechados na nossa "ilha cósmica" ou teremos legítimas razões para aspirar ao conhecimento (do universo)?
Richard Dawkins, biólogo e divulgador de ciência, discorre com o habitual humor, sobre "o pensamento do improvável", cujo vídeo pode ser visionado com tradução em português.
Para Dawkins vivemos num "mundo médio" no qual o nosso cérebro evolui adaptando-se à nossa faixa estreita da realidade. A matéria é uma ficção útil para nós, mas há um mundo que não podemos ver...



A ciência e a crítica são instrumentos fundamentais que nos levarão sempre mais longe... até que ponto? Será o nosso cérebro capaz de nos levar até aos derradeiros limites ou haverá sempre algo mais a desvendar?
É um desafio que dá muito que pensar.
Imagens: Google, Kandinski e TED.Com, Richard Dawkins

26.8.09

Música contra a Exclusão...


EL SISTEMA: Música contra a Exclusão, é um "sonho plantado" por José Antonio Abreu desde 1975 na Venezuela. Consiste num sistema de coros, orquestras infantis e juvenis, que vê na música "uma fonte de desenvolvimento do ser humano, de elevação do espírito, uma resposta à crise da espiritualidade no mundo". Um programa contra a exclusão social que já transformou a vida de mais de 300. 000 jovens venezuelanos.

Uma fonte de inspiração da verdadeira cidadania democrática e um modelo de sucesso educativo.
Entre muitos prémios, recebeu o TED Prize cujo vídeo pode ser visionado aqui em português do Brasil. Vale a pena ver e ouvir este homem que, à semelhança de tantos outros, não cruzou os braços perante a miséria da condição humana fazendo da Terra um lugar melhor.

Gustavo Dudamel, Google imagens


Um dos jovens educados neste projecto, Gustavo Dudamel é hoje um dos mais carismáticos maestros cujo génio pode apreciar a dirigir a Orquestra Teresa Carreño tocando a Sinfonia No. 10 (2º movimento) de Shostakovich e Danzón No. 2 de Arturo Márquez. Vale a pena ouvir!!!



Com a Orquestra Sinfónica Juvenil Simón Bolivar - que já foi considerada uma das Cinco melhores orquestras do mundo-, em 2007, no London BBC Proms.

Alma Llanera:

E Mambo:


Perante a beleza deste projecto, não podemos deixar de pensar em Nietzsche (1844-1900), filósofo para quem a verdadeira actividade metafísica da vida era a arte musical.

Representada pelos instintos apolíneo e dionisíaco, metáforas que simbolizam não só o que podemos compreender da realidade mas a própria realidade. Esta, sendo múltipla inclui todas as dualidades, todas as contradições expressas numa espécie de jogo ou relação de tensão e equilíbrio, em que nenhuma das partes pode ser eliminada. É o modo da unidade primordial, realidade íntima de tudo quanto há no mundo, no cosmos..., se dar a conhecer na "dança da vida" enquanto energia criadora ou vontade de poder. A arte musical permite-nos a experiência do belo e do sublime.