19.11.09

Dia Internacional da Filosofia

Em 1995, a UNESCO assinalou a terceira quinta-feira do mês de Novembro como Dia Internacional da Filosofia, partindo da premissa de que "os problemas que trata a Filosofia são os problemas da vida e da existência dos homens considerados universalmente".

O ECB não deixou de comemorar esta efeméride, preparando aulas em torno do texto A alegoria da caverna de Platão.
Os alunos, como é hábito quando se trabalha este texto, não só apresentaram as suas inquietações como discutiram, inicialmente sem se aperceberem, problemas filosóficos que vão ser aprofundados ao longo dos 10.º e 11.º anos.
A todos os alunos, os nossos parabéns pela capacidade de argumentação e insistência em pensarem por si mesmos!
Os professores de Filosofia

18.11.09

Egoísmo Psicológico

Depois da aula de Filosofia, a Sandra e o Rogério dirigiram-se ao pátio para mais uma conversa de intervalo. Mas, desta vez, resolveram continuar a discussão que tiveram na aula.

Sandra: Não concordo nada com o egoísmo psicológico. Eu acho que não devemos ser egoístas! Que mania que os filósofos têm de nos pôr a cabeça às avessas.
Rogério: Espera... repara que o egoísmo psicológico não é uma teoria normativa, que diga como te deves comportar.
Sandra: Então?
Rogério: Apenas te diz como se explicam as acções humanas. Lembras-te de o professor dizer que uma acção se explica a partir da identificação dos desejos e das crenças?
Sandra: Lembro, claro. Os motivos de uma acção traduzem sempre crenças e desejos.
Rogério: Exacto. O egoísmo psicológico é uma teoria que pretende descrever as acções, de tal maneira que se torne possível descobrir os verdadeiros motivos que nos levaram a agir. E segundo esta teoria, o verdadeiro motivo é o interesse pessoal.
Sandra: Mas tu achas que esta teoria faz algum sentido?
Rogério: Para mim faz. Se eu ajudo uma pessoa, que até desconheço, com roupas, não achas que o faço porque quero? Quem é que deseja ajudar essa pessoa? Sou eu. Quem é que acredita que ao ajudar essa pessoa, pode ficar bem com a sua consciência? Sou eu. Portanto, eu agi em conveniência com o que considerei mais vantajoso para mim.
Sandra: Será que fui egoísta quando te passei os apontamentos das aulas quando partiste o braço?
Rogério: Hummm! Bem... que motivos te levaram realmente a passar-me os apontamentos?
Sandra: Achas que foi a pensar que quando eu partisse um braço, tu farias o mesmo? Preguiçoso como és! (gargalhadas) Claro que não! Fi-lo porque quis, é verdade, mas não porque tivesse um especial gozo em fazê-lo, ou acreditasse que me sentiria melhor comigo mesma. Sabes o que eu senti, na realidade? O braço dormente! Ora, nem tudo o que fazemos consiste numa busca de experiências aprazíveis.
Rogério: Okay! Mas que motivos te levaram a agir dessa maneira?
Sandra: Eu agi assim porque és meu amigo; fi-lo de um modo desinteressado.
Rogério: Nenhuma acção é desinteressada, porque agimos em função de determinados motivos.
Sandra: O principal motivo da minha acção foi ajudar-te, não podes por isso concluir que fui egoísta apenas porque o meu interesse era que tivesses os apontamentos das aulas. Talves devas repensar essa ideia de que basta querermos fazer alguma coisa para nos comportarmos de um modo egoísta.
Rogério: Queres convencer-me de que o egoísmo psicológico é pouco plausível?
Sandra: Posso apresentar-te o meu argumento. Esta teoria diz que todas as acções são egoístas. Ainda te lembras de como se negam proposições?
Rogério: Claro! Gostei muito dessa matéria. Essa proposição negada fica: algumas acções não são egoístas.
Sandra: Certíssimo. E é por aí que posso argumentar. Ora repara: supões que não se pode colocar no mesmo patamar o interesse pessoal e o bem dos outros. Ainda que admita que muitos dos actos que cometemos persigam o nosso interesse pessoal, é bem verdade que se encontrar um exemplo de uma acção em que há compatibilidade entre o interesse pessoal e uma preocupação com os outros, refuto o egoísmo psicológico. O exemplo que te dei há bocado, bem presente na dor que ainda tenho no pulso, mostra que quis ajudar-te (tive esse interesse), o qual é compatível com uma preocupação contigo.
Rogério: Tu estás a confundir as coisas, Sandra. No momento em que te preocupas comigo ou com outra pessoa qualquer, fá-lo com a convicção de que isso é mais vantajoso para ti. Em suma, a tua acção foi motivada pelo interesse em te sentires bem com o facto de eu estar bem.
Entretanto, tocou para a entrada. A Sandra ficou a pensar numa resposta para dar ao Rogério.
Concordas com a Sandra ou com o Rogério?

16.11.09

Detective das falácias

1. "Ninguém provou que os extra-terrestres existem. Logo, não existem."
2. "Ou continuo a fumar ou engordo. Não quero engordar. Logo, não posso deixar de fumar."

3. "A Microsoft produz o melhor Software do mercado. Sabemos que produz o melhor Software, porque tem os melhores engenheiros informáticos. A razão pela qual tem os melhores engenheiros é a de poderem pagar-lhes mais do que as outras empresas. Obviamente podem pagar-lhes mais porque produzem o melhor Software do mercado.

Qual a falácia cometida?

Quem tem Razão?

João: No teu entender, devemos ter preocupações éticas com os animais?
Ana: Não! Que disparate. Os animais não são seres conscientes.
João: Então pensas que só os seres conscientes devem ser considerados eticamente?
Ana: Exacto.
João: Não concordo contigo. Repara que se os animais sentem dor, são sencientes.
Ana: Interessante. Continua.
João: Se os animais são seres sencientes, devemos considerá-los eticamente.

Texto de Valter Boita, Adaptado.

O que é uma acção?

Van Gogh, Os prisioneiros(1890)
Intuitivamente distinguimos o que fazemos, das coisas que nos acontecem. Aquelas que dependem de uma certa iniciativa da nossa parte, daquelas em que nos limitamos a ser meros receptores ou actores.
Usamos, no dia-a-dia o termo acção, para designar movimentos e os seus resultados, Assim falamos da acção das chuvas, das marés e assim por diante. Também é habitual pensar na acção identificando-a com comportamentos observáveis. Neste contexto opomos por vezes acção a reflexão. Esta seria assim um processo interior, subjectivo; a acção, um comportamento físico, concreto e observável.
Mas a acção humana tendo uma componente física, não se resume a ela. Na verdade, os mesmos movimentos permitem realizar actos diferentes e, um acto pode ser realizado mediante diferentes movimentos. Além disso parece que o que fazemos sem intenção não é uma verdadeira acção, associamos a acção a algo que o agente faz acontecer intencionalmente.
O caso seguinte ajuda-nos a reflectir sobre este assunto:

"Filha de um rico industrial, Maria foi raptada. Os raptores exigem como resgate Um milhão de euros no prazo de uma semana. O pai da Maria rejeita a hipótese de chamar a polícia e consegue reunir a soma exigida. Num local desabitado e fora do alcance, de olhares indiscretos - escolhido, como é óbvio, pelos raptores -, entrega a mala com o dinheiro e regressa a casa com a filha."

Podemos considerar o acto do pai da Maria uma acção? O seu comportamento implica uma decisão. Essa decisão foi livre? Então como podemos definir uma acção?

15.11.09

Seremos livres?

Se fazemos aquilo que queremos, então agimos em liberdade.
Será que aquilo que queremos depende de nós? Será que controlamos os nossos quereres ou são eles que nos controlam? Seremos efectivamente livres?

"Suponha que tinha ordens para ler isto. Encontra-se a obedecê-las. Depois recebe ordens para questionar as ordens. E, portanto questiona-as. Depois recebe ordens para as deixar de questionar. Portanto, deixa de o fazer. Neste caso iria imediatamente perceber que não tem liberdade, que estaria sob o controlo das ordens. (...) Mas suponha que as ordens não eram dadas sob a forma de instruções, mas antes sob a forma de anseios directos que o faziam agir de determinada forma. Estar sob o controlo de anseios seria mais subtil do que ser controlado por instruções verbais, pois poderia facilmente pensar que os anseios estavam sob o seu próprio controlo (...)"
Retirado de Critica na Rede
Imagem: Magritte, The son of Man (1926)

Prémio Paz 2009

Ramin Jahanbegloo é um filósofo iraniano, professor na Universidade de Toronto, que recebeu o prémio Paz 2009, atribuído pela Associação das Nações Unidas de Espanha. Este prémio foi-lhe atribuído pela intensa actividade intelectual e política na defesa da não-violência, liberdade de pensamento e diálogo intercultural.
Estará em Portugal no próximo dia 24 de Novembro a fim de participar nas V Conferências internacionais de Filosofia e Epistemologia do Instituto Piaget em Viseu.
Nestas conferências participam também George Steiner e Henri Atlan.
Informação do jornal online CiênciaHoje.

12.10.09

Hipátia uma filósofa em Alexandria


Os nossos alunos, estranhando a ausência de figuras femininas na história da filosofia, perguntam por vezes se nunca houve nenhuma filósofa. A resposta é sim. Além das muitas filósofas da actualidade, existiu Hipátia. Filósofa e matemática, nascida e educada em Alexandria, mais tarde em Atenas, onde estudou na Academia Neoplatónica, voltando depois a Alexandria para ocupar a cadeira de Plotino na Academia desta cidade. Esforçando-se por pôr em prática o ideal helénico: "Mente sã em corpo são", praticou também ginástica. Aos trinta anos já era directora da Academia. Foi também inventora, sendo-lhe atribuída a invenção do Astrolábio e do Planisfério por exemplo.

Soube, através do blog De Rerum Natura, que vai estrear: "Agora" um filme sobre a vida de Hipátia ou Hipácia; nascida em 370 e assassinada em 415, quando contava 45 anos de idade.

O filme é do realizador Alejandro Amenabar e tem Rachel Weisz no papel de Hipátia. Conta ainda com as participações de Oscar Isaac, Max Minghella, Ashraf Barhom, Michael Lonsdale, Rupert Evans e Howayouh Ershadi.

Uma excelente oportunidade para conhecer melhor esta mulher e a época em que viveu.

Sobre esta época escreveu Carl Sagan no seu livro "Cosmos":

"Há cerca de 2000 anos, emergiu uma civilização científica esplêndida na nossa história, e a base era em Alexandria. Apesar das grandes chances de florescer, ela decaiu. A última cientista foi uma mulher, considerada pagã. O nome era Hipácia. Com uma sociedade conservadora a respeito do trabalho da mulher e do seu papel, com o aumento progressivo do poder da Igreja, formadora de opiniões e conservadora quanto à ciência, e devido a Alexandria estar sob domínio romano, após o assassinato de Hipácia, em 415, a biblioteca de Alexandria foi destruída. Milhares dos seus preciosos documentos foram queimados e perdidos para sempre, e com ela todo o progresso científico e filosófico da época."

Um filme a não perder.

9.10.09

COMO LER OS TEXTOS?

«Quando lemos um texto de um filósofo devemos procurar o seguinte:

1. Que problema ou problemas está o filósofo a tentar resolver?

a) Como podemos formular de forma rigorosa o problema? Haverá formas subtilmente erradas de formular o problema, talvez semelhante à correcta mas enganadora?

b) Por que razão é esse problema importante? Será mesmo importante? Que diferença faz? Não será apenas uma confusão? Por que razão é uma confusão? E porque razão não é uma confusão?

2. Que teoria propõe o filósofo para resolver o problema?

a) Como poderemos formular e articular rigorosamente essa teoria? Quais são os aspectos mais subtis, que por isso mesmo nos podem escapar?

b) Será essa teoria adequada para resolver o problema? Será uma teoria aceitável? Que consequências tem? Quais são os seus pontos fracos? Quais são os seus pontos fortes?

c) Que outras teorias existem para resolver esses problemas? Será que esta teoria que estamos a estudar é melhor que qualquer outra? Porquê? Que vantagens tem (…) em relação às outras? E que desvantagens tem?

3. Que argumentos apresenta o filósofo?

a) Como podemos formular da forma mais rigorosa possível os argumentos centrais do filósofo?

b) São esses argumentos sólidos? Ou são falaciosos? Ou baseiam-se em premissas inaceitáveis? Se são inaceitáveis, por que razão?

c) Que outros argumentos podemos avançar para apoiar ou refutar as ideias do filósofo? Apresenta o filósofo alguns contra-argumentos aos argumentos que podemos avançar contra ele? Ou ignora-os por completo?

Ler os textos dos filósofos sem fazer estas perguntas é empobrecedor e transforma a filosofia num velório de Grandes Filósofos Mortos, em que nos limitamos a repetir as suas ideias sem as perceber muito bem. »

Desidério Murcho, A natureza da filosofia e o seu ensino, Plátano Edições Técnicas, Colecção Aula Prática, 1ª edição, Lisboa, 2002, pp 91-92.

6.10.09

A plasticidade da experiência humana ...

Lucas Murray, uma criança invisual que aprendeu a utilizar a audição para "ver". Um processo de ecolocalização semelhante ao dos morcegos.

4.10.09

Sobre a Arte e Sobre a Vida


SEIS PERSONAGENS À PROCURA DE AUTOR

Pela companhia Artistas Unidos, na sala principal do Teatro Municipal de S. Luís. Texto (de 1921) de Luigi Pirandello , tradução Mário Feliciano e Fernando José Oliveira, encenação Jorge Silva Melo, cenografia e figurinos Rita Lopes Alves e Luz Pedro Domingos. Com João Perry, Sylvie Rocha, Lia Gama, Pedro Gil, Cândido Ferreira, Pedro Luzindro, Alexandra Viveiros, John Romão, Vânia Rodrigues, António Simão, entre outros, e a participação especial de Mariema. Para maiores de 12 anos. De Quarta a Sábado às 21h00 e Domingo às 17h30; até 18 de Outubro.

Quando a acção começa, o que se vê em cima do palco é um ensaio de teatro. Encenador, produtor, técnicos e actores preparam-se: há ordens dadas alto, aquecimentos de voz, passos de dança, cenários a passar… até que entra uma família de luto que se anuncia como seis personagens à procura de um autor. Viveram um drama e agora vivem outro por terem sido abandonadas pelo seu criador e não haver autor para contar as suas vidas.

“Acredite, somos seis personagens fantásticas, se bem que à deriva”, diz o pai (João Perry) ao encenador incrédulo, que pergunta: “Mas onde é que está a peça?” e surpreendentemente a resposta é “ Está em nós, somos nós.”
A situação é tão bizarra que provoca sorrisos no palco e na plateia: como não há quem aproveite estas figuras, elas deambulam oferecendo-se e tentando convencer o encenador a “continuar as suas vidas interrompidas”, expondo a injustiça e o mérito dramático da sua condição.

Entre o absurdo da conversa compreende-se, com surpresa, o propósito de Pirandello: reflectir a arte enquanto representação da vida, pondo à prova o teatro e todo o talento maior dos actores que nunca chegará para representar a vida e a tragédia destas personagens que a vivem e revivem, repetidamente, presos ao papel que foi escrito para elas e cujo fim desconhecem. O que é vida e o que é ilusão? Para as seis personagens a realidade são elas e “o palco um lugar onde se brinca às verdades”, sem nunca sequer chegar à realidade. Não querem ser representadas pelos actores da companhia. Afinal, como alguém poderia representar melhor a vida de uma personagem do que ela própria?

Por outro lado, Pirandello conduz-nos a uma reflexão sobre a vida e a angústia do homem que busca a compreensão de si e da realidade e se reconhece só e abandonado à sua sorte pelo “autor” que, depois de o criar a ele e ao seu mundo, parece nada lhe dizer em relação àquilo que deve ser a sua conduta ou qual o sentido que deve dar à sua vida, vendo-se assim obrigado a deambular pela vida à procura de si próprio.
A não perder.

3.10.09

Poderemos recusar o filosofar?

Sócrates e Platão
«Pensa-se por vezes que se deve abandonar o pensamento filosófico enquanto não houver métodos científicos apropriados para investigar tais temas. Há nesta perspectiva dois aspectos que merecem reflexão. Em primeiro lugar, trata-se de uma ideia filosófica e não científica. Isto é, não se poderá provar em laboratório, ou através de cálculo matemático, que devemos abandonar o pensamento filosófico. A filosofia é irrecusável porque mesmo para a recusar é necessário argumentar filosoficamente, o que é auto-refutante.
Compare-se com a recusa da astrologia, que não exige que se argumente astrologicamente; e imagine-se quão ridículo seria um argumento contra a astrologia baseado num mapa astral. Pode-se recusar a reflexão filosófica sobre temas particulares, com argumentos filosóficos particulares, que mostrem que tais temas são insusceptíveis de reflexão séria, mas não se pode recusar a filosofia em bloco sem usar argumentos filosóficos, o que acarreta uma contradição óbvia.
A filosofia é apenas o exercício da capacidade para o pensamento crítico sobre qualquer tema susceptível de ser pensado sistematicamente, mas insusceptível de tratamento científico. E saber que temas são susceptíveis de serem pensados sistematicamente já é um problema filosófico.»

Desidério Murcho, (2006), «O Tempo e a Filosofia», Pensar Outra Vez, pág.177, in Criticamente, Artur Polónio e outros, Filosofia 10.º ano, Porto Editora

Problemas ...

«A melhor solução é normalmente a mais simples.»

25.9.09

Ciência e Filosofia

René Magritte, Golconde (1953)
«As minhas pinturas devem assemelhar-se ao mundo, de forma a evocarem o seu mistério»
Tal como a ciência, a filosofia, procura compreender o mundo resolvendo os seus enigmas, mas os problemas filosóficos não se confundem com os problemas científicos. Os problemas da ciência são empíricos. Quando é que nos encontramos perante um problema empírico? Quando, para o resolver temos de recorrer a observações, informação factual, manipulação de instrumentos, etc.
Os problemas da filosofia são conceptuais. Para lhes respondermos, temos de reflectir e só contamos com a nossa capacidade argumentativa. Os problemas da Matemática também são conceptuais mas, ao contrário do matemático que possui métodos formais de prova, o filósofo só conta com o laboratório da mente. Por exemplo: perguntar como está destribuída a riqueza, num determinado país, numa dada época é um problema empírico que podemos resolver observando, fazendo registos e tirando depois as conclusões. Mas, poderíamos perguntar: será essa destribuição justa? Agora não perguntamos qual o estado de coisas, mas se o estado de coisas é justo. Filosofar é perguntar: o que seria uma distribuição justa da riqueza? Atribuir o mesmo rendimento a todos? Mas isso pode ser injusto, se alguns trabalharem mais do que outros. Atribuir o mesmo rendimento a todos os que fazem o mesmo trabalho? Mas nesse caso, qual o tipo de trabalho que deve ser mais bem remunerado?. Só podemos encontrar a resposta, argumentando.

«(...) A filosofia é diferente da ciência e da matemática. Ao contrário da ciência não assenta em experimentações nem na observação, mas apenas no pensamento. E, ao contrário da matemática não tem métodos formais de prova. A filosofia faz-se colocando questões, argumentando, ensaiando ideias e pensando em argumentos possíveis contra elas e procurando saber como funcionam realmente os nossos conceitos».
Thomas Nagel, 1987, O que Quer dizer tudo isto?, Lisboa, Gradiva 1995

20.9.09

A relação mente/corpo

Ego

De MICK GORDON e PAUL BROKS, encenação JOÃO PEDRO VAZ, tradução FRANCISCO NICÉFORO, espaço cénico e figurinos MARIA JOÃO CASTELO, vídeo PEDRO FILIPE MARQUES, luz NUNO MEIRA. Com CATARINA LACERDA, GONÇALO WADDINGTON e ANTÓNIO FONSECA. Produção Teatro Nacional D. Maria II, em cena na Sala Estúdio até 11 de Outubro Maiores de 16 anos


Como é que um quilo e meio de carne se transforma em mente? Para Alex, como para muitos de nós, é um equívoco que nos leva a formular a nosso respeito um princípio de primeira pessoa do singular ,“Eu”, que descreve uma unidade interna que se resume, afinal, a um feixe de reacções físico-químicas dispersas por diversas zonas cerebrais. É o cérebro que dá continuidade às nossas ideias, emoções e experiências, contando-nos a “história que somos” e não a do Eu que a vive, como por vezes fantasiamos como vestígio do nosso pensamento mágico (como defende Alex).

Ego é o percurso desconcertante de Alex, um neurologista que não acredita na ideia de identidade - "nem essência, nem ego, nem Eu"- mas que, depois de uma experiência que corre mal, "uma viagem num teletransporte tipo Star Trek", se vê privado da vida com a mulher e acaba a questionar tudo. Alice tem um tumor no cérebro ,"Um glioma borboleta! Soou como uma coisa maravilhosa." que vai começar a afectá-la e a fazê-la perder mesmo a consciência da identidade do marido. A chave do problema é discutida pelo pai de Alice, Derek, que trabalha com Alex nas mesmas experiências científicas. O que começa por ser uma peça teórica sobre o cérebro acaba numa angustiante viagem emotiva. Se isso existe, esta peça é um “poema neurológico” , como o poema de Emily Dickinson com que Alex se declarou a Alice.


Um texto muito interessante, muito bem interpretado e com uma encenação clara e concisa no desejo de criar um espectáculo inteligente, capaz de nos espevitar o cérebro (ou mente) . A não perder.



14.9.09

O que é a Filosofia?

René Magritte, A Ponte de Heráclito, (1935)
O que é a realidade? Temos a certeza de ver o reflexo da ponte, teremos certeza da ponte real?
Para quem, pela primeira vez estuda filosofia, a pergunta é inevitável:
O que é a Filosofia?
(...) Uma das formas (...) de responder é dizer que a filosofia é aquilo que os filósofos fazem, indicando de seguida os textos de Platão, Aristóteles, Descartes, Hume, Kant, Russel, Wittgenstein, Sartre e outros filósofos famosos (...).
Outra forma de abordar a questão é indicar que a palavra «filosofia» deriva da palavra grega que significa «amor da sabedoria». (...)
Mas isto é muito vago e não responde efectivamente à questão. No primeiro caso apela-se apenas à História da Filosofia, no segundo caso apenas ao significado da palavra.
(...) A filosofia é uma actividade, uma forma de pensar acerca de certas questões. A sua característica mais marcante é o uso de argumentos lógicos. A actividade dos filósofos é, tipicamente argumentativa: ou inventam argumentos, ou criticam argumentos de outras pessoas ou fazem as duas coisas. Os filósofos também clarificam conceitos. (...)
Que tipo de coisas discutem os filósofos?
(....) Examinam crenças que quase toda a gente aceita acriticamente . (...) Por exemplo, muitas pessoas vivem as suas vidas sem questionarem as suas crenças fundamentais, tais como a crença de que não se deve matar. Mas por que razão não se deve matar? Que justificação existe para dizer que não se deve matar? Não se deve matar em nenhuma circunstância? E, afinal, o que quer dizer a palavra «dever»? Estas são questões filosóficas. Ao examinarmos as nossas crenças, muitas delas revelam-se firmes; mas muitas não. O estudo da filosofia não só nos ajuda a pensar claramente sobre os nossos preconceitos, como ajuda a clarificar de forma precisa aquilo em que acreditamos. Ao longo desse processo desenvolve-se uma capacidade para argumentar de forma coerente sobre um vasto leque de temas - uma capacidade muito útil que pode ser aplicada em muitas áreas (...) [na vida].
Porquê estudar filosofia?
(...) Uma razão importante (...) é o facto de esta lidar com questões fundamentais acerca do sentido da nossa existência (...)
Todos nós já nos interrogamos sobre questões filosóficas: Por que razão estamos aqui? As nossas vidas têm algum propósito? O que faz com que algumas acções sejam moralmente boas ou más? Poderemos alguma vez ter justificação para violar a lei? Poderá a nossa vida ser apenas um sonho? É a mente diferente do corpo, ou seremos apenas seres físicos? Como progride a ciência? O que é a arte? ... (...)

Para muitas pessoas, esta é uma actividade que dá imenso prazer. (...) Há mesmo quem pense que: "uma vida não examinada não merece ser vivida."

Nigel Warburton, Elementos Básicos de Filosofia, Gradiva, 2.ª edição (2007), tradução de Desidério Murcho e Aires Almeida, pp. 15-21, (texto adaptado)


O Regresso às Aulas.

Começaram as aulas!
Os professores de Filosofia desejam, a todos os alunos, um excelente ano de trabalho, cheio de boas experiências e muita diversão.
Aproveitamos para renovar o nosso convite à participação de todos no Logos-ecb.

11.9.09