
Depois da aula de Filosofia, a Sandra e o Rogério dirigiram-se ao pátio para mais uma conversa de intervalo. Mas, desta vez, resolveram continuar a discussão que tiveram na aula.
Sandra: Não concordo nada com o egoísmo psicológico. Eu acho que não devemos ser egoístas! Que mania que os filósofos têm de nos pôr a cabeça às avessas.
Rogério: Espera... repara que o egoísmo psicológico não é uma teoria normativa, que diga como te deves comportar.
Sandra: Então?
Rogério: Apenas te diz como se explicam as acções humanas. Lembras-te de o professor dizer que uma acção se explica a partir da identificação dos desejos e das crenças?
Sandra: Lembro, claro. Os motivos de uma acção traduzem sempre crenças e desejos.
Rogério: Exacto. O egoísmo psicológico é uma teoria que pretende descrever as acções, de tal maneira que se torne possível descobrir os verdadeiros motivos que nos levaram a agir. E segundo esta teoria, o verdadeiro motivo é o interesse pessoal.
Sandra: Mas tu achas que esta teoria faz algum sentido?
Rogério: Para mim faz. Se eu ajudo uma pessoa, que até desconheço, com roupas, não achas que o faço porque quero? Quem é que deseja ajudar essa pessoa? Sou eu. Quem é que acredita que ao ajudar essa pessoa, pode ficar bem com a sua consciência? Sou eu. Portanto, eu agi em conveniência com o que considerei mais vantajoso para mim.
Sandra: Será que fui egoísta quando te passei os apontamentos das aulas quando partiste o braço?
Rogério: Hummm! Bem... que motivos te levaram realmente a passar-me os apontamentos?
Sandra: Achas que foi a pensar que quando eu partisse um braço, tu farias o mesmo? Preguiçoso como és! (gargalhadas) Claro que não! Fi-lo porque quis, é verdade, mas não porque tivesse um especial gozo em fazê-lo, ou acreditasse que me sentiria melhor comigo mesma. Sabes o que eu senti, na realidade? O braço dormente! Ora, nem tudo o que fazemos consiste numa busca de experiências aprazíveis.
Rogério: Okay! Mas que motivos te levaram a agir dessa maneira?
Sandra: Eu agi assim porque és meu amigo; fi-lo de um modo desinteressado.
Rogério: Nenhuma acção é desinteressada, porque agimos em função de determinados motivos.
Sandra: O principal motivo da minha acção foi ajudar-te, não podes por isso concluir que fui egoísta apenas porque o meu interesse era que tivesses os apontamentos das aulas. Talves devas repensar essa ideia de que basta querermos fazer alguma coisa para nos comportarmos de um modo egoísta.
Rogério: Queres convencer-me de que o egoísmo psicológico é pouco plausível?
Sandra: Posso apresentar-te o meu argumento. Esta teoria diz que todas as acções são egoístas. Ainda te lembras de como se negam proposições?
Rogério: Claro! Gostei muito dessa matéria. Essa proposição negada fica: algumas acções não são egoístas.
Sandra: Certíssimo. E é por aí que posso argumentar. Ora repara: supões que não se pode colocar no mesmo patamar o interesse pessoal e o bem dos outros. Ainda que admita que muitos dos actos que cometemos persigam o nosso interesse pessoal, é bem verdade que se encontrar um exemplo de uma acção em que há compatibilidade entre o interesse pessoal e uma preocupação com os outros, refuto o egoísmo psicológico. O exemplo que te dei há bocado, bem presente na dor que ainda tenho no pulso, mostra que quis ajudar-te (tive esse interesse), o qual é compatível com uma preocupação contigo.
Rogério: Tu estás a confundir as coisas, Sandra. No momento em que te preocupas comigo ou com outra pessoa qualquer, fá-lo com a convicção de que isso é mais vantajoso para ti. Em suma, a tua acção foi motivada pelo interesse em te sentires bem com o facto de eu estar bem.
Entretanto, tocou para a entrada. A Sandra ficou a pensar numa resposta para dar ao Rogério.
Concordas com a Sandra ou com o Rogério?