17.3.10

A Questão dos Critérios Valorativos



Mariana: Sabes que nos Estados Unidos existem comunidades de Amishes, grupos de cristãos conservadores que vivem afastados da restante sociedade, ainda usam carros puxados por cavalos, vestem-se como os agricultores do séc. XVIII, não têm televisões, nem telefones, nem computadores; produzem tudo o que consomem, são agricultores, pastores, artesãos... Olha, como se vivessem há trezentos anos atrás, por exemplo. Não achas encantador?

Rui: Encantador? Ó Mariana, essa gente parou no tempo, tem um tipo de vida inaceitável nos dias de hoje, inconciliável com o mundo desenvolvido, civilizado.

Mariana: Não sei porque dizes isso. Levam uma vida simples, não prejudicam ninguém, por isso é lá com eles. Nós não temos nada que censurar. Acho que estás a ser intolerante.

Rui: Se calhar devemos ser intolerantes mesmo, nestes casos. Tu sabes que nessas comunidades os jovens não podem estudar para além daquilo que em Portugal corresponde ao ensino básico? Isto se for rapaz, porque as raparigas só podem andar na escola até aos doze anos o que as impede de aprender pouco mais do que a ler e a contar. Sabes que os casamentos são combinados entre as famílias e as raparigas são praticamente obrigadas a casar aos treze ou catorze anos e, obviamente, sempre com indivíduos da comunidade?
Não permitindo aos indivíduos nascidos nestas comunidades contactar com o exterior ou conhecer qualquer outra realidade social, condenam-nos a uma vida de total submissão social e religiosa e os que desobedecem são excomungados e expulsos da comunidade e então são lançados num mundo cujas regras e costumes desconhecem em absoluto. Não lhes é permitido nem conhecer, nem preparar-se para viver e trabalhar no mundo em que realmente vivem, como tu e eu. Isso é errado, imoral mesmo.

Mariana: Mais uma vez, só a eles lhes diz respeito. Esse modo de vida que tu consideras subdesenvolvido ou incivilizado e imoral está organizado segundo as suas regras, os seus valores morais e não segundo os nossos, que são para eles verdadeiros embora não o sejam para nós. O mesmo se passa com os nossos valores, só são verdades para nós. Os valores são relativos à cultura em que são produzidos, só nesse contexto podemos avaliar da sua verdade ou falsidade. Temos de os respeitar assim como eles têm de respeitar os nossos. Não vês que, neste domínio, é tudo muito relativo?

Rui: Bom, então diz-me uma coisa: Pelo que dissemos antes, reconheces que estes indivíduos não têm certos direitos que nós consideramos garantidos e que não aceitaríamos que nos fossem subtraídos na nossa sociedade?

Mariana: Exactamente, na nossa sociedade são situações moralmente inaceitáveis mas entre eles não.

Rui: Então diz-me uma coisa: Consideras que Declaração Universal dos Direitos Humanos consigna um conjunto de direitos de todos os homens e que devem ser universalmente respeitados ou…… relativamente?

Mariana: Hummm… Universalmente, claro!

Rui: E como concilias essa convicção com o que defendeste antes?

Mariana: A tua questão é, sem dúvida, pertinente. Tenho de pensar Rui. Gostei muito da nossa conversa.

Rui: Também eu, Mariana. Só o debate sobre estas questões nos permitirá esclarecê-las. Depois falamos outra vez.

Mariana: Falamos sim. E prometo-te que vou pensar muito bem nos teus argumentos.

Quem tem razão?

15.3.10

A importância do método e da clareza do pensamento

Descartes - As regras do método


Bertrand Russel - A importância da clareza do pensamento



Fonte: eduforum.pt. Site com materiais didácticos para todas as disciplinas.

10.3.10

Nova História da Filosofia

Informação da Editora Gradiva

NOVA HISTÓRIA DA FILOSOFIA OCIDENTAL
Sir Anthony Kenny

«Uma obra única e imprescindível»
«Um acontecimento editorial»

Lançamentos em Abril, Junho, Setembro e Novembro (4 volumes) - Traduzida por especialistas da área sob a direcção do professor Aires Almeida
«A primeira razão pela qual esta impressionante obra é um acontecimento editorial é que os leitores têm agora acesso a uma história da filosofia que apresenta os problemas, teorias e argumentos da área com aquela intensidade própria de quem os conhece por dentro, ao invés de os olhar de longe como artificialismos académicos ou escolares, descritos muitas vezes em linguagem pomposa e vazia.
A segunda razão é que o conhecimento que temos hoje da história da filosofia é muito mais rigoroso e vasto do que o que tínhamos há trinta ou quarenta anos, e Sir Anthony está a par desses desenvolvimentos – tendo até sido protagonista de alguns deles. Não se trata por isso de mais uma história da filosofia que repete os lugares-comuns infelizmente endémicos nas zonas mais fracas da cultura escolar e académica.
Por estas razões, entre outras – incluindo a iconografia inovadora – esta brilhante história da filosofia é leitura obrigatória e entusiasmante para estudantes e professores de filosofia, assim como para qualquer pessoa que queira conhecer um pouco mais esta imensa tradição intelectual com dois mil e quinhentos anos de existência, e que novos desenvolvimentos continua a trazer-nos hoje. A Gradiva e a «Filosofia Aberta» continuam assim a prestar ao país um serviço cultural e educativo mais importante do que quaisquer míticas avaliações de professores.»

Desidério Murcho, Universidade Federal de Ouro Preto

«Esta é uma obra que pouquíssimos se atreveriam a escrever. Sir Anthony Kenny, um dos mais reputados filósofos actuais, dedicou alguns anos a ler directamente os grandes filósofos e a acompanhar os debates por eles suscitados, daí resultando uma história da filosofia verdadeiramente filosófica, informativa e refrescante, onde não se encontram os lugares-comuns e as ideias feitas do costume.
Aliando o melhor rigor académico à clareza de exposição e à capacidade para envolver o leitor nas discussões filosóficas, esta obra revela-nos uma história de cerca de dois mil e quinhentos anos que, ao contrário do que tantas vezes parece, está longe de ser uma mera colecção de ideias de museu.
O autor não se limita a apresentar e explicar as ideias e teorias dos filósofos, inserindo-as de forma esclarecedora no seu contexto histórico e cultural. Isto constitui uma das duas partes em que cada um dos quatro volumes está dividido. A segunda parte é dedicada à elucidação, discussão e avaliação dos argumentos que sustentam essas ideias e teorias, adoptando-se aí um tratamento temático e estritamente filosófico. Assim, esta história da filosofia consegue ser útil tanto para quem está interessado numa abordagem mais histórica das ideias filosóficas como para quem está interessado numa discussão filosófica mais aprofundada.
Por isso se trata de uma obra única e imprescindível que, muito justamente, se está a tornar uma verdadeira referência na área.»

Aires Almeida, Professor de Filosofia

Livre-arbítrio


9.3.10

Pensar livremente pode ser uma tarefa intimidante


Gustav Klimt, A árvore da vida
Devemos avaliar todas as ideias racionalmente, ainda que condicionalmente. (…)
Todas as actividades racionais – a filosofia, a física, a história ou a manutenção de motos – são condicionais. Os seres humanos erram, e as pessoas espertas e sábias também erram. É por isso que temos de ter em mente que o que pensamos que sabemos pode ser falso. Mesmo que seja auto-refutante a crença geral de que todas as nossas crenças são falsas, é plausível pensar que dada uma qualquer crença particular, essa crença pode ser falsa. Precisamos do mesmo tipo de equilíbrio que referi relativamente à atitude a ter perante os nossos professores: não podemos lucidamente em nada acreditar (…) mas também não devemos aceitar como definitivo tudo aquilo em que acreditamos. Uma das ilusões humanas mais perigosas é a ilusão cartesiana ou axiomática: a ideia que podemos partir de primeiros princípios auto-evidentes e avançar passo a passo usando apenas regras de inferência auto-evidentes. Isto é perigoso porque fecha os nossos espíritos para a possibilidade de que esses primeiros princípios “auto-evidentes” sejam falsos. E mesmo que tais primeiros princípios sejam auto-evidentes (como a validade do modus ponens), não se segue que devam ser aceites como actos arbitrários de fé: qualquer estudante de lógica sabe que mesmo os mais elementares e auto-evidentes princípios de lógica podem e têm sido racionalmente discutidos e analisados.

Devemos então abandonar toda a aprendizagem e toda a procura de uma melhor compreensão de nós mesmos e das nossas práticas? Não me parece. É absurdo pensar que a investigação tem de parar porque não podemos ter a certeza de que temos razão. É o oposto que é verdade: se pudéssemos ter a certeza de que temos razão – como tantas religiões o afirmam – não haveria necessidade de continuar a investigar a verdade e o valor. A academia moderna deveria ser - e infelizmente por vezes não é – a incarnação da ideia dos gregos antigos de que tudo deve ser criticamente avaliado e de que nenhuma crença está para além da crítica. A filosofia e a ciência e a história não são uma questão de ter A Verdade. São uma questão de argumentar para avaliar criticamente o que pensamos que são as nossas melhores crenças sobre tudo. (…)

Devemos avaliar criticamente as crenças, e estar dispostos a abandonar aquelas crenças que não resistem à crítica. Mas fingir que podemos viver uma vida sem crenças é apenas uma ilusão, ao mesmo nível da ilusão que consiste em acreditar que alcançámos A Verdade.(…) A filosofia – ou, na verdade, qualquer disciplina académica – morre sempre que aceitamos ideias que se recusam a ser criticamente examinadas. Pois se recusarmos o exame crítico, a filosofia transforma-se em mais uma religião, com os seus tabus, verdades reveladas que se fecham à discussão e a tendência para não evoluir ao longo de centenas e por vezes milhares de anos. E a compreensão humana da natureza das coisas fica certamente mais pobre.
Murcho, D., PENSAR OUTRA VEZ, Filosofia, Valor e Verdade, Edições Quasi, págs. 90 a 92.

Os artigos de que vos falei em aula podem ser lidos aqui:

7.3.10

Por que razão haveremos de ser morais?

René Magritte

O Homem é uma "ilha"? Poderemos ignorar o "outro" ?

"Uma lenda antiga conta-nos a história de Giges, um pastor pobre que encontrou um anel numa fissura aberta por um terramoto. Giges descobriu que ficava invisível quando girava o anel no seu dedo. Isso permitia-lhe fazer aquilo com que as outras pessoas podiam apenas sonhar: ele podia ir onde quisesse e fazer o que lhe apetecesse, sem medo de ser descoberto. Usou o poder do anel para enriquecer, tirar o que queria e matar quem se metesse no seu caminho. Acabou por invadir o palácio real, onde seduziu a rainha, matou o rei, e se apoderou do trono. Tornou-se rei de todo o território.
Gláucon conta esta história no Livro II da República, de Platão (…) para dar um exemplo de como o comportamento imoral por vezes pode ser vantajoso para o agente. Se Giges permanecesse virtuoso, teria continuado pobre. Ao infringir as regras morais, tornou-se rico e poderoso. Atendendo a isto, por que razão haveria Giges de se ter importado com a moralidade? Aliás, por que razão haveremos nós de nos preocupar com a moralidade, se isso não nos beneficiar? Por que razão haveremos de dizer a verdade, se mentir for mais vantajoso? Por que razão haveremos de doar dinheiro a uma organização de beneficiência se podemos comprar coisas para nós próprios? A moralidade coloca-nos restrições que podem desagradar-nos ou não ser bem-vindas. Por que razão não haveremos de nos limitar a esquecê-la? Gláucon acrescenta que, na sua opinião, todos nos comportaríamos como Giges se pudéssemos escapar impunemente.
(...) [A questão] não consiste num pedido de justificação para o comportamento moral. Se exigisse apenas isso, a resposta seria simples. Não seria difícil apresentar razões que mostrassem que Giges não devia ter roubado e assassinado de modo a conquistar o trono. Roubar é tirar coisas que não nos pertencem e o assassínio inflige um mal terrível a vítimas que não o merecem. Do mesmo modo, é fácil explicar por que razão não devemos mentir ou por que razão devemos doar dinheiro para ajudar os necessitados. Mentir prejudica as pessoas, e as pessoas famintas precisam mais de comida do que as pessoas relativamente ricas, como nós, precisam de tapetes novos ou roupas da moda. (…) Contudo, tais razões apenas determinam o que é certo fazer, e essa não é a questão.
O desafio de Gláucon coloca-se depois de o raciocínio moral estar concluído. Podemos admitir que respeitar a vida e a propriedade das pessoas é certo. Podemos reconhecer que dizer a verdade e ajudar as pessoas é correcto. A questão de Gláucon é: por que razão haveremos de nos importar com fazer aquilo que é certo? Por que razão não haveremos de ignorar isso e viver como nos apetecer?"
James Rachels, Problemas da Filosofia, Tradução de Pedro Galvão, Gradiva, 2009, pp. 259-261 (texto adaptado)

1.3.10

Devemos tolerar a intolerância?

"À questão «deverá o tolerante tolerar o intolerante?», deverá ser dado em resposta um retumbante «não». A tolerância tem de se proteger a si própria. Pode fazê-lo facilmente, dizendo que todos podem expor um ponto de vista mas ninguém pode forçar os outros a aceitá-lo. A única coerção deve ser a da argumentação; a única obrigação, o raciocínio honesto. (...)
A intolerância é um fenómeno psicologicamente interessante porque é sintomático de insegurança e medo. Os fanáticos, que, se pudessem, nos obrigariam a agir em conformidade como seu modo de pensar, poderiam estar a pretender estar a salvar a nossa alma, mesmo contra a nossa vontade, mas, na verdade, fá-lo-iam porque se sentiam ameaçados. (...) O medo gera a intolerância e a intolerância gera o medo. o ciclo é vicioso."
C. Grayling, O Significado das Coisas, Gradiva, pp. 23-24 (texto adaptado)
Imagem: Google imagens
Concorda? Porquê?

26.2.10

Números que dão que pensar...

"Ajuda-nos a ajudar" é o slogan do projecto "Feira Solidária" de um grupo de alunos da turma D do décimo segundo ano da nossa escola. Este projecto que foi hoje apresentado à comunidade, enquadra-se no Ano Europeu do Combate à Pobreza e vai dinamizar várias actividades no Externato Cooperativo da Benedita entre os dias 19 e 26 de Março. Fique atento, Ser solidário é um imperativo ético!

Vídeo apresentado durante a conferência de apresentação do projecto, retirado daqui.

A Ética é uma questão de emoções, de razão, ou ambas?

O Emotivismo é uma forma de subjectivismo moral que defende a ideia de que os nossos juízos morais exprimem apenas emoções e sentimentos não tendo por isso, valor de verdade. As nossas preferências valorativas não exprimem verdades ou falsidades são apenas exclamações. Foi defendida por filósofos como Charles Stevenson ou Bertrand Russel.
O livro "A Escolha de Sofia" foi escrito por William Styron, publicado em 1979 e editado entre nós pela Europa-América. Foi adaptado ao cinema em 1982 com Meryl Streep no principal papel, desempenho que lhe valeu o óscar para a melhor actriz. A acção passa-se em 1947 e relata o drama de uma mãe - Sofia Zawistowska - que vive atormentada pela "escolha" que tivera de fazer no campo de concentração de Auschwitz, enquanto prisioneira dos nazis. Um oficial nazi colocara-a perante o dilema de escolher o filho que seria salvo das câmaras de gás, condenando o outro a uma morte certa...
... Se ela recusasse escolher, ambos os filhos seriam mortos, se escolhesse, poderia salvar um dos dois. Acaba por salvar o filho mais forte que tinha melhor probabilidade de sobreviver, "condenando" assim a sua filha que era mais frágil. Sofia não ultrapassa a tragédia e acaba por suicidar-se mais tarde.
Esta história faz-nos reflectir sobre o papel das emoções e da razão em situações-limite (situações extremas como a que acabamos de descrever) em que somos obrigados a escolher e, qualquer que seja a opção, será sempre devastadora.

Será que os nossos juízos morais exprimem apenas emoções?
Não haverá juízos morais que podemos fazer sem exprimir qualquer emoção?
A "A escolha de Sofia" foi apenas baseada nas emoções?
Imagem do filme A Escolha de Sofia, Google Imagens

22.2.10

O que é um argumento moral? Como se avalia?

Usamos frequentemente juízos morais em diferentes situações do dia-a-dia, quando aprovamos ou não a conduta de um amigo, o comportamento de um político ou mesmo de um personagem de ficção. Na maioria dos casos, os juízos morais aplicam normas ou princípios morais a situações específicas. Para justificarmos racionalmente os nossos juízos, argumentamos, mas os argumentos morais têm características específicas, consideremos o seguinte exemplo:
1. Provocar sofrimento desnecessário, é moralmente errado.
2. Praticar a excisão é provocar sofrimento desnecessário.
3. Logo, a prática da excisão é moralmente errada.
A primeira premissa é um princípio moral específico, que é usado como critério normativo no argumento. A segunda premissa é constituída por uma proposição factual (juízo de facto) que pode ser confirmada ou refutada pela experiência, pelo conhecimento científico. A conclusão é um juízo moral que é inferido do encadeamento das premissas.
A discussão centra-se muitas vezes na proposição factual, na sua plausibilidade, mas pode haver também desacordo quanto ao princípio moral específico da premissa (é o caso do princípio como «a eutanásia é moralmente errada») e quanto aos conceitos utilizados. Por que razão tem de ser assim?
Imagine que ao argumento exposto faltava um princípio normativo (princípio moral específico), e que ficaria assim:
1. Muitos seres humanos têm sofrido desnecessariamente.
2. A prática da excisão provoca sofrimento desnecessário.
3. Logo, a prática da excisão é errada.
As premissas deste argumento descrevem factos (são juízos de facto) e a conclusão tem carácter normativo (diz-nos, não que algo é ou acontece, mas que é errado que algo - a prática de excisão - aconteça ou seja feita. As premissas não justificam a conclusão porque de premissas que descrevem coisas ou acontecimentos (descritivas), não é legítimo derivar uma conclusão de carácter moral (normativo).
A primeira objecção a este argumento seria esta: que algo aconteça não implica que deva acontecer. A segunda objecção é que a conclusão «a prática da excisão é errada» só seria logicamente aceitável se houvesse uma premissa normativa, o que não acontece.
Uma coisa é o que fazemos, outra o que devemos fazer. A uma proposição normativa deve contrapor-se - argumentando - outra proposição também normativa.
Fonte: Luís Rodrigues, Filosofia 10.º ano, volume 1, Plátano Editora

21.2.10

O valor de uma acção depende do número de pessoas que a pratica? (Conclusão)

" (…) É frequente associar "Toda a gente faz o mesmo" à ideia de que é impossível mudar o que quer que seja. A forma mais comum que este argumento assume é a seguinte: "Sempre foi, é e será assim!" O que se pretende dizer com isto, naturalmente, é que como algo sempre ocorreu de dada maneira no passado continuará a ocorrer dessa maneira daqui em diante, façam as pessoas o que fizerem. Este argumento indutivo deve ser persuasivo, uma vez que é tão frequentemente evocado. No entanto, a sua conclusão é falsa.
Se "Sempre foi, é e será assim!" fosse verdadeiro, o Boavista nunca teria ganho o campeonato. Este é um exemplo simples que mostra inequivocamente a falsidade da conclusão do "argumento imobilista". Ele mostra claramente que pelo facto de algo ter sido sempre de determinada maneira no passado, não se segue que continuará a ser no futuro. (…)
Há, no entanto, uma formulação desta ideia que requer mais atenção. Trata-se de quando se afirma, ou porque as coisas sempre serão como foram ou porque a tarefa é titânica, que o efeito da nossa acção individual é tão insignificante que não merece a pena fazer seja o que for. Este argumento tem constituído injustificadamente um dos maiores apelos à imobilidade. Contudo, muitas mudanças resultaram de iniciativas individuais ou de um pequeno número de pessoas, que ganharam aceitação geral. (…) Historicamente, o exemplo mais notável e mais importante é o de Jesus Cristo. Mas Cristo não é o único exemplo. A galeria é extensa: Sócrates, Buda, Alexandre, o Grande, Colombo, Infante D. Henrique, Copérnico, Descartes, Newton, Napoleão, Hitler, Darwin, Marx, os Wright, Einstein, Peter Singer e muitos mais. Note-se que muitos, talvez até a maior parte, eram simples indivíduos que não exerceram cargos de poder. (…)
Ao contrário do que o imobilista julga, a análise que fizemos do seu argumento revela que, mesmo em domínios em que as mudanças são lentas, elas têm existido. A maior parte dessas mudanças têm sido no sentido de tornar as sociedades humanas um pouco melhores. Infelizmente, essas conquistas não são irreversíveis e as mudanças também podem ser em sentido inverso, como o mostram a forma como as mulheres foram tratadas no Afeganistão durante o governo dos talibã ou as intenções recentes de reintroduzir a tortura como instrumento policial de investigação nos Estados Unidos.
Outra coisa que a análise parece deixar clara é que, para que a mudança exista, é preciso que nos esforcemos e empenhemos todos. Só com o nosso esforço contínuo e a luta por um pouco mais de justiça, podemos construir um mundo um pouco mais justo. Para esse fim, todas as vozes são precisas e a nossa pequena voz, ao contrário do que o imobilista pensa, é essencial. Ela é como uma gota que, sozinha é insignificante, mas que com as outras forma um oceano. E é preciso um oceano para tornar, progressivamente, o mundo um pouco melhor. "
Álvaro Nunes, "Toda a gente faz o mesmo", Parte II,
(texto adaptado)
Imagem: Google imagens

O valor de uma acção depende do número de pessoas que a pratica?

" (...) Tal como o facto de toda a gente fazer o mesmo não torna uma acção correcta, também o facto de ninguém, ou quase, praticar uma acção a torna incorrecta. Suponhamos que na comunidade esquimó onde toda a gente tem por tradição colocar os idosos na rua durante as noites de Inverno, alguém decide confortá-los, acarinhá-los e ajudá-los a passar o melhor possível os seus últimos dias de vida, à semelhança do que se faz na nossa sociedade. O facto de esta acção ser apenas praticada por um membro da comunidade torna-a errada? A resposta, claro, é não. Uma forma de conduta rara não é necessariamente uma forma de conduta errada. Muitas das práticas hoje comuns na sociedade ocidental começaram por ser defendidas e praticadas por um número muito restrito dos seus membros e só com o tempo ganharam aceitação geral. A conclusão a tirar é óbvia: a popularidade (ou a sua ausência) não é suficiente para decidir se uma acção é ou não correcta. A acção ou prática pode ser boa ou má, correcta ou incorrecta, mas não certamente por toda a gente proceder ― ou não ― dessa maneira. (…)"
Ler mais aqui.
Álvaro Nunes, "Toda a gente faz o mesmo", Parte II
(Texto adaptado)
Imagem: Google Imagens

20.2.10

É correcto fazer o que "toda a gente faz"?

"Antigamente os esquimós colocavam os seus anciãos na rua durante a noite e no Inverno quando estavam às portas da morte. Se um de nós, ao observar esta prática, perguntasse "Acha isto correcto?" e o esquimó respondesse "Toda a gente faz o mesmo", consideraríamos essa resposta satisfatória? Talvez a primeira coisa que sentíssemos fosse uma certa estranheza derivada de nos parecer que a resposta não respondia à pergunta. A pergunta não era acerca do número de pessoas que pratica a acção, mas da sua correcção. A resposta é, portanto, irrelevante para a questão.
Podemos explicar esta irrelevância com o facto de que o que foi pedido ao esquimó foi uma resposta de carácter normativo e não descritivo. Quando dizemos que "toda a gente faz o mesmo" estamos a descrever uma resposta comportamental a uma dada situação. Mas a resposta não devia descrever um estado de coisas (como as pessoas se comportam na situação X), mas o que devem fazer (como devem comportar-se na situação X). O facto de estarmos perante uma acção que não se enquadra nos padrões de comportamento da nossa sociedade, tornou evidente a irrelevância da resposta.
(...) "Toda a gente faz o mesmo" não está apenas a descrever um comportamento comum, está também a justificar esse comportamento com a norma moral de que é correcto fazer o que toda a gente faz. No entanto continuamos a sentir que há algo de profundamente errado com esta conduta. Porquê? (...)"
Continuar a ler, aqui
Álvaro Nunes, "Toda a gente faz o mesmo", Parte I, http://www.filedu.com/,
(texto adaptado)
Imagem: Google imagens

19.2.10

Os juízos morais são relativos?

Waris Dire é uma modelo somali que ficou conhecida por ser a primeira figura pública a admitir ter sido excisada e a denunciar esta prática cultural que continua, hoje, a mutilar e a matar milhares de raparigas. O seu livro "Flor do Deserto" é a obra mais conhecida sobre o tema. Em 2002, abandonou a passerelle, dedicando-se à fundação que criou para combater esta prática: a http://www.waris-dirie-foundation.com/en/
"A minha excisão fizera-me sofrer bastante, e no entanto tive sorte, as coisas podiam ter sido bem piores, como sucedia frequentemente com outras raparigas. (...)
Pouco me lembro da minha irmã Haleno. Eu devia ter três anos quando subitamente ela desapareceu; não compreendi o que lhe aconteceu. Mais tarde soube que a cigana a tinha excisado quando 'o momento especial' chegara, e Haleno sangrara até morrer. (...)
(...) Quando nos deslocávamos através da Somália, encontrávamos várias outras famílias e eu costumava brincar com as suas filhas. Mais tarde, quando voltávamos a encontrar-nos, algumas dessas raparigas já não existiam."

Waris Dirie, Flor do Deserto, Edições Asa, pág. 47 (texto adaptado)
O relativismo moral cultural é a tese segundo a qual o valor de verdade dos juízos morais é sempre relativo ao que, em cada sociedade, a maioria acredita ser verdadeiro ou falso. A existência de diferentes concepções sobre o que é certo ou errado implica que não há respostas objectivamente verdadeiras ou falsas às questões morais. A verdade moral, depende daquilo que numa determinada sociedade se considera bom ou mau. O argumento é o seguinte:
1. Em culturas diferentes as pessoas têm convicções morais diferentes.
2. Logo, as verdades morais são relativas à cultura.
Podemos aceitar o relativismo moral cultural, e condenar a prática da excisão?

18.2.10

"...Ciência sem ética pode ser uma tragédia"

"O investigador Manuel Sobrinho Simões, director do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP) falava a propósito da conferência que irá proferir hoje, no Porto, sobre «Novas respostas da ciência». (...) Em seu entender, "a resposta científica pode ser uma tragédia. Se não introduzirmos controlos éticos, por exemplo, vamos poder fazer melhoria genética das pessoas e isto, penso eu, não é desejável em termos da sociedade".
"Não me refiro a curar doenças e ao aconselhamento genético, mas sim aos pais que querem que os filhos sejam mais bonitos, mais inteligentes e tenham olhos azuis. É um desafio que se põe hoje à ciência e que tem de ser resolvido", frisou.
E questiona: "Será que este desafio interessa à sociedade? Será que a sociedade está disposta a tolerar a melhoria genética?" Sobrinho Simões considera que “o que tem graça, nas respostas da ciência, é que são muito inteligentes e eficientes, mas têm de ser enquadradas culturalmente e politicamente, senão podem contribuir para acelerar os desafios horrorosos com que a sociedade mundial se defronta hoje". Ler toda a notícia aqui.
In: Jornal CiênciaHoje

17.2.10

O que é a Ética?

"O que é a ética para quê estudá-la"? perguntam muitas vezes os nossos alunos...
A ética constitui a reflexão sobre o que é uma acção moralmente correcta, sobre o que devemos fazer, sobre os princípios das nossas acções e as consequências que delas resultam.
Uma reflexão sobre o tipo de pessoa que queremos ser e como devemos viver para consegui-lo, em suma, procura a resposta para a questão, o que é a vida boa?
A ética normativa responde à questão, o que é uma acção moralmente valiosa? O seu objectivo é descobrir os princípios, os critérios que nos permitem distinguir as acções moralmente correctas daquelas que o não são.
A metaética responde ao problema da justificação dos juízos morais procurando saber se em ética há juízos verdadeiros ou falsos. Se sim, saber se essa verdade é relativa (gostos, sentimentos, padrões morais aprovados em cada cultura) ou se há verdades morais objectivas no sentido em que são aceitáveis por todos.
A ética prática ou aplicada parte dos princípios e critérios gerais aplicando-os a problemas concretos como a clonagem, a guerra, a eutanásia,...
As teorias éticas são as respostas encontradas como resultado da reflexão cuidada e sistemática sobre os problemas éticos. Ajudam-nos a perceber como devemos agir, quais os nossos deveres fundamentais, como avaliar os nossos juízos morais, como estabelecer prioridades ao sermos confrontados com conflitos e dilemas de natureza moral.
Têm subjacentes princípios que usamos no dia-a-dia mesmo sem nos apercebermos como por exemplo, "de boas intenções está o inferno cheio", "as boas intenções fazem as boas acções"... permitem-nos avaliar, fundamentar e decidir nas várias situações da vida.
Para saber mais:

Fernando Savater, Ética para um jovem, Edição Dom Quixote
James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, Edição Gradiva - Colecção Filosofia Aberta




15.2.10

"Ciência e filosofia através da música"

"O projecto "Symphony of Science" foi idealizado por John Boswell (músico) como veículo para fazer chegar o conhecimento a uma audiência habitualmente arredada da área científica. Há cerca de dois meses começou a colocar 'clips' no YouTube. Já ultrapassou o milhão de visitantes."
In: Jornal Público online

O problema dos critérios valorativos - será a ética relativa?

Paul Gaugin, Donde vimos? O que somos? Para onde vamos? (1897)
"Sem Deus tudo seria permitido"
Fiódor Dostoiévski

"(...) A ideia de que a ética é apenas uma questão de convenções sociais atraiu sempre as pessoas educadas. Culturas diferentes têm códigos morais diferentes, diz-se, e pensar que há um padrão universal que se aplica em todas as épocas e lugares não passa de uma ingenuidade. É fácil encontrar exemplos. Nos países islâmicos, os homens podem ter mais do que uma mulher. Na Europa medieval, pensava-se que emprestar dinheiro a juros era pecado. Os povos nativos do Norte da Gronelândia por vezes abandonavam as pessoas velhas, deixando-as morrer de frio. Ao pensar em exemplos como estes, os antropólogos concordam há muito com a afirmação de Heródoto: «o costume é o rei de todos nós.»
Hoje a ideia de que a moralidade é um produto social é atraente por uma razão adicional. O multiculturalismo (...). Temos de evitar a suposição arrogante de que os nossos costumes são «certos» e de que os costumes dos outros povos são inferiores. Isto significa, em parte, que devemos abster-nos de fazer juízos morais sobre as outras culturas. Devemos adoptar uma política de vive e deixa viver.
Superficialmente, esta atitude parece esclarecida. de facto, a tolerância é uma virtude importante e é óbvio que muitas práticas culturais não passam de costumes sociais - (...)"
James Rachels, Problemas da Filosofia, Tradução de Pedro Galvão, Gradiva (2009), pp 237-238, (texto adaptado)

Vivemos num mundo multicultural e a tolerância é um valor que nos empenhamos em preservar. Diferentes culturas e diferentes pessoas discordam frequentemente acerca do que é bom ou mau, correcto ou incorrecto. O acordo sobre questões morais é difícil e as disputas por vezes terminam com frases como: "em ética cada um tem a sua opinião!" ou "é tudo muito relativo!"...
Será assim? Há ou não verdade e falsidade em assuntos morais? Se não houver, fará sentido dizer que uma crença moral é correcta ou incorrecta? Se houver verdade em questões morais, esta é objectiva e universal?... Ou é relativa? Será possível estabelecermos critérios objectivos e imparciais de moralidade, independentes do indivíduo, da sociedade e das suas crenças religiosas?

14.2.10

O que é a realidade?

Brian Green, físico e brilhante divulgador de ciência, explica-nos uma das mais interessantes teorias científicas, a teoria das supercordas, "A ideia de que minúsculos filamentos de energia a vibrar em 11 dimensões criam todas as partículas e forças no nosso universo."


Tradução de Sérgio Lopes