24.4.10

Revista Crítica - "Diálogo sobre a ética kantiana"

Paisagem alentejana
Excelente diálogo sobre a ética kantiana na revista Crítica:
"João: Estou profundamente desiludido com a teoria de Kant.

Francisca: Pois eu nunca engoli muito bem a ética kantiana. Dá excessiva importância à intenção, mas esquece-se de que na prática só temos acesso às consequências.

Maria: O quê? A mim parece-me uma excelente teoria. Julgo que o imperativo categórico ("Age unicamente de acordo com a máxima que te permita querer a sua transformação em lei universal") é realmente um princípio ético fundamental e universal. Fundamental porque é dele que brotam todos os nossos juízos morais, e universal porque qualquer agente racional tem de o aceitar. (...)"

Por Luis Veríssimo
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19.4.10

A insatisfação da Razão

Henri Matisse, Ícaro (1943)

"A essência do homem é sede de infinito "

David: Já leste os textos recomendados?

Ana: Claro! achei-os muito interessantes. Kant é mesmo um filósofo genial.

David: Explica lá então, por que razão não nos satisfazemos com as limitações do nosso conhecimento?

Ana: Como sabes, Kant defende que só podemos conhecer o que podemos intuir. Tudo começa com a intuição dos objectos no espaço e no tempo - as formas ou estruturas da sensibilidade. Por consequência, só intuímos realidades empíricas, aquelas que podemos perceber naquelas estruturas.

David: Estou a ver. Podes dar um exemplo?

Ana: Ouviste aquela moto que passou? A moto provocou em nós uma certa impressão, nós conseguimos situar o barulho e a visão da moto num certo espaço (a rua) e num certo tempo (dezasseis horas e cinco minutos). Só podemos intuir objectos que estejam no espaço e no tempo.

David: Pois... sendo assim, a sensibilidade desempenha um papel muito importante no conhecimento.

Ana: Claro! mas não é suficiente. Para haver conhecimento é preciso que o entendimento entre em cena. Por isso podemos dizer que todo o conhecimento começa com a experiência mas não deriva dela. A sensibilidade recebe as impressões e estabelece entre elas uma relação espácio-temporal mas não sabe explicar a razão, não estabelece uma relação de causa-efeito. Esta parte cabe ao entendimento.

David: Podes dar um exemplo?

Ana: Consideremos duas impressões sensíveis: o aumento da temperatura e a dilatação de um corpo. A sensibilidade recebe as impressões e estabelece uma sucessão temporal desconhecendo que estão necessariamente ligadas. Isto só acontece quando o entendimento aplica o conceito de causa, o qual permite estabelecer relações de dependência entre estes dois fenómenos. O conceito de causa é uma forma ou estrutura além de outras, com as quais o entendimento humano está equipado. Kant chama-lhes conceitos a priori ou categorias do entendimento.

David: Muito interessante. Continua.

Ana: Só podemos conhecer os dados sensíveis, os fenómenos. Mas pensar é diferente de conhecer. Nada nos impede de pensarmos noutras realidades, os númenos. O conhecimento é condicionado e limitado, mas isso não exclui a existência de uma realidade que não podemos conhecer. A realidade não se reduz ao mundo dos fenómenos, aos objectos que podemos conhecer estabelecendo relações de causa e efeito pelo entendimento. É legítimo pensar que existe muito mais.

David: É por isso que a nossa razão é por natureza insatisfeita, com vontade de conhecimento absoluto...

Ana: Isso mesmo, exige que continuemos além do condicionado e que procuremos a causa incondicionada - a causa última - independentemente da sua existência ou, da possibilidade de a razão a alcançar.

David: "Conhece como se fosse possível atingir o conhecimento absoluto"...

Ana: É isso tudo. A razão "empurra" o entendimento levando-o a estabelecer relações causais entre os fenómenos como se fosse possível prolongá-las até encontrar a causa incondicionada. Mas isso implicaria a possibilidade da razão conhecer além da realidade espácio-temporal, o que claramente não é possível. Contudo, a razão insatisfeita, procura incessantemente decifrar o enigma que é o universo na sua totalidade.

18.4.10

Conhecimento e justificação

Ana: Haverá alguma forma de as nossas crenças constituirem conhecimento sem recorrer à justificação última?
David: Sim. Por contacto directo, através dos sentidos, ou através de um argumento.
Ana: Pois, mas estes dois tipos de justificação são problemáticos, não asseguram a verdade da crença como bem observaram os cépticos.
David: Em parte é verdade, nós podemos ter duas situações. Ou a justificação implica a verdade, e a crença está justificada, se a justificação implicar uma prova infalível de verdade. Ou a justificação não implica necessariamente a verdade da crença. Neste caso, todas as justificações são falíveis e podem ser questionadas. Penso que esta segunda hipótese é mais plausível. Não é necessário termos provas infalíveis para termos conhecimento. Tanto Descartes como os cépticos radicais estavam enganados neste ponto.
Ana: Podes explicar?
David: Penso que as nossas crenças se inferem de outras crenças, mas, ao contrário do que pensavam os cépticos, todas estão justificadas. As diferentes crenças estão ligadas entre si, justificamos umas a partir de outras.
Ana: Podes dar um exemplo?
David: Olha justificamos a crença de que a água é H2O através da crença nas análises químicas da água, ou justificamos a queda de um lápis através da crença de que os corpos são atraídos para a Terra pela força da gravidade.
Ana: Estou a ver. O nosso conhecimento funciona como uma espécie de rede... como elos numa cadeia. Cada novo elo pressupõe outros elos já existentes.
David: Isso mesmo. Cada crença suporta e é suportada por outras. Formam sistemas corentes e consistentes que se justificam entre si. Quando uma crença se revela falsa é substituída por outra. Não recusamos todas as crenças em bloco nem poderíamos fazê-lo mesmo que quiséssemos.
Ana: Mas, nesse caso, falta ainda justificar a rede como um todo e como é que os nossos sistemas de crenças se ligam à realidade. Parece-me que há aqui alguma circularidade - damos como justificado o que ainda falta justificar -, além disso, podemos descobrir que afinal todo o modelo estava errado e... voltamos ao princípio.
David: Tens razão, há sempre esse risco, mas penso que não é razão para abandonarmos este ponto de vista.
Ana: Então explica.
David: O todo é superior à soma das partes e se o todo funcionar...., se explicar o que precisa ser explicado, então, penso que deixa de haver circularidade ou pelo menos fica bastante limitada.
Ana: Estou a ver. É como o sistema respiratório ou o sistema digestivo no nosso corpo.
David: Isso mesmo, os quais por sua vez se integram em sistemas mais complexos.
Ana: Interessante. Poderemos compreender o todo?
David: Infelizmente penso que não. Afinal a justificação tem de parar em algum ponto. Não podemos encontrar a justificação última. Isso deve-se à nossa natureza, como pensava Hume. Somos finitos!
Ana: É verdade. Mas por que razão, sendo seres finitos, temos esta necessidade de procurar as causas últimas? De almejar o infinito?
David: Essa é uma boa questão.... Talvez Kant tenha algo a dizer sobre o assunto.
Tocou para a entrada. A resposta a esta questão teria de ficar para depois.

10.4.10

Faz o que quiseres e tem uma vida boa


“Não há nada pior do que darmo-nos conta de estarmos a sabotar com os nossos próprios actos aquilo que na realidade queremos ser…
Porque – de onde vêm os remorsos? Para mim é claríssimo: da nossa liberdade. Se não fôssemos livres, não poderíamos sentir-nos culpados (nem orgulhosos, evidentemente) de nada e evitaríamos os remorsos. (…)

Responsabilidade é saber que cada um dos meus actos me vai construindo, inventando. Ao escolher aquilo que quero, vou-me transformando pouco a pouco. Todas as minhas decisões deixam a sua marca em mim antes de as deixarem no mundo que me rodeia. E, evidentemente, depois de aplicada a minha liberdade de ir-me construindo um rosto, já não posso assustar-me com o que vejo ao espelho quando me olho… Se ajo bem ser-me-á cada vez mais difícil agir mal (e inversamente, por infelicidade): assim, o ideal é irmos apanhando o vício… de viver bem. (…)

(…) o que interessa à ética, o que constitui a sua especialidade, é como viver bem a vida humana, a vida que decorre entre seres humanos. Se não soubermos como arranjar-nos para sobreviver frente aos perigos naturais, perderemos a vida, o que é, de certeza, muito aborrecido; mas se não fizermos ideia do que seja a ética, o que perdemos e desperdiçamos será a humanidade da nossa vida, e isso, francamente, também não tem graça nenhuma.”

Savater, Fernando, Ética para um jovem, Editorial Presença, Lisboa, 1995, pp. 74, 77 e 82.

9.4.10

O valor moral de uma acção depende da intenção ou das consequências?

"De boas intenções está o inferno cheio"
"As boas intenções fazem as boas acções"

Provébios Populares

" [Suponha] o caso seguinte: alguém tem em seu poder um bem alheio que lhe foi confiado em depósito pelo seu dono, que entretanto faleceu sem que os seus herdeiros saibam nem possam vir a saber nunca desse depósito.

(...) O possuidor desse depósito, exactamente nessa altura, caiu na ruína total, vendo a sua família, mulher e filhos aflitos e cheios de privações, e sabe que ao apropriar-se do depósito poderia livrar-se de privações num abrir e fechar de olhos.
Além disso, suponhamos que o nosso homem é filantropo e caritativo, enquanto os herdeiros são ricos e egoístas, e de tal modo gastadores que, acrescentar o depósito à sua fortuna seria como atirá-lo directamente ao mar."

I. Kant, Sobre o lugar comum: isso pode ser correcto em teoria, mas não vale na prática, AK, VIII, 286-287 (texto adaptado)

Como se deveria actuar numa situação extrema como a colocada por Kant?
O que é que está em jogo na tomada de decisão do indivíduo que tem o depósito em seu poder? Se só ele (e o legítimo proprietário entretanto falecido) sabe da existência do dito depósito, por que não apropriar-se dele? A quem terá de prestar contas? Vivendo a sua família um momento difícil de privações, não terá ele mais razões para se apropriar do depósito e solucionar os seus problemas? Além disso sendo uma pessoa caritativa, se ficar com o dinheiro não contribuirá mais para a felicidade comum?
Haverá alguma razão para não ficar com o dinheiro e o entregar aos herdeiros? Qual a hipótese mais plausível?

O problema da fundamentação da moral

Renné Magritte, 1963, A Grande Família
"A moral (ou ética) diz-nos como devemos viver ou o que temos de fazer para ter uma vida boa. Mas o que é realmente o bem? Há muitas coisas boas, evidentemente; mas haverá algo que possamos reconhecer que é um bem tão fundamental que todos os outros bens resultam de algum modo dele? O que poderá ser tal coisa?
E como devemos agir? Que princípio ou princípios fundamentais devem orientar a nossa acção? Quando dizemos que uma acção é correcta e outra incorrecta, qual é realmente a diferença entre a duas? Que critério nos permite dizer que uma é correcta e a outra não?
Perguntar pelo fundamento da moral é procurar saber duas coisas:
1. Qual o bem último?
2. O que faz uma acção ser correcta?
Por bem último entende-se o bem do qual os outros bens resultam. Por exemplo, o dinheiro não é o bem último, dado que só é um bem porque permite adquirir outros bens.
Immanuel Kant e John Stuart Mill respondem de formas diferentes a estes problemas. O primeiro defende uma ética deontológica, o segundo uma ética utilitarista."
Textos e Problemas de Filosofia, Organização de Aires Almeida e Desidério Murcho, 2006, Plátano Editora

8.4.10

David Hume, além da experiência dois...

Depois da conversa com o David, a Ana procurou arrumar algumas ideias...

Por que razão fazemos constantes inferências a partir de princípios que somos incapazes de fundamentar sem reservas? Não haverá outra forma de justificar as nossas crenças sem termos de recorrer ao seu fundamento último?


É um facto que algumas das nossas crenças estão justificadas (nem David Hume o nega), o mundo complexo em que vivemos, a experiência do dia-a-dia comprova-o, mas parece também claro que este conhecimento é impossível de fundamentar de modo absoluto, ao contrário do que pensava Descartes; nenhuma reflexão por mais radical que seja é capaz de o negar.


O mesmo não acontece com outras noções igualmente supostas por nós e que estão na base do nosso conhecimento. Supomos por exemplo, que os "Eus", as nossas mentes, são entidades que persistem através do tempo e da mudança, que no fundo de cada um de nós há uma substância que permanece inalterada, mas teremos alguma razão para pensar assim? Se não, como formamos esta ideia e porquê?

Se, por introspecção tentarmos compreendê-la, veremos apenas uma sucessão de impressões momentâneas e efémeras numa espécie de teatro em constante mudança. A introspecção não capta nada mais... vimos unidade apenas naquilo que é diversidade... E quanto ao mundo, teremos razões para pensar que é uniforme e estável?

Intuitivamente supomos que o mundo externo é feito de objectos estáveis. Mas aquilo de que temos experiência também é momentâneo e efémero. Logo, a nossa confiança intuitiva de que o mundo é feito de objectos distintos e contínuos não parece correcta, parece ser apenas formada pela nossa natureza, pelo modo como evoluímos.

Mas é inegável que há conhecimento, apesar de não podermos confiar absolutamente, nem na nossa mente nem no mundo.

Contudo, se partirmos do princípio de que o único fundamento seguro é a experiência - como pensava Hume-, temos de concluir que esse conhecimento é muito limitado, excluindo qualquer realidade metafísica.

David Hume, além da experiência...

Ana: Podes explicar-me em que experiência se baseia a noção de causalidade?
David: Se bem entendi, a noção de que há uma relação de causa e efeito entre os fenómenos deve-se à experiência de vermos repetidamente um certo tipo de objecto ou evento, relacionados. Esta experiência de contiguidade leva a mente a inferir um certo tipo de objecto ou evento sempre que tem a impressão do objecto ou evento que habitualmente o antecede.
Ana: É esse tipo de hábito que leva Hume a concluir que a causalidade não é mais do que essa conexão necessária que a experiência do passado formou em nós.
David: Isso mesmo, um hábito mental produzido por factos contingentes ligados ao funcionamento da natureza humana.
Ana: Podes dar um exemplo?
David: Olha o facto de termos experienciado muitas vezes que este banco em que nos sentamos suporta o nosso peso, ou o facto de experienciarmos muitas vezes que o arroz alimenta...
Ana: ... Mas estas são inferências indutivas.
David: Sim.
Ana: Por que razão pensamos assim?
David: Porque esperamos que casos futuros sejam semelhantes aos casos do passado e que o curso da Natureza continue uniformemente o mesmo.
Ana: Estou a ver, é o Princípio da Uniformidade da Natureza, tão caro à ciência e ao conhecimento de modo geral. Temos alguma justificação para pensar assim?
David: Vejamos, em que permissa podemos apoiar a conclusão de que o que aconteceu no passado acontecerá no futuro?
Ana: Na premissa de que a Natureza tem sido uniforme nas nossas observações do passado.
David Pois, mas este argumento é indutivo e circular.
Ana: Será que uma justificação dedutiva seria mais adequada?
David: Não me parece. A razão é que o princípio da uniformidade da natureza não pode ser deduzido das observações do passado. Poderíamos tentar outro tipo de dedução, por exemplo procurar deduzi-lo dos termos em causa. Nesse caso seria uma verdade conceptual semelhante a: "os solteiros não são casados". Mas não há nenhuma contradição na suposição de que a natureza deixará subitamente de ser uniforme (o que contraria o princípio da dedução conceptual). Logo, esta tentativa também falha.
Ana: Então o que é o Princípio da Uniformidade da Natureza?
David: Mais uma vez temos de concluir simplesmente que se trata de um hábito mental, ainda que importante na aquisição de conhecimento. O que acontece é que a nossa natureza humana funciona assim, mas não podemos honestamente excluir a hipótese de que um dia deixe de funcionar desta forma.
Ana: Compreendo. Esta ideia é perturbadora. Parece que a possibilidade de conhecermos alguma coisa fica definitivamente comprometida.
David: Não na totalidade. O conhecimento com base na experiência empírica bem como o conhecimento analítico, são possíveis.
Ana: É verdade, mas Hume pensa que o conhecimento analítico não é substancial. O único conhecimento genuíno tem base na experiência e, esta, baseia-se na causalidade e no princípio da uniformidade da natureza.

7.4.10

Agostinho da Silva

Nasceu a 13 de Fevereiro de 1906 no Porto e faleceu em 3 de Abril de 1994, com 88 anos de idade. Além de professor, filósofo e investigador, Agostinho Baptista da Silva foi um grande escritor. No seu currículo constam mais de 60 obras.

Acima de tudo foi um livre pensador, exonerado do ensino público - durante o Estado Novo -, por se recusar a assinar um documento em que era suposto declarar que não pertencia a nenhuma sociedade secreta (lei Cabral, obrigatória para todos os funcionários públicos). Embora não fizesse parte de nenhuma sociedade desse género, recusou-se a assinar tal documento.
O excerto seguinte foi retirado do seu livro: "Sete cartas a um jovem filósofo":

"Do que você precisa, acima de tudo, é de não se lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles forem meus, não seus. Se o criador o tivesse querido juntar a mim não teríamos talvez dois corpos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem."
Ler mais sobre o autor aqui e aqui.


26.3.10

Existem factos morais?

Parece claro que não há factos morais no sentido em que há factos como os que são estudados pelas ciências da natureza. Não há uma realidade valorativa no sentido em que há rios e árvores nem é claro que a mesma exista na ausência de seres humanos.
Mas daí não se segue que não exista uma realidade moral. Essa realidade pode, por exemplo, ser semelhante à realidade matemática. Tal como a realidade dos números e das incógnitas se encontra ligada ao mundo e a tudo o que dele faz parte, também os valores se encontram ligados à realidade das coisas e fazem parte da nossa vida.
Defendo que existem factos morais neste sentido. Estes são expressos em proposições que exprimem a realidade como deve (deveria) ser. Procuram adequá-la ao ideal de uma vida boa e de um mundo melhor.
Terão valor de verdade? Penso que sim.
Resulta da consciencialização imparcial, do diálogo objectivo sobre os problemas da vida. O argumento em questão é o seguinte:
(1) A verdade dos juízos morais resulta da reflexão imparcial.
(2) Logo, os factos e juízos morais não dependem desta ou daquela pessoa ou sociedade, mas de todas as pessoas.
Quanto melhor fundamentado, mais plausível e mais objectivo é o juízo moral.
Esta posição tem vantagens em relação ao subjectivismo e ao relativismo moral, pois, ao afirmar que há valores que todos devem ter, como por exemplo o valor da preservação da vida ou o valor de não causar sofrimento desnecessário; esta posição permite a igualdade de todos os seres humanos à luz destes princípios. Negá-los é entrar em contradição. Negando-os aos outros estaremos a negá-los a nós próprios. A partir destes princípios, podem ser fundamentadas normas culturais, ou pessoais, mas mesmo estas devem ser avaliadas imparcialmente.
Contra esta ideia pode defender-se que cada pessoa tem a sua opinião e esta deve ser respeitada. Mas não se segue que a opinião de cada pessoa interfira com esta posição, pois é claro que todos pensam de forma diferente, e nem seria desejável que todos pensássemos de forma igual, ou que todas as diferenças culturais se desvanecessem. Apenas devemos fazer uma reflexão imparcial sobre as nossas crenças e as crenças dos outros. Porque as crenças não são todas verdadeiras, não estão todas ao mesmo nível, e todos podemos beneficiar desta reflexão.
Ana Faustino
10.º D

24.3.10

Aprender...

Em época de avaliações, vale a pena lembrar que aprender exige persistência e trabalho. A magia vem depois. O mais importante é não desistir dos sonhos, mesmo quando os resultados não são os melhores.


Fonte: eduforum.pt

21.3.10

Humanidade - generalização precipitada

Implicações "intoleráveis" da tolerância

O argumento da tolerância é, para quem defende o relativismo moral cultural - teoria metaética segundo a qual os factos morais são instituídos pela sociedade variando de sociedade para sociedade e de época para época -, um factor de coesão e respeito entre culturas. Mas o mesmo é contraditório. Se a maioria das pessoas de uma cultura for intolerante para com outra, para sermos coerentes teríamos de aceitar e tolerar a intolerância como sendo correcta. Teríamos de aceitar a intolerância em nome da tolerância.
Mas alguns actos não são toleráveis como por exemplo o terrorismo. Por isso o relativismo moral cultural é inconsistente e auto-refutante. Poderíamos pensar que, para quem defende o terrorismo ele é correcto e que, o defensor do terrorismo não é incoerente uma vez que poderá estar disposto a ser um mártir. Ainda assim, do facto de estar disposto a sacrificar-se, não se segue que os outros tenham também de se sacrificar ou que seja correcto sacrificarem-se. O relativista tem de admitir que o que conta como correcto é o que a maioria da sociedade aprova. Por isso, das duas uma: ou o terrorismo só poderia ser exercido sobre os elementos da (s) sociedade (s) que o aprova, o que claramente não é o que o terrorista pretende; ou o relativista entra em contradição, uma vez que o juízo «o terrorismo é correcto», sendo moral, teria de ser considerado relativo. Mesmo que a premissa seja verdadeira, que seja verdade que «há culturas que aprovam o terrorismo» não se segue que a conclusão, «o terrorismo é correcto» também o seja.
A primeira é um juízo de facto, a segunda um juízo de valor.
O defensor do relativismo estaria assim a cometer dois erros: estaria a tirar uma conclusão sobre o que deve ser (verdade valorativa) daquilo que é (verdade de facto) e a pretender que uma verdade relativa (aquela que é defendida pelo relativismo) se transformasse numa verdade universal, o que é impossível do ponto de vista relativista, porque por definição, o relativismo defende a impossibilidade de haver verdades universais em ética.
João Rodrigues
10.º F

20.3.10

Em ética só há opiniões pessoais?

O subjectivismo moral é uma teoria metaética que defende que o valor de verdade dos juízos morais depende do ponto de vista de cada um. Ouvimos frequentemente que «cada um tem a sua opinião». É verdade que cada um tem a sua opinião, não é o direito das pessoas pensarem como pensam que está em causa, mas se aplicarmos este princípio à ética, implicaria que todos os juízos morais fossem verdadeiros, pois para cada sujeito que o faz, ele é verdadeiro. Sendo assim, não haveria a possibilidade de haver juízos morais falsos.
Mas é verdade que ninguém é infalível.
No entanto, se adoptarmos o subjectivismo estaremos a admitir o contrário, uma vez que todos estaremos moralmente certos, o mais lógico era afirmarmos que todos são infalíveis, porque não haveria critério para determinar se alguém tinha falhado. Isto é suficiente para mostrar que em ética não há apenas opiniões pessoais.
João Tato
10.º G

17.3.10

A Questão dos Critérios Valorativos



Mariana: Sabes que nos Estados Unidos existem comunidades de Amishes, grupos de cristãos conservadores que vivem afastados da restante sociedade, ainda usam carros puxados por cavalos, vestem-se como os agricultores do séc. XVIII, não têm televisões, nem telefones, nem computadores; produzem tudo o que consomem, são agricultores, pastores, artesãos... Olha, como se vivessem há trezentos anos atrás, por exemplo. Não achas encantador?

Rui: Encantador? Ó Mariana, essa gente parou no tempo, tem um tipo de vida inaceitável nos dias de hoje, inconciliável com o mundo desenvolvido, civilizado.

Mariana: Não sei porque dizes isso. Levam uma vida simples, não prejudicam ninguém, por isso é lá com eles. Nós não temos nada que censurar. Acho que estás a ser intolerante.

Rui: Se calhar devemos ser intolerantes mesmo, nestes casos. Tu sabes que nessas comunidades os jovens não podem estudar para além daquilo que em Portugal corresponde ao ensino básico? Isto se for rapaz, porque as raparigas só podem andar na escola até aos doze anos o que as impede de aprender pouco mais do que a ler e a contar. Sabes que os casamentos são combinados entre as famílias e as raparigas são praticamente obrigadas a casar aos treze ou catorze anos e, obviamente, sempre com indivíduos da comunidade?
Não permitindo aos indivíduos nascidos nestas comunidades contactar com o exterior ou conhecer qualquer outra realidade social, condenam-nos a uma vida de total submissão social e religiosa e os que desobedecem são excomungados e expulsos da comunidade e então são lançados num mundo cujas regras e costumes desconhecem em absoluto. Não lhes é permitido nem conhecer, nem preparar-se para viver e trabalhar no mundo em que realmente vivem, como tu e eu. Isso é errado, imoral mesmo.

Mariana: Mais uma vez, só a eles lhes diz respeito. Esse modo de vida que tu consideras subdesenvolvido ou incivilizado e imoral está organizado segundo as suas regras, os seus valores morais e não segundo os nossos, que são para eles verdadeiros embora não o sejam para nós. O mesmo se passa com os nossos valores, só são verdades para nós. Os valores são relativos à cultura em que são produzidos, só nesse contexto podemos avaliar da sua verdade ou falsidade. Temos de os respeitar assim como eles têm de respeitar os nossos. Não vês que, neste domínio, é tudo muito relativo?

Rui: Bom, então diz-me uma coisa: Pelo que dissemos antes, reconheces que estes indivíduos não têm certos direitos que nós consideramos garantidos e que não aceitaríamos que nos fossem subtraídos na nossa sociedade?

Mariana: Exactamente, na nossa sociedade são situações moralmente inaceitáveis mas entre eles não.

Rui: Então diz-me uma coisa: Consideras que Declaração Universal dos Direitos Humanos consigna um conjunto de direitos de todos os homens e que devem ser universalmente respeitados ou…… relativamente?

Mariana: Hummm… Universalmente, claro!

Rui: E como concilias essa convicção com o que defendeste antes?

Mariana: A tua questão é, sem dúvida, pertinente. Tenho de pensar Rui. Gostei muito da nossa conversa.

Rui: Também eu, Mariana. Só o debate sobre estas questões nos permitirá esclarecê-las. Depois falamos outra vez.

Mariana: Falamos sim. E prometo-te que vou pensar muito bem nos teus argumentos.

Quem tem razão?

15.3.10

A importância do método e da clareza do pensamento

Descartes - As regras do método


Bertrand Russel - A importância da clareza do pensamento



Fonte: eduforum.pt. Site com materiais didácticos para todas as disciplinas.

10.3.10

Nova História da Filosofia

Informação da Editora Gradiva

NOVA HISTÓRIA DA FILOSOFIA OCIDENTAL
Sir Anthony Kenny

«Uma obra única e imprescindível»
«Um acontecimento editorial»

Lançamentos em Abril, Junho, Setembro e Novembro (4 volumes) - Traduzida por especialistas da área sob a direcção do professor Aires Almeida
«A primeira razão pela qual esta impressionante obra é um acontecimento editorial é que os leitores têm agora acesso a uma história da filosofia que apresenta os problemas, teorias e argumentos da área com aquela intensidade própria de quem os conhece por dentro, ao invés de os olhar de longe como artificialismos académicos ou escolares, descritos muitas vezes em linguagem pomposa e vazia.
A segunda razão é que o conhecimento que temos hoje da história da filosofia é muito mais rigoroso e vasto do que o que tínhamos há trinta ou quarenta anos, e Sir Anthony está a par desses desenvolvimentos – tendo até sido protagonista de alguns deles. Não se trata por isso de mais uma história da filosofia que repete os lugares-comuns infelizmente endémicos nas zonas mais fracas da cultura escolar e académica.
Por estas razões, entre outras – incluindo a iconografia inovadora – esta brilhante história da filosofia é leitura obrigatória e entusiasmante para estudantes e professores de filosofia, assim como para qualquer pessoa que queira conhecer um pouco mais esta imensa tradição intelectual com dois mil e quinhentos anos de existência, e que novos desenvolvimentos continua a trazer-nos hoje. A Gradiva e a «Filosofia Aberta» continuam assim a prestar ao país um serviço cultural e educativo mais importante do que quaisquer míticas avaliações de professores.»

Desidério Murcho, Universidade Federal de Ouro Preto

«Esta é uma obra que pouquíssimos se atreveriam a escrever. Sir Anthony Kenny, um dos mais reputados filósofos actuais, dedicou alguns anos a ler directamente os grandes filósofos e a acompanhar os debates por eles suscitados, daí resultando uma história da filosofia verdadeiramente filosófica, informativa e refrescante, onde não se encontram os lugares-comuns e as ideias feitas do costume.
Aliando o melhor rigor académico à clareza de exposição e à capacidade para envolver o leitor nas discussões filosóficas, esta obra revela-nos uma história de cerca de dois mil e quinhentos anos que, ao contrário do que tantas vezes parece, está longe de ser uma mera colecção de ideias de museu.
O autor não se limita a apresentar e explicar as ideias e teorias dos filósofos, inserindo-as de forma esclarecedora no seu contexto histórico e cultural. Isto constitui uma das duas partes em que cada um dos quatro volumes está dividido. A segunda parte é dedicada à elucidação, discussão e avaliação dos argumentos que sustentam essas ideias e teorias, adoptando-se aí um tratamento temático e estritamente filosófico. Assim, esta história da filosofia consegue ser útil tanto para quem está interessado numa abordagem mais histórica das ideias filosóficas como para quem está interessado numa discussão filosófica mais aprofundada.
Por isso se trata de uma obra única e imprescindível que, muito justamente, se está a tornar uma verdadeira referência na área.»

Aires Almeida, Professor de Filosofia