19.5.10

Filmes, algumas sugestões

Alguns filmes que podem ser úteis no âmbito dos trabalhos a realizar (11.º Ano)

A.I. (Inteligência Artificial) (2001) Steven Spielberg - Inteligência artificial:




Blade Runner (O caçador de andróides) (1982) de Ridley Scott - Inteligência Artificial



Home - O Mundo é a nossa casa (2009), Yann Arthus-Bertrand - A industrialização e o Impacto Ambiental:




The Island (A Ilha) 2005 de Michael Bay - A clonagem humana:




Mar Adentro (2007) Alejandro Amenábar - Eutanásia:


16.5.10

Paradoxo do hedonismo


"A maioria das pessoas não seria capaz de encontrar a felicidade ao decidir deliberadamente gozar a vida sem se preocupar com ninguém nem coisa alguma. Os prazeres assim obtidos pareceriam vazios e em pouco tempo tornar-se-iam insípidos. Procuramos um sentido para a vida que vá para além do prazer pessoal e sentimo-nos realizados e felizes quando fazemos as coisas que consideramos plenas de sentido. Se a nossa vida não tiver sentido algum além da nossa própria felicidade, é provável que, ao conseguirmos aquilo que julgamos necessário para essa felicidade, constatemos que a própria felicidade continua a escapar-nos.
Tem-se dado o nome de «paradoxo do hedonismo» ao facto de as pessoas que procuram a felicidade pela felicidade quase nunca a conseguirem encontrar, ao passo que outras a encontram numa busca de objectivos totalmente diferentes. Não se trata, por certo, de um paradoxo lógico, mas de uma tese sobre o modo pelo qual chegamos a ser felizes. A exemplo de outras generalizações sobre esse tema, falta-lhe confirmação empírica. Contudo, vai ao encontro das nossas observações quotidianas e é coerente com a nossa natureza de seres desenvolvidos e dotados de um propósito consciente."
Peter Singer, Ética Prática, Gradiva, 1993, tradução de Álvaro Augusto Fernandes, pág. 357

15.5.10

O que fará uma vida ter sentido?

Jessica Watson, é uma jovem australiana com dezasseis anos que velejou sózinha à volta ao mundo durante sete meses. Chegada a Sidney, onde foi recebida como heroína nacional, recusou esse epíteto dizendo sentir-se como qualquer pessoa que lutou para realizar um sonho. Considerando o esforço e as dificuldades vencidas, esta realização teve indiscutivelmente valor e deu sentido à sua vida.
E nós? O que fará as nossas vidas serem valiosas? O que fará uma vida ter sentido? Terá a vida um único sentido ou pelo contrário haverá vários sentidos incluindo a realização de vários objectivos com valor?
O carácter precário e vulnerável da existência humana, constantemente ameaçada deixando-nos impotentes perante a doença e a morte, a dificuldade de realizarmos muitos dos nossos objectivos, ou porque ultrapassam a nossa capacidade de realização ou porque podem a qualquer momento ser interrompidos por qualquer facto alheio à nossa vontade, leva muitas pessoas a pensar que tudo é vão e inútil, que a vida não tem sentido ou que este é muito limitado.
Para muitos de nós uma vida com sentido depende da existência de Deus e de uma vida para além da morte. Para outros, é mais importante envolvermo-nos em actividades objectivamente valiosas como as causas sociais, a procura de conhecimento ou a criação de obras de arte. Ter uma vida com sentido não passará também pela realização de actividades subjectivamente valiosas como a realização dos nossos sonhos e objectivos pessoais? Qual dos aspectos será mais importante, a subjectividade ou a objectividade? Serão compatíveis?

11.5.10

O problema do livre-arbítrio




Seremos uma engrenagem numa máquina física e determinista ou uma transgressão aleatória?

Um excerto do filme "Waking Life" (2001), de Richard Linklater, encontrado no blogue Dúvida metódica

9.5.10

Acaso ou necessidade?

Um conjunto de pequenos vídeos com interesse filosófico e tradução em português do Brasil, pode ser visto no astroPT e no YouTube

(Os vídeos com tradução em português foram retirados do YouTube. A ligação actual é em inglês)

Ciência e Moral

Pensamos por vezes que a ciência tendo como objectivo explicar o que "as coisas são", nada tem a dizer sobre como "as coisas devem ser", que no primeiro caso falamos de factos, no segundo de valores. Ora esta dicotomia (separação) pode ser perigosa em diversos sentidos, um deles prende-se com a ideia de que o conhecimento não nos ajuda a ser melhores ...
Sam Harris, argumenta neste vídeo a favor da ideia de que a ciência, os factos, são fundamentais no esclarecimento do que deve ser uma vida boa.


Pode ser visto com tradução em português clicando em View subtitles.
Fonte: Ted.com, tradução para português por Isabel Belchior

4.5.10

"Medeia" - A nova peça dos Gambuzinos

Sábado, dia 8 de Maio, o grupo de teatro "Os Gambuzinos", estreia a peça: "Medeia" no Centro Cultural Gonçalves Sapinho.


SINOPSE:
" Eurípedes, dramaturgo da Grécia antiga, constrói o retrato psicológico de Medeia,
numa das mais duras e impressionantes tragédias da dramaturgia universal.
Medeia, oscila entre o amor e o ódio e ao ser traída pelo seu esposo Jasão
é acometida por uma fúria terrível que a leva a perpetrar uma terrífica e insana vingança.
A recriação poética de Sophia de Mello Breyner Andresen acentua a beleza trágica da peça. "

O dilema do prisioneiro

Vincent Van Gogh, Ronda dos prisioneiros (1890)

"(...) Suponha que vive numa sociedade totalitária e um dia, para sua grande surpresa, é detido e acusado de traição. A polícia afirma que tem conspirado contra o governo em conluio com um homem de nome Smith, que foi igualmente detido e está preso noutra cela. O interrogador exige a sua confissão. O leitor protesta a sua inocência; nem sequer conhece Smith. Mas isto de nada serve. Torna-se em breve claro que os seus captores não estão interessados na verdade; por razões que só eles conhecem, querem apenas condenar alguém. E propõem-lhe o acordo seguinte:
- Se Smith não confessar, mas o leitor confessar e testemunhar contra ele, será libertado. Poderá ir em liberdade, enquanto Smith, que não cooperou, ficará preso dez anos;

- Se Smith confessar e o leitor não o fizer, a situação ficará invertida - ele será libertado e o leitor condenado a dez anos;

- Se ambos confessarem, no entanto, cada um será condenado a cinco anos;

- Mas se nenhum confessar, não haverá provas suficientes para condenar qualquer dos dois. Poderão mantê-los detidos durante um ano, mas depois terão de libertá-los.

Por fim, comunicam-lhe que Smith teve a mesma proposta; mas o leitor não pode comunicar com ele e não tem maneira de saber o que Smith vai fazer.

O problema é o seguinte: partindo do princípio que o seu objectivo é passar o menor tempo possível na cadeia, o que deve fazer? Confessar ou não confessar? Para os objectivos deste problema o leitor deve esquecer ideias como as relativas a manter a sua dignidade, lutar pelos seus direitos e coisas do género. O problema não é sobre isso. Deve também esquecer a preocupação de ajudar Smith. Este problema diz estritamente respeito ao cálculo do que é do seu melhor interesse fazer. A questão é: O que poderá libertá-lo mais rapidamente? Confessar ou não confessar?

Pode parecer à primeira vista que a questão não pode ser respondida a menos que saibamos o que Smith vai fazer. Mas isso é uma ilusão. O problema tem uma solução perfeitamente clara: Faça Smith o que fizer, o leitor deve confessar. Isto pode ser demonstrado pelo seguinte raciocínio:

1. Ou Smith irá confessar ou não;

2. Suponhamos que Smith confessa. Então se o leitor confessar será condenado a cinco anos, enquanto se não confessar apanhará dez. Logo, se ele confessar, o leitor ficará melhor se confessar também;

3. Suponhamos por outro lado, que Smith não confessa. Nesse caso o leitor fica na seguinte posição: Se confessar será libertado, enquanto se não confessar ficará detido um ano. É claro, então, que mesmo que Smith não confesse será melhor para si fazê-lo;

4. Logo, o leitor deve confessar. Isso vai colocá-lo em liberdade mais cedo, independentemente do que Smith fizer.

(...) Partindo do princípio de que Smith não é estúpido, chegará [também] à conclusão, a partir do mesmo raciocínio, de que deve confessar. Assim, o resultado será que ambos vão confessar, e isto significa que ambos vão ser condenados a penas de cinco anos. Mas se tivessem ambos feito o contrário, cada um teria saído em liberdade ao fim de apenas um ano. É este o problema. Por terem procurado defender os seus próprios interesses, ambos acabam em piores circunstâncias do que se tivessem agido de forma diferente. É isto que faz do dilema do prisioneiro um dilema. É uma situação paradoxal. O leitor e Smith obteriam melhores resultados se fizessem simultaneamente o que não corresponde aos melhores interesses individuais de cada um. (...)

O dilema do prisioneiro, apesar de fictício, ilustra o que se passa na vida real. Situações do tipo do dilema do prisioneiro ocorrem sempre que se verificam duas condições:

1. Tem de ser uma situação na qual os interesses das pessoas são afectados não apenas pelo que elas mesmas fazem mas também pelo que fazem aos outros; e

2. Tem de ser uma situação na qual, paradoxalmente, todos acabem pior se tentarem individualmente defender os seus próprios interesses do que se fizerem simultaneamente o que não serve os seus interesses individuais.

Este tipo de situação acontece na vida real com mais frequência do que poderíamos pensar.(...)"

James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, Gradiva (2004), pp. 209-211

3.5.10

Ética, Razão e Emoções

"[C]omo a moral influencia as acções e emoções, segue-se que não pode derivar da razão, pois a razão por si, como já provámos nunca pode exercer tal influência. A moral excita paixões e produz ou impede acções. A razão por si é totalmente impotente neste aspecto. Logo, as regras da moral não são conclusões da nossa razão.
Julgo que ninguém irá negar a correcção desta inferência, e a única maneira de a recusar é negar o princípio em que esta se baseia. Enquanto se admitir que a razão não exerce qualquer influência nas nossas paixões e acções, não vale a pena alegar que a moral é descoberta só através de uma dedução da razão. [...]
A razão é a descoberta da verdade ou falsidade. A verdade ou falsidade consiste num acordo ou desacordo [com a realidade]. Logo, aquilo que não é susceptível deste acordo ou desacordo não pode ser verdadeiro ou falso, e nunca pode ser objecto da nossa razão. Ora, é evidente que as nossas paixões, volições e acções não são susceptíveis de tal acordo ou desacordo - são factos e realidades originais, completas em si mesmas, e não implicam qualquer referência a outras paixões, volições e acções. Logo, não se podem considerar verdadeiras ou falsas, contrárias ou conformes à razão.
Este argumento serve de duas maneiras o nosso propósito. Prova directamente que as acções não têm valor por serem conformes à razão, nem desvalor por lhes serem contrárias; e prova a mesma verdade mais indirectamente, mostrando-nos que, como a razão não pode impedir ou produzir imediatamente qualquer acção, contradizendo-a ou aprovando-a, não pode ser a fonte da distinção entre o bem e o mal morais, que têm essa influência.
Logo, as distinções morais não resultam da razão. A razão é totalmente inactiva, e nunca pode ser a fonte de um princípio tão activo como a consciência ou sentido moral."
David Hume, Tratado sobre a Natureza Humana, 1740, tradução de Pedro Galvão, pp. 294-6
Terá David Hume razão? Qual o papel do amor, da amizade, dos sentimentos de modo geral, nas nossas escolhas morais? Será possível conciliar estes sentimentos com a ética deontológica de Kant? E com o utilitarismo de Stuart Mill?

24.4.10

Revista Crítica - "Diálogo sobre a ética kantiana"

Paisagem alentejana
Excelente diálogo sobre a ética kantiana na revista Crítica:
"João: Estou profundamente desiludido com a teoria de Kant.

Francisca: Pois eu nunca engoli muito bem a ética kantiana. Dá excessiva importância à intenção, mas esquece-se de que na prática só temos acesso às consequências.

Maria: O quê? A mim parece-me uma excelente teoria. Julgo que o imperativo categórico ("Age unicamente de acordo com a máxima que te permita querer a sua transformação em lei universal") é realmente um princípio ético fundamental e universal. Fundamental porque é dele que brotam todos os nossos juízos morais, e universal porque qualquer agente racional tem de o aceitar. (...)"

Por Luis Veríssimo
Continuar a ler.

19.4.10

A insatisfação da Razão

Henri Matisse, Ícaro (1943)

"A essência do homem é sede de infinito "

David: Já leste os textos recomendados?

Ana: Claro! achei-os muito interessantes. Kant é mesmo um filósofo genial.

David: Explica lá então, por que razão não nos satisfazemos com as limitações do nosso conhecimento?

Ana: Como sabes, Kant defende que só podemos conhecer o que podemos intuir. Tudo começa com a intuição dos objectos no espaço e no tempo - as formas ou estruturas da sensibilidade. Por consequência, só intuímos realidades empíricas, aquelas que podemos perceber naquelas estruturas.

David: Estou a ver. Podes dar um exemplo?

Ana: Ouviste aquela moto que passou? A moto provocou em nós uma certa impressão, nós conseguimos situar o barulho e a visão da moto num certo espaço (a rua) e num certo tempo (dezasseis horas e cinco minutos). Só podemos intuir objectos que estejam no espaço e no tempo.

David: Pois... sendo assim, a sensibilidade desempenha um papel muito importante no conhecimento.

Ana: Claro! mas não é suficiente. Para haver conhecimento é preciso que o entendimento entre em cena. Por isso podemos dizer que todo o conhecimento começa com a experiência mas não deriva dela. A sensibilidade recebe as impressões e estabelece entre elas uma relação espácio-temporal mas não sabe explicar a razão, não estabelece uma relação de causa-efeito. Esta parte cabe ao entendimento.

David: Podes dar um exemplo?

Ana: Consideremos duas impressões sensíveis: o aumento da temperatura e a dilatação de um corpo. A sensibilidade recebe as impressões e estabelece uma sucessão temporal desconhecendo que estão necessariamente ligadas. Isto só acontece quando o entendimento aplica o conceito de causa, o qual permite estabelecer relações de dependência entre estes dois fenómenos. O conceito de causa é uma forma ou estrutura além de outras, com as quais o entendimento humano está equipado. Kant chama-lhes conceitos a priori ou categorias do entendimento.

David: Muito interessante. Continua.

Ana: Só podemos conhecer os dados sensíveis, os fenómenos. Mas pensar é diferente de conhecer. Nada nos impede de pensarmos noutras realidades, os númenos. O conhecimento é condicionado e limitado, mas isso não exclui a existência de uma realidade que não podemos conhecer. A realidade não se reduz ao mundo dos fenómenos, aos objectos que podemos conhecer estabelecendo relações de causa e efeito pelo entendimento. É legítimo pensar que existe muito mais.

David: É por isso que a nossa razão é por natureza insatisfeita, com vontade de conhecimento absoluto...

Ana: Isso mesmo, exige que continuemos além do condicionado e que procuremos a causa incondicionada - a causa última - independentemente da sua existência ou, da possibilidade de a razão a alcançar.

David: "Conhece como se fosse possível atingir o conhecimento absoluto"...

Ana: É isso tudo. A razão "empurra" o entendimento levando-o a estabelecer relações causais entre os fenómenos como se fosse possível prolongá-las até encontrar a causa incondicionada. Mas isso implicaria a possibilidade da razão conhecer além da realidade espácio-temporal, o que claramente não é possível. Contudo, a razão insatisfeita, procura incessantemente decifrar o enigma que é o universo na sua totalidade.

18.4.10

Conhecimento e justificação

Ana: Haverá alguma forma de as nossas crenças constituirem conhecimento sem recorrer à justificação última?
David: Sim. Por contacto directo, através dos sentidos, ou através de um argumento.
Ana: Pois, mas estes dois tipos de justificação são problemáticos, não asseguram a verdade da crença como bem observaram os cépticos.
David: Em parte é verdade, nós podemos ter duas situações. Ou a justificação implica a verdade, e a crença está justificada, se a justificação implicar uma prova infalível de verdade. Ou a justificação não implica necessariamente a verdade da crença. Neste caso, todas as justificações são falíveis e podem ser questionadas. Penso que esta segunda hipótese é mais plausível. Não é necessário termos provas infalíveis para termos conhecimento. Tanto Descartes como os cépticos radicais estavam enganados neste ponto.
Ana: Podes explicar?
David: Penso que as nossas crenças se inferem de outras crenças, mas, ao contrário do que pensavam os cépticos, todas estão justificadas. As diferentes crenças estão ligadas entre si, justificamos umas a partir de outras.
Ana: Podes dar um exemplo?
David: Olha justificamos a crença de que a água é H2O através da crença nas análises químicas da água, ou justificamos a queda de um lápis através da crença de que os corpos são atraídos para a Terra pela força da gravidade.
Ana: Estou a ver. O nosso conhecimento funciona como uma espécie de rede... como elos numa cadeia. Cada novo elo pressupõe outros elos já existentes.
David: Isso mesmo. Cada crença suporta e é suportada por outras. Formam sistemas corentes e consistentes que se justificam entre si. Quando uma crença se revela falsa é substituída por outra. Não recusamos todas as crenças em bloco nem poderíamos fazê-lo mesmo que quiséssemos.
Ana: Mas, nesse caso, falta ainda justificar a rede como um todo e como é que os nossos sistemas de crenças se ligam à realidade. Parece-me que há aqui alguma circularidade - damos como justificado o que ainda falta justificar -, além disso, podemos descobrir que afinal todo o modelo estava errado e... voltamos ao princípio.
David: Tens razão, há sempre esse risco, mas penso que não é razão para abandonarmos este ponto de vista.
Ana: Então explica.
David: O todo é superior à soma das partes e se o todo funcionar...., se explicar o que precisa ser explicado, então, penso que deixa de haver circularidade ou pelo menos fica bastante limitada.
Ana: Estou a ver. É como o sistema respiratório ou o sistema digestivo no nosso corpo.
David: Isso mesmo, os quais por sua vez se integram em sistemas mais complexos.
Ana: Interessante. Poderemos compreender o todo?
David: Infelizmente penso que não. Afinal a justificação tem de parar em algum ponto. Não podemos encontrar a justificação última. Isso deve-se à nossa natureza, como pensava Hume. Somos finitos!
Ana: É verdade. Mas por que razão, sendo seres finitos, temos esta necessidade de procurar as causas últimas? De almejar o infinito?
David: Essa é uma boa questão.... Talvez Kant tenha algo a dizer sobre o assunto.
Tocou para a entrada. A resposta a esta questão teria de ficar para depois.

10.4.10

Faz o que quiseres e tem uma vida boa


“Não há nada pior do que darmo-nos conta de estarmos a sabotar com os nossos próprios actos aquilo que na realidade queremos ser…
Porque – de onde vêm os remorsos? Para mim é claríssimo: da nossa liberdade. Se não fôssemos livres, não poderíamos sentir-nos culpados (nem orgulhosos, evidentemente) de nada e evitaríamos os remorsos. (…)

Responsabilidade é saber que cada um dos meus actos me vai construindo, inventando. Ao escolher aquilo que quero, vou-me transformando pouco a pouco. Todas as minhas decisões deixam a sua marca em mim antes de as deixarem no mundo que me rodeia. E, evidentemente, depois de aplicada a minha liberdade de ir-me construindo um rosto, já não posso assustar-me com o que vejo ao espelho quando me olho… Se ajo bem ser-me-á cada vez mais difícil agir mal (e inversamente, por infelicidade): assim, o ideal é irmos apanhando o vício… de viver bem. (…)

(…) o que interessa à ética, o que constitui a sua especialidade, é como viver bem a vida humana, a vida que decorre entre seres humanos. Se não soubermos como arranjar-nos para sobreviver frente aos perigos naturais, perderemos a vida, o que é, de certeza, muito aborrecido; mas se não fizermos ideia do que seja a ética, o que perdemos e desperdiçamos será a humanidade da nossa vida, e isso, francamente, também não tem graça nenhuma.”

Savater, Fernando, Ética para um jovem, Editorial Presença, Lisboa, 1995, pp. 74, 77 e 82.

9.4.10

O valor moral de uma acção depende da intenção ou das consequências?

"De boas intenções está o inferno cheio"
"As boas intenções fazem as boas acções"

Provébios Populares

" [Suponha] o caso seguinte: alguém tem em seu poder um bem alheio que lhe foi confiado em depósito pelo seu dono, que entretanto faleceu sem que os seus herdeiros saibam nem possam vir a saber nunca desse depósito.

(...) O possuidor desse depósito, exactamente nessa altura, caiu na ruína total, vendo a sua família, mulher e filhos aflitos e cheios de privações, e sabe que ao apropriar-se do depósito poderia livrar-se de privações num abrir e fechar de olhos.
Além disso, suponhamos que o nosso homem é filantropo e caritativo, enquanto os herdeiros são ricos e egoístas, e de tal modo gastadores que, acrescentar o depósito à sua fortuna seria como atirá-lo directamente ao mar."

I. Kant, Sobre o lugar comum: isso pode ser correcto em teoria, mas não vale na prática, AK, VIII, 286-287 (texto adaptado)

Como se deveria actuar numa situação extrema como a colocada por Kant?
O que é que está em jogo na tomada de decisão do indivíduo que tem o depósito em seu poder? Se só ele (e o legítimo proprietário entretanto falecido) sabe da existência do dito depósito, por que não apropriar-se dele? A quem terá de prestar contas? Vivendo a sua família um momento difícil de privações, não terá ele mais razões para se apropriar do depósito e solucionar os seus problemas? Além disso sendo uma pessoa caritativa, se ficar com o dinheiro não contribuirá mais para a felicidade comum?
Haverá alguma razão para não ficar com o dinheiro e o entregar aos herdeiros? Qual a hipótese mais plausível?

O problema da fundamentação da moral

Renné Magritte, 1963, A Grande Família
"A moral (ou ética) diz-nos como devemos viver ou o que temos de fazer para ter uma vida boa. Mas o que é realmente o bem? Há muitas coisas boas, evidentemente; mas haverá algo que possamos reconhecer que é um bem tão fundamental que todos os outros bens resultam de algum modo dele? O que poderá ser tal coisa?
E como devemos agir? Que princípio ou princípios fundamentais devem orientar a nossa acção? Quando dizemos que uma acção é correcta e outra incorrecta, qual é realmente a diferença entre a duas? Que critério nos permite dizer que uma é correcta e a outra não?
Perguntar pelo fundamento da moral é procurar saber duas coisas:
1. Qual o bem último?
2. O que faz uma acção ser correcta?
Por bem último entende-se o bem do qual os outros bens resultam. Por exemplo, o dinheiro não é o bem último, dado que só é um bem porque permite adquirir outros bens.
Immanuel Kant e John Stuart Mill respondem de formas diferentes a estes problemas. O primeiro defende uma ética deontológica, o segundo uma ética utilitarista."
Textos e Problemas de Filosofia, Organização de Aires Almeida e Desidério Murcho, 2006, Plátano Editora

8.4.10

David Hume, além da experiência dois...

Depois da conversa com o David, a Ana procurou arrumar algumas ideias...

Por que razão fazemos constantes inferências a partir de princípios que somos incapazes de fundamentar sem reservas? Não haverá outra forma de justificar as nossas crenças sem termos de recorrer ao seu fundamento último?


É um facto que algumas das nossas crenças estão justificadas (nem David Hume o nega), o mundo complexo em que vivemos, a experiência do dia-a-dia comprova-o, mas parece também claro que este conhecimento é impossível de fundamentar de modo absoluto, ao contrário do que pensava Descartes; nenhuma reflexão por mais radical que seja é capaz de o negar.


O mesmo não acontece com outras noções igualmente supostas por nós e que estão na base do nosso conhecimento. Supomos por exemplo, que os "Eus", as nossas mentes, são entidades que persistem através do tempo e da mudança, que no fundo de cada um de nós há uma substância que permanece inalterada, mas teremos alguma razão para pensar assim? Se não, como formamos esta ideia e porquê?

Se, por introspecção tentarmos compreendê-la, veremos apenas uma sucessão de impressões momentâneas e efémeras numa espécie de teatro em constante mudança. A introspecção não capta nada mais... vimos unidade apenas naquilo que é diversidade... E quanto ao mundo, teremos razões para pensar que é uniforme e estável?

Intuitivamente supomos que o mundo externo é feito de objectos estáveis. Mas aquilo de que temos experiência também é momentâneo e efémero. Logo, a nossa confiança intuitiva de que o mundo é feito de objectos distintos e contínuos não parece correcta, parece ser apenas formada pela nossa natureza, pelo modo como evoluímos.

Mas é inegável que há conhecimento, apesar de não podermos confiar absolutamente, nem na nossa mente nem no mundo.

Contudo, se partirmos do princípio de que o único fundamento seguro é a experiência - como pensava Hume-, temos de concluir que esse conhecimento é muito limitado, excluindo qualquer realidade metafísica.

David Hume, além da experiência...

Ana: Podes explicar-me em que experiência se baseia a noção de causalidade?
David: Se bem entendi, a noção de que há uma relação de causa e efeito entre os fenómenos deve-se à experiência de vermos repetidamente um certo tipo de objecto ou evento, relacionados. Esta experiência de contiguidade leva a mente a inferir um certo tipo de objecto ou evento sempre que tem a impressão do objecto ou evento que habitualmente o antecede.
Ana: É esse tipo de hábito que leva Hume a concluir que a causalidade não é mais do que essa conexão necessária que a experiência do passado formou em nós.
David: Isso mesmo, um hábito mental produzido por factos contingentes ligados ao funcionamento da natureza humana.
Ana: Podes dar um exemplo?
David: Olha o facto de termos experienciado muitas vezes que este banco em que nos sentamos suporta o nosso peso, ou o facto de experienciarmos muitas vezes que o arroz alimenta...
Ana: ... Mas estas são inferências indutivas.
David: Sim.
Ana: Por que razão pensamos assim?
David: Porque esperamos que casos futuros sejam semelhantes aos casos do passado e que o curso da Natureza continue uniformemente o mesmo.
Ana: Estou a ver, é o Princípio da Uniformidade da Natureza, tão caro à ciência e ao conhecimento de modo geral. Temos alguma justificação para pensar assim?
David: Vejamos, em que permissa podemos apoiar a conclusão de que o que aconteceu no passado acontecerá no futuro?
Ana: Na premissa de que a Natureza tem sido uniforme nas nossas observações do passado.
David Pois, mas este argumento é indutivo e circular.
Ana: Será que uma justificação dedutiva seria mais adequada?
David: Não me parece. A razão é que o princípio da uniformidade da natureza não pode ser deduzido das observações do passado. Poderíamos tentar outro tipo de dedução, por exemplo procurar deduzi-lo dos termos em causa. Nesse caso seria uma verdade conceptual semelhante a: "os solteiros não são casados". Mas não há nenhuma contradição na suposição de que a natureza deixará subitamente de ser uniforme (o que contraria o princípio da dedução conceptual). Logo, esta tentativa também falha.
Ana: Então o que é o Princípio da Uniformidade da Natureza?
David: Mais uma vez temos de concluir simplesmente que se trata de um hábito mental, ainda que importante na aquisição de conhecimento. O que acontece é que a nossa natureza humana funciona assim, mas não podemos honestamente excluir a hipótese de que um dia deixe de funcionar desta forma.
Ana: Compreendo. Esta ideia é perturbadora. Parece que a possibilidade de conhecermos alguma coisa fica definitivamente comprometida.
David: Não na totalidade. O conhecimento com base na experiência empírica bem como o conhecimento analítico, são possíveis.
Ana: É verdade, mas Hume pensa que o conhecimento analítico não é substancial. O único conhecimento genuíno tem base na experiência e, esta, baseia-se na causalidade e no princípio da uniformidade da natureza.

7.4.10

Agostinho da Silva

Nasceu a 13 de Fevereiro de 1906 no Porto e faleceu em 3 de Abril de 1994, com 88 anos de idade. Além de professor, filósofo e investigador, Agostinho Baptista da Silva foi um grande escritor. No seu currículo constam mais de 60 obras.

Acima de tudo foi um livre pensador, exonerado do ensino público - durante o Estado Novo -, por se recusar a assinar um documento em que era suposto declarar que não pertencia a nenhuma sociedade secreta (lei Cabral, obrigatória para todos os funcionários públicos). Embora não fizesse parte de nenhuma sociedade desse género, recusou-se a assinar tal documento.
O excerto seguinte foi retirado do seu livro: "Sete cartas a um jovem filósofo":

"Do que você precisa, acima de tudo, é de não se lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles forem meus, não seus. Se o criador o tivesse querido juntar a mim não teríamos talvez dois corpos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem."
Ler mais sobre o autor aqui e aqui.