7.6.10

Das explicações míticas às explicações racionais

Palestra de David Deutsch, físico israelita, professor na universidade de Oxford, sobre a diferença entre as explicações mitológicas e as explicações científicas e o modo como isso "mudou o mundo". Pode ser visto em português do Brasil com tradução de Durval Castro.

6.6.10

Popper e a aproximação à verdade

Para Popper nunca se poderá dizer que uma teoria é completamente verídica. Mesmo sabendo que existem teorias com enorme grau de eficácia, está provado que, mesmo as que mostram ser mais fortes podem a qualquer momento ser refutadas originando novas incertezas e problemas, dos quais, porventura, resultarão novas teorias. Este processo irá durar indefinidamente e infinitamente. No entanto, Popper defende também que a ciência caminha constantemente em direcção à verdade, e mesmo que a ciência actual contenha teorias que venham a revelar-se falsas, a aproximação à verdade é cada vez maior, já que o paradigma heliocêntrico por exemplo, revela uma maior aproximação à verdade do que o paradigma geocêntrico. Ou seja, através da ciência atingimos sempre o progresso.
Concordo com a defesa de que nunca poderemos afirmar que uma teoria é totalmente verdadeira, uma vez que a história nos mostra isso mesmo, como podemos observar a teoria geocêntrica de Cláudio Ptolomeu durante muitos anos foi dada como irrefutável, e mais tarde foi rejeitada a favor da teoria heliocêntrica proposta por Nicolau Copérnico. Também a ideia de que diversas espécies de seres vivos que habitaram o mundo foram criadas separadamente foi abandonada a favor da teoria de Charles Darwin. E como estas muitas mais, que apesar de terem resistido durante vários anos, acabaram por "sucumbir" ao avanço da ciência. Mas acho difícil aceitar uma teoria com a ideia de que mais tarde ou mais cedo será refutada, pois isso implicaria uma desconfiança inaceitável em relação à ciência. Como poderíamos confiar, por exemplo, que um avião nos transportará em segurança, se não confiássemos na verdade das teorias que estão na base da sua construção e nos princípios físicos que o permitem voar?
Por outro lado, essa "desconfiança" não deve ser considerada um factor negativo, pois é a partir dela e do sentido crítico dos cientistas que se encontram as falsidades que cada teoria possui (ou não), e por consequência isso irá possibilitar um futuro avanço na ciência.
Apesar de tudo, julgo que temos razões mais do que suficientes para acreditar nas descobertas que vão sendo realizadas, porque revelam ser as que melhor se adequam à realidade, e tendo em conta o avanço da ciência ao longo dos últimos anos, é no mínimo aceitável que as consideremos menos vulneráveis a possíveis refutações comparativamente às que as sucederam.
Imagem retirada do Google: paisagem alentejana
Miguel Lameiras
11.ºD

5.6.10

Utilitarismo ou deontologia, qual a teoria mais plausível? (três)

O utilitarismo e a deontologia são insuficientes para justificar a moral
Nenhuma das perspectivas me parece plausível, no entanto, a perspectiva utilitarista parece ainda mais fraca do que a deontológica. Um utilitarista hedonista afirma que a finalidade da vida boa é o prazer enquanto bem-estar e que este é caracterizado pela quantidade e pela duração. Mas se o hedonismo fosse verdadeiro, as pessoas deveriam querer viver uma vida artificial se com isso pudessem usufruir de tudo o que a vida tem de aprazível. No entanto as pessoas não trocariam uma vida autêntica por uma vida artificial. Por isso o utilitarismo hedonista é falso. Por exemplo, alguém com o sonho de ser pianista - se o hedonismo fosse verdadeiro, deveria aceitar, caso fosse possível, uma vida artificial que lhe proporcionasse esse prazer. No entanto, isto é muito improvável porque o sonho de ser pianista implica outro tipo de coisas além do mero prazer de tocar, implica viver a realidade em vez de uma ilusão.
O utilitarismo de preferências, parece ter implicações ainda mais inaceitáveis. Esta posição defende que o bem-estar a ser promovido seria a satisfação dos desejos e preferências das pessoas. Mas se assim fosse, teríamos de aceitar atitudes intolerantes e fanáticas se estas resultassem das preferências da maioria. Assim sendo, o utilitarismo de preferências não é uma boa solução.
Para terminar, o utilitarismo também defende o consequencialismo. É boa a acção que produzir melhores consequências, que maximizar o bem. Porém, existem actos que podem maximizar o bem mas que são inaceitáveis. Por exemplo nunca é permissível sacrificar uma pessoa para o bem de um número maior de pessoas. Existem actos intrinsecamente bons (bons em si mesmos independentemente das consequências) e outros intrinsecamente maus, como bem observou Kant. Assim devemos realizar apenas os actos intrinsecamente bons e nunca os intrinsecamente maus.
A deontologia, defendida por Kant, afirma que só a intenção é que conta para determinar se um acto é bom ou mau. Eu não concordo com esta ideia, pois existem actos que, apesar da sua boa intenção produzem más consequências. Se queremos ajudar alguém porque sentimos esse dever e com isso acabamos por fazer mal embora esse mal não seja pretendido e seja um efeito colateral, essa acção não pode ser considerada moral apesar de a intenção ser boa. Quando por exemplo, numa situação de guerra uma bomba que era dirigida a um depósito de armas, acaba por matar crianças que brincavam alheias às guerras dos adultos, este acto nunca pode ser considerado moral.
João Ribeiro
10.º D

3.6.10

Utilitarismo ou deontologia, qual a teoria mais plausível?(dois)

Henri Matisse, A Dança (1910)

A deontologia não tem em conta as circunstâncias da vida
Os filósofos deontologistas como Kant, consideram que a moral é formal já que nos diz como deve ser o princípio que orienta a nossa acção, mas não o que devemos fazer. Agimos moralmente quando praticamos uma acção por dever, quando obedecemos à lei moral universal sem ter em conta fins exteriores. Agir moralmente é assim, agir de acordo com a vontade racional de cumprir o dever. É agir de acordo com uma vontade boa em sintonia com a lei que o homem descobre em si porque ela se lhe impõe como um mandamento imperativo.
Os utilitaristas entendem que as acções são justas quando conduzem à felicidade. Assim, o prazer enquanto ausência de dor, é o bem supremo. No entanto, diferenciam os prazeres a partir da experiência: há prazeres nobres e prazeres inferiores. A moral utilitarista reconhece que a representação racional do dever não pode ser o único motivo das nossas acções, a felicidade pessoal também é importante e deve ter o mesmo peso moral do que a felicidade dos outros.
Penso que esta perspectiva é mais adequada para fundamentar a moral do que a perspectiva deontológica.
A acção moral, formalmente justificada, conduzida pelo dever e pela intenção, implica um afastamento daquilo que é a vida do ser humano. As acções são realizadas em função de um princípio lógico sem conteúdo, afastando-se da vida real das pessoas, dos contextos que originam e explicam as acções. O utilitarismo surge assim como uma teoria que explica melhor os objectivos humanos. Penso que a finalidade da vida humana é ser feliz e diminuir o sofrimento no mundo. O homem age sempre (deve agir) com o objectivo de conseguir essa felicidade. A procura da maior felicidade possível, para o agente bem como para todos imparcialmente considerados, deve ser o guia das nossas acções em qualquer circunstância da vida.

Kevin Vicente
10.º F

Utilitarismo ou deontologia, qual a teoria mais plausível?


As nossas acções são como gotas num oceano...

O utilitarismo sacrifica o indivíduo
Um utilitarista defende que devemos promover imparcialmente o bem geral. Isso implica que temos de abdicar de certas liberdades. Uma delas é a consideração preferencial da nossa pessoa e da nossa família, esta é uma consequência da imparcialidade. Se a imparcialidade não tiver limites, então teremos de sacrificar muito daquilo que consideramos legítimo gastar connosco ou com as pessoas de quem gostamos. Uma simples ida ao cinema teria de ser criticamente reflectida para avaliarmos se o dinheiro do bilhete não seria melhor utilizado para ajudar a AMI por exemplo. Neste aspecto a deontologia é mais plausível. Segundo esta perspectiva devemos agir segundo máximas que possamos querer que todos adoptem, ou seja, que possam ser universalizadas. Assim, sem prejuízo de ajudarmos os outros de vez em quando, seria perfeitamente aceitável a ida ao cinema; porque seria no mínimo estranho, um mundo em que pudéssemos querer que todos deixassem de ir ao cinema ou comprar livros mesmo que essa atitude beneficiasse muita gente. Se assim fosse, o cinema e muitas outras coisas que apreciamos, deixariam de existir.
O utilitarismo é pouco plausível ainda, porque além de muito exigente, é também muito permissivo, pois permite que cada um de nós seja um mero instrumento para o bem comum. A deontologia não tem estas implicações uma vez que, ao agirmos pessoalmente baseados na racionalidade, podemos tornar essas acções universais sem nunca usar as pessoas como um mero meio, mas sempre como um fim em si mesmas, respeitando a sua dignidade. Ao adoptarmos esta teoria, estamos a contribuir não só para o nosso bem, mas também para o bem geral, de forma legítima e sem prescindir dos nossos objectivos pessoais, pois são esses aspectos singulares que definem a nossa personalidade.

Luís Jacinto
10.º D

29.5.10

Esta acção é errada ou isso "depende da opinião"?

«Ardi Rizal tem apenas dois anos, mas é já um campeão em maus hábitos. Sentado no seu carrinho de brincar preferido, fuma mais de 40 cigarros por dia. A criança, nascida na Indonésia, fumou o primeiro cigarro quando tinha 18 meses e a partir daí não largou mais o vício.

Foi o pai, Mohammed, quem lhe deu o primeiro cigarro. A mãe, Diana, diz: “é completamente viciado. Se não lhe damos cigarros, fica zangado, grita e bate com a cabeça nas paredes. Diz-me que se sente doente”.»
Ler mais.
Jornal ionline

23.5.10

Mais sugestões

Algumas leituras úteis na realização dos trabalhos de grupo. (11.º ano)

Helga Kuhse, tradução de Alvaro Nunes, Eutanásia
Neste blog, alguns posts com etiqueta Trabalhos dos alunos.
Outras sugestões serão bem-vindas.

19.5.10

Filmes, algumas sugestões

Alguns filmes que podem ser úteis no âmbito dos trabalhos a realizar (11.º Ano)

A.I. (Inteligência Artificial) (2001) Steven Spielberg - Inteligência artificial:




Blade Runner (O caçador de andróides) (1982) de Ridley Scott - Inteligência Artificial



Home - O Mundo é a nossa casa (2009), Yann Arthus-Bertrand - A industrialização e o Impacto Ambiental:




The Island (A Ilha) 2005 de Michael Bay - A clonagem humana:




Mar Adentro (2007) Alejandro Amenábar - Eutanásia:


16.5.10

Paradoxo do hedonismo


"A maioria das pessoas não seria capaz de encontrar a felicidade ao decidir deliberadamente gozar a vida sem se preocupar com ninguém nem coisa alguma. Os prazeres assim obtidos pareceriam vazios e em pouco tempo tornar-se-iam insípidos. Procuramos um sentido para a vida que vá para além do prazer pessoal e sentimo-nos realizados e felizes quando fazemos as coisas que consideramos plenas de sentido. Se a nossa vida não tiver sentido algum além da nossa própria felicidade, é provável que, ao conseguirmos aquilo que julgamos necessário para essa felicidade, constatemos que a própria felicidade continua a escapar-nos.
Tem-se dado o nome de «paradoxo do hedonismo» ao facto de as pessoas que procuram a felicidade pela felicidade quase nunca a conseguirem encontrar, ao passo que outras a encontram numa busca de objectivos totalmente diferentes. Não se trata, por certo, de um paradoxo lógico, mas de uma tese sobre o modo pelo qual chegamos a ser felizes. A exemplo de outras generalizações sobre esse tema, falta-lhe confirmação empírica. Contudo, vai ao encontro das nossas observações quotidianas e é coerente com a nossa natureza de seres desenvolvidos e dotados de um propósito consciente."
Peter Singer, Ética Prática, Gradiva, 1993, tradução de Álvaro Augusto Fernandes, pág. 357

15.5.10

O que fará uma vida ter sentido?

Jessica Watson, é uma jovem australiana com dezasseis anos que velejou sózinha à volta ao mundo durante sete meses. Chegada a Sidney, onde foi recebida como heroína nacional, recusou esse epíteto dizendo sentir-se como qualquer pessoa que lutou para realizar um sonho. Considerando o esforço e as dificuldades vencidas, esta realização teve indiscutivelmente valor e deu sentido à sua vida.
E nós? O que fará as nossas vidas serem valiosas? O que fará uma vida ter sentido? Terá a vida um único sentido ou pelo contrário haverá vários sentidos incluindo a realização de vários objectivos com valor?
O carácter precário e vulnerável da existência humana, constantemente ameaçada deixando-nos impotentes perante a doença e a morte, a dificuldade de realizarmos muitos dos nossos objectivos, ou porque ultrapassam a nossa capacidade de realização ou porque podem a qualquer momento ser interrompidos por qualquer facto alheio à nossa vontade, leva muitas pessoas a pensar que tudo é vão e inútil, que a vida não tem sentido ou que este é muito limitado.
Para muitos de nós uma vida com sentido depende da existência de Deus e de uma vida para além da morte. Para outros, é mais importante envolvermo-nos em actividades objectivamente valiosas como as causas sociais, a procura de conhecimento ou a criação de obras de arte. Ter uma vida com sentido não passará também pela realização de actividades subjectivamente valiosas como a realização dos nossos sonhos e objectivos pessoais? Qual dos aspectos será mais importante, a subjectividade ou a objectividade? Serão compatíveis?

11.5.10

O problema do livre-arbítrio




Seremos uma engrenagem numa máquina física e determinista ou uma transgressão aleatória?

Um excerto do filme "Waking Life" (2001), de Richard Linklater, encontrado no blogue Dúvida metódica

9.5.10

Acaso ou necessidade?

Um conjunto de pequenos vídeos com interesse filosófico e tradução em português do Brasil, pode ser visto no astroPT e no YouTube

(Os vídeos com tradução em português foram retirados do YouTube. A ligação actual é em inglês)

Ciência e Moral

Pensamos por vezes que a ciência tendo como objectivo explicar o que "as coisas são", nada tem a dizer sobre como "as coisas devem ser", que no primeiro caso falamos de factos, no segundo de valores. Ora esta dicotomia (separação) pode ser perigosa em diversos sentidos, um deles prende-se com a ideia de que o conhecimento não nos ajuda a ser melhores ...
Sam Harris, argumenta neste vídeo a favor da ideia de que a ciência, os factos, são fundamentais no esclarecimento do que deve ser uma vida boa.


Pode ser visto com tradução em português clicando em View subtitles.
Fonte: Ted.com, tradução para português por Isabel Belchior

4.5.10

"Medeia" - A nova peça dos Gambuzinos

Sábado, dia 8 de Maio, o grupo de teatro "Os Gambuzinos", estreia a peça: "Medeia" no Centro Cultural Gonçalves Sapinho.


SINOPSE:
" Eurípedes, dramaturgo da Grécia antiga, constrói o retrato psicológico de Medeia,
numa das mais duras e impressionantes tragédias da dramaturgia universal.
Medeia, oscila entre o amor e o ódio e ao ser traída pelo seu esposo Jasão
é acometida por uma fúria terrível que a leva a perpetrar uma terrífica e insana vingança.
A recriação poética de Sophia de Mello Breyner Andresen acentua a beleza trágica da peça. "

O dilema do prisioneiro

Vincent Van Gogh, Ronda dos prisioneiros (1890)

"(...) Suponha que vive numa sociedade totalitária e um dia, para sua grande surpresa, é detido e acusado de traição. A polícia afirma que tem conspirado contra o governo em conluio com um homem de nome Smith, que foi igualmente detido e está preso noutra cela. O interrogador exige a sua confissão. O leitor protesta a sua inocência; nem sequer conhece Smith. Mas isto de nada serve. Torna-se em breve claro que os seus captores não estão interessados na verdade; por razões que só eles conhecem, querem apenas condenar alguém. E propõem-lhe o acordo seguinte:
- Se Smith não confessar, mas o leitor confessar e testemunhar contra ele, será libertado. Poderá ir em liberdade, enquanto Smith, que não cooperou, ficará preso dez anos;

- Se Smith confessar e o leitor não o fizer, a situação ficará invertida - ele será libertado e o leitor condenado a dez anos;

- Se ambos confessarem, no entanto, cada um será condenado a cinco anos;

- Mas se nenhum confessar, não haverá provas suficientes para condenar qualquer dos dois. Poderão mantê-los detidos durante um ano, mas depois terão de libertá-los.

Por fim, comunicam-lhe que Smith teve a mesma proposta; mas o leitor não pode comunicar com ele e não tem maneira de saber o que Smith vai fazer.

O problema é o seguinte: partindo do princípio que o seu objectivo é passar o menor tempo possível na cadeia, o que deve fazer? Confessar ou não confessar? Para os objectivos deste problema o leitor deve esquecer ideias como as relativas a manter a sua dignidade, lutar pelos seus direitos e coisas do género. O problema não é sobre isso. Deve também esquecer a preocupação de ajudar Smith. Este problema diz estritamente respeito ao cálculo do que é do seu melhor interesse fazer. A questão é: O que poderá libertá-lo mais rapidamente? Confessar ou não confessar?

Pode parecer à primeira vista que a questão não pode ser respondida a menos que saibamos o que Smith vai fazer. Mas isso é uma ilusão. O problema tem uma solução perfeitamente clara: Faça Smith o que fizer, o leitor deve confessar. Isto pode ser demonstrado pelo seguinte raciocínio:

1. Ou Smith irá confessar ou não;

2. Suponhamos que Smith confessa. Então se o leitor confessar será condenado a cinco anos, enquanto se não confessar apanhará dez. Logo, se ele confessar, o leitor ficará melhor se confessar também;

3. Suponhamos por outro lado, que Smith não confessa. Nesse caso o leitor fica na seguinte posição: Se confessar será libertado, enquanto se não confessar ficará detido um ano. É claro, então, que mesmo que Smith não confesse será melhor para si fazê-lo;

4. Logo, o leitor deve confessar. Isso vai colocá-lo em liberdade mais cedo, independentemente do que Smith fizer.

(...) Partindo do princípio de que Smith não é estúpido, chegará [também] à conclusão, a partir do mesmo raciocínio, de que deve confessar. Assim, o resultado será que ambos vão confessar, e isto significa que ambos vão ser condenados a penas de cinco anos. Mas se tivessem ambos feito o contrário, cada um teria saído em liberdade ao fim de apenas um ano. É este o problema. Por terem procurado defender os seus próprios interesses, ambos acabam em piores circunstâncias do que se tivessem agido de forma diferente. É isto que faz do dilema do prisioneiro um dilema. É uma situação paradoxal. O leitor e Smith obteriam melhores resultados se fizessem simultaneamente o que não corresponde aos melhores interesses individuais de cada um. (...)

O dilema do prisioneiro, apesar de fictício, ilustra o que se passa na vida real. Situações do tipo do dilema do prisioneiro ocorrem sempre que se verificam duas condições:

1. Tem de ser uma situação na qual os interesses das pessoas são afectados não apenas pelo que elas mesmas fazem mas também pelo que fazem aos outros; e

2. Tem de ser uma situação na qual, paradoxalmente, todos acabem pior se tentarem individualmente defender os seus próprios interesses do que se fizerem simultaneamente o que não serve os seus interesses individuais.

Este tipo de situação acontece na vida real com mais frequência do que poderíamos pensar.(...)"

James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, Gradiva (2004), pp. 209-211

3.5.10

Ética, Razão e Emoções

"[C]omo a moral influencia as acções e emoções, segue-se que não pode derivar da razão, pois a razão por si, como já provámos nunca pode exercer tal influência. A moral excita paixões e produz ou impede acções. A razão por si é totalmente impotente neste aspecto. Logo, as regras da moral não são conclusões da nossa razão.
Julgo que ninguém irá negar a correcção desta inferência, e a única maneira de a recusar é negar o princípio em que esta se baseia. Enquanto se admitir que a razão não exerce qualquer influência nas nossas paixões e acções, não vale a pena alegar que a moral é descoberta só através de uma dedução da razão. [...]
A razão é a descoberta da verdade ou falsidade. A verdade ou falsidade consiste num acordo ou desacordo [com a realidade]. Logo, aquilo que não é susceptível deste acordo ou desacordo não pode ser verdadeiro ou falso, e nunca pode ser objecto da nossa razão. Ora, é evidente que as nossas paixões, volições e acções não são susceptíveis de tal acordo ou desacordo - são factos e realidades originais, completas em si mesmas, e não implicam qualquer referência a outras paixões, volições e acções. Logo, não se podem considerar verdadeiras ou falsas, contrárias ou conformes à razão.
Este argumento serve de duas maneiras o nosso propósito. Prova directamente que as acções não têm valor por serem conformes à razão, nem desvalor por lhes serem contrárias; e prova a mesma verdade mais indirectamente, mostrando-nos que, como a razão não pode impedir ou produzir imediatamente qualquer acção, contradizendo-a ou aprovando-a, não pode ser a fonte da distinção entre o bem e o mal morais, que têm essa influência.
Logo, as distinções morais não resultam da razão. A razão é totalmente inactiva, e nunca pode ser a fonte de um princípio tão activo como a consciência ou sentido moral."
David Hume, Tratado sobre a Natureza Humana, 1740, tradução de Pedro Galvão, pp. 294-6
Terá David Hume razão? Qual o papel do amor, da amizade, dos sentimentos de modo geral, nas nossas escolhas morais? Será possível conciliar estes sentimentos com a ética deontológica de Kant? E com o utilitarismo de Stuart Mill?

24.4.10

Revista Crítica - "Diálogo sobre a ética kantiana"

Paisagem alentejana
Excelente diálogo sobre a ética kantiana na revista Crítica:
"João: Estou profundamente desiludido com a teoria de Kant.

Francisca: Pois eu nunca engoli muito bem a ética kantiana. Dá excessiva importância à intenção, mas esquece-se de que na prática só temos acesso às consequências.

Maria: O quê? A mim parece-me uma excelente teoria. Julgo que o imperativo categórico ("Age unicamente de acordo com a máxima que te permita querer a sua transformação em lei universal") é realmente um princípio ético fundamental e universal. Fundamental porque é dele que brotam todos os nossos juízos morais, e universal porque qualquer agente racional tem de o aceitar. (...)"

Por Luis Veríssimo
Continuar a ler.

19.4.10

A insatisfação da Razão

Henri Matisse, Ícaro (1943)

"A essência do homem é sede de infinito "

David: Já leste os textos recomendados?

Ana: Claro! achei-os muito interessantes. Kant é mesmo um filósofo genial.

David: Explica lá então, por que razão não nos satisfazemos com as limitações do nosso conhecimento?

Ana: Como sabes, Kant defende que só podemos conhecer o que podemos intuir. Tudo começa com a intuição dos objectos no espaço e no tempo - as formas ou estruturas da sensibilidade. Por consequência, só intuímos realidades empíricas, aquelas que podemos perceber naquelas estruturas.

David: Estou a ver. Podes dar um exemplo?

Ana: Ouviste aquela moto que passou? A moto provocou em nós uma certa impressão, nós conseguimos situar o barulho e a visão da moto num certo espaço (a rua) e num certo tempo (dezasseis horas e cinco minutos). Só podemos intuir objectos que estejam no espaço e no tempo.

David: Pois... sendo assim, a sensibilidade desempenha um papel muito importante no conhecimento.

Ana: Claro! mas não é suficiente. Para haver conhecimento é preciso que o entendimento entre em cena. Por isso podemos dizer que todo o conhecimento começa com a experiência mas não deriva dela. A sensibilidade recebe as impressões e estabelece entre elas uma relação espácio-temporal mas não sabe explicar a razão, não estabelece uma relação de causa-efeito. Esta parte cabe ao entendimento.

David: Podes dar um exemplo?

Ana: Consideremos duas impressões sensíveis: o aumento da temperatura e a dilatação de um corpo. A sensibilidade recebe as impressões e estabelece uma sucessão temporal desconhecendo que estão necessariamente ligadas. Isto só acontece quando o entendimento aplica o conceito de causa, o qual permite estabelecer relações de dependência entre estes dois fenómenos. O conceito de causa é uma forma ou estrutura além de outras, com as quais o entendimento humano está equipado. Kant chama-lhes conceitos a priori ou categorias do entendimento.

David: Muito interessante. Continua.

Ana: Só podemos conhecer os dados sensíveis, os fenómenos. Mas pensar é diferente de conhecer. Nada nos impede de pensarmos noutras realidades, os númenos. O conhecimento é condicionado e limitado, mas isso não exclui a existência de uma realidade que não podemos conhecer. A realidade não se reduz ao mundo dos fenómenos, aos objectos que podemos conhecer estabelecendo relações de causa e efeito pelo entendimento. É legítimo pensar que existe muito mais.

David: É por isso que a nossa razão é por natureza insatisfeita, com vontade de conhecimento absoluto...

Ana: Isso mesmo, exige que continuemos além do condicionado e que procuremos a causa incondicionada - a causa última - independentemente da sua existência ou, da possibilidade de a razão a alcançar.

David: "Conhece como se fosse possível atingir o conhecimento absoluto"...

Ana: É isso tudo. A razão "empurra" o entendimento levando-o a estabelecer relações causais entre os fenómenos como se fosse possível prolongá-las até encontrar a causa incondicionada. Mas isso implicaria a possibilidade da razão conhecer além da realidade espácio-temporal, o que claramente não é possível. Contudo, a razão insatisfeita, procura incessantemente decifrar o enigma que é o universo na sua totalidade.

18.4.10

Conhecimento e justificação

Ana: Haverá alguma forma de as nossas crenças constituirem conhecimento sem recorrer à justificação última?
David: Sim. Por contacto directo, através dos sentidos, ou através de um argumento.
Ana: Pois, mas estes dois tipos de justificação são problemáticos, não asseguram a verdade da crença como bem observaram os cépticos.
David: Em parte é verdade, nós podemos ter duas situações. Ou a justificação implica a verdade, e a crença está justificada, se a justificação implicar uma prova infalível de verdade. Ou a justificação não implica necessariamente a verdade da crença. Neste caso, todas as justificações são falíveis e podem ser questionadas. Penso que esta segunda hipótese é mais plausível. Não é necessário termos provas infalíveis para termos conhecimento. Tanto Descartes como os cépticos radicais estavam enganados neste ponto.
Ana: Podes explicar?
David: Penso que as nossas crenças se inferem de outras crenças, mas, ao contrário do que pensavam os cépticos, todas estão justificadas. As diferentes crenças estão ligadas entre si, justificamos umas a partir de outras.
Ana: Podes dar um exemplo?
David: Olha justificamos a crença de que a água é H2O através da crença nas análises químicas da água, ou justificamos a queda de um lápis através da crença de que os corpos são atraídos para a Terra pela força da gravidade.
Ana: Estou a ver. O nosso conhecimento funciona como uma espécie de rede... como elos numa cadeia. Cada novo elo pressupõe outros elos já existentes.
David: Isso mesmo. Cada crença suporta e é suportada por outras. Formam sistemas corentes e consistentes que se justificam entre si. Quando uma crença se revela falsa é substituída por outra. Não recusamos todas as crenças em bloco nem poderíamos fazê-lo mesmo que quiséssemos.
Ana: Mas, nesse caso, falta ainda justificar a rede como um todo e como é que os nossos sistemas de crenças se ligam à realidade. Parece-me que há aqui alguma circularidade - damos como justificado o que ainda falta justificar -, além disso, podemos descobrir que afinal todo o modelo estava errado e... voltamos ao princípio.
David: Tens razão, há sempre esse risco, mas penso que não é razão para abandonarmos este ponto de vista.
Ana: Então explica.
David: O todo é superior à soma das partes e se o todo funcionar...., se explicar o que precisa ser explicado, então, penso que deixa de haver circularidade ou pelo menos fica bastante limitada.
Ana: Estou a ver. É como o sistema respiratório ou o sistema digestivo no nosso corpo.
David: Isso mesmo, os quais por sua vez se integram em sistemas mais complexos.
Ana: Interessante. Poderemos compreender o todo?
David: Infelizmente penso que não. Afinal a justificação tem de parar em algum ponto. Não podemos encontrar a justificação última. Isso deve-se à nossa natureza, como pensava Hume. Somos finitos!
Ana: É verdade. Mas por que razão, sendo seres finitos, temos esta necessidade de procurar as causas últimas? De almejar o infinito?
David: Essa é uma boa questão.... Talvez Kant tenha algo a dizer sobre o assunto.
Tocou para a entrada. A resposta a esta questão teria de ficar para depois.