16.6.10

Adolescência - Um cérebro diferente

"Por que é que os adolescentes são como são? Por que é que têm mudanças súbitas de humor, problemas de concentração, comportamentos de risco? Só muito recentemente é que os especialistas começaram a desvendar as bases neuronais destes autênticos enigmas."
Jornal Público online

A arte é expressão de sentimentos?

Para Leão Tolstoi, um dos grandes nomes da literatura russa do século XIX, uma obra é arte se, e só se, exprime os sentimentos e emoções do artista. Assim, a classificação de um objecto como arte teria de ser baseada na condição de uma pessoa - ao receber através da sua audição ou visão, a expressão do sentimento de outra pessoa - ser capaz de ter uma experiência emocional idêntica àquela que motivou o artista. Esta é a teoria da arte como expressão. Por concordarmos com esta teoria, vamos procurar responder às principais objecções que lhe são apontadas.
É importante que o artista transmita o que sente e imagina para o público. Mas, como é que nós, o público espectador, sabemos o que o artista pretende realmente transmitir? E se o artista não quis expressar sentimento nenhum? Muitos autores nem sequer pensaram em publicar a sua obra, como podemos explicar a intenção de expressar sentimentos?
Pensemos por exemplo no quadro “O Beijo”, conseguimos perfeitamente visualizar uma situação romântica, terna e bela... ou, por exemplo, o quadro Ecce Homo, que traduz uma força tão expressiva quanto o silêncio, o sofrimento e a dor de Jesus Cristo que se entrega a Deus… parece haver nestes sentimentos algo que todos compreendemos. Isto acontece com uma grande parte das obras de arte. Deste modo não podemos afirmar que o público não consegue saber o que o artista pretende transmitir. O que pode acontecer é sabê-lo de uma forma imperfeita, mas isso também acontece com o conhecimento, mesmo o conhecimento científico.
Outra objecção é a falta de abrangência da teoria, por não incluir muitas das obras que são consideradas arte e que não expressam qualquer sentimento. O artista poderia simplesmente não querer transmitir nada. Ora nós, seres humanos, temos várias maneiras de pensar, é compreensível que as nossas ideias sejam diferentes e que até tenhamos algumas ideias erradas. Assim, também os sentimentos que os artistas compartilham com o público, podem não ser expressos de uma forma que todos compreendam e ainda assim haver expressão de sentimentos. Um quadro completamente branco ou negro pode não transmitir nada, ou pode ainda ser interpretado como a expressão dos sentimentos do seu autor, os quais podem até ser inconscientes.
Outra dificuldade prende-se com o caso de o artista ser anónimo ou ter falecido, como podemos saber o que o artista realmente sentiu? Embora possa dificultar a compreensão, não é suficiente para enfraquecer a teoria, pois bastaria algum conhecimento relevante sobre o autor para avaliar os sentimentos por ele expressos na obra.
Podemos assim concluir que, a teoria da arte como expressão é uma teoria bastante plausível. Uma vez que, uma verdadeira obra de arte só é assim considerada se exprime sentimentos que podem ser ou não compatíveis com os sentimentos do público. Permite-nos compreender ainda, a razão pela qual consideramos a arte importante de modo geral e explica a ligação emocional que temos com ela. Por fim, é a teoria que nos parece mais abrangente por incluir a esmagadora maioria dos objectos estéticos que consideramos arte.
Imagens: Gustav Klimt, O Beijo (1907-08), Ecce Homo (1925)
Cláudia Marques, Marisa Machado, Raquel Gomes , Tatiana Tomaili
10.º G

14.6.10

Teremos a obrigação ética de ajudar quem vive na pobreza absoluta?

Entende-se por pobreza absoluta a ausência de rendimento suficiente em dinheiro ou em espécie para satisfazer as necessidades mais básicas de alimentação, vestuário e habitação. Além de ser a principal causa de sofrimento humano está na origem de muitas mortes prematuras, que podiam ser evitadas. Teremos alguma responsabilidade moral indirecta por estas mortes? Teremos a obrigação ética de ajudar quem vive na pobreza extrema? Devemos impedir alguma pobreza se pudermos fazê-lo?
A posição que defendemos é que temos a obrigação ética de ajudar os mais pobres, se pudermos evitar alguma pobreza, devemos fazê-lo. Esta posição foi anteriormente defendida por Peter Singer no seu livro Ética Prática. O argumento é o seguinte:
1. Se pudermos impedir que um mal aconteça sem sacrificarmos nada de importância moral comparável, devemos fazê-lo.
2. A pobreza absoluta é um mal.
3. Há pobreza absoluta que podemos evitar sem sacrificar nada de importância moral comparável.
4. Logo, temos a obrigação de ajudar os mais necessitados impedindo assim alguma pobreza absoluta.
Mas, se decidirmos não ajudar, não devemos ser julgados por isso, já que ajudar é um acto supererrogatório (um acto bom e desejável mas não obrigatório). Visto que os nossos bens resultaram do nosso esforço e do nosso trabalho, ao partilhá-los, estaremos a abdicar de algo legítimamente conquistado e que futuramente nos poderá fazer falta. Por isso a ajuda deve ter limites.
Contrariamente à nossa posição há quem pense que não devemos ajudar, pois essa ajuda pode ter consequências negativas. Garrett Hardin, um defensor desta ideia, diz-nos que se ajudarmos, isso poderá levar os governos desses países à desresponsabilização, dependendo cada vez mais das organizações de solidariedade e até ao aumento desenfreado da população o que causará ainda mais pobreza. Mas este argumento é superficial e não tem em conta as necessidades reais das pessoas. Se contribuirmos por exemplo, na educação, na luta contra a mortalidade infantil ou na criação de melhores infra-estruturas que ajudem as pessoas a tornar-se independentes a médio prazo, então os factos mostram que a população tem tendência a estabilizar e a tornar-se progressivamente auto-suficiente dependendo cada vez menos de ajudas exteriores.
Outra objecção à posição que defendemos é a ameaça à integridade pessoal e a violação do direito de propriedade daqueles que ajudam. Segundo este argumento, ajudar poderia colocar-nos a nós na situação de pobreza ameaçando a nossa integridade, visto termos de abdicar de grande parte dos projectos que nos fazem felizes. Mas este argumento não é forte pois pressupõe um tipo ilimitado de ajuda e não é isso que está em causa. A ajuda deve ser limitada de modo a não sacrificarmos a nossa dignidade e integridade. Estes limites devem ser traçados por quem ajuda dado que esta é um acto supererrogatório.
Finalmente, algumas pessoas argumentam que a responsabilização pelos males evitáveis decorrentes da pobreza é inadmissível uma vez que, se não fomos nós que os causamos, não podemos ser responsabilizados por eles.
É verdade que não somos responsáveis, mas não é de responsabilidade em sentido estrito que se trata. O dever de ajudar é um dever que decorre do valor da solidariedade,(a) vai além da responsabilidade pelas nossas escolhas individuais. É um dever que decorre de sermos pessoas. Somos seres livres e responsáveis pelas nossas acções e somos também pessoas. Se podemos evitar alguma pobreza, devemos fazê-lo.
Imagem encontrada no Google sem referência ao autor
Daniela Luís, Luís Silva e Sofia Santos
10.º D
(a) A este propósito veja-se os conceitos de reciprocidade/vulnerabilidade no artigo de Faustino Vaz, "A quem fazer o Bem?" na revista Crítica, publicado em data posterior a este texto.

7.6.10

Das explicações míticas às explicações racionais

Palestra de David Deutsch, físico israelita, professor na universidade de Oxford, sobre a diferença entre as explicações mitológicas e as explicações científicas e o modo como isso "mudou o mundo". Pode ser visto em português do Brasil com tradução de Durval Castro.

6.6.10

Popper e a aproximação à verdade

Para Popper nunca se poderá dizer que uma teoria é completamente verídica. Mesmo sabendo que existem teorias com enorme grau de eficácia, está provado que, mesmo as que mostram ser mais fortes podem a qualquer momento ser refutadas originando novas incertezas e problemas, dos quais, porventura, resultarão novas teorias. Este processo irá durar indefinidamente e infinitamente. No entanto, Popper defende também que a ciência caminha constantemente em direcção à verdade, e mesmo que a ciência actual contenha teorias que venham a revelar-se falsas, a aproximação à verdade é cada vez maior, já que o paradigma heliocêntrico por exemplo, revela uma maior aproximação à verdade do que o paradigma geocêntrico. Ou seja, através da ciência atingimos sempre o progresso.
Concordo com a defesa de que nunca poderemos afirmar que uma teoria é totalmente verdadeira, uma vez que a história nos mostra isso mesmo, como podemos observar a teoria geocêntrica de Cláudio Ptolomeu durante muitos anos foi dada como irrefutável, e mais tarde foi rejeitada a favor da teoria heliocêntrica proposta por Nicolau Copérnico. Também a ideia de que diversas espécies de seres vivos que habitaram o mundo foram criadas separadamente foi abandonada a favor da teoria de Charles Darwin. E como estas muitas mais, que apesar de terem resistido durante vários anos, acabaram por "sucumbir" ao avanço da ciência. Mas acho difícil aceitar uma teoria com a ideia de que mais tarde ou mais cedo será refutada, pois isso implicaria uma desconfiança inaceitável em relação à ciência. Como poderíamos confiar, por exemplo, que um avião nos transportará em segurança, se não confiássemos na verdade das teorias que estão na base da sua construção e nos princípios físicos que o permitem voar?
Por outro lado, essa "desconfiança" não deve ser considerada um factor negativo, pois é a partir dela e do sentido crítico dos cientistas que se encontram as falsidades que cada teoria possui (ou não), e por consequência isso irá possibilitar um futuro avanço na ciência.
Apesar de tudo, julgo que temos razões mais do que suficientes para acreditar nas descobertas que vão sendo realizadas, porque revelam ser as que melhor se adequam à realidade, e tendo em conta o avanço da ciência ao longo dos últimos anos, é no mínimo aceitável que as consideremos menos vulneráveis a possíveis refutações comparativamente às que as sucederam.
Imagem retirada do Google: paisagem alentejana
Miguel Lameiras
11.ºD

5.6.10

Utilitarismo ou deontologia, qual a teoria mais plausível? (três)

O utilitarismo e a deontologia são insuficientes para justificar a moral
Nenhuma das perspectivas me parece plausível, no entanto, a perspectiva utilitarista parece ainda mais fraca do que a deontológica. Um utilitarista hedonista afirma que a finalidade da vida boa é o prazer enquanto bem-estar e que este é caracterizado pela quantidade e pela duração. Mas se o hedonismo fosse verdadeiro, as pessoas deveriam querer viver uma vida artificial se com isso pudessem usufruir de tudo o que a vida tem de aprazível. No entanto as pessoas não trocariam uma vida autêntica por uma vida artificial. Por isso o utilitarismo hedonista é falso. Por exemplo, alguém com o sonho de ser pianista - se o hedonismo fosse verdadeiro, deveria aceitar, caso fosse possível, uma vida artificial que lhe proporcionasse esse prazer. No entanto, isto é muito improvável porque o sonho de ser pianista implica outro tipo de coisas além do mero prazer de tocar, implica viver a realidade em vez de uma ilusão.
O utilitarismo de preferências, parece ter implicações ainda mais inaceitáveis. Esta posição defende que o bem-estar a ser promovido seria a satisfação dos desejos e preferências das pessoas. Mas se assim fosse, teríamos de aceitar atitudes intolerantes e fanáticas se estas resultassem das preferências da maioria. Assim sendo, o utilitarismo de preferências não é uma boa solução.
Para terminar, o utilitarismo também defende o consequencialismo. É boa a acção que produzir melhores consequências, que maximizar o bem. Porém, existem actos que podem maximizar o bem mas que são inaceitáveis. Por exemplo nunca é permissível sacrificar uma pessoa para o bem de um número maior de pessoas. Existem actos intrinsecamente bons (bons em si mesmos independentemente das consequências) e outros intrinsecamente maus, como bem observou Kant. Assim devemos realizar apenas os actos intrinsecamente bons e nunca os intrinsecamente maus.
A deontologia, defendida por Kant, afirma que só a intenção é que conta para determinar se um acto é bom ou mau. Eu não concordo com esta ideia, pois existem actos que, apesar da sua boa intenção produzem más consequências. Se queremos ajudar alguém porque sentimos esse dever e com isso acabamos por fazer mal embora esse mal não seja pretendido e seja um efeito colateral, essa acção não pode ser considerada moral apesar de a intenção ser boa. Quando por exemplo, numa situação de guerra uma bomba que era dirigida a um depósito de armas, acaba por matar crianças que brincavam alheias às guerras dos adultos, este acto nunca pode ser considerado moral.
João Ribeiro
10.º D

3.6.10

Utilitarismo ou deontologia, qual a teoria mais plausível?(dois)

Henri Matisse, A Dança (1910)

A deontologia não tem em conta as circunstâncias da vida
Os filósofos deontologistas como Kant, consideram que a moral é formal já que nos diz como deve ser o princípio que orienta a nossa acção, mas não o que devemos fazer. Agimos moralmente quando praticamos uma acção por dever, quando obedecemos à lei moral universal sem ter em conta fins exteriores. Agir moralmente é assim, agir de acordo com a vontade racional de cumprir o dever. É agir de acordo com uma vontade boa em sintonia com a lei que o homem descobre em si porque ela se lhe impõe como um mandamento imperativo.
Os utilitaristas entendem que as acções são justas quando conduzem à felicidade. Assim, o prazer enquanto ausência de dor, é o bem supremo. No entanto, diferenciam os prazeres a partir da experiência: há prazeres nobres e prazeres inferiores. A moral utilitarista reconhece que a representação racional do dever não pode ser o único motivo das nossas acções, a felicidade pessoal também é importante e deve ter o mesmo peso moral do que a felicidade dos outros.
Penso que esta perspectiva é mais adequada para fundamentar a moral do que a perspectiva deontológica.
A acção moral, formalmente justificada, conduzida pelo dever e pela intenção, implica um afastamento daquilo que é a vida do ser humano. As acções são realizadas em função de um princípio lógico sem conteúdo, afastando-se da vida real das pessoas, dos contextos que originam e explicam as acções. O utilitarismo surge assim como uma teoria que explica melhor os objectivos humanos. Penso que a finalidade da vida humana é ser feliz e diminuir o sofrimento no mundo. O homem age sempre (deve agir) com o objectivo de conseguir essa felicidade. A procura da maior felicidade possível, para o agente bem como para todos imparcialmente considerados, deve ser o guia das nossas acções em qualquer circunstância da vida.

Kevin Vicente
10.º F

Utilitarismo ou deontologia, qual a teoria mais plausível?


As nossas acções são como gotas num oceano...

O utilitarismo sacrifica o indivíduo
Um utilitarista defende que devemos promover imparcialmente o bem geral. Isso implica que temos de abdicar de certas liberdades. Uma delas é a consideração preferencial da nossa pessoa e da nossa família, esta é uma consequência da imparcialidade. Se a imparcialidade não tiver limites, então teremos de sacrificar muito daquilo que consideramos legítimo gastar connosco ou com as pessoas de quem gostamos. Uma simples ida ao cinema teria de ser criticamente reflectida para avaliarmos se o dinheiro do bilhete não seria melhor utilizado para ajudar a AMI por exemplo. Neste aspecto a deontologia é mais plausível. Segundo esta perspectiva devemos agir segundo máximas que possamos querer que todos adoptem, ou seja, que possam ser universalizadas. Assim, sem prejuízo de ajudarmos os outros de vez em quando, seria perfeitamente aceitável a ida ao cinema; porque seria no mínimo estranho, um mundo em que pudéssemos querer que todos deixassem de ir ao cinema ou comprar livros mesmo que essa atitude beneficiasse muita gente. Se assim fosse, o cinema e muitas outras coisas que apreciamos, deixariam de existir.
O utilitarismo é pouco plausível ainda, porque além de muito exigente, é também muito permissivo, pois permite que cada um de nós seja um mero instrumento para o bem comum. A deontologia não tem estas implicações uma vez que, ao agirmos pessoalmente baseados na racionalidade, podemos tornar essas acções universais sem nunca usar as pessoas como um mero meio, mas sempre como um fim em si mesmas, respeitando a sua dignidade. Ao adoptarmos esta teoria, estamos a contribuir não só para o nosso bem, mas também para o bem geral, de forma legítima e sem prescindir dos nossos objectivos pessoais, pois são esses aspectos singulares que definem a nossa personalidade.

Luís Jacinto
10.º D

29.5.10

Esta acção é errada ou isso "depende da opinião"?

«Ardi Rizal tem apenas dois anos, mas é já um campeão em maus hábitos. Sentado no seu carrinho de brincar preferido, fuma mais de 40 cigarros por dia. A criança, nascida na Indonésia, fumou o primeiro cigarro quando tinha 18 meses e a partir daí não largou mais o vício.

Foi o pai, Mohammed, quem lhe deu o primeiro cigarro. A mãe, Diana, diz: “é completamente viciado. Se não lhe damos cigarros, fica zangado, grita e bate com a cabeça nas paredes. Diz-me que se sente doente”.»
Ler mais.
Jornal ionline

23.5.10

Mais sugestões

Algumas leituras úteis na realização dos trabalhos de grupo. (11.º ano)

Helga Kuhse, tradução de Alvaro Nunes, Eutanásia
Neste blog, alguns posts com etiqueta Trabalhos dos alunos.
Outras sugestões serão bem-vindas.

19.5.10

Filmes, algumas sugestões

Alguns filmes que podem ser úteis no âmbito dos trabalhos a realizar (11.º Ano)

A.I. (Inteligência Artificial) (2001) Steven Spielberg - Inteligência artificial:




Blade Runner (O caçador de andróides) (1982) de Ridley Scott - Inteligência Artificial



Home - O Mundo é a nossa casa (2009), Yann Arthus-Bertrand - A industrialização e o Impacto Ambiental:




The Island (A Ilha) 2005 de Michael Bay - A clonagem humana:




Mar Adentro (2007) Alejandro Amenábar - Eutanásia:


16.5.10

Paradoxo do hedonismo


"A maioria das pessoas não seria capaz de encontrar a felicidade ao decidir deliberadamente gozar a vida sem se preocupar com ninguém nem coisa alguma. Os prazeres assim obtidos pareceriam vazios e em pouco tempo tornar-se-iam insípidos. Procuramos um sentido para a vida que vá para além do prazer pessoal e sentimo-nos realizados e felizes quando fazemos as coisas que consideramos plenas de sentido. Se a nossa vida não tiver sentido algum além da nossa própria felicidade, é provável que, ao conseguirmos aquilo que julgamos necessário para essa felicidade, constatemos que a própria felicidade continua a escapar-nos.
Tem-se dado o nome de «paradoxo do hedonismo» ao facto de as pessoas que procuram a felicidade pela felicidade quase nunca a conseguirem encontrar, ao passo que outras a encontram numa busca de objectivos totalmente diferentes. Não se trata, por certo, de um paradoxo lógico, mas de uma tese sobre o modo pelo qual chegamos a ser felizes. A exemplo de outras generalizações sobre esse tema, falta-lhe confirmação empírica. Contudo, vai ao encontro das nossas observações quotidianas e é coerente com a nossa natureza de seres desenvolvidos e dotados de um propósito consciente."
Peter Singer, Ética Prática, Gradiva, 1993, tradução de Álvaro Augusto Fernandes, pág. 357

15.5.10

O que fará uma vida ter sentido?

Jessica Watson, é uma jovem australiana com dezasseis anos que velejou sózinha à volta ao mundo durante sete meses. Chegada a Sidney, onde foi recebida como heroína nacional, recusou esse epíteto dizendo sentir-se como qualquer pessoa que lutou para realizar um sonho. Considerando o esforço e as dificuldades vencidas, esta realização teve indiscutivelmente valor e deu sentido à sua vida.
E nós? O que fará as nossas vidas serem valiosas? O que fará uma vida ter sentido? Terá a vida um único sentido ou pelo contrário haverá vários sentidos incluindo a realização de vários objectivos com valor?
O carácter precário e vulnerável da existência humana, constantemente ameaçada deixando-nos impotentes perante a doença e a morte, a dificuldade de realizarmos muitos dos nossos objectivos, ou porque ultrapassam a nossa capacidade de realização ou porque podem a qualquer momento ser interrompidos por qualquer facto alheio à nossa vontade, leva muitas pessoas a pensar que tudo é vão e inútil, que a vida não tem sentido ou que este é muito limitado.
Para muitos de nós uma vida com sentido depende da existência de Deus e de uma vida para além da morte. Para outros, é mais importante envolvermo-nos em actividades objectivamente valiosas como as causas sociais, a procura de conhecimento ou a criação de obras de arte. Ter uma vida com sentido não passará também pela realização de actividades subjectivamente valiosas como a realização dos nossos sonhos e objectivos pessoais? Qual dos aspectos será mais importante, a subjectividade ou a objectividade? Serão compatíveis?

11.5.10

O problema do livre-arbítrio




Seremos uma engrenagem numa máquina física e determinista ou uma transgressão aleatória?

Um excerto do filme "Waking Life" (2001), de Richard Linklater, encontrado no blogue Dúvida metódica

9.5.10

Acaso ou necessidade?

Um conjunto de pequenos vídeos com interesse filosófico e tradução em português do Brasil, pode ser visto no astroPT e no YouTube

(Os vídeos com tradução em português foram retirados do YouTube. A ligação actual é em inglês)

Ciência e Moral

Pensamos por vezes que a ciência tendo como objectivo explicar o que "as coisas são", nada tem a dizer sobre como "as coisas devem ser", que no primeiro caso falamos de factos, no segundo de valores. Ora esta dicotomia (separação) pode ser perigosa em diversos sentidos, um deles prende-se com a ideia de que o conhecimento não nos ajuda a ser melhores ...
Sam Harris, argumenta neste vídeo a favor da ideia de que a ciência, os factos, são fundamentais no esclarecimento do que deve ser uma vida boa.


Pode ser visto com tradução em português clicando em View subtitles.
Fonte: Ted.com, tradução para português por Isabel Belchior

4.5.10

"Medeia" - A nova peça dos Gambuzinos

Sábado, dia 8 de Maio, o grupo de teatro "Os Gambuzinos", estreia a peça: "Medeia" no Centro Cultural Gonçalves Sapinho.


SINOPSE:
" Eurípedes, dramaturgo da Grécia antiga, constrói o retrato psicológico de Medeia,
numa das mais duras e impressionantes tragédias da dramaturgia universal.
Medeia, oscila entre o amor e o ódio e ao ser traída pelo seu esposo Jasão
é acometida por uma fúria terrível que a leva a perpetrar uma terrífica e insana vingança.
A recriação poética de Sophia de Mello Breyner Andresen acentua a beleza trágica da peça. "

O dilema do prisioneiro

Vincent Van Gogh, Ronda dos prisioneiros (1890)

"(...) Suponha que vive numa sociedade totalitária e um dia, para sua grande surpresa, é detido e acusado de traição. A polícia afirma que tem conspirado contra o governo em conluio com um homem de nome Smith, que foi igualmente detido e está preso noutra cela. O interrogador exige a sua confissão. O leitor protesta a sua inocência; nem sequer conhece Smith. Mas isto de nada serve. Torna-se em breve claro que os seus captores não estão interessados na verdade; por razões que só eles conhecem, querem apenas condenar alguém. E propõem-lhe o acordo seguinte:
- Se Smith não confessar, mas o leitor confessar e testemunhar contra ele, será libertado. Poderá ir em liberdade, enquanto Smith, que não cooperou, ficará preso dez anos;

- Se Smith confessar e o leitor não o fizer, a situação ficará invertida - ele será libertado e o leitor condenado a dez anos;

- Se ambos confessarem, no entanto, cada um será condenado a cinco anos;

- Mas se nenhum confessar, não haverá provas suficientes para condenar qualquer dos dois. Poderão mantê-los detidos durante um ano, mas depois terão de libertá-los.

Por fim, comunicam-lhe que Smith teve a mesma proposta; mas o leitor não pode comunicar com ele e não tem maneira de saber o que Smith vai fazer.

O problema é o seguinte: partindo do princípio que o seu objectivo é passar o menor tempo possível na cadeia, o que deve fazer? Confessar ou não confessar? Para os objectivos deste problema o leitor deve esquecer ideias como as relativas a manter a sua dignidade, lutar pelos seus direitos e coisas do género. O problema não é sobre isso. Deve também esquecer a preocupação de ajudar Smith. Este problema diz estritamente respeito ao cálculo do que é do seu melhor interesse fazer. A questão é: O que poderá libertá-lo mais rapidamente? Confessar ou não confessar?

Pode parecer à primeira vista que a questão não pode ser respondida a menos que saibamos o que Smith vai fazer. Mas isso é uma ilusão. O problema tem uma solução perfeitamente clara: Faça Smith o que fizer, o leitor deve confessar. Isto pode ser demonstrado pelo seguinte raciocínio:

1. Ou Smith irá confessar ou não;

2. Suponhamos que Smith confessa. Então se o leitor confessar será condenado a cinco anos, enquanto se não confessar apanhará dez. Logo, se ele confessar, o leitor ficará melhor se confessar também;

3. Suponhamos por outro lado, que Smith não confessa. Nesse caso o leitor fica na seguinte posição: Se confessar será libertado, enquanto se não confessar ficará detido um ano. É claro, então, que mesmo que Smith não confesse será melhor para si fazê-lo;

4. Logo, o leitor deve confessar. Isso vai colocá-lo em liberdade mais cedo, independentemente do que Smith fizer.

(...) Partindo do princípio de que Smith não é estúpido, chegará [também] à conclusão, a partir do mesmo raciocínio, de que deve confessar. Assim, o resultado será que ambos vão confessar, e isto significa que ambos vão ser condenados a penas de cinco anos. Mas se tivessem ambos feito o contrário, cada um teria saído em liberdade ao fim de apenas um ano. É este o problema. Por terem procurado defender os seus próprios interesses, ambos acabam em piores circunstâncias do que se tivessem agido de forma diferente. É isto que faz do dilema do prisioneiro um dilema. É uma situação paradoxal. O leitor e Smith obteriam melhores resultados se fizessem simultaneamente o que não corresponde aos melhores interesses individuais de cada um. (...)

O dilema do prisioneiro, apesar de fictício, ilustra o que se passa na vida real. Situações do tipo do dilema do prisioneiro ocorrem sempre que se verificam duas condições:

1. Tem de ser uma situação na qual os interesses das pessoas são afectados não apenas pelo que elas mesmas fazem mas também pelo que fazem aos outros; e

2. Tem de ser uma situação na qual, paradoxalmente, todos acabem pior se tentarem individualmente defender os seus próprios interesses do que se fizerem simultaneamente o que não serve os seus interesses individuais.

Este tipo de situação acontece na vida real com mais frequência do que poderíamos pensar.(...)"

James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, Gradiva (2004), pp. 209-211

3.5.10

Ética, Razão e Emoções

"[C]omo a moral influencia as acções e emoções, segue-se que não pode derivar da razão, pois a razão por si, como já provámos nunca pode exercer tal influência. A moral excita paixões e produz ou impede acções. A razão por si é totalmente impotente neste aspecto. Logo, as regras da moral não são conclusões da nossa razão.
Julgo que ninguém irá negar a correcção desta inferência, e a única maneira de a recusar é negar o princípio em que esta se baseia. Enquanto se admitir que a razão não exerce qualquer influência nas nossas paixões e acções, não vale a pena alegar que a moral é descoberta só através de uma dedução da razão. [...]
A razão é a descoberta da verdade ou falsidade. A verdade ou falsidade consiste num acordo ou desacordo [com a realidade]. Logo, aquilo que não é susceptível deste acordo ou desacordo não pode ser verdadeiro ou falso, e nunca pode ser objecto da nossa razão. Ora, é evidente que as nossas paixões, volições e acções não são susceptíveis de tal acordo ou desacordo - são factos e realidades originais, completas em si mesmas, e não implicam qualquer referência a outras paixões, volições e acções. Logo, não se podem considerar verdadeiras ou falsas, contrárias ou conformes à razão.
Este argumento serve de duas maneiras o nosso propósito. Prova directamente que as acções não têm valor por serem conformes à razão, nem desvalor por lhes serem contrárias; e prova a mesma verdade mais indirectamente, mostrando-nos que, como a razão não pode impedir ou produzir imediatamente qualquer acção, contradizendo-a ou aprovando-a, não pode ser a fonte da distinção entre o bem e o mal morais, que têm essa influência.
Logo, as distinções morais não resultam da razão. A razão é totalmente inactiva, e nunca pode ser a fonte de um princípio tão activo como a consciência ou sentido moral."
David Hume, Tratado sobre a Natureza Humana, 1740, tradução de Pedro Galvão, pp. 294-6
Terá David Hume razão? Qual o papel do amor, da amizade, dos sentimentos de modo geral, nas nossas escolhas morais? Será possível conciliar estes sentimentos com a ética deontológica de Kant? E com o utilitarismo de Stuart Mill?