18.7.19


O Terceiro Excluído, de Pedro Galvão

Pedro Galvão é filósofo e professor de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde é membro do grupo de investigação Lancog (Language, Mind and Cognition). O seu ensino e investigação situam-se sobretudo na área da ética filosófica. Também escreve literatura de fantasia. É autor de Terceiro Excluído: O universo da filosofia, que é publicado na Revista Visão, na rubrica Autores, a que pode aceder AQUI. 

28.7.16

Capitalismo ou socialismo?

Infelizmente, é de forma muito apressada que estudamos, no final do 10º ano, a perspetiva da justiça como equidade, de de John Rawls. Não raras vezes, sentimos que estas questões são muitíssimo pertinentes e que seria muito útil refletirmos mais demoradamente sobre elas. 
Esta sugestão pode servir-nos de complemento ao trabalho realizado nas aulas e penso que poderá satisfazer alguma da curiosidade demonstrada pelos alunos.

A Gradiva publicou dois  livros, tão interessantes quanto oportunos, escritos por dois autores, Jason Brennan e G.A. Cohen, que estão reconhecidamente entre os grandes filósofos defensores de dois sistemas antagónicos – o socialismo e o capitalismo – para responderem à grande questão política que desde o séc. XVIII continua a dominar, de forma apaixonada, o debate político e a dividir, por vezes tão dramaticamente, as sociedades. 

Os preços são muito acessíveis,12,60€  e 8,10 €. Para mais informação sobre os livros, acede à página da Editora Gradiva através do link acima, nas capas. 
Boas leituras  e boas férias.

13.4.16

O debate público de ideias


Publicado na Revista Crítica na Rede, http://criticanarede.com/

1.4.16

O maior bem que podemos fazer

O Maior Bem que Podemos Fazer




Peter Singer, O Maior Bem que Podemos Fazer,  Como o Altruísmo Eficaz está a Mudar as Ideias sobre Viver Eticamente, Tradução de Pedro Elóy DuarteLisboa, Edições 70, 2016


Está a surgir um movimento novo e emocionante: o altruísmo eficaz. Em seu torno estão a formar-se organizações estudantis e há discussões acaloradas nas páginas das redes sociais e dos sítios da Internet, bem como nas páginas do New York Times e doWashington Post.
O altruísmo eficaz baseia-se numa ideia muito simples: temos o dever de fazer o maior bem que pudermos. Obedecer às regras habituais de não roubar, enganar, ferir e matar não é o suficiente, ou pelo menos não é o suficiente para quem tem a enorme sorte de viver com conforto material, pode alimentar-se, ter habitação, vestir-se a si próprio e à sua família e ainda ter dinheiro ou tempo de sobra. Viver uma vida ética minimamente aceitável envolve o uso de uma parte substancial dos nossos recursos adicionais para tornar o mundo um lugar melhor. Viver uma vida plenamente ética envolve fazer o maior bem que pudermos.

Mais informação em O maior bem que podemos fazer

19.3.16

Steven Pinker e Rebecca Newberger Goldstein: O longo alcance da razão



O que impulsiona o progresso moral da humanidade? A empatia ou a razão? Poderão ser ambas relevantes, em diferentes fases do processo?
O que quer que defendamos, é com base em argumentos racionais que o justificamos.

21.11.15

A filosofia é superior?


É prática comum entre nós apresentar a filosofia ao grande público ou aos alunos que têm seu primeiro contato com a disciplina louvando-a como um presente dos deuses aos meros mortais. Dizem que nada lhe pode ser superior e que qualquer área de investigação lhe é subserviente. É como se o filósofo tivesse um acesso privilegiado à verdade. Dizem também que nada pode ser mais prático, pois a filosofia liberta o ser humano dos grilhões da ignorância. Salvo um pequeno fundo de verdade dessa última afirmação, o resto é enganador. A filosofia não é mais importante que a física, ou a matemática, ou a história; tem exatamente o mesmo valor que qualquer outra atividade cognitiva. E como essas disciplinas, tem também aplicações práticas.
 
O estudo da filosofia abarca apenas uma parte da realidade, a parte que diz respeito àquelas questões que só podem ser tratadas através da argumentação e do raciocínio intenso. O filósofo não se preocupa em responder questões do tipo “Qual é a constituição do átomo?” ou “É o teorema de Fermat verdadeiro?” ou ainda “Quais foram as causas da segunda grande guerra?”. Ao invés, tenta responder questões do tipo “Será toda a realidade formada apenas de partículas elementares, ou será que há coisas como pensamentos, números ou deuses?”, “Há limites para o conhecimento humano?” ou ainda “Há ações certas e ações erradas?”. Isso não significa que o filósofo despreze a ciência, significa apenas que o campo de investigação da filosofia é diferente do das ciências como a matemática, física ou história. A filosofia muitas vezes precisa da ciência, assim como a ciência da filosofia.
 
Assim como a filosofia tem seus limites de investigação de certo modo determinados, o mesmo acontece com a física ou a história. O físico tratará da parte da realidade onde há campos, átomos, energia, etc. Tentará explicar os fenômenos que dependem de força, átomos, descargas elétricas, etc. O historiador tratará da parte da realidade onde estão envolvidos fatos importantes para o mundo e que precisam de ser interpretados, reconstituídos e documentados. Tentará mostrar, por exemplo, como se encadeiam os motivos que levaram as sociedades feudais européias a dar início às cruzadas. Bom seria se pudéssemos tratar disso tudo de uma só vez, mas infelizmente não é esse o caso. Somos limitados cognitivamente e essa limitação só nos permite investigar uma coisa de cada vez.
 
Já se vê por que razão a filosofia não é mais importante que as outras áreas de investigação. Para oferecer uma explicação razoável da realidade precisamos dos melhores resultados de cada área de investigação. É como se estivéssemos a montar um quebra-cabeças: cada peça é igualmente importante para o resultado final — se faltar uma peça, ficamos sem conhecer pelo menos aquilo que estava naquela peça e o que ela representava no resultado final. O mesmo acontece no quebra-cabeças da realidade: se uma das áreas de investigação não fornece as peças que lhe cabem, a nossa imagem da realidade será pior do que se as tivéssemos.
 
A situação poderia ser revertida: há peças dispensáveis no quebra-cabeças da realidade, e tais peças são justamente as fornecidas pela filosofia. Geralmente, ouvimos essa reação com a famosa e irritante “A filosofia não serve para nada!”. Talvez alguns também protestassem que a filosofia só fornece pseudo-peças, pois só as ciências são capazes de fornecer as peças originais. Mas a resposta a isto é fácil; basta olhar para o quebra-cabeças: muitas pessoas acreditam em Deus ou em deuses, acreditam que o aborto ou a eutanásia são errados, e há também aqueles que acreditam que só as ciências empíricas (física, biologia, química, etc.) é que podem oferecer conhecimento genuíno sobre a realidade. É inegável que essas crenças são importantes para a maioria de nós; e defendê-las não deixa de ser menos importante. Ora, ninguém vai ao laboratório para tentar provar sua verdade; ao invés, usa o raciocínio puro para tentar mostrar a verdade dessas crenças. Portanto, as peças que a filosofia fornece ao nosso quebra-cabeças não são menos importantes do que as peças que a física, a biologia ou a história fornecem.
 
E na aplicação, qual é a mais importante? A física oferece conhecimento suficiente para a construção de aviões, transferência de dados via internet, operações de correção da visão, etc. O avanço na biologia possibilitou a cura da pneumonia; e o estudo da história nos ajuda a evitar os erros que humanidade cometeu no passado. E a filosofia? Bem, a filosofia... pode nos libertar dos grilhões da ignorância. A expressão “libertar dos grilhões da ignorância” é um tanto pomposa; melhor substitui-la por “a filosofia aguça nosso olhar crítico sobre a realidade”. Neste sentido, a aplicação prática da filosofia nada deve à das ciências. Vejamos um exemplo.
 
Muitos consideram que certas ações, e.g. o aborto, são moralmente condenáveis. Uma justificação comum para tais crenças é a justificação religiosa de que Deus nos forneceu um conjunto de regras a que devemos segui-las sem vacilar. Contra o aborto, por exemplo, os religiosos dizem que a vida humana é sagrada e que só Deus pode tirá-la. Será tal justificação razoável? Será que só podemos agir moralmente se tivermos um conjunto de regras dadas por Deus? Considere-se o seguinte: Deus nos mandou seguir um conjunto de regras porque essas regras são boas ou porque ele próprio determinou aquilo que é bom? Se ele determinou aquilo que é bom por vontade própria, sem levar em consideração qualquer coisa exterior a ele, então aquilo que é bom é arbitrário; se Deus determinasse que encher o corpo de explosivos e matar milhares de pessoas inocentes fosse bom, então seria bom. Mas se ele nos disse para seguir tais e tais regras simplesmente porque sabe que são boas, então aquilo que é bom não depende de Deus. Mas se aquilo que é bom não depende de Deus, por que aceitar a religião como justificação das nossas crenças sobre aquilo que é certo ou errado? Qualquer tentativa de basear a moralidade na religião tem de responder a este argumento. E isso em si já é um resultado importante para nossa vida.
 
Finalmente, a contribuição mais importante da filosofia para nossas vidas comuns é a avaliação de argumentos. Avaliar argumentos não é uma atividade exclusiva da filosofia, fazemos isso também em outras áreas. No entanto, pelo fato de a filosofia ser uma disciplina de natureza a priori, i.e. feita pelo raciocínio apenas, a avaliação de argumentos é uma de suas tarefas principais; e sendo esta uma tarefa principal, é de se esperar um grande avanço nas técnicas de avaliação de argumentos. (Qualquer bom manual de lógica fornecerá uma quantidade razoável dessas técnicas.) Ao avaliar argumentos filosóficos, os filósofos dão atenção às ambigüidades da linguagem natural, procuram imprecisões e idéias escondidas, e tentam tornar algumas idéias mais plausíveis, entre outras atividades. Em suma, a filosofia torna nossa capacidade de pensamento muito mais precisa e eficaz. É de se esperar, portanto, que em situações corriqueiras onde estejam envolvidos argumentos, e.g. num debate presidencial, alguém que pense como um filósofo tenha mais probabilidades de avaliar corretamente tais argumentos e dizer se são bons ou não. O estudo da filosofia, portanto, fornece algo precioso ao ser humano: a capacidade para avaliar cuidadosamente as justificações que alguém tem para determinadas ações ou crenças.
 
Mesmo não sendo a atividade intelectual mais importante — não há a mais importante! — a filosofia compõe, com certeza, uma parte interessante da investigação do quebra-cabeças da realidade. E ao montar essa parte do quebra-cabeças adquirimos certas capacidades extraordinárias para avaliar e oferecer razões a favor ou contra muitos dos nossos pontos de vistas mais comuns. Eis a modesta contribuição da filosofia para o ser humano comum.
Luiz Helvécio Marques Segundo luizhelveciomarques@yahoo.com.br

18.11.15

DIA MUNDIAL DA FILOSOFIA 2015



Dia Mundial da Filosofia - a importância do pensamento crítico para a compreensão das mudanças na sociedade contemporânea.

O Dia Mundial da Filosofia oferece uma oportunidade para enfatizar mais uma vez a importância do pensamento crítico para a compreensão das mudanças na sociedade contemporânea. A mudança força-nos a encontrar novas formas de conviver e construir sociedades mais justas, mas também pode corroer a confiança e provocar tensão. Nessas circunstâncias, a filosofia é uma preciosa aliada, que se baseia no raciocínio reflexivo e no empenho, através do diálogo, na abertura das nossas mentes a uma ampla variedade de opiniões e pontos de vista. Essa mudança de foco é crucial  num mundo de diversidade crescente. Esse é o fundamento sobre o qual a tolerância e a paz repousam, bem como um meio de libertar a energia criativa que faz as sociedades avançarem, respeitando os direitos humanos.
(Mensagem de Irina Bokova, diretora-geral da UNESCO, por ocasião do Dia Mundial da Filosofia, 20 de novembro de 2014.)
 
Embora se comemore na terceira quinta-feira de novembro, que coincide este ano com o dia 19 de novembro, esta semana tem sido exemplo (por razões menos felizes) de interessantes discussões com os nossos alunos, nas aulas de Filosofia:
Discutimos a  (i)legitimidade dos ataques terroristas, em Paris; a liberdade de expressão e os seus limites, a propósito dos ataques em janeiro último, ao jornal humorístico Charlie Hebdo e também a nossa obrigação (ou não) de auxílio aos refugiados, que atravessam o Mediterrâneo, fugindo à guerra.
 
E, como consideramos que a melhor maneira de comemorar a filosofia é filosofar, hoje, como todos os dias nas nossas aulas, exercitaremos essa nossa capacidade de reflexão e discussão em busca da verdade e do bem geral.

11.9.15

Regresso às aulas (2015-2016)


Desejamos um bom ano de trabalho a todos os alunos que vão frequentar este ano letivo a disciplina de Filosofia, bem como a todos aqueles que vão frequentar as disciplinas lecionadas pelo nosso grupo disciplinar, como a Área de Integração, a Psicologia e a Oficina de Cidadania.

14.4.15

Ética com razões - “Não posso ser otimista em relação ao faro moral.”


Pedro Galvão manifesta aqui a sua desconfiança em relação à simples intuição, não fundamentada racionalmente. Em matérias de ética, pensa que somos capazes de fazer claramente melhor do que "pensar com o nariz", quando contamos com os frutos da reflexão filosófica.

Universalização e consistência

Ao adotar o ponto de vista ético, queremos saber como agir de um a forma imparcialmente justificável e, para esse efeito, de um modo geral não temos de nos importar com aquilo que as leis dizem. Muita da argumentação (…) envolve duas ideias elementares que gostaria agora de clarificar.
Uma dessas ideias é o requisito da universalização. Podemos elucida-lo assim: Se pensamos que um determinado ato é errado, temos de pensar que todos os atos que sejam como esse nos aspetos eticamente relevantes são errados. Em termos mais gerais: se julgamos que um ato tem uma certa propriedade moral (como ser errado, louvável, injusto ou simplesmente aceitável), temos de estar dispostos a fazer o mesmo juízo a respeito de qualquer ato que não difira dele em qualquer aspeto eticamente significativo. O simples facto de um ato ter sido realizado por mim, por exemplo, não tem relevância ética, dado que não o torna imparcialmente justificável. Seria descabido julgar, violando o requisito da universalização, que um determinado ato é errado mas que um ato parecido é aceitável, ainda que estes não difiram em nenhum aspeto eticamente relevante. Isto nunca pode acontecer. Se há uma diferença moral entre atos, de tal forma que só um deles é errado, tem de haver uma razão para isso. (E podemos dizer o mesmo de outras coisas que, à semelhança dos atos, são objeto de avaliação ética, como práticas ou traços de caráter.) O requisito da universalização compele-nos, pois, a procurar as razões que sustentam avaliações morais diferentes. Como havemos de fazer isso? Tentando encontrar princípios éticos que, plausivelmente, justifiquem essas avaliações. Suponha-se, por exemplo, que considero que uma dada pessoa agiu de uma forma aceitável ao agredir outra, embora pense que geralmente é errado agredir pessoas. Terei de apontar, então, uma diferença relevante entre o ato que avalio positivamente e a generalidade das agressões a pessoas. Imagine-se que afirmo que o facto de esse ato ter sido realizado em autodefesa é a razão que o torna eticamente aceitável. Estarei assim a aceitar o princípio de que em certas circunstâncias, como aquelas que se verificaram, não é errado agredir em autodefesa.
Passemos à outra ideia elementar. Esta consiste num requisito puramente lógico: se aceitarmos um requisito ético, temos de aceitar tudo aquilo que decorre dele, isto é, todas as suas consequências ou implicações lógicas. Valerá a pena chamar a atenção para algo tão óbvio? Sim. Pois os princípios éticos indefinidamente vastas e não nos apercebemos com facilidade de muitas delas. Certos princípios parecem muito atraentes em abstrato, mas, logo que começamos a descortinar algumas das suas implicações mais definidas, revelam-se difíceis de aceitar ou mesmo repugnantes. Para avaliar um princípio ético, há que pensar muito bem naquilo que este implica, considerando tanto situações reais como casos meramente possíveis, por muito improváveis ou extravagantes que sejam. Se não estivermos dispostos a aceitar algumas das implicações de um princípio ético, temos de o corrigir ou simplesmente rejeitar, sob pena de inconsistência.
(…) Também seria um erro presumir que as questões éticas, não sendo enquadráveis nas ciências, escapam à investigação racional e não podem ser examinadas com objetividade. Há muita gente a pensar assim. A convicção que na ética é tudo relativo ou subjetivo encontra-se bastante difundido – um tanto surpreendentemente, a par de atitudes de profunda arrogância moral. Espero que, além de contrariar essa convicção, este livro iniba a arrogância. É  que esta atinge mais facilmente quem ainda não compreendeu como, em muitas questões éticas, é difícil descobrir onde para a verdade.

Pedro Galvão, Ética com Razões, 2015, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa, pp. 9-11