27.11.11

A Solidariedade

Um excerto de um texto do filósofo português José Gil, publicado no último número da revista Visão de 24 de Novembro de 2011, que aborda de uma forma que me parece muito correta a questão da solidariedade, a qual já algumas vezes analisamos nas aulas.

Nascem agora, neste momento de crise aguda de países europeus, inúmeras iniciativas cujo objetivo é ajudar os mais carenciados, vindas de associações,agrupamentos, bancos, empresas. Este voluntariado espontâneo é necessário e reativa aquele fundo primitivo de coesão social que faz um país. Qualquer coisa de muito importante - da ordem da sanidade social - é assim acordado nas consciências das pessoas: atenção ao outro, perceção despojada e nua de um humano por outro humano reatando o laço afetivo originário que reconhece o outro para além do seu estatuto social, familiar, das suas opiniões políticas, etc.
Mas é preciso que a solidariedade não signifique caridade humilhante ou afirmação de uma qualquer supremacia social. A entreajuda supunha uma igualdade fundamental entre os membros da comunidade. Muitas atividades que se exercem sob uma falsa ética da solidariedade escondem negócios inconfessáveis, boa consciência (do estado e dos indivíduos) adquirida a baixo preço, álibis de uma «economia social» que, afinal, não transforma minimamente a economia real geradora das desigualdades que a primeira procura reduzir.
A solidariedade económica e social que hoje se desenvolve por toda a Europa - dos bancos sem juros da Dinamarca aos «bancos da fome» das instituições de assistência aos «pobres» - aliviando o sofrimento e dando oprtunidades aos mais desfavorecidos, só se legitima se se desviar da tendência hegemónica do capitalismo global, considerando o outro não como um diminuído mas como alguém simplesmente humano com pleno direito de acesso a tdos os direitos, inclusive ao de ser ajudado. Não é esse mesmo direito que tem a vítima de um furacão ou de um sismo a ser assistido pelo estado?

Imagens do Google: «solidariedade» e José Gil.

25.11.11

Uma sugestão musical


Principalmente para os meus alunos que me têm dado a conhecer os seus gostos musicais e, assim, ajudado também a descobrir alguma boa música contemporânea. Uma interpretação surpreendente da Gnossiene nº1, de Erik Satie, pelos Triste Sire, http://www.tristesire.com/menu.html

Uma interpretação tradicional desta obra de Satie, pode ser escutada em http://www.youtube.com/watch?v=PLFVGwGQcB0

Vale a pena conhecer também as Gymnopedies (1, 2 e 3) do Satie.
Bom fim de semana.


17.11.11

"Libertas Philosophica"

Nascido em Itália, no ano de 1548, Giordano Bruno foi mais do que um mártir da falta de liberdade de expressão imposta por um tempo em que os pensadores e cientistas não poderiam ir além do princípio de autoridade. Ainda que os ideais do Renascimento já vigorassem na Europa, aqueles que pretendessem encontrar a verdade teriam de se restringir à Revelação divina e à física aristotélica. Porém, houve outros que ao longo da História não permitiram que o seu espírito se subtraísse às verdades impostas e, em consequência disso, sacrificaram a sua vida por uma ideia que despontava da experiência da liberdade de pensar, sonhar e filosofar.
Os seus cinquenta e dois anos de vida dão conta de um percurso atípico do intelectual renascentista: defensor dos princípios humanistas, frequentador das cortes europeias, orador em várias universidades, protegido de reis, correligionário de protestantes e de católicos, excomungado por católicos e protestantes. A sua ligação à religião preludia a que será de Espinosa, quase cem anos depois; as suas descobertas científicas são mais arrojadas que as de Galileu Galilei ou Tycho Brahé, defendendo-as de um modo tão feroz quanto foi o seu destino.
Dotado de uma capacidade extraordinária para usar o dom que os gregos chamavam de mãe das Musas, a Memória, foi requisitado por reis e nobres. Em 1590, cansado de vaguear pelas universidades europeias e de ensinar a teoria heliocêntrica, que na época mais ninguém se arriscava a propalar, aceitou o convite do nobre veneziano Giovanni Mocenigo para regressar a Itália, com a condição de o iniciar na arte da mnemotécnica (ou seja, a arte de desenvolver a memória). Porém, temendo que a avareza do seu aluno empregasse os seus ensinamentos nas más obras, recusou-se a fazê-lo. Por vingança, o seu discípulo aprisionou-o num quarto e denunciou-o ao Santo Ofício. Apesar dos dez anos de prisão, tortura e apresentação de provas em sua defesa, jamais renunciará aos princípios que defendia, e será condenado à morte na fogueira, sob a acusação de heresia.
Se defendia que os mundos eram infinitos tal como o seu criador, que Deus não é transcendente, mas imanente às coisas, que a Revelação não serve de prova científica, ou se defendia o heliocentrismo e a existência de vida inteligente noutros planetas, o Tribunal do Santo Ofício foi mais astuto e condenou-o por magia e bruxaria. No entanto, o filósofo italiano não era um mago. Munido de um espírito insaciável, cruzou a ciência e a razão com o misticismo e a fé, não segundo os ditames da época, mas rememorando ideais perdidos no esquecimento da história: peregrinando solitariamente por uma trama de caminhos cruzados entre o neoplatonismo e o hermetismo (conjunto de ensinamentos oriundo do Antigo Egipto que prestavam fidelidade ao deus da escrita e da medicina, Toth). A sentença do Tribunal concretizou-se a 17 de Fevereiro de 1600, no Campo di Fiori, em Veneza.
De Giordano Bruno não restaram muitas obras, pois a maioria foi acrescentada ao Índex, mas o princípio que perseguiu durante toda a vida perpetuou-se - Libertas philosophica - o direito de pensar, sonhar e filosofar.

Passados 402 anos da morte de Giordano Bruno, a humanidade, representada pela Unesco, em prol da defesa da liberdade de expressão e do pensamento racional, pode pôr em ato a "libertas philosophica" tão propalada pelo filósofo italiano.

Professores Graça Silva e Valter Boita

16.11.11

Será possível fazer alguma coisa que não seja por interesse próprio?

Em 2002, a Unesco definiu a terceira quinta-feira do mês de novembro para se assinalar o Dia Mundial da Filosofia, a fim de valorizar a importância do pensamento crítico e dialógico numa sociedade cada vez mais global. Este ano, comemora-se a 17 de novembro o Dia Mundial da Filosofia e, por isso, este post pretende, mais do que comemorar o que quer que seja, ser um incentivo ao filosofar.



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Desafio:






Considerando que um enigma filosófico pode servir de alimento são a uma mente sedenta pelo saber, lê o texto que apresentamos, extraído da obra de Peter Cave, Duas vidas valem mais que uma?, que tem como principal objetivo confrontar os leitores com 33 enigmas filosóficos, perante os quais nenhuma mente desperta fica indiferente.







- Posso servir-me?



Eis aqui algumas palavras, uma cortesia de John Audrey, sobre Thomas Hobbes, o filósofo político do século XVII. As pessoas costumam entusiasmar-se por Hobbes ao lê-las.




Ele foi muito caridoso (o melhor que a capacidade dele permite) para aqueles que eram


verdadeiros objetos da sua generosidade. Uma vez, lembro-me eu, ao passar na Strand,


um pobre velho enfermo pedia esmola. Ele [Thomas Hobbes], olhando-o com piedade e


compaixão, levou a mão ao bolso e deu-lhe seis centavos. Um clérigo que estava por perto


disse:



- Teria feito isto, se não fosse um mandamento de Cristo?



- Sim.



- Porquê?

- Porque eu fiquei condoído com a condição miserável do velho e agora a minha esmola, por lhe ter dado algum alívio, também me aliviou.



A moral que se tira muitas vezes dessas histórias é que nunca agimos sem ser no nosso próprio interesse. É verdade que por vezes ajudamos os outros, mas isto é só para aliviar o nosso desconforto em os ver no desconforto e é o que acaba por nos motivar.



A história que é sugerida é que todas as nossas ações, apesar das aparências dizerem o contrário, são na verdade centradas em nós, são egoístas. A mãe que corre para uma casa em chamas para salvar o seu filho é motivada pelo medo, medo de como se sentiria se deixasse o seu filho morrer. Os santos que sacrificam as suas vidas, a defenderem as suas crenças cristãs. são motivados pelo desejo de irem para o céu e não para o inferno, depois de morrerem. Os ateus que, por dever, se oferecem como voluntários para ajudar os sem-abrigo, na verdade, apenas querem sentir-se bem consigo mesmos e talvez impressionar os vizinhos.



A última ponderação, se nos atrevermos a desafiar o acima exposto, é que quando executamos qualquer ação, temos de ter alguma motivação - e isso quer dizer que, de alguma forma, queremos fazê-lo e assim agimos para satisfazer esse querer. Mas se estivermos a fazer alguma coisa para satisfazermos os nossos quereres, então agimos de modo egoísta. Esse é o argumento genérico. O que nós queremos pode não coincidir com os nossos próprios interesses, por isso o raciocínio precisa de falar sobre como agimos de acordo com o que queremos ou o que achamos que é o nosso próprio interesse. (Peter Cave, Duas vidas valem mais que uma?)




Formulado de forma mais simples, o enigma filosófico transcrito exprime-se da seguinta forma: Será possível fazer alguma coisa, mesmo que seja de modo altruísta, que não seja por interesse próprio?



Deixa na caixa de comentários a tua posição, devidamente fundamentada. Vamos lá filosofar!

8.11.11

Orientações para o teste intermédio e exame final

Orientações para a preparação do teste intermédio e do exame final (opcional) de filosofia.
Exame aqui. Teste intermédio aqui.

2.11.11

Teremos ou não a obrigação ética de ajudar os mais pobres? II




Este livro já foi aqui apresentado, pela professora Graça Silva. Neste pequeno vídeo, divulgado pelo Centro de Ciência Viva Rómulo de Carvalho, o físico Carlos Fiolhais sublinha o interesse de mais este trabalho de Peter Singer, porque a filosofia, como ele próprio diz, interessa para a ciência porque interessa para o conhecimento.



22.10.11

Dos ares da Serra com Wim Mertens



Imagens da Serra dos Candeeiros, captadas em Fevereiro de 2009, perto da localidade de Arrimal, concelho de Porto de Mós, Portugal, acompanhadas ao piano e voz por Wim Mertens, sobre tema denominado 'Geräusch', do álbum 'Der heisse brei', editado em 2000. Este artista atuou no cineteatro de Alcobaça há cerca de dois anos. (vídeo do youtube)

16.10.11

Teste intermédios

Segundo informação do Gave, aqui, só o 11.º ano fará teste intermédio no presente ano letivo.

8.10.11

Uma boa forma de começar

Ao clicares no título deste post, terás acesso, em formato digital, a um livro que brevemente chegará às livrarias da autoria de Desidério Murcho. Neste livro, o seu autor propõe-se explicar o significado de setes ideias que ficaram célebres na filosofia, algumas das quais já tivemos oportunidade de mencionar nas aulas.

"Só sei que nada sei", "No meio está a virtude", "Penso, logo existo" são algumas das ideias que serão analisadas e contextualizadas historicamente.

Trata-se de uma boa forma de começar a ler filosofia sem receio de nada se compreender.

7.10.11

STEVE JOBS (1955-2011)

"O teu tempo é limitado, por isso não o gastes a viver a vida de outra pessoa. Não caias na armadilha do dogma, que é viver de acordo com os resultados do pensamento de outras pessoas. Não deixes que o barulho criado pela opinião dos outros silencie a tua voz interior. E, acima de tudo, tem a coragem de seguir o teu coração, a tua intuição. Por uma razão qualquer, eles já sabem o que tu queres ser. Tudo o resto é secundário."

Steve Jobs

3.10.11

O que um problema tem de ter para ser filosófico?



São muitos os problemas com que o ser humano se depara, mas nem todos têm utilidade para a filosofia. Importa, então, saber o que um problema tem de ter para ser filosófico.


Em primeiro lugar, são filosóficos os problemas que as ciências empíricas (biologia, física, sociologia, psicologia, ...) não conseguem resolver mediante a observação e a experimentação. Daí se poder dizer que os problemas filosóficos são conceptuais e a priori, na medida em que só podem ser resolvidos usando o pensamento e a discussão críticas, por oposição aos problemas empíricos.


Em segundo lugar, nem todos os problemas que apenas podem ser resolvidos usando a argumentação são filosóficos. Tomemos o seguinte problema como exemplo: "Devem os mais ricos pagar um imposto especial?" Este problema é discutível e para ficarmos esclarecidos relativamente a ele, exige a argumentação, mas não é filosófico. Assim, nem tudo o que é discutível é filosófico. Para que um problema, cuja solução depende da discussão crítica, seja filosófico é necessário que indague sobre a natureza da realidade, do conhecimento e dos valores, ou seja, questione crenças básicas (crenças de cuja verdade ou falsidade dependem as demais crenças).


Há quem, erradamente, julgue que a filosofia se envolve em charadas, tais como a de saber quem veio em primeiro lugar, se o ovo ou a galinha. Há também quem argumente que os filósofos se ocupam de problemas que jamais alcançarão uma solução, pelo que esses problemas ou são desnecessários ou estão mal formulados. Aliás, existiu mesmo um filósofo, Ludvig Wittgenstein, que defendeu que não existem problemas filosóficos, pois estes resultariam de uma má formulação, na medida em que na condição de problema apenas devem constar os que têm solução. Contudo, estes argumentos não são muito aceitáveis, pois existirão sempre problemas que ao incidirem em temas de difícil averiguação empírica, apenas poderão ser objeto de reflexão e de discussão. Por outro lado, considerar que a filosofia é inútil apenas porque não alcança resultados com as suas investigações significa ignorar o acervo de conhecimentos que a nossa civilização foi acumulando ao longo de dois milénios e meio, bem como relegar para segundo plano competências que se exigem dos cidadãos, tais como a de saber pensar, saber argumentar e saber tomar posição face a determinadas situações, bem como agir de forma correta e legítima.

A filosofia não é a ciência com a qual ou sem a qual se fica tal e qual, é antes uma disciplina que nos permite construir o nosso pensamento e nos ajuda a ficar esclarecidos sobre problemas que mais nenhuma ciência ousa tratar.


Desafio: Formula na caixa de comentários um problema filosófico. De seguida, indica a área da filosofia ao qual ele se adequa.




26.9.11

Filosofia como prova de ingresso ao Ensino Superior

Aqui podes consultar o documento que viabiliza o Exame Nacional de Filosofia (a realizar no ano letivo 2011/2012) como Prova de Ingresso ao Ensino Superior. Nele poderás, portanto, encontrar os cursos que passarão a exigir (uns já em 2012 outros só para 2013) a Prova de Ingresso a Filosofia.

(Fonte: Blogue Dúvida Metódica)

P.S.: O blogue Logosecb aproveita a ocasião para felicitar todos os alunos que ingressaram no Ensino Superior.

14.8.11

Boas razões para revermos alguns hábitos

Um grande número de crianças e de adolescentes portugueses só dorme metade do que precisa, revelam os inquéritos que Teresa Paiva e Helena Rebelo Pinto realizaram recentemente em escolas de Lisboa e de Soure. "Estudos recentes comprovam taxas de sonolência excessiva em mais de 50 por cento dos estudantes, o que tem um impacto evidentemente negativo no sucesso escolar", diz a neurologista.

Especialmente em época de férias é comum encontrar jovens que adoptam uma rotina de sono trocada em relação ao dia e à noite. Saem e divertem-se até de madrugada, deitam-se de manhã, dormem até meio da tarde e "acordam" já de noite para voltarem a deitar-se de madrugada. Mesmo em tempo de aulas, embora reduzam este ritmo, a tendência para deitar tarde e levantar cedo e portanto dormir pouco mantém-se entre grande número de crianças e de jovens portugueses. Uma prática que pode ser "altamente prejudicial", alerta Teresa Paiva. "As crianças que dormem menos do que precisam têm um risco aumentado de hipertensão arterial, de diabetes, de insucesso escolar, de depressão e de insónia", explica, chamando a atenção para a gravidade da situação, já que se trata de "doenças crónicas que são problemas para toda a vida".

Dormir menos do que se precisa "afecta ainda a aquisição de conhecimentos abstractos" e traduz-se no insucesso escolar e nas dificuldades em relação à aprendizagem da Matemática, o que já se tornou num "problema nacional".
Mesmo que os jovens que trocam o dia pela noite acabem por dormir o mesmo número de horas, esse sono "não tem qualidade", afirma a médica. "Dormem fora da fase do sono, portanto o sono nunca tem tanta qualidade e sabe-se que, para além da depressão e da obesidade, o dormir assim tem um risco aumentado de cancro". Continuar a ler.




Paula Torres de Carvalho, Jornal Público Online

29.7.11

O Problema da discriminação positiva das mulheres II

Fernando Botero, Quatro Mulheres, 1965


“A discriminação positiva é uma forma de lutar activamente pela igualdade ”


Existe um certo tipo de discriminação, chamada discriminação positiva ou acção afirmativa. Trata-se da criação intencional de condições desiguais para favorecer as vítimas de desigualdades, de conceder um tratamento preferencial, em certas circunstâncias, a indivíduos de grupos minoritários e reconhecidamente desfavorecidos, neste caso concreto, as mulheres.
O problema da discriminação positiva é um problema de Filosofia Social e Política que consiste em saber se, deveremos dar um tratamento preferencial aos grupos sociais mais desfavorecidos. Como as mulheres foram, e são muitas vezes, vítimas de desigualdades, será que devem ser tratadas de modo preferencial? Pensamos que sim. Só dessa forma lutamos activamente pela igualdade plena no futuro.
Quem é contra a nossa posição defende que a discriminação positiva gera ressentimentos que seriam por sua vez, geradores de mais discriminação e preconceitos, impedindo a justiça social. Mas esta forma de argumentar a nosso ver, não tem em conta a solidariedade, o sermos capazes de nos colocar no lugar de quem é efectivamente discriminado. A fragilidade destas pessoas só pode ser superada se a sociedade assumir a sua parte de responsabilidade e ajudar a superá-la. Se há pessoas que conseguem ultrapassar as suas limitações, muitas outras não conseguem fazê-lo sozinhas. Nestes casos, a discriminação positiva é uma forma de aplicar na prática, a solidariedade que defendemos em teoria.
Quem argumenta que a acção afirmativa responsabiliza as gerações actuais pelos erros das gerações passadas, tem alguma razão mas não em todas as situações. Cada geração usufrui de privilégios que não foram construídos por si e tem de trabalhar no sentido de ultrapassar erros passados. Se isso não acontecesse, os erros perpetuar-se-iam e não haveria justiça moral nem social. Se queremos construir uma sociedade justa então é útil combater as injustiças e o único modo de fazê-lo é começar a fazê-lo agora. Para isso é necessário criar medidas que permitam às mulheres, vítimas de condições desiguais no passado, ultrapassar a injustiça de muitas leis e normas sociais que as impediam por exemplo, de trabalhar fora de casa, pois era considerada uma tarefa masculina, os homens é que tinham o “dever” de sustentar a família.
É até um dever social praticar a discriminação positiva, para prevenir desigualdades futuras já que numa sociedade justa, é útil combater as injustiças resultantes de qualquer discriminação. Porque isso é a melhor forma de promover a igualdade de oportunidades no futuro.
Há ainda um outro argumento contra a discriminação positiva, o “Argumento da Violação dos Direitos”, este afirma que a discriminação positiva exemplifica um caso em que os fins que se pretendem atingir, uma sociedade mais igualitária, sendo louváveis, não podem servir para justificar os meios que não são moralmente aceitáveis. Ou seja, a discriminação positiva não deveria ser praticada pois é moralmente errado beneficiar as mulheres, porque isso viola os direitos gerais das pessoas. Logo ninguém deveria ser discriminado positivamente.
Mas de que direitos estamos a falar? Os direitos em causa são facultados pela lei, se antes a lei favorecia certas pessoas, hoje, para restabelecer o equilíbrio temos de favorecer outras pessoas. Por vezes é necessário discriminar para repor a justiça, senão a injustiça prevalece e não há forma de termos uma igualdade genuína.
Assim sendo pensamos que devemos discriminar positivamente as mulheres para começarmos a construir hoje, uma sociedade mais justa.

Beatriz Inácio, Filipa Martins e Mariana Justo

10.º F

Desenvolvimento Comunitário na Benedita: 50 anos depois, que impactos, que visões para o futuro?


No âmbito das celebrações dos 50 anos do projecto de desenvolvimento comunitário ocorrido no início dos anos 60 do século XX, na Benedita, os Rotários lançam um desafio para assinalar a efeméride : " Reafirma-se a necessidade de um amplo envolvimento e participação que envolva entidades, organismos e pessoas da freguesia, bem como investigadores e instituições universitárias " e propõem, concretamente, a participação do Externato Cooperativo da Benedita neste projecto, já que se trata de uma instituição que tem a sua génese nesse movimento comunitário.

A Benedita nos anos 60

O programa TV Rural da autoria do Eng. Sousa Veloso, cuja voz podemos ouvir, esteve na Benedita para mostrar como foi aqui iniciado um programa de "Desenvolvimento Comunitário".
Trata-se de um documento sobre um momento importante da história da Benedita que nos permite uma espécie de viagem no tempo, muito interessante, e que é a prova de que os tempos difíceis podem ser ultrapassados.
Saliento o momento em que, no final do segundo vídeo, se refere a criação de uma cooperativa de ensino que permitirá assim a continuação dos estudos aos jovens da terra, fala-se obviamente do ECB.




Para ver mais dois vídeos:


28.7.11

Cistermúsica



XIX Festival de Música de Alcobaça

Com música que vai da Idade Média aos nossos dias, a edição de 2011 do Cistermúsica, subordinado ao tema “Em torno de Inês”, marca o regresso da temática inesiana ao festival, comemorando os 650 anos da trasladação de Pedro e Inês para o Mosteiro de Alcobaça (1361).

O Cistermúsica é o grande acontecimento cultural de Alcobaça e um dos mais relevantes da região. Desde a primeira edição, foi sua ambição colmatar a falta de concertos regulares com uma programação ecléctica na área da música erudita.

Com início em 3 de Junho, o Festival encerra no dia 31 de Julho com um concerto pela Orquestra Barroca da União Europeia, pelas 18 horas, no Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça.

Nada é tão inquietante como o mal

Nada é tão inquietante como o mal. O homicida norueguês - que passo a designar por B - começou a jornada de sexta-feira com a bomba em Oslo. O horror, que vai banalizar a bomba, começa a seguir. Em Utoya, B transforma-se no "assassino em massa". Abate a tiro, com balas dum-dum, dezenas de jovens - "caçados como coelhos", disse um sobrevivente. A seguir, dispara sobre os que nadam para escapar.

(...) Disparou - disse alguém - dezenas de vezes sobre o símbolo do que designou por "marxismo cultural", a principal "ideologia genocida" da Europa "cristã".

B não fugiu. Na segunda-feira, o seu ar triunfante no carro da polícia era tão eloquente quanto o manifesto que deixou na Internet. O plano implicava a detenção e o julgamento - o apogeu da mediatização.

"O que este morticínio de seres humanos mostra é a infinita banalidade e idiotia do mal e da violência, tantas vezes mostrados envoltos em sedução. (...) É uma vergonha, embora inevitável, registar na memória o nome do assassino norueguês e não os das suas vítimas", comentou no Corriere della Serao escritor italiano Claudio Magris.

Em Julho de 356 a. C. um anódino Eróstrato incendiou o Templo de Artemisa em Éfeso, de que se dizia ser uma das "sete maravilhas do mundo". Assumiu que o fizera como desesperado meio de alcançar a glória. O sacrilégio foi castigado com a morte. Como póstuma punição, os magistrados proibiram os efésios de jamais citarem o seu nome, que foi também apagado de todos os documentos. Mas um historiador de outra cidade nomeou-o, outros o repetiram e Eróstrato entrou na História. Ninguém conhece o nome do arquitecto que desenhou o templo de Éfeso. Tal como Eróstrato, B está a ganhar.

O homicida violou um tabu da cultura nórdica, que condena a autoglorificação. Vangloriou-se B no manifesto: "Serei olhado como o maior monstro desde a II Guerra Mundial". Perante a polícia, reivindicou os actos e rejeitou a responsabilidade criminal. Um "herói" que acaba de entrar na História não reconhece a culpa.

"Os assassinos em massa agem geralmente sozinhos", explicou à Reuters o sueco Magnus Ranstorp, especialista em terrorismo. “ [B] é extremamente narcisista e preocupa-se consigo e com o seu lugar na História."

(...) No domingo, o jornalista italiano Pierluigi Battista criticou a pressa das interpretações: "Antes de apurar os factos, surge a febre da identificação do "Inimigo", a procura de explicações que dêem segurança, de simplificações que ponham alguma ordem no que parecia privado de sentido - uma lógica para a orgia de sangue e de morte que sacudiu em poucas horas uma nação tranquila como a Noruega".

É um mecanismo de autodefesa perante o sentimento de vulnerabilidade. "O medo mais verdadeiro é o do inexplicável." Se o autor do massacre tiver tido cúmplices será a natural corroboração da hipótese de "um criminoso desígnio de massacre". Se tiver agido sozinho, "perdemos uma boa ocasião de estar calados".

O "pequeno Mein Kampf" que B colocou na Internet começou a ser passado a pente fino, como se trouxesse, enfim, uma explicação do crime. Para lá dos delírios, suscita um problema maior: está, por definição, semeado de pistas falsas.

Após a detenção, B continua aparentemente a semeá-las, apontando a existência de outras "células", na Noruega ou no estrangeiro. Comentou uma investigadora da polícia norueguesa: "Talvez queira sugerir que está envolvido em algo maior do que ele".

Cinco dias depois de Utoya, sabemos pouco. Para lá do crime, B colocou em xeque os novos partidos xenófobos. A blogosfera de extrema-direita está debaixo de fogo e na defensiva.

Hoje, a expansão da xenofobia está a cargo de partidos que respeitam as regras do jogo democrático, saíram do gueto político, afastaram os extremistas incómodos e alargaram a base eleitoral. Ao invocar os seus argumentos, B lança sobre eles a suspeição de conivência com o terrorismo de extrema-direita. O risco deste "terrorismo negro" passou a ser encarado, através dos que estão fora do sistema, os "lobos solitários" como B - para já, há o risco de "efeito copycat". Ninguém previu - e menos ainda preveniu - o morticínio de Utoya. Muito depende do tratamento político e mediático da tragédia.

Para os noruegueses foi uma catástrofe. Não cederão um milímetro, excepto num ponto: a segurança. A reforma da polícia é a condição de não limitar as liberdades. Eles descobriram subitamente que "o assassino está entre nós".

Voltando a B e citando Magris: "O seu gesto atroz mostra a contínua latência do mal, a possibilidade de se desencadear a qualquer momento; revela a nossa convivência quotidiana, corpo a corpo, com o mal, sempre emboscado e por vezes assustadoramente em acção".

27.07.2011

Jorge Almeida Fernandes

In: Público

16.7.11

A Antiga Biblioteca de Alexandria










Neste vídeo podemos ver o astrónomo Carl Sagan, num passeio virtual pela antiga Biblioteca de Alexandria, num episódio da sua famosa série “Cosmos”. Ele explica-nos, na linguagem clara a que nos habituou, que foi aqui que a jornada da ciência começou de forma sistemática no ocidente. A Biblioteca de Alexandria, no Egipto, uma das maiores bibliotecas do mundo antigo, foi fundada no início do século III a.C.. Estima-se que a Biblioteca tenha armazenado mais de 400.000 rolos de papiro, podendo ter chegado a 1.000.000 nos seus 700 anos de existência.

A Biblioteca de Alexandria (na realidade duas, Biblioteca mãe e filha) era o maior centro de conhecimento do planeta, guardando um saber sem igual. Acorriam a Alexandria sábios de todo o mundo que estudavam e debatiam os mais variados temas. Este clima de tolerância para com as outras culturas não voltaria a ser visto durante mais de 1500 anos. A Biblioteca mãe, tanto quanto sabemos hoje, terá sofrido um incêndio acidental no séc. I d.C, substituindo-a nas mesmas funções a Biblioteca filha. Em 391 d.C., durante o reinado do imperador Teodósio, a Biblioteca foi completamente destruída, juntamente com o templo a Serápis, pelo bispo cristão Teófilo, que foi mais tarde canonizado. Este acontecimento é retratado no recente filme “Ágora” de Alejandro Amenabar, que tem como personagem central Hipátia, figura ímpar também aqui referida por Sagan, que foi martirizada de acordo com algumas fontes, por ordem de Cirilo, Patriarca de Alexandria. A lista dos grandes pensadores que frequentaram a Biblioteca de Alexandria inclui outros nomes de grandes génios do passado como Arquimedes, Euclides, Aristarco, Eratóstenes, Galeno ou Ptolomeu.

15.7.11

Uma sala de aula do tamanho do mundo





Salman Khan fala sobre como e por que razão criou a notável Academia Khan, uma série de vídeos educativos cuidadosamente estruturada, que oferece formação curricular completa em matemática e, agora, noutras matérias. Ele mostra o poder dos exercícios interactivos, e apela aos professores para considerarem a hipótese de revolucionar os métodos habitualmente utilizados na sala de aula para darem aos alunos a exposição da matéria em vídeo, para verem em casa, e para fazerem o "trabalho de casa" na sala de aula, com o professor disponível para ajudá-los. (Com legendas em português)


Poderá a tecnologia, mais do que mudar, humanizar a sala de aula?


4.7.11

Será o cepticismo radical defensável?


Em relação ao problema da possibilidade do conhecimento, o cepticismo radical é a posição segundo a qual o conhecimento não é possível. Trata-se de uma posição contra-intuitiva, já que todos nós estamos convencidos que sabemos alguma coisa. No entanto, os argumentos cépticos radicais parecem não deixar de constituir, até hoje, um desafio.
Porque nos parece implausível que o conhecimento não exista e porque precisamos de provar que é possível conhecer - de modo a validar todos os processos cognitivos científicos, bem como do senso comum - é de enorme relevância chegar a uma conclusão relativamente a esta questão. Assim, neste ensaio iremos defender que a perspectiva céptica radical é refutável.
Segundo a definição clássica de conhecimento, que podemos encontrar no diálogo Teeteto de Platão, o conhecimento é uma crença verdadeira justificada. Estabelecidas ficam, desde então, as condições do conhecimento válido, de cuja satisfação depende o valor de qualquer conhecimento produzido. É esta última condição que é questionada pelos cépticos radicais, de acordo com os quais, as justificações das nossas crenças são sempre falíveis.

Um dos argumentos dos cépticos é o das “Divergências de opinião”. Este argumento defende que, para todos os assuntos existem posições divergentes, mesmo entre peritos, o que torna óbvio que nenhuma das opiniões defendida está suficientemente justificada, pois não se consegue impor sobre as outras, mostrando a sua inadequação.
No entanto, o simples facto de existirem opiniões reconhecidamente mais válidas do que outras constitui uma prova que o conhecimento existe. Por outro lado, a existência de dúvidas pertinentes e consensuais constitui, de alguma forma, conhecimento.

Outro argumento apresentado pelos cépticos é o das “Ilusões e erros perceptivos”. Este argumento defende que nenhuma informação adquirida através da percepção é fiável, uma vez que os nossos sentidos criam imagens distorcidas da realidade ou mesmo, claramente, erradas.
Mas embora a percepção por vezes nos engane, nós conseguimos através do confronto entre os dados de diferentes sentidos emendar muitos desses erros perceptivos; por outro lado, os sentidos podem ter o seu testemunho corrigido pela razão, como nos propõe Hume, podendo assim tornar-se critérios adequados de verdade e falsidade, uma vez que a percepção não é a nossa única faculdade de conhecimento.

Por último, avaliemos o argumento da “Regressão Infinita da Justificação”. De acordo com os cépticos, como sempre que se tenta justificar uma crença se recorre a outra crença, ao justificar umas crenças a partir de outras, o processo de justificação conduz-nos, inevitavelmente, a uma regressão infinita da justificação. Pelo que, nenhuma crença está justificada.
Para refutar este argumento basear-nos-emos em duas perspectivas: a Perspectiva fundacionista, defendida por Descartes, segundo a qual existem crenças básicas que não precisam de ser justificadas, porque são autojustificadas e constituem elas próprias justificação de outras não básicas, constituindo, assim, um bloqueio à regressão infinita da justificação – como por exemplo o Cogito; a perspectiva coerentista defende que as nossas crenças se organizam de forma sistemática ou em rede, existindo entre elas uma relação de sustentação recíproca, entre as diversas crenças, num determinado domínio de conhecimento. Assim, cada crença está apoiada em muitas crenças, relativamente à verdade de uma delas e de todas do seu conjunto. Pelo que, a descoberta da falsidade de uma crença não provoca a falência de todo o sistema de crenças porque nenhuma delas sustenta todas as outras, antes todas sustentam todas. Esta concepção é, muito eficazmente, ilustrada pelo Barco de Neurath.
Finalmente, a tese do cepticismo é uma proposição auto-refutante, isto é, o facto de se afirmar que o conhecimento não é possível, constitui, por si só, o evidenciar de um conhecimento.
Podemos então concluir que o cepticismo radical é refutável, uma vez que para além dos vários argumentos apresentados a seu favor serem objectáveis, como vimos anteriormente, a própria tese céptica é auto-refutante, não sendo, por isso defensável.


Cátia Santos, Hugo Fernandes, Sofia Couto e Tiago Mateus 11ºB

25.6.11

O problema da discriminação positiva das mulheres I

Pietro de Cortona, O Rapto das Sabinas,1627-29

"A discriminação positiva não promove uma igualdade genuína"

As mulheres sempre foram discriminadas com base em argumentos usados por homens que desejavam impor a sua autoridade. Desde a obrigação de ficar em casa a cuidar dos filhos e a fazer as actividades domésticas à proibição de escolher o vestuário ou à proibição de votar, há muitos exemplos que mostram como as mulheres foram sempre discriminadas e rebaixadas durante séculos.
Hoje, muitas destas situações já não se verificam no mundo dito civilizado mas há novas formas de discriminação. Por exemplo, a maior parte dos cargos considerados mais importantes nas empresas são tradicionalmente ocupados por homens o mesmo acontecendo na política. Há favoritismo dos homens nos despedimentos especialmente em tempos de crise, como a que vivemos hoje, ou em situações de gravidez da mulher. As mulheres estão sujeitas a vínculos precários e à discriminação nos salários e nos seus direitos. É no sector económico que mais se sente a discriminação. As mulheres ainda se vêem muitas vezes perante o dilema: ou optam por não constituir família para fazer carreira ou sujeitam-se a ser excluídas de determinadas profissões ou cargos.

Numa sociedade justa, devia ter-se em conta as competências, capacidades e talentos de cada um e não o seu sexo. Como estas nem sempre são reconhecidas às mulheres, algumas pessoas pensam que estas devem beneficiar de discriminação positiva ou acção afirmativa que, contribua para criar condições na sociedade para ultrapassar estas injustiças históricas. Mas será isso justo para as outras pessoas?
Na nossa opinião, a discriminação positiva não é a solução, e por isso somos contra toda a acção afirmativa a favor da Mulher ou outros, por considerarmos que a discriminação positiva não promove uma igualdade genuína.
Pensamos até que pode gerar ressentimentos e o preconceito de que aqueles que pertencem a grupos discriminados não conseguem alcançar o sucesso por mérito próprio, o que gera mais discriminação, criam mais ideias racistas e sexistas. Há ainda o perigo dos beneficiários, se acomodarem. Ora, o comodismo não deve ser estimulado nem premiado, como acontece muitas vezes com as pessoas, a quem são dadas casas e subsídios de sobrevivência, sem se exigir nada em troca. Todos devemos procurar obter sucesso com o nosso trabalho e dedicação. Hillary Clinton foi, por exemplo, a primeira Senadora do Estado de Nova Iorque e nunca beneficiou de nenhuma acção afirmativa.

Um argumento importante é que, apesar dos fins que se pretendem atingir - uma sociedade mais justa, serem louváveis, não justificam os meios - as acções afirmativas. Tomemos como exemplo os candidatos a um determinado cargo que são preteridos a favor de um beneficiário da acção afirmativa; isso é injusto porque se está a tentar ultrapassar uma injustiça através de uma acção injusta. Com a discriminação positiva, eventualmente alguém também vai ser discriminado devido à sua raça, orientação sexual, ou como neste caso, o seu sexo. Afirmar que estas políticas nos parecem injustas em virtude do hábito e que não existe nenhum direito de admissão adquirido nem os interesses dos candidatos são um critério, não é suficientemente forte. A acção afirmativa é contraditória, porque em nome da igualdade, promove a desigualdade. Além disso, quase sempre a discriminação positiva prejudica aqueles que nada fizeram para prejudicar os grupos discriminados, neste caso, as mulheres. Esta transferência da responsabilidade pela compensação, torna-se tão injusta como as injustiças que a discriminação positiva tenta reparar.
Hoje em dia, é quase impossível serem aqueles que prejudicaram as mulheres a compensarem-nas por esse facto, pois muitos destes prejuízos foram causados por gerações mais antigas. Apesar de devermos recompensar alguém pelas dificuldades que lhes causamos anteriormente, não devemos discriminar outros devido a isso. Seria absurdo, por exemplo, uma mulher exigir ter dois votos numa eleição, porque foi privada de votar, por homens, durante muitos anos.

O argumento da prevenção das desigualdades futuras leva-nos ainda a outro problema, a inércia e a irresponsabilidade. Por exemplo, a lei da despenalização do aborto, foi feita a pensar no futuro, no risco de vida que muitas mulheres corriam ao abortar clandestinamente e sem condições médicas, e neste momento é usado por muitas mulheres como método contraceptivo. Ou seja, uma lei que pretendia criar benefícios de saúde para a mulher, veio promover a irresponsabilidade de algumas mulheres que não usam contraceptivos porque podem interromper voluntariamente a gravidez num hospital, em segurança e sem custos. Portanto, a irresponsabilidade não deve ser premiada.

Hoje em dia, as mulheres já não precisam de acções afirmativas para se imporem na sociedade, necessitam apenas de trabalhar para realizar os seus objectivos e provar que são capazes, muitas vezes sendo bem sucedidas em empregos que antes se consideravam de “Homens”, como Amelia Earhart, a primeira mulher a atravessar o Oceano Atlântico sozinha, de avioneta.
Por todas estas razões, pensamos que a discriminação positiva não deve ser permitida pelo menos em relação às mulheres e, que as pessoas não deviam ser julgadas pelo seu sexo, mas sim pelo seu talento, competências e capacidades. Isso seria justo, embora por enquanto possa não ser possível.

Ana Carolina Pontes e Joana Ferreira
10.º F

23.6.11

Os animais não têm estatuto moral



















«Pessoas específicas estabeleceram por vezes relações muito boas com animais específicos: o cavaleiro e o cavalo, o homem e o cão, a cantora de ópera e o gato. Mas isso não é um contrato social que se estenda a todos os animais, nem mesmo a todos os membros de alguma espécie. Estamos perante casos especiais, que dependem das atitudes e dos interesses de certas pessoas específicas.
E, além de os animais não terem grande capacidade para a reciprocidade geral, nós não temos nenhum motivo para a procurar. A maior parte de nós não quer realmente estabelecer ‘boas relações’ com o típico boi, estamos mais interessados no bife ou no hambúrguer para o qual este poderá contribuir num futuro não muito distante. E não precisamos de fazer um contrato social com a vaca, já que estamos de longe numa posição superior. Dados os seus modos bovinos e o seu fraco intelecto, as vacas podem proporcionar-nos o que queremos delas sem que tenhamos de fazer concessões gerais daquelas que os moralistas dos animais reivindicam. Por que razão haveremos então de nos importar? O leitor sentirá alguma ‘coisa’ pela moralidade, terá um interesse especial a seu respeito? Mas os interesses pessoais não importam para efeitos morais. Uma pessoa será amigável para uma vaca, e não haverá mal nenhum nisso; outra ordenhará a besta e depois irá comê-la. As pessoas são diferentes. A questão, então, é a seguinte: por que razão aqueles que querem comer vacas terão de se submeter às indicações ‘morais’ pessoais daqueles que querem torná-las membros encartados da república moral?»





Jan Narvesson, em Moralidade e Animais; Excerto de ensaio incluído em Os Animais Têm Direitos? Perspectivas e Argumentos, organização e tradução de Pedro Galvão, Lisboa, Dinalivro, 2010, págs. 85 e 86. (Já aqui divulgado.)