16.11.11

Será possível fazer alguma coisa que não seja por interesse próprio?

Em 2002, a Unesco definiu a terceira quinta-feira do mês de novembro para se assinalar o Dia Mundial da Filosofia, a fim de valorizar a importância do pensamento crítico e dialógico numa sociedade cada vez mais global. Este ano, comemora-se a 17 de novembro o Dia Mundial da Filosofia e, por isso, este post pretende, mais do que comemorar o que quer que seja, ser um incentivo ao filosofar.



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Desafio:






Considerando que um enigma filosófico pode servir de alimento são a uma mente sedenta pelo saber, lê o texto que apresentamos, extraído da obra de Peter Cave, Duas vidas valem mais que uma?, que tem como principal objetivo confrontar os leitores com 33 enigmas filosóficos, perante os quais nenhuma mente desperta fica indiferente.







- Posso servir-me?



Eis aqui algumas palavras, uma cortesia de John Audrey, sobre Thomas Hobbes, o filósofo político do século XVII. As pessoas costumam entusiasmar-se por Hobbes ao lê-las.




Ele foi muito caridoso (o melhor que a capacidade dele permite) para aqueles que eram


verdadeiros objetos da sua generosidade. Uma vez, lembro-me eu, ao passar na Strand,


um pobre velho enfermo pedia esmola. Ele [Thomas Hobbes], olhando-o com piedade e


compaixão, levou a mão ao bolso e deu-lhe seis centavos. Um clérigo que estava por perto


disse:



- Teria feito isto, se não fosse um mandamento de Cristo?



- Sim.



- Porquê?

- Porque eu fiquei condoído com a condição miserável do velho e agora a minha esmola, por lhe ter dado algum alívio, também me aliviou.



A moral que se tira muitas vezes dessas histórias é que nunca agimos sem ser no nosso próprio interesse. É verdade que por vezes ajudamos os outros, mas isto é só para aliviar o nosso desconforto em os ver no desconforto e é o que acaba por nos motivar.



A história que é sugerida é que todas as nossas ações, apesar das aparências dizerem o contrário, são na verdade centradas em nós, são egoístas. A mãe que corre para uma casa em chamas para salvar o seu filho é motivada pelo medo, medo de como se sentiria se deixasse o seu filho morrer. Os santos que sacrificam as suas vidas, a defenderem as suas crenças cristãs. são motivados pelo desejo de irem para o céu e não para o inferno, depois de morrerem. Os ateus que, por dever, se oferecem como voluntários para ajudar os sem-abrigo, na verdade, apenas querem sentir-se bem consigo mesmos e talvez impressionar os vizinhos.



A última ponderação, se nos atrevermos a desafiar o acima exposto, é que quando executamos qualquer ação, temos de ter alguma motivação - e isso quer dizer que, de alguma forma, queremos fazê-lo e assim agimos para satisfazer esse querer. Mas se estivermos a fazer alguma coisa para satisfazermos os nossos quereres, então agimos de modo egoísta. Esse é o argumento genérico. O que nós queremos pode não coincidir com os nossos próprios interesses, por isso o raciocínio precisa de falar sobre como agimos de acordo com o que queremos ou o que achamos que é o nosso próprio interesse. (Peter Cave, Duas vidas valem mais que uma?)




Formulado de forma mais simples, o enigma filosófico transcrito exprime-se da seguinta forma: Será possível fazer alguma coisa, mesmo que seja de modo altruísta, que não seja por interesse próprio?



Deixa na caixa de comentários a tua posição, devidamente fundamentada. Vamos lá filosofar!

11 comentários:

Alice Vicente disse...

Boa tarde.

Depois de ler este pequeno excerto e reflectir um pouco acerca desta questão posso dizer que, mesmo que não nos apercebamos,todas as nossas ações são egoístas.
As ações são, por definição, acontecimentos que fazemos intencional e voluntariamente, ou seja, por livre vontade, e, consequentemente, como humanos que somos, não conseguimos deixar de pensar se são satisfatórias para nós ou não.
Realmente, por vezes, praticamos ações cujo objectivo é principalmente ajudar ou satisfazer outros, no entanto, não o faríamos se isso não nos ajudasse a viver melhor connosco próprios. Tomemos o seguinte exemplo: Há um acidente entre duas viaturas. Os intervenientes ficaram feridos e, tendo sido nós testemunhas, decidimos pedir ajuda e auxiliá-los. Porquê? A verdade é que o fizemos porque, caso contrário, nos iríamos sentir culpados e com a consciência pesada, algo que, definitivamente, não nos agrada.
Posso dizer, assim que, por mais que tentemos realizar boas ações, e que achemos que as estamos a fazer pelos outros, pensamos sempre em nós, em como saíremos da situação. É algo faz parte da natureza humana e ao qual não podemos escapar.

Beatriz Norte disse...

Depois de ler o texto, concluo que tudo o que fazemos tem um toque de interesse pessoal. Mesmo que seja sem essa intenção, aliás, mesmo que seja com a intenção de fazer alguém sentir-se melhor, agimos sempre segundo os nossos interesses, segundo aquilo que nos favorece ou que nos deixa melhor connosco próprios.
Tomemos o seguinte exemplo: Alguém oferece um presente a outrem. Essa pessoa pode apenas ter a intenção de deixar a outra pessoa feliz, no entanto, a verdade é que irá sempre tirar proveito deste acção, ao agradar à pessoa que recebe a prenda, ao fazer “boa figura’’, visto dar uma prenda ser o ideal a fazer, nessa altura ou até com a intenção de receber algo em troca.
Em suma, por melhores que sejam as nossas intenções, não conseguimos deixar de parte os nossos interesses pessoais. Ainda assim, há quem apenas actue segundo os seus próprios interesses, ignorando os de outrem, tal como há quem actue segundo a sua vontade, mas com a intenção de fazer alguém sentir-se melhor.

José Mateus disse...

Mesmo quando fazemos uma cedência, estamos a ser egoístas?

Pode, por exemplo, dar-se o caso de permitirmos a alguém, fazer algo que não nos convêm ou com o qual não concordamos.
Continuamos a ser egoístas?

É certo que retiramos algum benefício da situação, como o reconhecimento e/ou respeito de outrem; no entanto, a "perda" pode ser superior ao "ganho". Poderá esse gesto, ainda assim, ser considerado de egoísmo?

Mariana Alves disse...

Este texto dá-me a entender que tudo o que fazemos é egoísta.
Se dermos esmola a um sem-abrigo é para não nos ficar um peso na consciência, quando salvamos alguém, fazemos isto para não ficarmos também com um peso na consciência de não ter feito nada para evitar que aquela pessoa tivesse morrido, e às vezes, se calhar para sermos os "heróis".
Na minha opinião ao ajudar-mos alguém estamos a pensar em nós(ficamos melhor espiritamente), mas não se pode bem chamar de egoísmo, porque podemos ter tirado algum partido da situação mas outra pessoa também usufruiu.
Em suma, todas as ações são atos voluntários, ou seja podemos ponderar/refletir sobre o que vamos fazer e decidir se fazemos ou não. A natureza do ser humano não permite que ele não pense em si mesmo, por isso acaba por fazer o que é melhor para ele(é automático).

Anónimo disse...

Este excerto leva-nos a pensar que todas as nossas ações voluntárias são egoístas, mesmo que nós próprios não nos apercebamos desse mesmo egoísmo implícito na nossa ação. Por exemplo, vendo alguém aleijado na rua e a necessitar de ajuda, ao auxiliar essa pessoa estamos a agir não só para benefício da outra pessoa, mas principalmente para nosso próprio benefício. Se não ajudarmos ficamos de consciência pesada e, ao ter noção disso ajudamos o outro, assim, para nossa paz espiritual, sentindo-nos bem connosco mesmos.
Neste excerto está também implícito que, por exemplo, ao doarmos algum dinheiro a uma instituição, isso vai fazer-nos sentir melhor, e até mesmo trazer-nos fama. Mas e se essa doação for anónima? Penso que aí apenas tem a intenção de ajudar, ao doar anonimamente não está a ser egoísta, pois não dá a cara para não ficar conhecido e ser mais respeitado. Está a agir segundo um seu desejo, não significa que age de uma maneira egoísta. Certo?

Então, a meu ver, nem todas as ações são egoístas, pois há ações, como aquela que referi da doação anónima, em que a pessoa o faz sem qualquer objectivo de reconhecimento, fá-lo para ajudar o outro.

(esclareçam-se se não estiver correta)

Cláudia Constantino

Patrícia Inácio disse...

De acordo com este texto, tudo o que fazemos deriva de um interesse pessoal e é considerado como um ato de egoísmo. Concordo que todas as nossas ações têm uma intenção, quer seja boa ou má, no entanto, há algumas que não deveriam ser tomadas como egoístas.
Se eu desse, por exemplo, esmola a uma pessoa que necessitava, não era com o objetivo de me sentir melhor, mas sim com a única intenção de a ajudar. Não seria, então, uma ação egoísta, até porque estaria, monetariamente, a perder com a mesma. As pessoas que se voluntariam para ir para um lar de idosos ajudá-los ou para uma instituição de crianças defecientes sabem pelo que vão passar, sabem que vai ser difícil lidar com algumas situações um pouco complicadas todos os dias e mesmo assim vão. Vão porque gostam simplesmente de ajudar e não com um objetivo definido. Por alguma razão, o termo ‘filantropia’ foi criado.
Por estas razões, julgo que nem todas as ações do Homem devem ser consideradas egoístas, não descartando a ideia de que algumas o podem ser.

Catarina Dias disse...

Ao ler este pequeno excerto, concluí que todas as ações que executamos são egoístas.
Todas as ações que praticamos são feitas de forma consciente e de maneira intencional de modo a que alcançemos um determinado objetivo. Neste caso, todas as coisas que fazemos são por interesse próprio, com a finalidade de nos sentirmos melhor psicológicamente ou para ficarmos bem vistos perante um grupo de pessoas. Por exemplo, a colega X da Leonor ficou triste devido à má nota que teve no teste de Filosofia. Como a Leonor se sentiu mal psicológicamente, ao ver que a sua colega ficou desanimada com o resultado na prova, tenta animá-la, dizendo-lhe que para a próxima o teste lhe correria melhor. Ou seja, a Leonor quis dar apoio à sua amiga para não se sentir de consciência pesada e porque um dia poderia ser ela a tirar má nota no teste de Filsofia.
De facto, todas as ações que o ser humano pratica tem como finalidade o bem-estar consigo próprio.

Pedro Constantino disse...

Após um sentimento de culpa e de desligamento, aqui deixo o meu sempre confuso e apressado parecer.

Todas as acções humanas são actos que o humano exerce de uma forma voluntária e com uma precedente avaliação e análise das motivações, fins e meios que o levam a executar tal acto. Pondo isto, sabemos, à partida, que toda a acção é feita de uma forma consciente e com um propósito e, deste modo, concluímos que toda a acção tem repercussões positivas ou negativas inerentes ao agente, após a realização previamente “planeada”.

Após a análise ao texto e à questão associado ao mesmo, concluo que “Todas as acções são egoístas, ainda que realizadas de um modo altruísta.”, isto, consoante a definição de egoísmo que inferi a partir texto e claro, das respostas que já li dos restantes colegas.
A meu ver, se uma acção é dependente de um agente, e se esse agente realiza uma acção com algum propósito baseado no seu estado mental, então toda a acção é egoísta, dado que o agente realiza uma acção com base na sua intenção e não necessariamente a dos outros. E se a nossa intenção representa o nosso estado mental, então qualquer acção é feita com a finalidade de obter qualquer coisa que nos satisfaça, ainda que por maios altruístas.
Imagine-se que um adolescente está a andar no parque e vê uma velhota a cair no chão. A tendência natural de qualquer pessoa seria ajudar a idosa, mas o rapaz ignora e continua a andar. Outra senhora que passeia com o filho assistiu a todo o acontecimento e reconheceu que o facto de o rapaz não ajudar alguém que necessitava de ajuda era de certo modo negligente, não porque tivesse obrigação para tal, mas sim porque a nossa aprendizagem de valores nos ensina “a ajudar o próximo”. Posto isto, a senhora dirige-se à idosa e ajuda-a levantar-se. Mas quando se vira, não vê o filho e entra em pânico, não apenas porque existe uma criança perdida sem mãe num parque, mas porque ela não foi cautelosa o suficiente com algo que representa para ela um valor incalculável.
De certo modo, a mãe deveria ficar com a consciência tranquila dado que o facto de ter ajudado uma velhota iguala o facto de ter perdido o filho. Mas a nossa mente vai mais além: a mãe procura-o com a finalidade de colmatar o valor de negligência de que é perder algo de um valor tão inestimável como um filho. Isto é, a mãe não vai procurar todas as crianças do mundo por boa acção como fez com a velhota, mas vai sim procurar o seu filho que é algo que lhe pertence e que a própria acção de procura tranquiliza a sua consciência.
Com isto, segue-se que a intenção da mãe é achar a criança perdida – o filho, não porque esta representa algo de um valor incalculável, mas sim devido ao facto de que perder algo com este valor incalculável representa para ela uma negligência que a afecta psicologicamente.
Deste exemplo podemos inferir que a acção que praticamos é egoísta, porque até o simples facto de colmatar algo errado que ocorreu involuntariamente durante a prática de uma boa-acção representa, para o agente em causa, um processo que satisfaz as suas necessidades psicológicas dos valores morais - neste caso, a perda de um filho significaria para a senhora culpa (ainda que este termo seja muito abstracto).

Em última análise: toda a acção é agoísta dado que tem por base um estado mental que representa uma concepção de satisfação psicológica do agente que a realiza, independentemente dos benefícios para outrém.


(receio que não me tenha exprimido bem quanto ao facto da mulher estar a fazer uma boa-acção – ajudar a idosa - por egoísmo e consequentemente, realizar outra acção que foi a repercussão da primeira [complementar com a leitura do 1º parágrafo])

Anónimo disse...

No meu ponto de vista depois de ler este texto penso que a maior parte das nossas acções , sim são egoístas, normalmente o ser humano em todas as acções que pratica são em proveito próprio, nunca consegue fazer nada sem antes pensar em si e nas regalias que iremos ganhar com a acção praticada.Para comprovar o que referi anteriormente tomemos como exemplo: quando as pessoas que servem a sociedade(bombeiros) dão a sua vida como voluntários para salvar por vezes a vida de outras pessoas, estes são voluntários que dão a sua vida sem receber algo em troca, será que se trata de uma acção egoísta? No meu ponto de vista não, esta acção não se trata de uma acção egoísta.
Em síntese, nem todas as acções são egoístas , mas um boa parte , o exemplo que apresentei penso que não seja, pois aquelas pessoas não o fazem com o objectivo de serem "bem.vistas" pela sociedade, ou para proveito próprio mas sim com o objectivo de salvar vidas. Aguardo resposta para saber se o exemplo que apresentei se trata de uma acção egoísta ou não.
mas apesar de o fazerem voluntariamente fizeram-no ou porque a família o era ou porque se sentem melhor com a sua consciência.

Gabriela Costa

Inês Silva disse...

Boas…

Ao concluir a leitura deste excerto conclui que O egoísmo psicológico esta sempre presente no nosso dia-a-dia queramos ou não. Querendo o bem ou o mal a uma pessoa estamos sempre a ser egoístas porque pensamos sempre no nosso bem primeiro. Por exemplo:” A Mãe do Pedro disse-lhe que atese os ténis porque não queria que ele se, magoa-se”, ou seja esta a ser egoísta porque não quere ter de ir para o Hospital se ele cair no chão.

Inês Silva

Ana Luísa disse...

(três anos depois, esta é uma questão que ainda me dá a volta à cabeça - principalmente quando, manhã após manhã, me deparo com a cigana que pede esmola na rua, e aí conforta-me saber que o altruísmo também cria monstros destes, pelo que não há mal em ser egoísta, seja lá isso o que for; conclusão: há coisas que não mudam, e a filosofia fica sempre, independentemente do caminho que se tome.)