6.6.26

Intenções ou consequências III

 

João e Joana decidem ambos visitar a avó que está doente, muito triste, e vive só. João visita-a por compaixão e Joana porque tem esperança que ela lhe deixe, em testamento, o anel de noivado que o avô lhe ofereceu.

 

Esta situação coloca-nos o problema do critério da moralidade das ações ou da fundamentação da moral. Este é um problema ético que consiste na tentativa de determinar um critério/princípio que permita definir o valor moral das ações humanas. Para analisar o caso, confrontam-se as teses do Utilitarismo, de John Stuart Mill, e do Deontologismo, de Immanuel Kant, de modo a compreender como cada uma avalia a moralidade das ações em causa. 

Segundo Mill, as ações devem ser avaliadas consoante as suas consequências, seguindo o princípio da utilidade ou da maior felicidade. Uma ação é moralmente correta quando maximiza o bem e a felicidade, para o maior número de indivíduos, de forma imparcial. Assim, trata-se de uma ética consequencialista e hedonista, focando-se nas consequências e no prazer/ausência de dor.

No contexto em causa, Mill avaliaria ambas as ações como moralmente corretas. Quer a ação do João, quer a ação da Joana, maximizam a felicidade da avó ao visitá-la, fazendo-lhe companhia. Como ambas as ações - mesmo que, no caso da neta, não com as melhores intenções - acarretam as melhores consequências, classificá-las como moralmente corretas é a única via plausível. 

Por outro lado, Kant defende que as ações devem ser avaliadas de acordo com os princípios/intenções com que foram realizadas, sendo a sua ética deontológica. Nesta visão, existem deveres morais absolutos e incondicionais que devem ser cumpridos por todos os seres racionais, independentemente das consequências. A ação certa é, assim, aquela que é realizada com a exclusiva intenção de cumprir um dever. Sob este ponto de vista, o princípio supremo da moralidade é o imperativo categórico, que impõe as regras morais através da razão. 

Deste modo, Kant não avaliaria qualquer das ações como moralmente valiosa. Ambos os indivíduos agem conforme o dever, mas não por dever. Isto é, o João cumpre o dever de ajuda ao próximo, ao visitar a avó, porém a sua ação não foi motivada pela necessidade de o cumprir, mas sim pela compaixão que sente por esta familiar. O mesmo se verifica no caso da Joana, que realizou a sua ação com a intenção de receber um antigo anel de noivado e não com a de cumprir o seu dever. Mais grave ainda para Kant, seria o faco de Joana ter usado a avó como um meio, um "instrumento", para alcançar o que realmente desejava. 

Perante isto, considera-se que a perspetiva que melhor avalia a moralidade das ações em causa é o Utilitarismo de Mill. O impacto real e concreto que as ações de ambos os indivíduos provocaram revela-se superior e mais relevante do que as intenções com que estas foram realizadas. Os netos ao visitarem a avó estão a melhorar significativamente a sua situação, contribuindo para melhorar o seu estado psicológico, o que pode resultar, por exemplo, numa maior longevidade. Não seria plausível não considerar as ações moralmente corretas ao avaliar as suas intenções, quando estas ações não violam nenhum direito e acarretam consequências positivas bastante significativas. 

Concluindo, a análise deste caso revela o necessário equilíbrio entre a obediência a deveres morais e o respeito pelos direitos, e a procura de resultados benéficos. Embora ambas as teorias sejam essenciais, considera-se que, nesta circunstância específica, a perspetiva que melhor avalia a ação é a de Mill. Isto deve-se à necessidade de priorizar a utilidade e o impacto real, uma vez que o custo de ignorar as consequências seria mais elevado neste contexto. Contudo, caso se tratasse de uma situação de violação dos direitos de um inocente, acredita-se que a perspetiva de Kant seria a mais plausível. Isto mostra que a ética exige uma cuidadosa ponderação de cada situação concreta. 

  Luz Pimenta, 10.ºA

4.5.26

«Há muitos falsos moralistas»

Desidério Murcho esteve no podcast Despolariza, de Tomás Magalhães, e conversaram sobre livre-arbítrio, moralidade e verdade. Na revista filosófica Crítica na Rede, Desidério Murcho deu o título 'Há muitos falsos moralistas', à sua publicação.

O vídeo é um pouco extenso, mas podem ouvir apenas temas específicos, que vos interessam e/ou 'dá jeito' ouvir agora, por causa das avaliações, como o livre-arbítrio aos17 minutos; Ética a partir do minuto 56; os dilemas morais, Kant e Mill, à 1:00 hora, por exemplo.



23.4.26

Ainda sobre a verdade



O Professor Desidério Murcho é o convidado do 'podcast Eslen' e, neste episódio, reflete sobre a verdade e a vida moral, numa linguagem muito acessível.

10.4.26

O sentido da vida


Este podcast foi gerado por IA a partir de um vídeo em que Desidério Murcho aborda o Sentido da Vida, respondendo a um pedido de esclarecimento por parte de duas alunas do Ensino Secundário e, por isso, o registo é muito adequado a este público.

Caso o assunto lhe interesse, Desidério Murcho disponibiliza também um curso assíncrono sobre "O Sentido da Vida", aqui: https://criticanarede.com/cursos/sentidodavida.html

1.3.26

O Futuro, Hoje

 

"Ter esperança em tempos difíceis não é apenas uma atitude romântica ou ingénua, baseia-se numa verdade essencial. A história da humanidade não é apenas uma história de crueldade, mas também de compaixão, sacrifício, coragem e bondade. E o que decidirmos colocar no centro dessa história complexa vai marcar nossas vidas. Se escolhemos focar-nos apenas no pior, paralisamos nossa capacidade de agir. Mas se nos lembrarmos daqueles tempos e lugares — e são muitos — em que uma pessoa fez um excelente trabalho, isso dá-nos energia para agir  e, pelo menos, ter a possibilidade de mudar o curso deste nosso mundo que gira como um pião. E quando agimos, mesmo que de forma pequena, não precisamos mais esperar por um futuro grandioso e utópico. O futuro é uma sucessão infinita de presentes, e viver hoje, neste presente, como achamos que os seres humanos devem viver, desafiando tudo o que é mau ao nosso redor, é, por si só, uma vitória maravilhosa" 

 Howard Zinn, historiador, cientista político, dramaturgo e ativista pela paz norte americano

19.2.26

A FILOSOFIA APRESENTA-SE

 A revista Critica publicou no seu podcast um minicurso de filosofia, ministrado pelo Professor Desidério Murcho.
Por considerar que é do máximo interesse e utilidade para os alunos e pelo facto de, apesar de ser professor universitário, Desidério Murcho ter um registo muito acessível e cativante, mesmo para alunos mais jovens, para além muitíssimo bem fundamentado e rigoroso, deixo AQUI o primeiro episódio.




4.2.26

Ainda sobre o livre-arbítrio

 Consulte AQUI um texto do blogue O terceiro excluído, de Pedro Galvão, já antes publicado neste blog.