17.1.09

Haverá filósofos em Portugal?

É com frequência que nos perguntam se há filósofos em Portugal, pois é estranho estudarmos apenas filósofos estrangeiros. O Logos-ECB inquiriu um filósofo profissional português bem reconhecido por vós, Desidério Murcho e foi presenteado com a reflexão que se segue. Além de ser um dos autores dos vossos manuais Arte de Pensar, é professor de Lógica e Metafísica na Universidade Federal de Ouro Preto, colaborador semanal no jornal Público, autor de vários artigos, livros e antologias e, sobretudo, um exímio divulgador de Filosofia.
Agradecemos a generosidade e a prontidão demonstradas por Desidério Murcho em querer dialogar com os alunos do ECB.


Haverá filósofos em Portugal?
Sim, há filósofos em Portugal. Na medida em que há pessoas que estudaram filosofia, fizeram mestrados e doutoramentos, dão aulas de filosofia e publicam trabalhos sobre filosofia, há filósofos em Portugal. Mas esta resposta deixa as pessoas insatisfeitas. Para se compreender porquê é melhor fazer uma analogia.
Haverá músicos em Portugal? Sim, claro que há. Na medida em que há pessoas que compõem música e a interpretam, há músicos em Portugal. Mas haverá em Portugal músicos como Beethoven ou Philip Glass? Ou como a Madonna? Não; não há músicos desse género, isto é, músicos em Portugal com amplo impacto internacional. Analogamente, não há também em Portugal filósofos com amplo impacto internacional. Quando se pergunta se há filósofos em Portugal tem-se em mente, muitas vezes, filósofos com amplo impacto internacional, como Searle, Dennett, Nagel ou Peter Singer, para referir apenas alguns. Filósofos desse género não há em Portugal. Mas também não há provavelmente pintores, economistas, engenheiros ou arquitectos desses em Portugal. Tal como não há provavelmente matemáticos, físicos ou biólogos desses.
Será o impacto internacional um bom critério para avaliar a qualidade de um filósofo, de um músico ou de seja o que for? Não é certamente um critério decisivo, mas é um critério que nos dá uma indicação razoável da qualidade do trabalho produzido entre nós. O critério não é decisivo porque alguns filósofos com muito impacto internacional podem fazer um trabalho de menor qualidade do que outros filósofos com menos impacto internacional, ou com nenhum ou quase nenhum impacto internacional. Além disso, o impacto internacional precisa de ser qualificado: estamos a falar de impacto internacional em que meios? Há filósofos com muito impacto público, e muito conhecidos, mas quase sem impacto junto de outros filósofos, como é o caso de Rorty. Assim, o critério do impacto internacional não é decisivo, apesar de dar uma indicação razoável sobre a qualidade do trabalho.
Poderá vir a haver filósofos portugueses com amplo impacto internacional? Sim. Antes de isso acontecer é preciso chegar ao patamar em que neste momento estão os matemáticos ou os físicos portugueses, que publicam regularmente nas melhores revistas académicas da especialidade. No caso da filosofia, nem isso ainda existe. Se trabalharmos correctamente, contudo, criamos as condições para que os doutores mais jovens cheguem a esse patamar, para depois se poder chegar ao patamar seguinte: ter filósofos amplamente reconhecidos internacionalmente. Nunca poderá haver muitos, contudo, dada a dimensão do país. Na verdade, a maior parte dos países do mundo, ao longo de toda a sua história, nunca teve um só filósofo com amplo impacto internacional. Por isso não é de espantar que Portugal também não os tenha. O que é de espantar é que a Alemanha, França, Grécia Antiga, Reino Unido e Estados Unidos da América os tenham, e tenham tantos.
Desidério Murcho (Universidade Federal de Ouro Preto, Brasil)

10 comentários:

joão boaventura disse...

O impacto internacional é sem dúvida um critério ponderável mas não isolado.

Haverá outros parâmetros que permitam, todos em conjunto, configurar um método inteligível e assertivo, para se alcançar o cânone perfeito (?).

Não sei se a geografia poderá ter algum peso. Estou a lembrar-me dos países ditos ocidentais periféricos, v.g. penínsulas ibérica, itálica e grega, cujas trajectórias políticas, económicas e sociais, parecem partilhar o eterno devir (Heráclito).

Se a grega teve o seu apogeu na antiguidade, sem o recuperar, assemelha-se um pouco com as civilizações incas, astecas e maias que também tiveram um elevado grau de desenvolvimento económico, social e cultura.

Se a decadência da filosofia grega coincide com a decadência do mundo grego, pergunto se os considerandos políticos, económicos, sociais e culturais poderão ou não influenciar o desenvolvimento da filosofia, a sua morte, ou o seu impossível nascimento.

Posso colocar estes critérios como justificativos do "impacto internacional"?

Desidério Murcho disse...

Poucas pessoas se apercebem de um aspecto fundamental: a filosofia, as artes e as ciências são muito, muito caras. Por isso, só quando as sociedades são muito ricas podem acolher estas actividades. Daí que se observe este fenómeno: parece que a filosofia, as artes e as ciências andam atrás do dinheiro, ao longo da história. E andam, num certo sentido.

O que faz as pessoas não se aperceberem deste facto óbvio é uma mentalidade aristocrática que concebe as artes, a filosofia e as ciências como um passatempo totalmente dissociado da economia. Mas a ironia é que esta mesma mentalidade é uma mentalidade de ricos, pois só porque os aristocratas eram ricos, mas a sua riqueza não implicava que trabalhassem, é que os aristocratas desprezam o trabalho e o dinheiro.

Note-se contudo que nem todas as sociedades ricas acolhem favoravelmente as artes, a filosofia e as ciências. Ser uma sociedade rica é uma condição necessária, mas não suficiente, para se acolher (e pagar) estas actividades.

David disse...

Caro Desidério Murcho,

creio que a analogia que fez entre filósofos e músicos foi bem conseguida, apesar de o que escreveu poder não corresponder exactamente à verdade, visto que temos alguns músicos que se destacam internacionalmente, mas em estilos menos comerciais e, por isso, menos conhecidos. Mas não é essa a questão fundamental do artigo. À pergunta "Haverá filósofos em Portugal?" eu responderia convictamente que sim!
Para perceber melhor o meu ponto de vista, penso que será benéfico fazer a pergunta de forma diferente e multiplicá-la por três.
Assim, a) Haverá filósofos influentes em Portugal, com reconhecimento internacional, tais como os citados nos livros de Filosofia? Não creio, pelo menos, que eu tenha conhecimento, não há nenhum filósofo português que se tenha destacado internacionalmente e cujas teses tivessem constituído avanços importantes na área da filosofia, sendo reconhecidas pela generalidade da comunidade filosófica.
b) Haverá filósofos profissionais em Portugal? Sem dúvida que sim! Embora exerçam a profissão de professores de Filosofia, as pessoas que leccionam esta disciplina não deixam de ser filósofos(as) profissionais, pois são qualificados, licenciados em Filosofia. Mais, ao ensinarem os seus alunos estão também a questionar problemas através do pensamento e reflexão, pois para além de a matéria a leccionar assim o exigir, existem ainda ensaios a corrigir, debates em aula, ou outro tipo de situações que proporcionam o filosofar.
c) Haverá filósofos em Portugal? Como foi visto na alínea "b)", sim, existem filósofos em Portugal, mas não apenas os professores. Penso que qualquer um pode ser filósofo, mesmo que não tenha um curso superior em Filosofia. Ao pensar em problemas que se dizem de cariz filosófico, utlizando o raciocínio a priori, pode considerar-se que eu sou um filósofo. Aliás, inúmeras vezes discuto problemas metafísicos ou éticos, que não podem ser analisados de outra forma que não seja através do raciocínio. Também na Antiguidade Grega os que agora consideramos grandes filósofos não eram formados em Filosofia ou em qualquer outro termo equivalente ao contemporâneo. Posto isto, parece-me claro que sim, existem filósofos em Portugal.

Parece-me que este problema está colocado de forma errada, uma vez que ao colocarmos a questão "Haverá filósofos em Portugal?", nos referimos ao tipo de filósofos citados em "a)".
Esta questão também poderá depender do conceito de filósofo, que pode variar.
Quanto ao último parágrafo, não me parece estranho, como não o parecerá provavelmente a si, que haja tantos filósofos nos países por si referidos. A Grécia Antiga foi um dos grandes polos do cohecimento, sendo que, os seus pensadores são como que considerados pioneiros da arte de pensar, embora isto possa não corresponder à verdade. Talvez os tenhamos como pioneiros e grandes mestres devido apenas a terem sido os primeiros a registar os seus pensamentos e estes terem sido os únicos que chegaram até nós vindos daquela época. Quanto aos filósofos contemporâneos, nota-se bem a sua concentração em países mais desenvolvidos tanto económica, como intelectualmente. Assim como acontece com muitas outras profissões, como Físicos, Químicos, entre outros.

Para terminar, como aluno do Externato Cooperativo da Benedita, agradeço a sua disponibilidade para responder ao desafio colocado pelo professor Valter e desfazer as dúvidas de muitos alunos de Filosofia.
Cumprimentos,
David

Valter Boita disse...

Olá a todos!

Nem sempre há acordo, entre os portugueses, se o critério do impacto internacional é relevante ou não para classificar alguém que trabalha em Filosofia a ser designado de filósofo. Por respeito ao princípio da humildade, na Universidade cheguei a ouvir várias vezes que devemos ser humildes em aceitar o epíteto de filósofos. Ora, esta ideia é tão absurda que parece que ser filósofo é quase um título como ser barão ou duque.
Ou parece que se esqueceram de figuras como Pedro da Fonseca ou Ribeiro Sanches (dois filósofos que se notabilizaram no seu tempo pelos contributos dados à filosofia e à ciência; Ribeiro Sanches chegou a ser o único português a colaborar na Enciclopédia de Diderot e Alembert) ou então finge-se que elas nunca existiram para que continue a haver por parte de alguns filósofos portugueses a ideia de que o reconhecimento internacional é irrelevante. Não é de todo irrelevante.

As condições iniciais que devem assinalar o aparecimento de um filósofo com impacto internacional são as mesmas que podem determinar a existência de um físico ou matemático português. Na verdade, também não os há em demasia. Não se deve apenas a razões de ordem cultural, mas antes da incapacidade de as universidades se abrirem ao mundo, preparando os seus estudantes para competirem com os estrangeiros.

Há razões para sermos optimistas e acreditarmos que no futuro teremos filósofos reconhecidos internacionalmente? Sim e não.
Sim porque há mais informação, a internet, por exemplo, tem sido um instrumento para divulgação de obras e de conferências. As traduções de autores estrangeiros chegam com mais brevidade ao nosso país. Há mais incentivos para ingressarmos em universidades estrangeiras.
Não porque deixou de haver filósofos tutelares. Jamais haverá um Descartes ou um Kant, porque os filósofos estão cada vez mais a trabalhar em equipas nas universidades e alguns nomes de filósofos vivos não estão isolados do trabalho de equipa que houve nos bastidores: aulas, conferências, debates, publicações, críticas aos resultados das investigações, republicações, ... E em Portugal, este modo de trabalhar filosofia ainda se afigura longíquo, pois privilegia-se o trabalho solitário, inspirativo e inspirador, quando ser-se filósofo é tudo menos uma tarefa isolada.

David, da mesma forma que eu posso saber uns acordes de umas músicas ou saber muito de história e me interessar pela Crise de 1383-85 isso não faz de mim nem músico nem historiador. Talvez seja apenas um amador! No que diz respeito à filosofia, é muito comum ouvir-se, até de professores universitários (como cheguei a ouvir) que qualquer um é filósofo. No entanto, por detrás desta afirmação, está tudo menos solidariedade. Um filósofo é uma profissão como outra, embora não seja auto-suficiente e por isso os filósofos são professores, investigadores, autores de artigos, livros que ainda são os meios mediante os quais revelam os seus resultados à comunidade filosófica. Isto não invalida que não haja mais pessoas, sem formação filosófica, a interessarem-se por problemas filosóficos e a escreverem "posts" muito bonitos nos seus blogues privados. Mas não são filósofos, não só porque não têm formação, como o fazem em part-time. Ser-se filósofo não é dedicar-se à filosofia às segundas e quintas e fazer-se outra coisa qualquer nos restantes dias da semana. É uma actividade intensa, como qualquer outra, e não intermitente. Todos nós, de vez em quando, nos dá para discutir problemas filosóficos, mas isso não é ser-se filósofo. Imagina o absurdo que seria se um indivíduo se considerasse médico apenas porque curou a gripe dos filhos.
Um abraço

David disse...

Olá professor Valter,

como referi no meu comentário «Esta questão também poderá depender do conceito de filósofo, que pode variar.».

Também a separação em três alíneas visa tenta não suscitar mal-entendidos. Na alínea "b)" afirmo que existem filósofos profissionais em Portugal, baseando-me nos cursos superiores. Já na alínea "c)" afirmo que para além de existirem filósofos profissionais, existem outros tipos de filósofos. Este terceiro tipo de filósofos refere-se aos filósofos "caseiros" ou "amadores" ou qualquer outro termo que lhes queira aplicar.

Pelo que afirma, uma pessoa que não tenha um curso em Filosofia não pode ser filósofa. Isso parece-me um absurdo: suponhamos que um aluno termina o 12º ano, mas devido a impossibilidades financeiras não pode frequentar o ensino superior. Apesar disso, continua a dedicar-se à Filosofia nas horas livres, publicando artigos em blogues e discutindo via internet. Ora, se essa pessoa conseguir reconhecimento internacional na área da Filosofia, apresentando novos argumentos e ideias acerca dos mais variados temas, não poderá ser considerada filósofa?

Lembro-me agora de um exemplo, não sei se conhece o filme "O Bom Rebelde", com Robin Williams, Matt Damon e Ben Afleck. O Matt Damon representa o papel de um operário da construção civil, que para além dessa profissão faz limpezas num campus universitário. É um jovem sobredotado, com conhecimentos acima da média em quase todas as áreas, que se destaca principalmente na matemática, ao resolver, às escondidas e em curto espaço de tempo, teoremas de elevado grau de dificuldade, trabalhados por matemáticos durante anos. No filme ele é abordado para trabalhar em várias empresas e organizações, na área da matemática. Apesar de não chegar a empregar-se nessa área, se o fizesse iria com certeza ser reconhecido como matemático, mesmo sem a formação académica necessária para tal.

Cumprimentos, David

Valter Boita disse...

Olá David!

«Na alínea "b)" afirmo que existem filósofos profissionais em Portugal, baseando-me nos cursos superiores. (...) "c)" afirmo que para além de existirem filósofos profissionais, existem outros tipos de filósofos. Este terceiro tipo de filósofos refere-se aos filósofos "caseiros" ou "amadores"»

A alínea b) e c) são inconsistentes porque não podem ser ambas verdadeiras ao mesmo tempo. Repara que se dizes que há filósofos profissionais, ao alegares que também há filósofos não profissionais incorres numa contradição.
A proposição (b) anula a (c) na medida em que se (b) for verdadeira, a (c) tanto pode ser verdadeira como falsa, o que nos deixa perante um dilema. Se (c) for verdadeira, a (b) continua a ser verdadeira. Pelo que a proposição (b) é mais plausível do que a (c) e vou tentar explicar-te porquê.

Vou usar uma analogia. Existem médicos profissionais, mas não existem médicos amadores. Ou há médicos ou não há médicos, não há "tipos" de médico. E ninguém duvida disso. Mesmo o exemplo que dás do filme, a personagem protagonizada por Matt Damon é convidada para trabalhar na universidade e a estudar mais. Não existem génios sem trabalho, estudo e dedicação. Einstein chegou a dizer que o seu trabalho resultava de 99% de esforço e 1% de inspiração. Não existem génios que estejam em casa a jogar playstation, mas que são capazes de resolver problemas matemáticos complexos, creio mesmo que isso é humanamente impossível. Persiste a ideia romântica de que existem génios inspirados, mas a maior parte dos génios que conhecemos tiveram de trabalhar bastante, para acrescentar à inspiração o que justificava a sua genialidade. Ora repara nos grandes pintores.

Relativamente aos filósofos, é muito comum pensar-se que alguém que lê e pensa correctamente filosofia é filósofo. Mas essa tese é falsa. A crença de que se pode ser filósofo, artista, poeta, médico, pela força da inspiração consiste em desrespeitar o trabalho que os filósofos, artistas, poetas e médicos desenvolvem.

«Pelo que afirma, uma pessoa que não tenha um curso em Filosofia não pode ser filósofa. Isso parece-me um absurdo: suponhamos que um aluno termina o 12º ano, mas devido a impossibilidades financeiras não pode frequentar o ensino superior.»

Não é assim tão absurdo. Absurdo seria se me considerasse historiador porque leio livros de História ou um romancista porque escrevinho umas coisas em casa. Se tomasse essa atitude estaria a ser arrogante e até intelectualmente desonesto. Ninguém se faz sozinho e tal como não há médicos sem formação superior em medicina, é muito improvável que haja, actualmente, filósofos sem formação filosófica.

Este ponto merece ainda um esclarecimento: estudar filosofia na universidade não é uma condição necessária para se ser filósofo. Eu estudei filosofia e sou professor de filosofia e não me considero filósofo. Existem, a meu ver, outras condições necessárias que definem um filósofo:

1) Estudar filosofia no ensino superior.
2) Desenvolver um projecto de investigação numa área específica da filosofia.
3) Divulgar os resultados da sua investigação: seminários; conferências; artigos; livros; ...
4) Os resultados da sua investigação têm de ser submetidos a uma avaliação crítica pelos seus pares.
5) Mediante as críticas apresentadas, reformular os seus argumentos e responder às objecções.
6) Trazer alguma novidade à disciplina filosófica a que se dedica (filosofia da mente; metafísica; epistemologia; ...)

Um filósofo não é apenas um divulgador (como os professores) mas tem de ter obra feita e reconhecida pelos seus pares como relevante para a filosofia. Bom... esta é apenas a minha posição! :)

Cumprimentos,
Valter

Graça Silva disse...

Olá a todos,
Valter!
"Este ponto merece ainda um esclarecimento: estudar filosofia na universidade não é uma condição necessária para se ser filósofo."

Não quererias dizer condição suficiente em vez de condição necessária? :-)

David!
"Na alínea "b)" afirmo que existem filósofos profissionais em Portugal, baseando-me nos cursos superiores. Já na alínea "c)" afirmo que para além de existirem filósofos profissionais, existem outros tipos de filósofos. Este terceiro tipo de filósofos refere-se aos filósofos "caseiros" ou "amadores" ou qualquer outro termo que lhes queira aplicar."

Se entendi bem, o que pretendes dizer é que estudar numa universidade não é condição necessária para se ser filósofo, já sabemos que não é suficiente, se assim fosse todos os formados em filosofia seriam filósofos, o que é absurdo.
Penso que tens alguma razão, embora o exemplo que invocas não seja o melhor.
O filme que referes, um bom filme!, dá-nos uma ideia romântica do conhecimento, um mito com muita credibilidade por parte dos estudantes :-). Além de falso é perigoso. Pode ter custos "elevados" porque o saber dá trabalho, leva tempo e exige um investimento muito grande, só uma pequeníssima parte é fruto do talento. Embora este seja fundamental, não é suficiente.
Espero que não descubras tarde demais!!.
(Daria matéria para um post ;-)).
No entanto não deixas de ter alguma razão.

Valter!
Concordo com o que dizes à excepção do ponto 1).
Pensa por exemplo em José Saramago, o nosso único Nobel em Literatura, não é formado em Literatura. Foi distinguido com o prémio que tantos formados ambicionam e ainda não conseguiram. É claro que Saramago não é um "romântico" :), é um profissional muito trabalhador, reconhecido internacionalmente e com muito, muito talento. Penso que este exemplo se pode aplicar à Filosofia. Não podemos excluir à partida, a possibilidade de termos filósofos com impacto internacional, mesmo que não tenham formação superior em Filosofia. Embora muito improvável, não é impossível.
Saudações filosóficas.

Valter Boita disse...

Olá Graça!
«Não quererias dizer condição suficiente em vez de condição necessária? :-)»
Sim, queria dizer condição suficiente.

«Não podemos excluir à partida, a possibilidade de termos filósofos com impacto internacional, mesmo que não tenham formação superior em Filosofia. »
Para justificares a tua posição apresentas como contra-exemplo José Saramago. De facto, não me parece, e a história dá-nos conta disso mesmo, que estudar literatura seja uma das condições para se ser escritor. A maior parte dos escritores que conheço não têm qualquer formação em literatura. O mesmo não acontece com os filósofos.

Também é verdade que alguns filósofos reconhecidos e permanecem como figuras centrais da história do pensamento não tiveram formação filosófica. (Por exemplo Nietzsche). No entanto, nos dias de hoje, resolver os problemas filosóficos centrais não se pautam por uma formação clássica, literária ou científica. Estou convencido de que os desafios filosóficos actualmente requerem indivíduos com uma preparação sólida em filosofia. Não consigo imaginar um escritor, por exemplo, ou um cientista a ser um grande filósofo. Um grande escritor não quer ser filósofo, ainda que possa contribuir com a sua escrita para a compreensão de alguns problemas; o mesmo sucede com os cientistas. Estes últimos confrontam-se com grandes problemas filosóficos, mas não têm a presunção de os resolver filosoficamente. Por estas razões, tentar resolver um problema filosófico por vias não filosóficas é útil e imprescindível, mas não me parece que seja uma prioridade dos escritores ou cientistas. Há nesses casos necessidade de fornecer ao filósofos pistas e dados empíricos para enriquecer a reflexão filosófica e a discussão crítica desses problemas.
Um exemplo: a confiar nos resultados obtidos pelas ciências duras, seria mais aceitável considerar que o livre-arbítrio não existe. Contudo, os filósofos actuais estão preocupados em, partindo dos dados empíricos, mostrar que a crença no livre-arbítrio não se pode dissipar empiricamente, na medida em que ela é constitutiva do processo de agir.

Graça Silva disse...

Olá Valter!
José Saramago não tem formação universitária, fez apenas o secundário liceal e técnico. É doutorado Honoris Causa pelas Universidades de Turim, Sevilha e Manchester. Parece-me que, para alcançar o nível de sofisticação que o mesmo conseguiu, são necessários conhecimentos específicos de Português. Estes conquistou-os como autodidacta.

Do mesmo modo, um filósofo também tem de ter uma formação específica em filosofia mas, basta lembrarmo-nos dos nossos cursos universitários para tirarmos as nossas conclusões. Não aprendes mais como autodidacta? Pesquisando, dialogando, estudando?
Não achas possível alguém chegar a ter ideias filosoficamente sofisticadas desta forma?

"Estou convencido de que os desafios filosóficos actualmente requerem indivíduos com uma preparação sólida em filosofia."

Completamente de acordo, mas considero é que essa formação sólida está muito mais na pesquisa pessoal, do que na formação universitária. Estamos a falar de filósofos em Portugal. :-)) Não digo que não seja difícil, reafirmo, que não é impossível.

"Um exemplo: a confiar nos resultados obtidos pelas ciências duras, seria mais aceitável considerar que o livre-arbítrio não existe."
O que é que entendes por ciências duras, as ciências da Natureza?
É um facto que somos seres biológicos físicos e químicos, o agir não está incluído nas ciências duras, mas sim nas humanas. Estas, tanto quanto sei, não se resumem a uma causalidade determinística. O problema do livre-arbítrio está em aberto, por mérito das crenças dos filósofos, mas porque não o reconhecer, envolve uma contradição performativa (lógica).
E a lógica é uma ciência dura no sentido que lhe atribuis, ou não?
Obrigada pelo diálogo :-))
Cumprimentos filosóficos
Graça

Graça Silva disse...

Correcção: Onde se lê: por mérito das crenças dos filósofos... deve ler-se: não por mérito das crenças dos filósofos.