27.1.09

Será que este "post" é real?

René Magritte, "Isto não é um cachimbo"

O homem que está sentado a escrever neste momento sou eu. Eu sei que sou o homem que está neste momento a escrever este texto, logo como sei disso, posso dizer que existo. Esta conclusão torna-se demasiado precipitada... há que voltar atrás e reformular o argumento. Afinal, existe a possibilidade de eu não estar neste momento a escrever este texto. [Entretanto, o leitor ajeita os óculos, se os usar, ou então soergue-se da cadeira e julga que o mundo está de pernas para o ar]
De facto, não posso deixar de colocar a possiblidade de não estar neste momento a escrever este texto. Posso estar a ter um sonho tão vívido que parece real. Naturalmente que esta hipótese é absurda porque consigo distinguir o estado de vigília do estado de sono.
Começo por admitir que este post é real. Posso lê-lo, editá-lo ou reescrevê-lo. Posso discuti-lo com os meus amigos, posso ser enxovalhado por algum deles em ter escrito este parágrafo. Posso desistir de o escrever e ficar-me por aqui, sem colocar um ponto final sequer
Todas as justificações que me fazem acreditar que este post é real podem ser imediatamente dissipadas por um filósofo céptico, mostrando-me que: 1) estou a sonhar e confundo o sonho com a realidade; 2) em algumas ocasiões, as minhas sensações não passam de meras aparências do que é real, por isso, nada me garante que a sensação que estou a ter neste momento não pertence à mesma categoria de outras tantas que se revelaram falsas; 3) posso estar a padecer de uma alteração do meu estado de consciência (ou estou embriagado para pensar em coisas destas ou estou a experienciar uma alucinação que me faz acreditar que este post é real). Em conclusão, perante estas objecções, fico ainda mais confuso e estou prestes a admitir que a minha crença (segundo a qual este post é real) não passa de uma ilusão. Da argumentação do suposto filósofo céptico, houve dois pontos que merecem destaque:

a) Se algo é real, então não pode ser uma ilusão.
b) Se algo está a ser experienciado pelo meu corpo, poderá não ser real.

Explicitarei os dois pontos anteriores.

1. Se a) é verdadeira, então os conteúdos dos sonhos não são reais. De facto, já sonhei ser o Presidente dos Estados Unidos e não sou, de facto, o Presidente dos Estados Unidos. Portanto, enquanto estive convencido no meu sonho de que era o Presidente dos Estados Unidos vivenciei algo que não era real. Se sair para a rua e gritar "Eu sou o Presidente dos Estados Unidos", as pessoas vão tomar-me como um louco e ser-me-á diagnosticada esquizofrenia. De facto, não posso ser o que não sou, embora gostasse de ser o Presidente dos Estados Unidos ou o namorado da Scarlett Johansson. Do que foi exposto, posso aduzir que a) é verdadeira. Vivenciamos experiências que se tornam ilusões, e se o são é porque não são reais. A realidade é a propriedade fundamental de todos os objectos que podem ser conhecidos.

Assim, os filósofos empenharam-se em distinguir realidade de aparência. X é real se não for ilusório ou uma ficção. Contudo, dado que as ilusões existem e as ficções também, será que não são reais? Apesar de serem ilusões são reais precisamente porque não são ilusões. Imagine-se que o Pedro acredita que é Napoleão Bonaparte. Não é real que o Pedro seja Napoleão Bonaparte porque isso é apenas uma fruto da sua imaginação. Mas esta suspeita é real precisamente porque o Pedro julga ser Napoleão Bonaparte. Portanto, é verdade que o Pedro acredita que é Napoleão Bonaparte, mas é falso que o Pedro seja, de facto, Napoleão Bonaparte. Em consequência disto, é real o que for passível de ser verdadeiro ou factivo.

2) Nem tudo o que é experienciado pelo corpo é real. Se o Pedro se encontra no deserto à deriva durante dois dias sem ingerir líquidos, o seu cérebro irá compensá-lo dando-lhe a ilusão de que está uma fonte jorrar àgua mesmo à sua frente. Mas não se trata de nenhuma fonte, apenas a cabeça de um dromedário a aproximar-se. Acreditamos que tudo o que é objecto de captação sensível (tudo o que vejo, toco, cheiro, saboreio, ...) é real, contudo várias vezes somos enganados nessas experiências. O leitor que me permita que lhe vende os olhos. Não vê nada? Nada, nada? Muito bem! Então agora vou pedir-lhe que toque neste objecto. Tocou? O que lhe parece que é este objecto? Vai dizer-me que tem a certeza de que se trata de um cachecol. Neste momento julga que é real o que está a percepcionar. Peço-lhe que levante a venda e repare, parece um truque de magia, mas o objecto que tocou não é um cachecol, mas um caniche bebé. Não o convenci; vai dizer-me que o tacto não é um sentido tão viável quanto a visão. Então repare nesta pintura de Salvador Dali: o que é que os seus olhos lhe estão a mostrar? O mesmo seria perguntar o que quer que os seus olhos vejam?
Certamente que consegue vislumbrar o perfil da Gala (a mulher de Dali) a contemplar o mundo exterior a partir de uma janela. Mas se se afastar um pouco mais, sim o mais que puder, verá algo que lhe parece um rosto. E é mesmo. É o rosto do famoso Presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln. Mas afinal, trata-se de Gala a passear os seus olhos pela linha do horizonte ou o retrado de Lincoln? O que vêem os seus olhos? Certamente que verão algo de diferente dos meus ou dos do Pedro ou de outra pessoa qualquer. Então o que lhe parece real (por exemplo a figura desnuda de Gala) não é mais do que ilusório para mim, que vislumbrei o rosto de Lincoln.


Será que este post é real? Se não estiver a ser iludido pelos meus sentidos ou a padecer de uma alucinação, nem a vivenciar um sonho, posso julgar que este post é real. É real porque existe em função do sujeito e segundo a perspectiva do sujeito pensante. Esta ideia aproxima-nos da posição de muitos filósofos que julgaram que o real é o que se dá ao pensamento. Se penso num determinado objecto (de natureza empírica ou racional), esse objecto é real, de modo que a sua realidade é justificada pelo pensamento racional. Nada do que escape ao pensamento racional é, por esta razão, real.
P.S.: Para começar, dada a curiosidade de muitos colegas vossos, é importante reconhecer que a realidade é um conceito filosófico que se entende melhor pelo que não é do que pelo que é. Assim sendo, desde Parménides (séc. VI a.c.) que a realidade (aquilo que é) não é senão o oposto de aparência (o que parece ser, mas não é).

12 comentários:

David disse...

Olá professor Valter,

apreciei bastante a leitura do seu post, seja ele real ou não. : )

O problema da realidade é algo que (quase) me atormenta, há já algum tempo, embora não o encare de forma dramática... muito pelo contrário.

Gosto de acreditar que este sofá onde estou sentado é real, que estou realmente a publicar um comentário, mas não consigo justificar esta minha crença. : )

Espero continuar a poder ler esta série de artigos, de forma a que algumas ideias se esclareçam na minha cabeça.

Cumprimentos, David

Ana Luísa disse...

Boa noite,
Se o título é perturbante o desenvolvimento não fica atrás...
Conto que discutamos a realidade numa aula próxima, há muitas questões a esclarecer, nomeadamente saber onde está a realidade, o que, a meu ver, é um problema também bastante interessante; mais do que saber SE existe ou o que é, é importante saber ONDE existe, ou o que é, de facto, real.

Luísa Barreto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luísa Barreto disse...

Olá Valter ,
“A realidade é uma ilusão.” (?)
Objecção fenomenológica: uma teoria segundo a qual todos incorremos no mesmo erro, todo o tempo, é menos plausível do que a falsidade da própria teoria;
Objecção contra o ensimesmamento: A teoria de que a ilusão da realidade é exclusivamente minha e os outros são meras personagens da alucinação contínua que constitui a minha existência, para além de narcisística, poderia ser considerada mais patológica do que filosófica;
Conclusão: Embora não haja uma solução definitiva para este problema, não podemos viver, efectivamente, sem pressupor a possibilidade da existência da realidade, independentemente da maior ou menor consciência da sua inteligibilidade. Logo, vive como se o teu “post” fosse real e podes mesmo vir a ser namorado da Scarlett Johansson. ;)
P.S. Assim que o trabalho mo permitir, participarei de forma mais fundamentada.

Luísa Barreto disse...

Correcção: Onde se lê inteligibilidade, deve ler-se ininteligibilidade. As TIC sim, são transcendentes:(

Valter Boita disse...

David e Ana, o problema da realidade afecta-nos a todos! :)

Saber o que é o real é como entrar numa espiral suspensa em algum buraco negro que nos envolve e nos aprisiona, conduzindo-nos vertiginosamente a lado nenhum. Ficamos embrulhados no problema porque é difícil suspender o juízo relativamente a ele. O David tem razão, gostamos de acreditar que tudo é real, mas não sabemos justificar isso. Nem sempre temos justificação para as nossas crenças, mas elas podem ser verdadeiras, sem que nós o saibamos.

Mas há que tentar: se a realidade não existisse, então também não poderia estar neste momento a pensar sobre ela. Mas eu estou a pensar neste momento a pensar sobre a realidade, logo a realidade existe.
No texto não pretendi defender que a realidade não existe, nem tomar a posição dos cépticos radicais. Mas a dúvida é um instrumento filosófico de grande importância e ela conduz-nos a uma tentativa de tentar averiguar o que se entende por real.

Saudações

Valter Boita disse...

Hallo Luísa, wie geht's?

Quem me dera que tivesses razão em dizeres que há a possibilidade de ser namorado da Scarlett! :)
Só se for num dos mundos possíveis de Leibniz, porque neste, o "melhor", tal possibilidade torna-se muito remota.

Estamos de acordo. Seria impossível viver sem pressupor a existência da realidade, ou da existência do mundo exterior, contra todas as tendências solipsistas. E o problema continuará a pertubar-nos patologicamente!

Auf wiedersehen!

Ana Luísa disse...

Professor Valter,

quando diz "afectar-nos patologicamente" quer dizer "como se fosse uma doença"? Se for esse o sentido deixe-me que lhe diga que, de facto, este problema é daqueles que perturba de uma maneira um bocado doentia. Repare que, caso isto (tudo isto, o que existe e o que nem julgamos que possa, sequer, existir - Universo)não passe de uma ilusão, viver torna-se um grande absurdo: lutamos por tanta coisa, exaltamos o conhecimento, ansiamos por mais e mais... e, no final, não serve de nada, porque nem há nada.
Claro que esta é uma situação realmente absurda. Se pensarmos assim tudo deixa de fazer sentido, mas parece-me que quase toda a gente, em dada altura da sua vida (nem que seja uma só vez), é assaltado por uma espécie de infeccção metafísica e pensa "Que raio ando aqui a fazer? E se isto for tão real como eu ser dono de um banco?", o que é, por momentos (até chegarmos à conclusão que estamos a pensar coisas sem fundamento), desesperante.

Luísa Barreto disse...

Hallo, Valter
Continuo indefectível da sua causa e do melhor dos mundos…
Se da realidade, daquilo que ela é em si mesma, nada podemos dizer, resta-nos o fenómeno, o objecto como aparece à nossa consciência. Então a minha realidade é a minha imagem, a minha representação dessa suposta realidade fora de mim. Certo?
Nesse caso é tão real o seu post como este comentário; como o seu amigo Pedro ser Napoleão Bonaparte ou o meu caro colega presidente dos Estados Unidos e a Scarlett Johanssen sua primeira dama.
Vê moinhos? São moinhos. Vê gigantes? São gigantes.
Tão subjectivista, solipsista e patológica e, por conseguinte real, como o seu contrário. Ou não? : )

Graça Silva disse...

Olá Valter!
Acho que há boas razões para considerares o teu post, bem como a tua pessoa e os teus sonhos,:-) reais.

1. Se estivéssemos sempre a sonhar, não teríamos qualquer conceito de sonho, uma vez que não teríamos o conceito de estar acordado. Além disso, fazer a pergunta, estarei a sonhar? Implica não estar a sonhar mas estar consciente.
A qualidade das experiências possíveis nos sonhos ou em vigília, é muito diferente. Os sonhos implicam muitos acontecimentos impossíveis na vigília, por exemplo, sonhei muitas vezes que voava e até hoje nunca o consegui fazer acordada.:-)
Há ainda a possibilidade da alucinação, afinal o meu cérebro pode ter sido manipulado por drogas, sem eu o saber. Nesse caso, poderia pensar que vejo o que na realidade não vejo. Mas se assim fosse, como poderia estar sentada a escrever estas linhas, ou seja, como é que a cadeira, imaginária, poderia sustentar o meu peso?
Quando argumentamos acerca dos erros dos nossos sentidos, pressupomos recordações que consideramos fiáveis. Ora, embora a memória não seja totalmente fiável, como pressupõe e bem a Psicologia, não podemos desconfiar séria e radicalmente dela, senão, temos de questionar toda a comunicação que se apoia em conceitos recordados e, tornaremos impossível a própria discussão sobre o cepticismo.
Além disso, os cépticos radicais não duvidam da fiabilidade da lógica, o que enfraqueceria bastante a sua argumentação, visto os seus argumentos assentarem nela.
Isto sugere que, o cepticismo tem de ter limites ;-)

Graça Silva disse...

2. Resta-nos a possibilidade do mundo ser virtual.
«Ou somos cérebros numa cuba ou não somos», não há neste caso terceira possibilidade. Pois bem, temos razões para crer em ambas, mas a 2ª hipótese é mais credível, porque é a mais simples. O princípio da simplicidade conhecido como «navalha de Ockham», é um princípio não só elegante, como muito razoável, uma vez que a vida o comprova.
A segunda hipótese é mais simples porque pressupõe apenas um mundo e a primeira pressupõe dois.
Podemos sempre objectar que tudo depende do que se considera simples. Afinal poderíamos sempre dizer que o primeiro é mais simples, porque precisa de menos objectos físicos e menos mentes.
Precisa apenas da nossa mente e da mente dos programadores, a nossa família e todos os outros podiam ser induzidos virtualmente.
Esta hipótese tem implicações pouco prováveis. Se o céptico tivesse razão, estaríamos isolados do mundo que nos cerca e não saberíamos nada acerca dele nem das pessoas que nele vivem. Seríamos uma espécie de Robinson Crusoé, fechados no nosso mundo, prisioneiros das nossas mentes (solipsismo).
Ora isto é altamente improvável porque nós temos sentimentos socias. Emoções como a vergonha e o embaraço não fariam qualquer sentido se não fossemos seres sociais.
Nem um céptico consegue evitar acreditar que o mundo que vê é real, apesar de não encontrar razão para acreditar que é real.

Não conseguimos encontrar a tal justificação relevante, que nos tiraria todas as dúvidas, mas temos, tens, boas razões para creres no teu post, até porque os alunos reais, e eu também, gostámos muito de o ler. ;-))

Saudações filosóficas
Graça

Graça Silva disse...

Correcção: onde se lê: «sentimentos socias» deve ler-se sentimentos sociais