2.4.09



Deus, perfeição e verdade em Descartes
Uma breve reflexão

O raciocínio cartesiano, que leva o autor a afirmar que Deus existe, baseia-se numa ideia segundo a qual é essencial a existência de um ser perfeito, que permita, através do estabelecimento de comparações, perceber o quão “imperfeito” o ser humano é. Desta forma, Descartes defende que as verdades já estão instituídas por Deus, cuja perfeição as determina.

A posição que defende que Deus impregna a razão humana com algumas verdades essenciais, não está devidamente justificada já que, do meu ponto de vista, o processo de construção de verdades se revela evolutivo, e não pré-determinado. Senão, vejamos:

É evidente que os sentidos e mesmo a razão levam muitas vezes a conclusões dúbias e precipitadas cuja falsidade mais tarde reconhecemos. Todavia, não é um facto claro e distinto que o sentido do conhecimento humano seja o da perfeição, de tal forma que tenhamos como garantido o alcance da verdade; a procura da verdade revela-se, antes, um processo dinâmico e as proposições verdadeiras, de vigência temporária. O ser humano vai, simplesmente, construindo as verdades que lhe parecem mais adequadas em cada momento do processo.

Desta forma, também não posso aceitar como plausível que concebamos clara e distintamente a existência de Deus; se reconhecermos os paradigmas de perfeição como construções racionais e não como proposições pré-determinadas por um ser perfeito, nada há que me garanta que Deus constitui uma entidade que define as orientações lógicas do meu pensamento, não se mostrando essencial a sua existência.
Em suma, Deus não passa da figura que representa uma construção utópica da evolução racional humana.



Imagens do Google: A criação de Adão, Miguel Ângelo; Caricatura de Descartes
Paulo Batista, 11ºA

12 comentários:

Graça Silva disse...

Olá Paulo,
Bom texto, rigoroso, crítico, equilibrado.
Concordo plenamente contigo, Tanto a vida como o conhecimento são fruto de um processo evolutivo que está amplamente demonstrado/justificado pela ciência.
Discordo quando afirmas que as proposições verdadeiras são de vigência temporária. Parece-me que há proposições como por exemplo: A água é H2O, que não são verdades temporárias. Se é água é H2O, se não for H2O, então não é água. Poderá ser outra coisa, dependendo da substância adicionada por exemplo... mas não é água.
São muito poucas as proposições deste género, mas felizmente para nós também existem :-).
cump. filosóficos
Graça

Luísa Barreto disse...

Olá Graça :)
Será que a idade está a tornar-me demasiado céptica?
Talvez não possamos afirmar, tão peremptoriamente, que as proposições verdadeiras SÃO de vigência temporária, mas será que não devemos estar sempre preparados para essa possibilidade?
Partindo do teu exemplo: A verdade da proposição “A água é H2O” não poderá vir a revelar-se temporária, não porque lhe adicionamos um pacote de refresco (sabor a limão), mas porque algum dos nossos amigos químicos descobre que afinal sempre a constituíram, não só dois átomos de hidrogénio e um de oxigénio, mas também um átomo XPTO, elemento até agora não isolado e representado na tabela periódica? (Que me perdoem, os colegas da área, a falta de rigor.)
Provável? Não. Impossível?
Paulo: Obrigada e parabéns pela tua participação

Paulo Batista disse...

Olá professoras :D
Bem, antes de mais, quero agradecer a oportunidade de participar neste blog, que fomenta ainda mais o interesse pela filosofia e uns "brainstorming's" que não fazem mal a ninguém.

Queria só dizer, para responder à professora Graça, que a minha ideia insere-se naquilo que foi defendido pela professora Luísa; de facto, as proposições que agora instituímos como verdadeiras baseiam-se em análises proporcionadas pelos actuais mecanismos de observação da realidade. Com isto quero dizer que aquilo que verificamos actualmente não é estritamente o que sempre verificaremos, pois poderemos arranjar outras formas de "precisar" a informação e olhar para ela de outra forma.

No exemplo prático da água, e seguindo o exemplo já dado, descobrimos que a água tem mais um átomo (não XPTO, porque isso poderia ser já uma molécula e baralharíamos as coisas, mas Y :D). Para esta descoberta, fora necessário construir um novo microscópio, imagine-se - o novo mecanismo de observação da realidade. Contudo, nada alterou a composição da água, que foi sempre a mesma; apenas arranjámos uma forma diferente de olhar para ela. Aí, e seguindo o raciocínio da professora Graça, já não seria água (H2O). Bem, de certa forma não, mas não acredito que se mudasse o conceito só porque a reconhecemos mais aprofundadamente a substância; afinal, sempre foi água, mas olhada de maneira diferente!

Aliás, desta forma, a água até poderia nem ter alguma vez existido, de forma que os senhores do recenseamento científico não se importariam de chamar água à criatura, coitada. :D

Saudações filosóficas,
Paulo Batista

Graça Silva disse...

Olá,
Obrigada aos dois pelo diálogo.
Luísa,

Não não estamos velhas, ou talvez sim! ;)
Penso que concordamos no papel metodológico que a crítica vigilante, tem de ter quando procuramos a verdade. É um facto que esta atitude implica cepticismo.
Mas penso que há proposições cuja vigência é definitiva, olha por exemplo: é um facto consumado que nasci nos anos sessenta. É certo que isto só é verdade se considerarmos o calendário Gregoriano. Bom, mas isso já tem a ver com o modelos/instrumentos com que conhecemos a realidade. É certo que tudo o que sabemos sobre a realidade é mediado por um modelo no qual a(s)linguagem (s) teêm um papel fundamental. Quanto a isto não há dúvida. Se mudamos o modelo, mudamos a perspectiva embora não possamos mudar a realidade.

Paulo,
É um facto que, o que observamos hoje não é o que sempre observámos ou observaremos, nenhum sistema perceptivo biológico (mesmo ampliado - macro ou microscópio)é capaz de captar a realidade como ela é, por isso é que usamos também os modelos formais. Penso que há realidades só acessíveis através deles. Pensa por exemplo nas entidades matemáticas ou lógicas.
Quando descobrimos algo mais aprofundadamente, mudamos o conceito sob pena de não sermos rigorosos, algo que a ciência ou a filosofia têem de evitar.

Cump.filosóficos

Luísa Barreto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luísa Barreto disse...

Olá Graça e Paulo.
Não precisamos de mudar o nome à água; já era água antes de ser H2O. Lembram-se?
Pois é : “Muda o modelo, muda a perspectiva” logo, muda a verdade. Não a realidade.
Não podemos esquecer que o conhecimento é um produto de uma relação entre o sujeito e a realidade, sob pena de confundirmos a realidade com a sua representação (ou representações). É do mais puro bom senso “ver” a realidade, mas sem nunca ignorar o papel do sujeito. Aliás, qualquer avanço do conhecimento se faz nos dois sentidos: o da realidade e o do sujeito. E essa é a parte mais aliciante, não é filósofos? ;)
P.S. Graça, em relação à idade também há solução: institui-se uma nova Era e o seu início em 1980, em boa verdade teríamos pouco mais de vinte anos. Ah, mas a realidade, essa não muda, não :(
Boas Férias

Graça Silva disse...

Olá filósofos,
A proposição: "Eu sou idêntica a mim mesma" não é uma verdade temporária, (não estou a falar obviamente do tempo da minha vida) e se as relações de identidade também se aplicam a coisas e se já existiam coisas antes do homem, segue-se, NO MÍNIMO, que nem toda a verdade é temporária. Ou estou a pensar mal? :)
Nem sempre encontramos pessoas que nos façam pensar. Obrigada.
BOAS FÉRIAS

Luísa Barreto disse...

Olá :)
Mas é obvio que consideramos algumas verdades absolutas, intemporais, axiomas fundamentais - “Qualquer coisa é idêntica a si mesma.” Certíssimo.
Mas ao enunciar a proposição na primeira pessoa, o “eu” torna-se representação de “mim” e já não sei se é de aceitar pacificamente essa coincidência entre “eu” e “mim mesma”.
É um equívoco gerado pelas limitações do discurso ou este revela, justamente, esse distanciamento? Os exemplos são muitas vezes traiçoeiros…
Obrigada aos dois. Boa noite

Graça Silva disse...

Olá,
Parti do eu, porque me lembrei do cogito,a substância pensante cartesiana que no fundo representa todos nós sujeitos pensantes, emboa formulada na primeira pessoa. Esta parece ser uma crença indubitável, duvidar da mesma é incorrer numa contradição performativa.
Depois pensei no princípio da identidade que se aplica a tudo o que existe. As relações de identidade parecem subsistir além de qualquer sujeito e para além de qualquer limitação temporária, pois são abstractas. Se há SER,então há pelo menos a relação de identidade. Parece-me que não estou a incorrer numa petição de princípio pois o ser é de natureza ontológica, metafísica, e a indentidade é de natureza lógica. Estarei a pensar mal?
Parece-me também que o facto químico da água ser h2o, é a explicação da sua essência, ou seja, a essência da água é ser h2o. Se adicionarmos um elemento, a essência da água modifica-se, se se modifica, então deixa de ser água ficamos com outra molécula diferente na tabela periódica. Como mudam as características essenciais, tem de mudar o conceito, a ideia. Por inerência o nome também deve mudar. Penso que a tabela periódica prova isso mesmo, ou não? Corrijam-me se estiver enganada.
cump.

Luísa Barreto disse...

Olá
Estás a pensar bem, colega. Penso que talvez eu não tenha sido suficientemente clara. Como tu lembraste, e muito bem, “…o princípio da identidade aplica-se a tudo o que existe. As relações de identidade parecem subsistir além de qualquer sujeito e para além de qualquer limitação temporária, pois são abstractas.” Totalmente de acordo. A questão que eu te estava a colocar não era se ela subsistiria ALÉM do sujeito era se ela resistiria APESAR do sujeito, i.é., mediada pelo conhecimento do sujeito. Ou seja, se o “eu” se identifica com a minha “essência” ou se h2o se identifica com a essência da água. Não estando de todo em causa que estas, em si, se identificam consigo mesmas.
Pareceu-me que o Paulo tinha resolvido bem a questão da água no seu comentário “ nada alterou a composição da água, que foi sempre a mesma; apenas arranjámos uma forma diferente de olhar para ela. Aí, e seguindo o raciocínio da professora Graça, já não seria água (H2O). Bem, de certa forma não, mas não acredito que se mudasse o conceito só porque a reconhecemos mais aprofundadamente a substância; afinal, sempre foi água, mas olhada de maneira diferente!”
Por outro lado, já uma vez falámos sobre esta questão, a da “essência ou natureza do homem” e continuo a preferir pensar que o homem não tem uma essência ou natureza dada e fixada, é antes uma história.
Mas, se assim for, continuaríamos sempre a ser a Graça e a Luísa apesar de todas as transformações que as nossas histórias provocassem ou teríamos de mudar de nome? :))
E esse “eu” identificar-se-ia sempre comigo mesma ou só se eu tivesse plena consciência dessas transformações?
A existência do sujeito pensante, bem como da realidade e assim da possibilidade do contacto/conhecimento, nunca estiveram em causa mas apenas a tal atitude crítica vigilante, ou de tempero sistemático das nossas certezas com pequenas doses de dúvida.
A interrupção deste diálogo não deve ser confundida com falta de interesse. Apenas que terei de me dedicar a actividades um pouco mais prosaicas, mas não menos necessárias, estas férias. :)
Obrigada.

Graça Silva disse...

Olá,
Espero que a minha insistência não seja inconveniente.
Quero apenas esclarecer dois pontos que, estão a gerar ou poderão gerar confusão:

1. Quando falo de essência da água não me refiro a nenhuma essência no sentido platónico, imutável e permanente, refiro-me às propriedades, às condições necessárias e suficientes para uma coisa ser o que é. Propriedades lógicas que nos permitem definir a coisa, ou seja, distingui-la das demais.

2. "Por outro lado, já uma vez falámos sobre esta questão, a da “essência ou natureza do homem” e continuo a preferir pensar que o homem não tem uma essência ou natureza dada e fixada, é antes uma história."

Completamente de acordo não é nada disto que está em questão. Eu mesmo comecei por admitir que concordava plenamente com o evolucionismo.

"Mas, se assim for, continuaríamos sempre a ser a Graça e a Luísa apesar de todas as transformações que as nossas histórias provocassem ou teríamos de mudar de nome? :))
E esse “eu” identificar-se-ia sempre comigo mesma ou só se eu tivesse plena consciência dessas transformações?"

Aqui há que distinguir dois tipos de identidade: a numérica e a qualitativa.
Eu não sou qualitativamente idêntica à teenager que já fui mas sou numericamente idêntica. Falar dela e falar de mim é falar da mesma pessoa e não de duas.
Se houvesse alguém exactamente como eu no que toca a propriedades intrínsecas - uma reprodução fiel ao que sou neste momento - teríamos então duas pessoas qualitativamente idênticas, mas numericamente diferentes:-)
Mas o problema da identidade, está longe de ser resolvido visto a identidade numérica colocar muitas dificuldades, tem a ver a persistência no tempo e também como referes e bem, com a consciência de nós. Ora a consciência coloca muitas perplexidades pois como bem sabemos podemos perdê-la.
Cumprimentos filosóficos

Graça Silva disse...

Correcção:
Onde se lê "tem a ver a persistência", deve ler-se: tem a ver com a persistência.