21.3.10

Implicações "intoleráveis" da tolerância

O argumento da tolerância é, para quem defende o relativismo moral cultural - teoria metaética segundo a qual os factos morais são instituídos pela sociedade variando de sociedade para sociedade e de época para época -, um factor de coesão e respeito entre culturas. Mas o mesmo é contraditório. Se a maioria das pessoas de uma cultura for intolerante para com outra, para sermos coerentes teríamos de aceitar e tolerar a intolerância como sendo correcta. Teríamos de aceitar a intolerância em nome da tolerância.
Mas alguns actos não são toleráveis como por exemplo o terrorismo. Por isso o relativismo moral cultural é inconsistente e auto-refutante. Poderíamos pensar que, para quem defende o terrorismo ele é correcto e que, o defensor do terrorismo não é incoerente uma vez que poderá estar disposto a ser um mártir. Ainda assim, do facto de estar disposto a sacrificar-se, não se segue que os outros tenham também de se sacrificar ou que seja correcto sacrificarem-se. O relativista tem de admitir que o que conta como correcto é o que a maioria da sociedade aprova. Por isso, das duas uma: ou o terrorismo só poderia ser exercido sobre os elementos da (s) sociedade (s) que o aprova, o que claramente não é o que o terrorista pretende; ou o relativista entra em contradição, uma vez que o juízo «o terrorismo é correcto», sendo moral, teria de ser considerado relativo. Mesmo que a premissa seja verdadeira, que seja verdade que «há culturas que aprovam o terrorismo» não se segue que a conclusão, «o terrorismo é correcto» também o seja.
A primeira é um juízo de facto, a segunda um juízo de valor.
O defensor do relativismo estaria assim a cometer dois erros: estaria a tirar uma conclusão sobre o que deve ser (verdade valorativa) daquilo que é (verdade de facto) e a pretender que uma verdade relativa (aquela que é defendida pelo relativismo) se transformasse numa verdade universal, o que é impossível do ponto de vista relativista, porque por definição, o relativismo defende a impossibilidade de haver verdades universais em ética.
João Rodrigues
10.º F

4 comentários:

Joaquim Rafael Soares disse...

Muito boas as suas colocações, mas entendo que o escopo do relativismo cultural (ou moral) foge a essa discussão. O que se tenta é evitar uma interferência baseada no etnocentrismo, ou seja, um juízo de valor baseado nos nosso exclusivo ponto de vista. Se colocarmos tudo no prisma do teu artigo, João, o relativismo deixa de ser meio e passa a ser fim.

Graça Silva disse...

Olá Rafael, bem-vindo ao blog.
O texto pretende mostrar, precisamente que o relativismo não é uma perspectiva segura para fundamentar o valor (muito caro a todos nós) da tolerância, possibilitadora do diálogo, condição de auto e hetero-aperfeiçoamento. Se não encontrarmos critérios seguros para a fundamentar, caímos no paradoxo da tolerância tal como Karl Popper defendeu. "Se o tolerante não se defender do intolerante, então o intolerante destruirá o tolerante e a tolerância com ele."

Para evitar a contradição, o mesmo valor (tolerância)terá de alicerçar-se na possibilidade da existência de critérios imparciais (objectivos, baseados na razão dinâmica, não absoluta), de que são exemplo os Direitos Humanos.
Esta perspectiva é compatível com o relativismo, só os critérios mais fundamentais têm de ser imparciais. Esta imparcialidade é possível no diálogo permanente, na crítica permanente que impede o fechamento solipsista que leva à arrogância cultural.
A tolerância tem de ter limites e penso que, a perspectiva relativista não dá conta desses limites.
Cumprimentos filosóficos :)

Joaquim Rafael Soares disse...

Obrigado professora. Entendo o seu ponto de vista, contudo, só não entendo como impor limites à tolerância sem cair nas teias do absolutismo moral, mas, como a senhora disse, talvez a crítica permanente seja a saída. Abraço.

Graça Silva disse...

É de facto um grande desafio, evitar o absolutismo moral e também o político...

Obrigada pelos seus comentários e muito sucesso,para o "DENTREOUVIR"
Cump.