
Será possível penetrar nos pensamentos íntimos de uma outra pessoa? Terá a comunicação humana limites? Será a mente humana um programa semelhante ao dos computadores num organismo biológico? Qual é a relação entre mente e corpo?
Este livro alude a estas e outras questões relacionadas com a filosofia da mente, constituindo assim um exemplo de como a literatura pode abrilhantar os nossos pensamentos filosóficos e até mesmo servir de mote para a reflexão crítica.
Ralph Messenger (talvez não seja um mero acaso uma das personagens principais ter como apelido o nome de um programa que permite conversar com os outros) é um prestigiado professor da Universidade de Gloucester e director do Centro de Ciências Cognitivas Holt Belling da mesma Universidade, preocupado com a Inteligência Artificial e com todas as repercussões filosóficas que esta problemática encerra. Helen Reed é professora convidada de Literatura na mesma Universidade e escritora, que toma por verdadeira a premissa de que pensar a consciência só é possível a partir da literatura. De facto, quando estamos a ler ficção temos a percepção de que o autor nos está a comunicar os seus pensamentos mais secretos, aqueles que não chega a partilhar com mais ninguém, nem com a mulher, com os filhos ou com os gatos.
Ralph Messenger colige os seus pensamentos mais secretos, seguindo a noção de consciência como fluxo de William James, gravando tudo o que lhe ocorre ao pensamento consciente. Helen Reed recolhe e guarda os seus pensamentos num diário. Messenger está interessado em trocar os seus pensamentos com os de Helen, embora esta rejeite e encare tal investida como uma "perversão".
Os diálogos deste romance estão repletos de referências filosóficas e científicas sobre a mente e a cognição. Se pensar é o diálogo da alma consigo mesma, como defendeu Platão, dialogar é partilhar os pensamentos que ocorrem nessa conversa interior. Contudo, quem é que está agora a pensar no que hei-de escrever neste "post"? Será que os pensamentos que quero reproduzir nesta janela virtual são independentes dos dedos que pululam por este teclado? Qual é, afinal, a relação entre a mente, que permite que eu tenha pensamentos, e o corpo que tanta vezes me afasta do pensamento e me obriga a ver televisão de um modo desenfreado?
Os filósofos encaram estes problemas como um só: o problema da mente. Este pode ser formulado do seguinte modo: será a mente independente do corpo? As respostas a este problema aparecem agrupadas em duas categorias: 1) dualismo, que defende que a mente é independente do corpo e por isso lhe pode subsistir após a morte; 2) monismo, alegando que a mente é uma parte do corpo.
Neste livro, as referências a experiências mentais usadas por filósofos e cientistas (que se dedicam às ciências cognitivas, como a personagem do livro) são várias: o morcego de Thomas Nagel, para provar que os qualia (crenças, desejos) são inéfáveis, tornando-se impossível qualquer investigação científica sobre a consciência; o dilema do prisioneiro; o quarto chinês de John Searle (no manual do 11.º ano aparece mais informação sobre esta experiência mental); a cientista da cor de Frank Jackson ou o gato de Schrodinger; mediante os quais se ilustra a inconsistência de uma tese funcionalista da mente humana.
Por outro lado, a conotação religiosa de alma vai-se dissolvendo à medida que a investigação cognitiva aumenta. Helen parece preocupada, pois a crença na existência da alma humana levou-a a preservar na memória o marido que falecera há uns meses, acontecimento que a reaproximou da religião católica. A mentalidade evolucionista (ou materialista) de Messenger entra em rota de colisão com a mentalidade religiosa de Helen, embora isso não sirva para reprimir o desejo de se apaixonarem um pelo outro.
Trespassado pelo humor inteligente, a que Lodge já nos habituou noutros livros, bem como pelo estilo claro e preciso, Pensamentos Secretos é um livro que se lê de um só fõlego, em que chegados à ultima página a única ideia que nos assalta é a de o reler.
Dos muitos diálogos interessantes que este romance contém, transcrevo um, no qual Messenger e Helen discutem sobre o problema central que dá título ao livro: os pensamentos secretos.
«-[...] Hoje em dia já são muito poucas as pessas inteligentes que acreditam na história contada pela religião, embora continuem a agarrar-se a ela e a procurar consolo em alguns dos seus conceitos, tais como a alma, a vida para além da morte, e por aí fora.
- Penso que é precisamente isso que o incomoda, não é? - diz Helen. - Que a maior parte das pessoas continue teimosamente a acreditar que existe um espírito dentro da máquina por mais que os cientistas e os filósofos lhes digam que não.
- Não me «incomoda» propriamente - diz Ralph.
- Incomoda, sim - diz Helen. - É como se estivesse apostado em eliminá-lo da face da terra. Que nem um inquisidor determinado a pôr fim às heresias.
- Só acho que não devemos confundir aquilo que gostaríamos que fosse com aquilo que realmente é - diz Ralph.
- Mas admite que temos pensamentos que são privados, secretos, conhecidos apenas de nós próprios.
- Sim, claro.
- Admite que a minha experiência deste momento, estar aqui refastelada na água quente a contemplar as estrelas, não é exactamente a mesma que a sua?
- Estou a ver aonde quer chegar - diz ele. - Está a dizer que existe algo que lhe pertence só a si, ou a mim, uma certa qualidade da experiência que é exclusivamente sua ou minha, que não pode ser descrita com objectividade nem explicada em termos puramente físicos. Aquilo a que poderíamos chamar um eu imaterial ou alma.
- Sim, penso que sim.
- Pois eu digo que continua a ser uma máquina. Uma máquina virtual dentro de uma máquina biológica.
- Então é tudo uma máquina?
- Tudo o que processa informação é, sim.
- Acho essa ideia aterradora.
Ele encolhe os ombros e sorri. - Você é uma máquina que foi programada pela cultura para não reconhecer que é uma máquina.»