19.6.26

O que é filosofar?

 


   René Descartes, compara “viver sem filosofar” com “ter os olhos fechados sem nunca procurar abri-los". O que ele quer dizer com isto é que se não filosofarmos podemos viver a vida toda sem saber o que é certo ou não para nós e no que acreditamos que é o correto.

   Eu concordo com o que ele diz já que o filosofar ajuda-nos a ordenar a nossa vida e o nosso corpo, o que quero dizer com isto é que devemos perguntar-nos a nós mesmos quem somos? O que desejamos? Qual é o nosso propósito? Ou até mesmo qual o nosso papel na Terra enquanto seres humanos. As perguntas filosóficas são as que devemos fazer, uma vez que elas são básicas, porque são gerais, comuns e radicais, estando nas raízes e nos limites, mas também porque são conceptuais, ou seja, precisamos refletir sobre elas para chegarmos a uma conclusão, não sendo respondidas através de observações ou experiências.

   Também acho que são importantes para tomar decisões pensadas com calma, que foram refletidas e que são mais benéficas, por exemplo, se alguém pergunta se achamos que algumas pessoas têm mais direito que os outras, por impulso, podemos dizer que sim, mas ao refletirmos, podemos mudar a nossa opinião assim dizendo que é errado.

   Este último ponto leva-me a dizer que as questões filosóficas são as que nos fazem refletir sobre o que é verdade ou mentira, benéfico ou prejudicial para nós e para os outros. Quando somos pequenos a nossa família ensina-nos as crenças em que eles acreditam, quando crescemos ao refletirmos sobre elas podemos, muitas vezes, perceber que não concordamos com elas. Assim afirmando e encontrando os nossos valores.

   Para concluir, só quero afirmar que concordo com as palavras de René Descartes, já que as questões filosóficas e o ato de filosofar ajuda-nos ordenar a nossa vida, a tomar decisões importantes e a encontrar os nossos valores. Por isso sim,” viver sem filosofar é como ter os olhos fechados sem nunca procurar abri-los".

Sofia Santos, 10C

Imagem: René Descartes por Alessandro Lonati 

A Indução da Consciência

  

A consciência é a razão da ilusão do livre-arbítrio.

O facto de o ser humano ter consciência das suas ações, decisões e existência, leva-o a acreditar que é dono de suas ações. A consciência não é equivalente à origem da ação, isto significa que ter consciência de uma ação que foi executada por nós não nos torna autores dela, ter consciência de uma ação é apenas reconhecê-la. A consciência é um meio de interpretação, perceção e apropriação de uma ação, é justamente essa apropriação de autoria que nos leva à ilusão do livre-arbítrio.

Antes mesmo da consciência tomar a sua função, ocorrem diversos processos mentais responsáveis pela execução de uma ação. Sendo estes processos inconscientes, não temos controlo sobre os processos que determinam as nossas escolhas e ações, tornando assim o papel consciente sobretudo interpretativo, não originário.

Se a consciência não é a origem das ações, então não pode ser o fundamento do livre-arbítrio, pois, neste caso o “livre-arbítrio” seria apenas o ato consciente de interpretar e reconhecer uma ação. Portanto, a consciência é responsável pela indução da ilusão do livre-arbítrio, a consciência apropria-se da ação e gera essa mesma ilusão.

Se as nossas ações têm origem em processos inconscientes e a consciência toma em conta a ação apenas posteriormente a esses processos, então o livre-arbítrio não existe. A escolha antecede a consciência; e se a escolha não é consciente, então não é livre.


João Fialho 10ºD
Foto, Graça Silva

6.6.26

Intenções ou consequências III

 

João e Joana decidem ambos visitar a avó que está doente, muito triste, e vive só. João visita-a por compaixão e Joana porque tem esperança que ela lhe deixe, em testamento, o anel de noivado que o avô lhe ofereceu.

 

Esta situação coloca-nos o problema do critério da moralidade das ações ou da fundamentação da moral. Este é um problema ético que consiste na tentativa de determinar um critério/princípio que permita definir o valor moral das ações humanas. Para analisar o caso, confrontam-se as teses do Utilitarismo, de John Stuart Mill, e do Deontologismo, de Immanuel Kant, de modo a compreender como cada uma avalia a moralidade das ações em causa. 

Segundo Mill, as ações devem ser avaliadas consoante as suas consequências, seguindo o princípio da utilidade ou da maior felicidade. Uma ação é moralmente correta quando maximiza o bem e a felicidade, para o maior número de indivíduos, de forma imparcial. Assim, trata-se de uma ética consequencialista e hedonista, focando-se nas consequências e no prazer/ausência de dor.

No contexto em causa, Mill avaliaria ambas as ações como moralmente corretas. Quer a ação do João, quer a ação da Joana, maximizam a felicidade da avó ao visitá-la, fazendo-lhe companhia. Como ambas as ações - mesmo que, no caso da neta, não com as melhores intenções - acarretam as melhores consequências, classificá-las como moralmente corretas é a única via plausível. 

Por outro lado, Kant defende que as ações devem ser avaliadas de acordo com os princípios/intenções com que foram realizadas, sendo a sua ética deontológica. Nesta visão, existem deveres morais absolutos e incondicionais que devem ser cumpridos por todos os seres racionais, independentemente das consequências. A ação certa é, assim, aquela que é realizada com a exclusiva intenção de cumprir um dever. Sob este ponto de vista, o princípio supremo da moralidade é o imperativo categórico, que impõe as regras morais através da razão. 

Deste modo, Kant não avaliaria qualquer das ações como moralmente valiosa. Ambos os indivíduos agem conforme o dever, mas não por dever. Isto é, o João cumpre o dever de ajuda ao próximo, ao visitar a avó, porém a sua ação não foi motivada pela necessidade de o cumprir, mas sim pela compaixão que sente por esta familiar. O mesmo se verifica no caso da Joana, que realizou a sua ação com a intenção de receber um antigo anel de noivado e não com a de cumprir o seu dever. Mais grave ainda para Kant, seria o faco de Joana ter usado a avó como um meio, um "instrumento", para alcançar o que realmente desejava. 

Perante isto, considera-se que a perspetiva que melhor avalia a moralidade das ações em causa é o Utilitarismo de Mill. O impacto real e concreto que as ações de ambos os indivíduos provocaram revela-se superior e mais relevante do que as intenções com que estas foram realizadas. Os netos ao visitarem a avó estão a melhorar significativamente a sua situação, contribuindo para melhorar o seu estado psicológico, o que pode resultar, por exemplo, numa maior longevidade. Não seria plausível não considerar as ações moralmente corretas ao avaliar as suas intenções, quando estas ações não violam nenhum direito e acarretam consequências positivas bastante significativas. 

Concluindo, a análise deste caso revela o necessário equilíbrio entre a obediência a deveres morais e o respeito pelos direitos, e a procura de resultados benéficos. Embora ambas as teorias sejam essenciais, considera-se que, nesta circunstância específica, a perspetiva que melhor avalia a ação é a de Mill. Isto deve-se à necessidade de priorizar a utilidade e o impacto real, uma vez que o custo de ignorar as consequências seria mais elevado neste contexto. Contudo, caso se tratasse de uma situação de violação dos direitos de um inocente, acredita-se que a perspetiva de Kant seria a mais plausível. Isto mostra que a ética exige uma cuidadosa ponderação de cada situação concreta. 

  Luz Pimenta, 10.ºA

4.5.26

«Há muitos falsos moralistas»

Desidério Murcho esteve no podcast Despolariza, de Tomás Magalhães, e conversaram sobre livre-arbítrio, moralidade e verdade. Na revista filosófica Crítica na Rede, Desidério Murcho deu o título 'Há muitos falsos moralistas', à sua publicação.

O vídeo é um pouco extenso, mas podem ouvir apenas temas específicos, que vos interessam e/ou 'dá jeito' ouvir agora, por causa das avaliações, como o livre-arbítrio aos17 minutos; Ética a partir do minuto 56; os dilemas morais, Kant e Mill, à 1:00 hora, por exemplo.



23.4.26

Ainda sobre a verdade



O Professor Desidério Murcho é o convidado do 'podcast Eslen' e, neste episódio, reflete sobre a verdade e a vida moral, numa linguagem muito acessível.

10.4.26

O sentido da vida


Este podcast foi gerado por IA a partir de um vídeo em que Desidério Murcho aborda o Sentido da Vida, respondendo a um pedido de esclarecimento por parte de duas alunas do Ensino Secundário e, por isso, o registo é muito adequado a este público.

Caso o assunto lhe interesse, Desidério Murcho disponibiliza também um curso assíncrono sobre "O Sentido da Vida", aqui: https://criticanarede.com/cursos/sentidodavida.html

1.3.26

O Futuro, Hoje

 

"Ter esperança em tempos difíceis não é apenas uma atitude romântica ou ingénua, baseia-se numa verdade essencial. A história da humanidade não é apenas uma história de crueldade, mas também de compaixão, sacrifício, coragem e bondade. E o que decidirmos colocar no centro dessa história complexa vai marcar nossas vidas. Se escolhemos focar-nos apenas no pior, paralisamos nossa capacidade de agir. Mas se nos lembrarmos daqueles tempos e lugares — e são muitos — em que uma pessoa fez um excelente trabalho, isso dá-nos energia para agir  e, pelo menos, ter a possibilidade de mudar o curso deste nosso mundo que gira como um pião. E quando agimos, mesmo que de forma pequena, não precisamos mais esperar por um futuro grandioso e utópico. O futuro é uma sucessão infinita de presentes, e viver hoje, neste presente, como achamos que os seres humanos devem viver, desafiando tudo o que é mau ao nosso redor, é, por si só, uma vitória maravilhosa" 

 Howard Zinn, historiador, cientista político, dramaturgo e ativista pela paz norte americano

19.2.26

A FILOSOFIA APRESENTA-SE

 A revista Critica publicou no seu podcast um minicurso de filosofia, ministrado pelo Professor Desidério Murcho.
Por considerar que é do máximo interesse e utilidade para os alunos e pelo facto de, apesar de ser professor universitário, Desidério Murcho ter um registo muito acessível e cativante, mesmo para alunos mais jovens, para além muitíssimo bem fundamentado e rigoroso, deixo AQUI o primeiro episódio.




4.2.26

Ainda sobre o livre-arbítrio

 Consulte AQUI um texto do blogue O terceiro excluído, de Pedro Galvão, já antes publicado neste blog.

20.11.25

DIA MUNDIAL DA FILOSOFIA 2025

Dia Mundial da Filosofia é um dia internacional proclamado pela UNESCO para ser comemorado na terceira quinta-feira de novembro e foi celebrado pela primeira vez em 1 de novembro de 2002.

Ao comemorar o Dia Mundial da Filosofia, a UNESCO destaca o valor da filosofia para o desenvolvimento do pensamento. A UNESCO valoriza, assim, a filosofia e o questionamento crítico, próprio da atividade filosófica, que permite dar sentido à vida e à ação, no contexto pessoal e social.

Ao instituir o Dia Mundial da Filosofia, a UNESCO destacou a importância dessa disciplina, especialmente para os jovens, sublinhando que “a filosofia é uma disciplina que incentiva o pensamento crítico e autónomo, gerador uma melhor compreensão do mundo e de de si mesmo e promotor da tolerância e da paz”.

Imagem: Trabalho realizado pelos alunos Jacinta, Moisés, Rita, Sofia e Teresa do 11ºE e por alunos dos 10ºs C e E.


23.10.25

A Navalha de Occam



Há algumas aulas, falámos neste princípio, que José Maria Pimentel explica AQUI, em poucas palavras, como convém...
Sugiro que ouçam algumas conversas do seu podcast 45grauspodcast_jmp.



13.9.25

Aos alunos, um bom recomeço

 


«O jovem que completou a sua instrução escolar habituou-se a aprender. Agora, pensa que vai aprender filosofia. Mas isso é impossível, pois agora deve aprender a filosofar.»

Immanuel Kant, “Anúncio do Programa do Semestre de Inverno de 1765-1766”, in Theoretical Philosophy, 1755-1770 (edição de David Walford e Ralf Merbote, Cambridge University Press, 1992), pp. 2:306-7.

5.7.25

Exame Nacional de Filosofia 2025



Pode encontrar Exame Nacional de Filosofia 2025 e respetivos Critérios de correção AQUI

21.11.24

Dia Mundial da Filosofia 2024

 


Ao celebrar o Dia Mundial da Filosofia todos os anos na terceira quinta-feira de novembro, a UNESCO destaca o valor duradouro da filosofia para o desenvolvimento do pensamento humano, para cada cultura e cada indivíduo.

Além de ser uma disciplina, a filosofia também é uma prática quotidiana que pode transformar as sociedades e estimular o diálogo entre as culturas. Ao despertar para o exercício do pensamento e o confronto racional de opiniões, a filosofia ajuda a construir uma sociedade mais tolerante e respeitadora. Desta forma, permite-nos compreender e dar resposta aos grandes desafios contemporâneos, criando as condições intelectuais para a mudança.



Posteres elaborados pelos alunos  Yeva Lastovtska e César Sousa