João e Joana decidem ambos visitar a avó que está doente,
muito triste, e vive só. João visita-a por compaixão e Joana porque tem
esperança que ela lhe deixe, em testamento, o anel de noivado que o avô lhe
ofereceu.
Esta situação
coloca-nos o problema do critério da
moralidade das ações ou da fundamentação da moral. Este é
um problema ético que consiste na tentativa de determinar um critério/princípio
que permita definir o valor moral das ações humanas. Para analisar o
caso, confrontam-se as teses do Utilitarismo, de John Stuart Mill, e
do Deontologismo, de Immanuel Kant, de modo a compreender como cada uma avalia
a moralidade das ações em causa.
Segundo Mill, as
ações devem ser avaliadas consoante as suas consequências, seguindo o
princípio da utilidade ou da maior felicidade. Uma ação é moralmente
correta quando maximiza o bem e a felicidade, para o maior número de
indivíduos, de forma imparcial. Assim, trata-se de uma
ética consequencialista e hedonista, focando-se nas consequências e
no prazer/ausência de dor.
No contexto em
causa, Mill avaliaria ambas as ações como moralmente
corretas. Quer a ação do João, quer a ação da Joana, maximizam a felicidade da
avó ao visitá-la, fazendo-lhe companhia. Como ambas as ações - mesmo que, no
caso da neta, não com as melhores intenções - acarretam as melhores
consequências, classificá-las como moralmente corretas é
a única via plausível.
Por outro lado,
Kant defende que as ações devem ser avaliadas de acordo com os
princípios/intenções com que foram realizadas, sendo a sua ética deontológica.
Nesta visão, existem deveres morais absolutos e incondicionais que
devem ser cumpridos por todos os seres racionais, independentemente das
consequências. A ação certa é, assim, aquela que é realizada com a
exclusiva intenção de cumprir um dever. Sob este ponto de vista, o
princípio supremo da moralidade é o imperativo categórico, que impõe as regras
morais através da razão.
Deste modo, Kant não
avaliaria qualquer das ações como moralmente valiosa. Ambos
os indivíduos agem conforme o dever, mas não por dever. Isto é, o
João cumpre o dever de ajuda ao próximo, ao visitar a avó, porém a sua ação não
foi motivada pela necessidade de o cumprir, mas sim pela compaixão que sente por
esta familiar. O mesmo se verifica no caso da Joana, que realizou a sua
ação com a intenção de receber um antigo anel de noivado e não com a de cumprir
o seu dever. Mais grave ainda para Kant, seria o faco de Joana ter
usado a avó como um meio, um "instrumento", para alcançar o que
realmente desejava.
Perante isto,
considera-se que a perspetiva que melhor avalia a moralidade das ações em causa
é o Utilitarismo de Mill. O impacto real e concreto que as ações
de ambos os indivíduos provocaram revela-se superior e mais
relevante do que as intenções com que estas foram
realizadas. Os netos ao visitarem a avó estão a melhorar significativamente a sua
situação, contribuindo para melhorar o seu estado psicológico, o que pode
resultar, por exemplo, numa maior longevidade. Não seria plausível não considerar
as ações moralmente corretas ao avaliar as suas intenções, quando
estas ações não violam nenhum direito
e acarretam consequências positivas bastante significativas.
Concluindo, a análise
deste caso revela o necessário equilíbrio entre
a obediência a deveres morais e o respeito pelos direitos, e a
procura de resultados benéficos. Embora ambas as teorias sejam
essenciais, considera-se que, nesta circunstância específica,
a perspetiva que melhor avalia a ação é a
de Mill. Isto deve-se à necessidade de priorizar a
utilidade e o impacto real, uma vez que o custo de ignorar as consequências
seria mais elevado neste contexto. Contudo, caso se tratasse de
uma situação de violação dos direitos de um inocente, acredita-se que
a perspetiva de Kant seria a mais plausível. Isto mostra que
a ética exige uma cuidadosa ponderação de cada situação
concreta.
Luz Pimenta, 10.ºA

