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9.11.10

Será a arte um tipo de actividade capaz de conferir sentido à vida?

“A prática da actividade artística, quando é conduzida ao mais elevado nível, é paradigmática desse tipo de actividade aberta, (…) os próprios fins da arte evoluem juntamente com as actividades que têm por fim atingi-los. Como a procura do bem e da correcção moral, e como a procura da verdade, a arte é uma actividade inerentemente aberta, na medida em que os seus fins estão em causa no seio da própria actividade. Os fins das actividades superlativamente com sentido não podem ser alcançados porque à medida que as actividades evoluem também os fins que visam se alteram e se aperfeiçoam. O conhecimento não é de modo nenhum um caso especial, pela simples razão de que procurar alcançar qualquer um dos nossos objectivos com mais sentido é (…) uma actividade cognitiva: Uma actividade que exige a descoberta e a invenção de novos instrumentos conceptuais e teorias novas e melhores.”
Excerto do ensaio de Neil Levy, "Despromoção e sentido na vida", publicado em "Viver para quê? Ensaios sobre o sentido da vida", Selecção, organização e tradução de Desidério Murcho, Editora Dinalivro, Lisboa,2009


Vídeo do Ted: David Byrne,"(Nothing But) Flowers" legendado em português do Brasil.

5.11.10

Às vezes é preciso relativizar...

Todos passamos por momentos difíceis, a diferença está no modo como encaramos as dificuldades. Neste vídeo encontramos inspiração e motivos para relativizar os nossos problemas.

Vídeo encontrado aqui

27.8.10

O Paradoxo da escolha

O psicólogo Barry Schwartz questiona o conceito de liberdade de escolha e a correlação comum entre este e a felicidade. Tradução para português de Carlos Afonso.


27.7.10

O sentido da Vida

"Não há felicidade sem liberdade, não há liberdade sem alternativas e só conseguimos construir as nossas próprias alternativas se nunca pararmos de aprender."

Manuel Forjaz, no Ignite Portugal.


16.5.10

Paradoxo do hedonismo


"A maioria das pessoas não seria capaz de encontrar a felicidade ao decidir deliberadamente gozar a vida sem se preocupar com ninguém nem coisa alguma. Os prazeres assim obtidos pareceriam vazios e em pouco tempo tornar-se-iam insípidos. Procuramos um sentido para a vida que vá para além do prazer pessoal e sentimo-nos realizados e felizes quando fazemos as coisas que consideramos plenas de sentido. Se a nossa vida não tiver sentido algum além da nossa própria felicidade, é provável que, ao conseguirmos aquilo que julgamos necessário para essa felicidade, constatemos que a própria felicidade continua a escapar-nos.
Tem-se dado o nome de «paradoxo do hedonismo» ao facto de as pessoas que procuram a felicidade pela felicidade quase nunca a conseguirem encontrar, ao passo que outras a encontram numa busca de objectivos totalmente diferentes. Não se trata, por certo, de um paradoxo lógico, mas de uma tese sobre o modo pelo qual chegamos a ser felizes. A exemplo de outras generalizações sobre esse tema, falta-lhe confirmação empírica. Contudo, vai ao encontro das nossas observações quotidianas e é coerente com a nossa natureza de seres desenvolvidos e dotados de um propósito consciente."
Peter Singer, Ética Prática, Gradiva, 1993, tradução de Álvaro Augusto Fernandes, pág. 357

15.5.10

O que fará uma vida ter sentido?

Jessica Watson, é uma jovem australiana com dezasseis anos que velejou sózinha à volta ao mundo durante sete meses. Chegada a Sidney, onde foi recebida como heroína nacional, recusou esse epíteto dizendo sentir-se como qualquer pessoa que lutou para realizar um sonho. Considerando o esforço e as dificuldades vencidas, esta realização teve indiscutivelmente valor e deu sentido à sua vida.
E nós? O que fará as nossas vidas serem valiosas? O que fará uma vida ter sentido? Terá a vida um único sentido ou pelo contrário haverá vários sentidos incluindo a realização de vários objectivos com valor?
O carácter precário e vulnerável da existência humana, constantemente ameaçada deixando-nos impotentes perante a doença e a morte, a dificuldade de realizarmos muitos dos nossos objectivos, ou porque ultrapassam a nossa capacidade de realização ou porque podem a qualquer momento ser interrompidos por qualquer facto alheio à nossa vontade, leva muitas pessoas a pensar que tudo é vão e inútil, que a vida não tem sentido ou que este é muito limitado.
Para muitos de nós uma vida com sentido depende da existência de Deus e de uma vida para além da morte. Para outros, é mais importante envolvermo-nos em actividades objectivamente valiosas como as causas sociais, a procura de conhecimento ou a criação de obras de arte. Ter uma vida com sentido não passará também pela realização de actividades subjectivamente valiosas como a realização dos nossos sonhos e objectivos pessoais? Qual dos aspectos será mais importante, a subjectividade ou a objectividade? Serão compatíveis?

19.1.10

Se te queres matar, porque não te queres matar?


O suicídio pode ser encarado como um problema filosófico se for formulado das seguintes maneiras:

• Será que a vida humana é digna de ser vivida? (problema de natureza ontológica e metafísica)

• Será eticamente aceitável praticar o suicídio? (problema de natureza ética)

O suicídio enquanto problema ético deve ser reequacionado, com o propósito de se encontrar uma justificação para a reprovação ou aprovação do comportamento de um indivíduo que atenta contra a sua própria vida.
Da tradição filosófica chegou-nos vários argumentos que se tornaram clássicos. Sublinho apenas dois pela influência que tiveram no que respeita a este problema na sua dimensão ética.


Argumento 1 Argumento da não propriedade. Este argumento foi apresentado por Platão (Fédon, 62b), e reelaborado, posteriormente, pelos filósofos de inspiração cristã. Segundo este argumento, que designei de argumento da não propriedade, o suicídio é inaceitável, porque não temos propriedade sobre a nossa própria vida. Assumindo-se que a vida humana é pertença dos deuses, não podemos assenhorearmo-nos de algo que não dos pertence por natureza.
Moore distingue propriedades não naturais (de carácter ético) das propriedades naturais (susceptíveis de serem descritas empiricamente). Com esta distinção, e aplicando-a ao suicídio, a vida humana é uma propriedade não natural, pois não somos senhores da vida, como somos de uma mão ou de um braço. Assim, segundo este argumento, não temos qualquer direito sobre a nossa vida, pelo que não podemos atentar contra ela.


Argumento 2Argumento da humanidade. Este argumento aparece descrito na obra Fundamentação da Metafísica dos Costumes, de Immanuel Kant, deduzido da segunda formulação do Imperativo Categórico:
«Se, para escapar a uma situação penosa, se destrói a si mesmo, serve-se de uma pessoa como de um simples meio para conservar até ao fim da vida uma situação suportável. Mas o homem não é uma coisa; não é portanto objecto que possa ser utilizado simplesmente como um meio, mas pelo contrário deve ser considerado em todas as suas acções como fim em si mesmo. Portanto, não posso dispor do homem na minha pessoa para o mutilar, degradar ou matar.»
Segundo o argumento da humanidade, é eticamente inaceitável a prática do suicídio, na medida em que este é um atentado contra a humanidade. A vida humana deve ser encarada como valor intrínseco (como tendo valor em si mesma) e não instrumental. Para Kant, um acto encontra-se justificado moralmente se for um fim em si mesmo, independemente dos propósitos que se pretendem alcançar com ele. Então, atentar contra a vida com o propósito de encontrar a posteriori alguma tranquilidade, é inaceitável, do ponto de vista moral.


Concordo com o argumento da humanidade em detrimento do argumento da não propriedade. Tentar justificar a inaceitabilidade do suicídio consiste partir dos seguintes pressupostos:


1. Todo o indivíduo que oriente a sua acção com o objectivo de subtrair uma vida humana, age erradamente.
2. O indivíduo que se suicida está a subtrair uma vida humana.
3. Logo, o indivíduo que se suicida está a agir erradamente.


Poder-se-ia defender a inaceitabilidade do suicídio a partir do princípio de que a vida é sagrada, porém, emitir este tipo de juízo de valor não está longe de enfrentar objecções, sobretudo as que se prendem com a dificuldade em definir o que é sagrado e o que determinada substância deve conter para ser considerada sagrada.
Sou igualmente incapaz de considerar que um indivíduo que se suicida manifesta um exemplo de força de carácter e de coragem, como alguns defensores da sua aceitabilidade poderão alegar. A coragem é uma virtude moral, assim, um ser virtuoso, do ponto de vista moral, com carácter, dificilmente aceitará o suicídio nos juízos morais que formula, na medida em que, aliando a sua força moral ao ensejo pela racionalidade, acrescenta que o suicídio não é objecto de ponderação nem de deliberação, e que quem comete tal acto fá-lo movido por interesses demasiado subjectivos, irracionais e infundados. Tome-se o exemplo do filósofo Gilles Deleuze, ter-se-á suicidado por um conceito, uma ideia filosófica, ou pela incapacidade de suportar o sofrimento físico que a doença acarretava? Camus afirma que: "Nunca vi ninguém morrer pelo argumento ontológico. (...) Em contrapartida, vejo que muitas pessoas morrem por considerarem que a vida não merece ser vivida."


O problema agudiza-se quando se desdobra noutros, tais como a eutanásia ou o suicídio assistido. Será que ao condenar o suicídio, serei forçado a condenar a eutanásia?
Uma pessoa consciente de si, que se encontra condicionado por uma vida vegetativa, sentindo-se frustrado com a sua situação, apenas se depara com dois cursos alternativos de acção: ou viver o dia de amanhã como o de ontem, ou não esperar pelo dia de amanhã. Por seu turno, o indivíduo que decide suicidar-se, encontra-se perante vários cursos alternativos de acção, de maneira que a sua decisão reflecte uma entre tantas possibilidades de ter agido. Assim, considero menos aceitável o suicídio do que a eutanásia.
É mais fácil reflectir e encontrar, por muito difícil que seja em algumas circunstâncias, uma razão para viver, do que fazê-lo num cenário em que se está condicionado fisicamente, sem esperança de o alterar.

Considerar inaceitável o suicídio pode fazer-nos colidir com uma consequência bem provável. Imagine-se a seguinte situação:

O indivíduo X, um espião israelita no Líbano, foi descoberto pelos seus inimigos. Após ter sido capturado e feito prisioneiro, foi pressionado para revelar segredos sobre a polícia secreta israelita. Munido de apetrechos para a sobrevivência de um espião, durante a noite, tomou a substância que guardava religiosamente no bolso, que o fez sacrificar a vida pela manutenção dos segredos de Estado.


Terá sido o suicídio deste indivíduo moralmente aceitável? Esta pode ser uma consequência da aceitabilidade do suicídio. Ora, parece-me que o indivíduo agiu em conformidade com o princípio de evitar prejuízos a terceiros, sacrificando a sua vida pela sua sociedade. Avaliando os benefícios que este suicídio acarretou, para os israelitas são indiscutíveis, mas não para os libaneses. E para a humanidade, terá sido este suicídio aceitável? Não querendo entrar em pormenores de política internacional, a aceitabilidade deste acto apenas se poderia defender se trouxesse benefícios para a humanidade, sacrificando a sua vida pelos outros, pelo bem universal. Pois, se não pensarmos assim, será que podemos condenar os actos dos terroristas? Provavelmente não.


Imagine-se, agora, outra situação, esta bem real e avaliada pelo olhar de todos, em 11/09/2001. Poderemos aceitar o suicídio dos indivíduos que se encontravam nas Torres Gémeas no momento da colisão dos aviões? Para a avaliação desta situação, os argumentos da não propriedade e da humanidade não se adequam. Numa situação-limite como esta, não podemos condenar o acto, pois não foi ponderado, antes movido por impulsos que o tornam pouco racional, e assim, os seus factores tornam-se indiferentes a uma avaliação moral justa.

John Millais, Ophelia (1890)

Álvaro de Campos, num estilo bem perturbador, adianta:

«Se te queres matar, porque não te queres matar?/Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida, / Se ousasse matar-me, também me mataria.../Ah, se ousares, ousa!»

Estes versos, ainda que preludiem a defesa do suicídio no decurso do poema, denotam a ousadia que é necessário ter para atentar contra a nossa própria vida. E o que é a ousadia, senão o temor proveniente do risco da transgressão, do trespassar o pesado véu das convenções e normas morais, sabendo-se que por detrás do pesado véu há um princípio claro e evidente, embora difícil de destrinçar, que nos impede de praticarmos o suicídio?

23.12.09

O Sentido da Vida

«O que dizemos para exprimir o absurdo das nossas vidas tem muitas vezes a ver com o espaço e o tempo: somos partículas minúsculas na vastidão infinita do universo; as nossas vidas são meros instantes até numa escala geológica, quanto mais numa escala cósmica; estaremos todos mortos em breve. Mas é claro que não pode ser qualquer destes factos evidentes que faz a vida ser absurda, se for absurda. Pois suponha-se que vivíamos para sempre; uma vida que é absurda se durar setenta anos não será infinitamente absurda se durar toda a eternidade? E se a nossas vidas são absurdas dado o nosso tamanho actual, por que seriam menos absurdas se ocupássemos todo o universo (ou por sermos maiores ou por o universo ser mais pequeno?)»
Um excerto do ensaio "O Absurdo", de Thomas Nagel

“Viver para quê? Ensaios sobre o sentido da vida”, Organização, tradução de textos e introdução de Desidério Murcho; Dinalivro, Lisboa, 2009.



«Quem não conhece a filosofia poderá pensar que procurar o sentido da vida é a tarefa central dos filósofos. Isto é historicamente falso. (…)
O leitor comum poderá igualmente esperar que os filósofos se pronunciem um pouco como gurus, declarando do alto da sua inacessível montanha qual é o sentido da vida. E a nós, meros mortais, restar-nos-ia então seguir tais oráculos ainda que não os compreendamos muito bem. (…)
A confusão a evitar é pensar que há uns valores esotéricos que precisam de ser cultivados para que a nossa vida tenha sentido. É uma resposta desse género que muitas pessoas esperam do filósofo, quando o encaram como um guru: subitamente ele dirá que o sentido da vida é cultivar feijões, cortar o cabelo rente ou assobiar música só às sextas-feiras. »

É desta forma clara e despretenciosa que Desidério Murcho faz a sua introdução a esta excelente selecção de reflexões acerca do sentido da vida. Um conjunto de ensaios, de filósofos actuais, nos quais se apresentam diferentes ideias, cuidadosamente fundamentadas. Os ensaios são curtos e a sua leitura acessível e agradável. Serão uma ajuda preciosa à preparação de possíveis trabalhos sobre este tema.

Índice dos ensaios:

O Sentido da Vida (1970) Richard Taylor
O Sentido da Vida (1957) Kurt Baier
Poderá o Propósito de Deus ser a Fonte do Sentido da Vida? (2000) Thaddeus Metz
O Absurdo (1971) Thomas Nagel
Felicidade e Sentido: Dois Aspectos da Vida Boa (1997) Susan Wolf
Despromoção e Sentido na Vida (2005) Neil Levy

9.7.09

Problemas da Filosofia





















" A noção de que, num sentido mais amplo, mesmo uma vida feliz é absurda costuma ser apoiada por duas ideias. Uma delas é que vamos morrer inevitavelmente; e outra é que o universo nos é indiferente.
Examinemos separadamente estas ideias.
Que atitude deveremos ter em relação à nossa mortalidade? Obviamente, isso depende do que julgamos que acontece quando morremos. Algumas pessoas acreditam que irão viver para sempre no paraíso. A morte, portanto, é como mudar para uma casa melhor. Se acreditamos nisto, devemos pensar que a morte é boa, pois ficaremos melhor depois de morrermos. Aparentemente, Sócrates tinha esta atitude, mas a maior parte das pessoas não a tem.
A morte pode ser, pelo contrário, o fim permanente da nossa existência. Se assim for, a nossa consciência extinguir-se-á e será o nosso fim. É importante compreender o que isto significa. Algumas pessoas parecem presumir que a inexistência é uma condição misteriosa, difícil de imaginar. Perguntam «Como será estar morto?» e ficam perplexas. Mas isto é um erro. A razão pela qual não conseguimos imaginar como é estar morto é o facto de estar morto ser como nada. Não conseguimos imaginar porque não há nada para imaginar.
Se a morte é o fim da nossa existência, que atitude devemos ter relativamente a isso? A maior parte das pessoas pensa que a morte é uma perspectiva terrível. Odiamos a ideia de morrer e estamos dispostos a fazer quase tudo para prolongar a nossa vida. Porém, Epicuro disse que não devemos recear a morte. Numa carta a um dos seus seguidores, defendeu que «A morte nada é para nós», já que quando estivermos mortos não existiremos e, não existindo, nada de mal poderá acontecer-nos. Não estaremos infelizes, não sofreremos (não sentiremos medo, preocupações ou aborrecimento) e não teremos desejos nem remorsos. Logo, concluiu Epicuro, a pessoa sábia não receará a morte. Epicuro acreditava que, ao eliminar o medo da morte, estas reflexões filosóficas podiam contribuir positivamente para a nossa felicidade durante a vida.
Há alguma verdade nisto. Ainda assim, esta perspectiva ignora a possibilidade de a morte ser má por constituir uma privação enorme - se a nossa vida pudesse continuar, poderíamos disfrutar de todos os géneros de coisas boas. deste modo, a morte é um mal porque põe fim às coisas boas da vida. Isto parece-me correcto. Depois de eu morrer, a história humana prosseguirá, mas não conseguirei fazer parte dela. Não verei mais filmes, não lerei mais livros e não farei mais amigos nem mais viagens. Se eu morrer antes da minha mulher, não conseguirei estar com ela. Não irei conhecer os meus bisnetos. surgirão novas invenções e far-se-ão novas descobertas sobre a natureza do universo, mas nunca irei conhecê-las. Será composta nova música, mas não irei ouvi-la. Talvez venhamos a estabelecer contacto com seres inteligentes de outros mundos, mas não saberei disso. É por esta razão que não quero morrer e que o argumento de Epicuro é irrelevante.
Mas será que o facto de ir morrer torna a minha vida absurda? Afinal, diz-se, o que interessa trabalhar, fazer amigos e constituir família se acabaremos por deixar de existir? Esta ideia tem uma certa ressonância emocional, mas envolve um erro fundamental. Temos de distinguir o valor de uma coisa da sua duração. Estas são questões diferentes. Uma coisa pode ser boa enquanto dura, mesmo que não vá durar para sempre. Enquanto controlaram o Afeganistão, os talibã destruiram diversos monumentos antigos. Isso foi uma tragédia porque esses monumentos eram maravilhosos, e o facto de serem vulneráveis não os tornava menos valiosos. Também uma vida humana pode ser maravilhosa, mesmo que tenha de terminar inevitavelmente. Pelo menos, o simples facto de que vai terminar não anula o [seu] valor."
James Rachels, Problemas da Filosofia, (2009) Gradiva, pp. 289-291, Tradução de Pedro Galvão.
Eminente filósofo americano, (1941-2003) James Rachels ficou conhecido pela sua intervenção no debate filosófico sobre a eutanásia e sobre o relativismo moral baseado na diversidade cultural. A presente obra, aborda as principais temáticas filosóficas da actualidade e destina-se a todos aqueles que gostam de pensar por si.

3.7.09

Será a existência humana preferível à de um seixo?

"No século XIX, Schopenhauer, conhecido como sendo o filósofo do pessimismo, acentuou o sofrimento da vida humana: ou queremos alguma coisa que não temos ou temos o que queríamos. De uma maneira ou de outra, sofremos - através da falta do que queremos ou através do tédio pela falta de querer, agora que temos o que queremos. (...)
Se Shopenhauer estiver certo, não seria melhor ser um seixo, e não ter todas as experiências? Se fôssemos seixos na praia, as ondas e os tumultos seriam (...) levados pela maré. (...)
É um erro pensar que se desenvolvermos os meios para alcançar os fins, os meios são irrelevantes, sem qualquer valor em si mesmo e que são apenas os fins que importam. O nosso objectivo pode ser alcançar o topo do monte Everest, mas nós não queremos alcançá-lo simplesmente por qualquer meio. Queremos escalar a montanha, enfrentar as tempestades de neve, persistir na luta, sempre a subir. (...)
Shopenhauer pode ter razão no seu pessimismo, no sentido de a maior parte das vidas envolverem mais sofrimento do que satisfações. Muitos sofrimentos parecem mais ou menos inevitáveis - mesmo para os que são vencedores na vida. Há perdas de família, amigos e parceiros amorosos; a percepção da perda crescente de capacidades na velhice; e muito provavelmente, a experiência directa em nós próprios dessa perda de capacidades. (...) Há a percepção do sofrimento de milhões de outras pessoas, no passado, no presente e no futuro e dos animais. (...)
Qual é o propósito disto tudo? (...) Há objectivos e propósitos na minha vida - mas qual é o propósito ou objectivo da minha vida? (...) [E qual o] propósito de uma vida infinitamente longa?
Talvez devêssemos tomar consciência de que, para alguma coisa ter valor, ela não precisa de ter um propósito. (...)
As vidas podem ser valiosoas, em particular porque são vidas de pessoas apreciadoras das características do universo, da vida e de viver. É verdade, as vidas terminam; mas será que conseguiríamos sequer enfrentar a vida eterna? A consciência da morte envolve muitas pessoas em melancolias desanimadoras e opressoras de «Qual é o propósito?» Lembremo-nos de que não pode haver um propósito acima de todos os propósitos. Os propósitos devem acabar, assim como as explicações.
Todas as coisas que valorizamos, por mais raras e pequenas que sejam, trazem um propósito ou significado às nossas vidas - as amizades, os amores e os absurdos; essas memórias de paisagens entrelaçadas de paixões partilhadas e olhares dirigidos que magicamente seduzem e envolvem; a embriaguês de vinhos e palavras, meditações inconstantes e música, com os quais nos debatemos ao entrar nas noites nebulosas e sonolentas, os nossos sentidos revitalizados por águas cintilantes, tão necessárias de madrugada; as paisagens de mar com ondas selvagens, luares misteriosos e imagens e céus amplos que ampliam o olhar - deixam todas de existir; e curiosamente as mais encantadoras são muitas vezes aquelas nas quais nos perdemos e também deixamos de existir - se elas, e nós existimos em algum momento permanece intemporalmente verdade, fora de todo o tempo. Para os amantes da eternidade, melhor do que isso é impossível."
Peter Cave, Duas vidas valem mais que uma?, (2008), Academia do Livro, pp. 207 - 210. (Texto Adaptado)



Um bom livro para férias. Boas leituras!

15.6.09

Ainda o sentido da vida...

Durante a nossa existência, somos muitas vezes confrontados com o problema do sentido da vida procurando insistentemente a resposta. Será que vale a pena viver? A vida tem sentido? Se sim, será subjectivo ou objectivo? Vamos procurar responder a este problema ao longo deste ensaio. A nossa finalidade é defender que a vida tem sentido, porém não assumimos uma perspectiva totalmente objectiva.
Antes de iniciarmos uma reflexão mais profunda, é necessário esclarecer alguns conceitos envolvidos neste problema. O primeiro passo é esclarecer o que é o sentido da vida e compreender o problema em questão. Neste contexto, podemos querer enunciar dois aspectos do problema quando nos referimos ao significado da existência: podemos estar a falar da finalidade da nossa vida ou podemos estar a falar do seu valor.
Assim, é premente distinguir dois tipos de finalidades através da exemplificação: por um lado, caso nos perguntem porque apanhámos o metro para ir para o centro comercial ontem, responderemos que fomos às compras; porém, podem ainda questionar o porquê desta ida, e assim sucessivamente até ao infinito. Nesta circunstância, temos um objectivo instrumental, ou seja, algo que se faz porque se tem em vista outra coisa. Por outro lado, ao perguntarem porque comemos chocolate, afirmaremos que o fazemos porque nos dá prazer. Ora, neste caso temos uma finalidade última, uma finalidade em sim mesma, situação na qual não vale a pena exigir mais perguntas porque não faz sentido perguntar com que finalidade estamos a comer chocolate.

Contudo, é errado pensar que este problema se desenrola na procura de uma única e última finalidade da nossa vida. Ao reflectir, sabemos que não é essa finalidade que dará sentido à nossa existência, já que no nosso dia-a-dia nos deparamos com várias finalidades últimas, visto que fazemos várias coisas aprazíveis.
Posto isto, é fácil compreender que falta algo para dar realmente sentido à nossa vida. Este aspecto é o valor intrínseco das nossas acções. Todavia, ao chegar a este ponto, deparamo-nos com uma dificuldade: é certo que existem acções que têm valor intrínseco para uns e não para outros. Este valor confere ao sentido da vida um carácter subjectivo.
No entanto, este ponto não indica que o sentido atribuído à vida seja totalmente subjectivo. É certo que o sentido da nossa vida não se deve centrar apenas no mundo exterior, mas também na nossa realização pessoal, objectivos e tudo o que nós somos enquanto indivíduos singulares. Porém, identicamente, não podemos pensar só em nós, pois não vivemos isolados do mundo.
Ora vejamos: neste momento estamos a estudar com o objectivo de entrarmos na Faculdade de Arquitectura. É óbvio que não conseguiríamos fazê-lo com sucesso sem a ajuda dos outros (professores, colegas, …). No entanto, temos também de dar bastante de nós para alcançarmos o pretendido e fazêmo-lo apenas por interesse pessoal.
Assim consideramos ser necessário encontrar um equilíbrio entre estes dois pontos de vista, dado que nenhum deles se adequa devidamente à realidade. É preciso encarar a vida com objectivos, sem nunca nos esquecermos da felicidade pessoal. Pensamos que só assim poderemos dar algum sentido à nossa existência.

Fontes consultadas:
ALMEIDA, Aires. Dicionário da Filosofia, Plátano Editora, Colecção Filosofia Prática, Lisboa, 2003;
ALMEIDA, Aires e MURCHO, Desidério. A Arte de Pensar - 11º ano, Didáctica Editora, Lisboa, 2008.
RUSS, Jaqueline. Dicionário de Filosofia, Didáctica Editora, Coimbra, 2000;
REIS, Alfredo. O existencialismo, Atlântida, Biblioteca da Filosofia, Coimbra, 1997;
Imagem: Claude Monet, «Garden Path at Giverny»
Beatriz Silva e Beatriz Serrazina
11ºF

12.6.09

Será que a vida tem sentido?

Saber se a vida tem sentido é uma questão difícil de interpretar, tornando-se num tema "obscuro" e simultaneamente central relativamente à nossa existência. Quanto mais concentramos a nossa capacidade crítica nesta questão, mais consciência temos sobre a dificuldade da sua resposta. Provavelmente, desde o momento em que nascemos não questionamos se valerá a pena viver ou se algo importante resultará da nossa existência, aceitamos que o propósito da vida é simplesmente viver. No entanto, a necessidade de compreender o sentido da vida é profunda e universal, apontando qualidades da mente que são, possivelmente, fulcrais para a existência humana. Por esta razão, a questão que se levanta é importante, e devia ter uma resposta significativa. Quando procuramos o sentido de palavras recorremos à sua utilidade no contexto em que é inserida, porém, a vida não é um elemento num sistema de comunicação. Assim, a questão em causa, procura encontrar um objectivo e uma razão para a vida e investigar acerca do seu valor.
Para interpretar a questão do sentido da vida é importante compreender alguns conceitos base que ajudam à definição do problema em causa, tais como: finalidade e valor. Uma actividade só tem sentido se tiver uma finalidade que pode ser última ou instrumental. A primeira diz respeito a uma acção que não tem outro fim se não ela mesma. A segunda refere-se a algo que é realizado quando se tem outra coisa em vista. Por exemplo, podemos apanhar um comboio para nos dirigirmos à universidade, e nesse caso, a nossa viagem é uma finalidade instrumental. Contudo, se viajarmos de comboio apenas para satisfazer o nosso desejo, então, esta é uma finalidade última. O sentido das nossas actividades está ainda dependente do seu valor. Este pode ser intrínseco ou instrumental, dependendo se tem valor por si ou se tem valor em função de ser um meio para alcançar o que tem valor por si, respectivamente. Para além disto, pode distinguir-se valor subjectivo – se a pessoa envolvida na acção pensar que esta tem valor – e valor objectivo – se tiver realmente valor.
Assim, para que uma actividade tenha sentido tem que ter uma finalidade que por sua vez tem também que ter valor. No entanto, este sentido tanto pode ser objectivo (se tiver realmente sentido) como subjectivo (se quem desempenhar a acção pensar que esta tem sentido).
A questão do sentido da vida torna-se agora mais clara. No entanto, como a reposta é de difícil alcance surgiram algumas perspectivas que pretendiam solucionar o problema. Por um lado, há aqueles que defendem que a vida não tem sentido uma vez que somos mortais: edificamos algo durante todo o nosso percurso para que, no fim, tudo se desvaneça. Para estes, o facto de sermos efémeros destrói os objectivos que propomos para a nossa vida. Há ainda quem defenda que a vida não tem sentido apesar de não considerarem o aspecto de sermos mortais, como é o caso de Camus. Nesta perspectiva, é considerado o facto do universo ser inexpressivo: a nível cósmico, o mundo/a nossa existência pode ser indiferente. Assim, surge um conflito entre o que exigimos/pressupomos acerca do nosso lugar no universo e a realidade da situação, tornando, para alguns filósofos, a vida absurda.
No entanto, praticamos acções no nosso quotidiano que não têm em conta qualquer significado cósmico. Parece-nos ainda que a mortalidade não tira o sentido à vida. Há, de facto, quem considere que a vida tem sentido se existir um ser divino que assegure a nossa felicidade plena após a morte e que só este ser é responsável pelo planeamento do aparecimento da vida no mundo. Aqui, a morte funciona como princípio e não como fim.
Para além deste ponto de vista, surgiram duas perspectivas filosóficas que defendem também que a vida tem sentido. A perspectiva subjectivista defende que, para que a vida humana tenha sentido, basta que a pessoa lhe atribua um valor subjectivo, ou seja, basta que a própria pessoa se sinta feliz. A perspectiva objectivista, em oposição, afirma que uma vida tem sentido quando cultiva valores objectivos, isto é, uma vida que se entregue a projectos que procurem acrescentar algum valor ao mundo. Para esta perspectiva o valor objectivo é necessário, mas não exclui o valor subjectivo.
No entanto, ambas as perspectivas apresentam algumas objecções. De facto, o subjectivismo ao fazer coincidir a felicidade própria com o sentido da vida, cria algumas fortes incoerências. Na verdade, questionar se uma vida tem sentido é diferente de questionar se uma vida é ou não satisfatória. Para além disto não podemos considerar apenas o sentido subjectivo da vida, já que somos seres inseridos numa sociedade, fazendo parte de uma cadeia na qual somos, directa ou indirectamente, peças fundamentais, dada a importância que temos para “o outro” e que, consequentemente, estes têm para nós.
À semelhança da perspectiva anterior, também o objectivismo apresenta algumas contrariedades. A transitoriedade parece destruir o sentido da vida já que se tudo for transitório, os valores e as finalidades também o serão. No entanto, a objectividade não é o mesmo que a permanência: o sentido que essa vida teve no passado não pode ser destruído já que existiu objectivamente no passado, apesar de não existir no presente, respondem os defensores do objectivismo. A oposição ao objectivismo anteriormente exposta deixa antever uma outra crítica à mesma teoria: só uma vida imortal poderá impedir a destruição do sentido. No entanto, uma vida imortal parece também ser destituída de sentido. De facto, se prolongar uma mesma actividade ou conjunto de actividades torna-se monótono, fazê-lo eternamente destrói-lhes o sentido. Assim, alargar até ao infinito uma vida com sentido acabará na destruição do mesmo.
Em conclusão, e após a apresentação das teorias filosóficas que procuram responder a este problema, confirmamos a dificuldade de chegar a uma resposta que englobe todos os aspectos que consideramos relevantes, quando se discute o problema do sentido da vida. De facto, os exemplos de vidas que consideramos, indubitavelmente, com sentido (ex. luta pela paz) são tanto subjectivamente valiosas como dignas de louvor se julgados segundo aspectos exteriores aos próprios agentes. As vidas que nos são descritas como tendo sentido (apesar do conceito poder ser discutível, como se viu) são vidas nas quais há uma estrita relação entre os interesses reais de uma pessoa e o conjunto de coisas que são dignas de interesse. O sentido surge quando a atracção subjectiva se relaciona com o que objectivamente desperta o interesse.
Para além disto, consideramos que o sentido da vida não está no alcançar o objectivo a que nos propomos em determinado momento, mas sim no interesse e empenho que pomos na caminhada para o alcançar. O interesse será assim a justificação e o sentido para determinada actividade. Provavelmente seria assim que pensariam aqueles que, na antiguidade, construíram um grande edifício ao verem que o que resta hoje são escombros soterrados.
Consideramos ainda que o sentido da vida está no nosso interior mas isto não quer dizer que estejamos apenas à procura da felicidade própria. Na verdade sentimo-nos, muitas vezes, mais felizes por proporcionar a felicidade àqueles que nos rodeiam. Para além disto, concluímos que o sentido da vida está nos pormenores: o sorriso do filho é tudo para a mãe, uma carícia é a tranquilidade para o amante, uma mudança de frase é a evolução para o escritor, um passo é o triunfo do atleta. Assim, a análise das teorias e das respectivas objecções, em conjunto com a nossa própria opinião anteriormente exposta, revela que a perspectiva que surge como a mais coerente é a objectivista.
Imagens retiradas do Google: Caspar David Fiedrich, Viajante acima das nuvens e Apolo 8, Terra vista da Lua.
Catarina Marquez, Filipa Serrazina e Marta Carvalho
11.º C