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4.2.26

Ainda sobre o livre-arbítrio

 Consulte AQUI um texto do blogue O terceiro excluído, de Pedro Galvão, já antes publicado neste blog.

1.9.20

O Burro de Buridan

 

O paradoxo conhecido como o asno de Buridan não foi originado pelo próprio Buridan (1300-1358). Surge na obra 'De Caelo', de Aristóteles (IV a.C.) na qual o autor pergunta como um cão, diante de duas refeições igualmente tentadoras, poderia racionalmente escolher entre elas.

Buridan em nenhum momento discute este problema específico, mas sua relevância é que ele defende um determinismo moral pelo qual, salvo por ignorância ou impedimento, um ser humano diante de cursos alternativos de ação deve sempre escolher o maior bem.

Buridan defendia que a escolha devia ser adiada até que se tivesse mais informação sobre o resultado de cada ação possível.

Escritores posteriores satirizaram este ponto de vista imaginando um burro que, diante de dois montes de feno igualmente acessíveis e apetitosos, deveria deter-se enquanto pondera por uma decisão. Sendo incapaz de decidir-se por um dos montes, acabaria por morrer de fome.

As nossas escolhas e decisões poderão sempre beneficiar de uma cuidadosa ponderação. Essa não deverá, no entanto, inibir a ação, excepto se essa for efetivamente a melhor escolha.


20.3.13

Seremos Livres?

 
Kazimir Malevich (1878-1935), Pressentimento Complexo
 
        A liberdade que temos ou não relativamente às nossas escolhas levanta fortes dúvidas. Os conhecimentos que temos da Natureza levam-nos a acreditar que vivemos num Universo determinista, em que tudo está determinado, quer pelas Leis da Natureza, quer por acontecimentos anteriores. Mas surgem factos e teorias que nos levam a acreditar que a questão não é assim tão simples e clara. É assim que surge o problema do livre-arbítrio: seremos nós seres livres com total responsabilidade para escolher o que julgamos ser melhor para nós? Este é o problema metafísico de saber se temos ou não livre-arbítrio. Ao longo da História, este assunto foi abordado a par da noção de pecado, no entanto, este problema mantém-se atual: os conhecimentos que vamos adquirindo nas ciências levam-nos a questionarmo-nos quanto à origem das nossas ações.
 
            Todos os acontecimentos são condicionados por diversos fatores que os influenciam, sejam eles de ordem sociocultural, psicológica ou fisiológica. No entanto, isto não é suficiente para nos levar a aceitar o Determinismo radical, posição segundo a qual não há livre-arbítrio e tudo está determinado. É imperativo não confundir determinismo com fatalismo. Enquanto o determinismo defende que se tomarmos determinada atitude as consequências desta não são possíveis de alterar, o fatalismo defende que mesmo mudando as cadeias causais nada do que possamos fazer terá efeito nas atitudes que iremos tomar. O argumento que sustenta o determinismo radical tem como primeira premissa: ‘se o determinismo é verdadeiro, não há livre-arbítrio.’ A segunda premissa afirma o determinismo como verdadeiro, pelo que conclui que o livre-arbítrio é uma ilusão. Este argumento mostra-nos que o livre-arbítrio só seria possível se pudéssemos agir de maneira diferente perante as mesmas condições e a mesma cadeia causal, ou seja, pudéssemos escolher não concretizar alguma situação quando todos os acontecimentos propiciassem a que tal acontecesse. Não é plausível que tal possa acontecer, pois no nosso quotidiano pressupomos que perante determinada causa surja determinado efeito, as Ciências Naturais comprovam isso mesmo. O determinista pode concluir que o livre-arbítrio é uma ilusão uma vez que todas as decisões que sentimos tomar surgem de condições que não pudemos controlar.
 
            No entanto, a responsabilidade moral pode ser um impedimento à aceitação desta posição determinista, pois se tudo estivesse à partida determinado não haveria legitimidade para condenar e castigar quem efetuasse qualquer infração ou crime. Neste caso, se considerássemos que os crimes estavam designados para acontecer teríamos de considerar que também as condenações estavam determinadas, o que retira utilidade às Forças de Segurança. Podemos no entanto defender que, independentemente da responsabilidade moral que os criminosos tenham ou não, terão de ser castigados, de modo a dar o exemplo e a evitar que outros cometam o mesmo crime, dissuadindo-os e prevenindo situações futuras. No entanto, há outro problema, quando agimos já estamos a manifestar a nossa vontade, ao aceitarmos que não somos responsáveis pelas nossas atitudes perdemos o sentido de viver e de participar ativa e criticamente na sociedade.
 
            Ao contrário do Determinismo radical, um Libertista defende que nem todos os acontecimentos estão determinados e que temos liberdade para efetuar as nossas escolhas após um período de ponderação e que essas escolhas serão da nossa responsabilidade, pois podíamos ter escolhido outra opção. O argumento principal propõe que ‘se há livre-arbítrio, o determinismo é falso.’ Afirma o livre arbítrio, o que nos conduz à conclusão de que o determinismo é falso. Só temos livre-arbítrio se pudermos tomar decisões sem que os acontecimentos passados interfiram com elas. O argumento que defende que vivemos num Mundo determinista não invalida a teoria apoiada pelos libertistas, uma vez que as ciências onde se verifica sempre o par causa-efeito são naturais e não conseguem prever a psicologia humana. Uma ação livre não pode ser apenas a continuação de uma enorme cadeia causal, pois aí aceitaríamos o Determinismo radical, tem de desenvolver a sua própria cadeia estando sobre o controlo do agente.
            Mas também esta teoria tem problemas: mesmo que as ações efetuadas não tenham sido baseadas em acontecimentos anteriores tiveram alguma influência de desejos ou crenças do agente, pois caso isso não acontecesse teriam sido aleatórias, e ambas as situações negam o Libertismo. É objetivo dos libertistas encontrar então pelo menos um ato sem influências de cadeias causais anteriores e que não tenha sido um acaso, mas esse é o seu maior desafio.
 
            Há uma terceira resposta, designada Determinismo moderado. Esta compatibiliza o Mundo físico determinado pelas Leis da Natureza com a oportunidade de arbitrarmos algumas situações da nossa vida. O Determinismo moderado admite assim uma forma mais fraca de livre-arbítrio, com a justificação de que, apesar das cadeias causais que coordenam as nossas ações, é possível tomar ou não certas decisões, tornando-nos responsáveis por elas. Esta teoria reformula, também, os conceitos de causa e de liberdade: somos livres para escolher caso as nossas motivações não tenham sido originadas por coações ou outro tipo de controlo de outrem sobre nós. Podemos justificar esta posição do seguinte modo: ‘As nossas ações são livres se resultam do que queremos.’ (premissa 1). A segunda premissa explicita o facto das causas (crenças e desejos) não serem determinantes, mas serem sim, meras inclinações, sendo assim possível concluir que podemos compatibilizar o determinismo (causas) com o livre-arbítrio (escolhas livres).
 
            Também esta resposta não está isenta de problemas: podemos defender que constrangimentos e inclinações são o mesmo, comparando a teoria compatibilista com o Determinismo radical, apenas apresentando uma única diferença relevante: o apoiante do Determinismo radical aceita estar a ser influenciado por coações ou acontecimentos anteriores, enquanto o Determinista moderado recusa o conhecimento dessas situações e justifica que as suas crenças e desejos não podem servir como justificação para coisa alguma. Há ainda outra objeção, por exemplo, John Searle, mostra-nos que é impossível agir sem pressupor o livre-arbítrio radical e até que, se recorrermos ao exemplo da física e da química, tudo pode ser causalmente explicado. O filósofo pretende expor a sua ideia de que esta forma de Determinismo ainda não assenta em argumentos suficientemente plausíveis para resolver o conflito entre o determinismo e o livre-arbítrio. Contudo, esta é a teoria que melhor soluciona o problema do livre-arbítrio. É evidente que o passado influencia algumas decisões que tomamos, pois caso isso não acontecesse todos os nossos atos seriam isolados e não fariam sentido na complexidade dos nossos dias. No entanto, considero que nenhuma das posições estudadas é totalmente satisfatória.
 Inês Couto 10.º D
Referência:
ALMEIDA, Aires; TEIXEIRA, Célia; MURCHO, Desidério; MATEUS, Paula; GALVÃO, Pedro; A Arte de Pensar, Filosofia 10º ano; Lisboa; 2010; Didáctica Editora
 

24.11.10

O problema do livre-arbítrio: O contributo do existencialismo

«(...) Somos eu e tu, tomando decisões e assumindo as consequências.(...) Há seis biliões de pessoas no mundo, é verdade. No entanto, as tuas acções fazem diferença para as outras pessoas e servem de exemplo. A mensagem é: não devemos jamais eximir-nos das nossas responsabilidades e vermo-nos como vítimas de várias forças. Quem nós somos é sempre uma decisão nossa. (...) Como se a tua vida fosse a tua obra a ser criada.»

Uma fala da personagem que representa o filósofo Robert Solomon, em mais um excerto do filme Waking life.


Livre-arbítrio e destino

Gonçalo: Hoje a aula de filosofia pôs-me a pensar numa coisa que nunca tinha pensado antes.
Vilma: Em quê?
Gonçalo: Até hoje sempre julguei que fôssemos livres, contudo eu acredito que todas as nossas escolhas e decisões são livres, mas estão destinadas.
Vilma: Mas não foi disso que falámos. O problema do livre-arbítrio pretende analisar se é possível conciliar o determinismo que ocorre no Universo com a crença de que somos livres.
Gonçalo: Eu sei. Mas a verdade é que para mim o destino é compatível com o nosso livre-arbítrio. Ou seja: eu escolho fazer algo, sou responsável pela decisão que fizer, portanto tenho de responder às consequências do meu acto, no entanto, essa decisão não foi ao acaso, entendes?
Vilma: Lá por não ter sido por acaso, será que foi pelo destino? Gonçalo, cá para mim estás a confundir as coisas. Primeiro, há uma concepção determinista que se encontra justificada pelas ciências, por outro, uma visão fatalista que se ampara nas religiões, por exemplo, os muçulmanos acreditam muito no destino. A meu ver, assumir essa perspectiva fatalista deturpa a visão que temos da realidade e do nosso papel no mundo. Estou convencida de que as nossas escolhas e decisões permitem-nos construir a nossa identidade. Se acreditasse no destino, estaria a assumir que eu não sou a autora da minha vida, que tudo o que nela ocorre se limita a perseguir um objectivo que me escapa das mãos e me transcende.
Gonçalo: Deixaste-me ainda mais confuso agora.
Questão: Será aceitável acreditar no destino?

Problema do livre-arbítrio em meia dúzia de palavras


Neste excerto do filme de Richard Linklater, Waking life podes encontrar argumentos e imagens que nos explicam de modo claro um dos mais perturbantes problemas filosóficos de sempre: o do livre-arbítrio.



Para acederes ao excerto, basta clicares no título do post.