28.8.09

Aparência e Realidade

"Imaginemos que habitamos um estranho país onde tudo é absolutamente plano. (...) Chamemos-lhe Planilândia. Alguns habitantes são quadrados; outros são triângulos; outros têm formas mais complexas. Corremos, apressados entrando e saindo dos nossos edifícios planos, ocupados com os nossos negócios e divertimentos chatos. Toda a gente na planilândia tem largura e comprimento mas não tem altura. Conhecemos o que é a direita e esquerda, à frente e atrás, mas não temos a mínima noção, nem um vestígio de compreeensão, do que é em cima e em baixo - com excepção dos matemáticos planos. E esses dizem-nos: «Oiçam lá, é muito fácil. Imaginem esquerdo-direito. Imaginem à frente-atrás. Tudo bem até aqui? Agora imaginem outra direcção, em ângulo recto com as outras duas.» E nós dizemos: «De que estão a falar? 'Em ângulo recto com a outras duas!' Há apenas duas dimensões. Onde está ela?» Os matemáticos desencorajados, afastam-se. Ninguém escuta os matemáticos.
Cada criatura da Planilândia vê outro quadrado como um curto segmento de recta, o lado do quadrado que está mais perto dela. Só vê o outro lado do quadrado se andar um pouco. Mas o interior do quadrado permanece para sempre um mistério, a menos que um terrível acidente ou uma autópsia quebre os lados e exponha as partes interiores.
Um dia, uma criatura tridimensional - do feitio de uma maçã, por exemplo - aparece na Planilândia, pairando sobre ela. Ao ver um quadrado particularmente atraente e de aspecto simpático a entrar na sua casa plana, a maçã decide cumprimentá-lo, num gesto de amizade interdimensional.
«Como está?», pergunta (...). Eu sou um visitante da terceira dimensão.» O infeliz quadrado olha em volta da sua casa fechada e nada vê. E, o que é pior, parece-lhe que a saudação, vinda de cima, emana do seu próprio corpo plano, como uma voz interior. Existe um pouco de loucura na família, talvez pense o quadrado, na falta de melhor explicação.
Exasperada por ser considerada uma aberração psicológica, a maçã desce na Planilândia. Uma maçã a deslizar pela Planilândia apareceria primeiramente como um ponto e depois como fatias mais ou menos circulares, progressivamente maiores. O quadrado vê um ponto aparecer numa sala fechada, no seu mundo bidimensional, e transformar-se lentamente num círculo próximo. Apareceu-lhe, não sabe de onde, uma criatura de forma estranha e mutável.
Rejeitada, infeliz com a obtusidade do próprio plano, a maçã empurra o quadrado e atira-o pelo ar, flutuando e girando, para a terceira dimensão. A princípio, o quadrado não consegue perceber o que está a acontecer; é algo absolutamente alheio à sua experiência. Mas acaba por perceber que está a ver a Planilândia de um ponto de vista especialmente vantajoso: de «cima». Pode ver para dentro das casas fechadas. Pode ver o interior dos seus companheiros planos. Está a ver o seu universo de uma perspectiva única e avassaladora. Viajar noutra dimensão proporciona por acaso, a vantagem de uma espécie de raio X.
Finalmente como uma folha que cai, o nosso quadrado acaba por regressar à superfície. Do ponto de vista dos seus conterrâneos planilandianos, ele desapareceu inexplicavelmente de dentro de uma casa fechada e depois materializou-se, estranhamente, vindo não se sabe de onde. «Pelo amor de Deus», dizem eles, «que te aconteceu?» «Penso», acaba ele por responder, «que estive 'lá em cima'.» Os outros dão-lhe palmadinhas nas costas e consolam-no. Na sua família sempre houve quadrados com visões."
Edwin Abbott, citado por Carl Sagan em Cosmos, pp. 304-306

Esta história citada por Carl Sagan, traz-nos à memória as nossas múltiplas limitações: a nossa inteligência, o lugar que ocupamos no universo, o tempo em que vivemos... Seremos irremediavelmente prisioneiros fechados na nossa "ilha cósmica" ou teremos legítimas razões para aspirar ao conhecimento (do universo)?
Richard Dawkins, biólogo e divulgador de ciência, discorre com o habitual humor, sobre "o pensamento do improvável", cujo vídeo pode ser visionado com tradução em português.
Para Dawkins vivemos num "mundo médio" no qual o nosso cérebro evolui adaptando-se à nossa faixa estreita da realidade. A matéria é uma ficção útil para nós, mas há um mundo que não podemos ver...



A ciência e a crítica são instrumentos fundamentais que nos levarão sempre mais longe... até que ponto? Será o nosso cérebro capaz de nos levar até aos derradeiros limites ou haverá sempre algo mais a desvendar?
É um desafio que dá muito que pensar.
Imagens: Google, Kandinski e TED.Com, Richard Dawkins

26.8.09

Música contra a Exclusão...


EL SISTEMA: Música contra a Exclusão, é um "sonho plantado" por José Antonio Abreu desde 1975 na Venezuela. Consiste num sistema de coros, orquestras infantis e juvenis, que vê na música "uma fonte de desenvolvimento do ser humano, de elevação do espírito, uma resposta à crise da espiritualidade no mundo". Um programa contra a exclusão social que já transformou a vida de mais de 300. 000 jovens venezuelanos.

Uma fonte de inspiração da verdadeira cidadania democrática e um modelo de sucesso educativo.
Entre muitos prémios, recebeu o TED Prize cujo vídeo pode ser visionado aqui em português do Brasil. Vale a pena ver e ouvir este homem que, à semelhança de tantos outros, não cruzou os braços perante a miséria da condição humana fazendo da Terra um lugar melhor.

Gustavo Dudamel, Google imagens


Um dos jovens educados neste projecto, Gustavo Dudamel é hoje um dos mais carismáticos maestros cujo génio pode apreciar a dirigir a Orquestra Teresa Carreño tocando a Sinfonia No. 10 (2º movimento) de Shostakovich e Danzón No. 2 de Arturo Márquez. Vale a pena ouvir!!!



Com a Orquestra Sinfónica Juvenil Simón Bolivar - que já foi considerada uma das Cinco melhores orquestras do mundo-, em 2007, no London BBC Proms.

Alma Llanera:

E Mambo:


Perante a beleza deste projecto, não podemos deixar de pensar em Nietzsche (1844-1900), filósofo para quem a verdadeira actividade metafísica da vida era a arte musical.

Representada pelos instintos apolíneo e dionisíaco, metáforas que simbolizam não só o que podemos compreender da realidade mas a própria realidade. Esta, sendo múltipla inclui todas as dualidades, todas as contradições expressas numa espécie de jogo ou relação de tensão e equilíbrio, em que nenhuma das partes pode ser eliminada. É o modo da unidade primordial, realidade íntima de tudo quanto há no mundo, no cosmos..., se dar a conhecer na "dança da vida" enquanto energia criadora ou vontade de poder. A arte musical permite-nos a experiência do belo e do sublime.

21.8.09

Será que Deus Existe?

Richard Swinburne é professor de Filosofia da Religião na Universidade de Oxford.
Estará presente no 7.º Encontro Nacional de Professores de Filosofia, organizado pela Sociedade Portuguesa de Professores de Filosofia, subordinado ao tema: "Filosofia e Religião", a decorrer em Viseu, na Escola Superior de Tecnologia nos dias 4 e 5 de Setembro de 2009.

Num tempo em que a ciência assumiu um papel fundamental nas nossas vidas, Swinburne, propõe-nos neste livro, uma reflexão séria, rigorosa e cuidada sobre a existência de Deus, tema que tem adquirido um renovado interesse à luz das novas descobertas científicas.

Nas palavras do autor, (...) "O pensamento público sobre estas questões foi influenciado por diversos livros da autoria de cientistas de renome, entre eles O Relojoeiro Cego, de Richard Dawkins (1986), e Uma Breve História do Tempo, de Stephen Hawking (1988)(...). Consciente de que as perspectivas destes autores não esgotam o debate rigoroso sobre o tema, com o presente livro, (versão abreviada de "The Existense of God" (1979)) Swinburne, pretende contribuir para o debate filosófico sobre este assunto, procurando mostrar que "é nos métodos da própria ciência que encontramos bases sólidas para crer na existência de Deus".

Numa época de fanatismos vários, um livro interessante para todos os que se preocupam com o debate racional sobre todas as grandes questões. Pode ler a recensão na revista Crítica, aqui.


Imagens: Google

6.8.09

Máquinas biológicas?

O que é o Homem?

O homem transformar-se-á em máquina?

O futuro estará nas mãos de máquinas biológicas?

Estas são algumas questões suscitadas pelo artigo publicado no Ciência Hoje, leia toda a notícia aqui.

Leia também este artigo e veja o vídeo, bem como este vídeo,
no astroPT. Ambos legendados em Português. Para o efeito, clicar em view subtitles.

Ou directamente: (edição posterior)







Imagem (Cyborg) encontrada no Google sem referência ao autor.

2.8.09

Uma música por dia...

A revista Ciência Hoje oferece uma selecção musical durante o Verão, a não perder. "São músicas de sempre que vale a pena ouvir." Para visitar o site clicar aqui.



"Parte final da abertura de Guilherme Tell, de Rossini, numa versão do filme «Brassed off», de 1996, em que uma cidade mineira depositava as maiores esperanças na conquista de um prémio nacional pela sua banda. Há quem se recorde desta abertura como o tema de uma velha série dos anos 60, «O Mascarilha» e o seu cavalo branco «Silver»."
In: Ciência Hoje

1.8.09

Direitos Humanos


João Garcia, comciência.br

Sons de sempre...

Versão da banda sonora de um clássico do cinema de 1966 realizado por Sergio Leone: "O Bom o Mau e o Vilão", com a participação de Clint Estwood.

Ennio Marricone é o autor desta versão interpretada pela Wkulele Orchestra of G. B.

Informação recebida da revista online "Ciência Hoje"

18.7.09

Centro Ibérico de Nanotecnologia



Foi inaugurado em Braga, “o primeiro laboratório no mundo dedicado à nanotecnologia com um estatuto legal internacional e tendo Estados como membros”.

Imagem retirada do Google

O que é a Nanotecnologia?



Em português do Brasil.

17.7.09

"Com os pés na Lua"

"Um pequeno passo para o homem um salto gigante para a humanidade."

Frase proferida por Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar a Lua. Na missão Apolo 11 (Julho de 1969), seguiam também Edwin Aldrin, segundo homem a pisar a Lua (foto), e Michael Collins.
Mais informação no blog do astroPT.
Foto retirada da Wikipédia

16.7.09

Licenciatura virtual em Filosofia



Para todos os interessados em Filosofia, a Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica, criou uma licenciatura virtual. Mais informações aqui.

Imagem: Google

Para que serve a Filosofia?

Nota:


"Na Natureza nada se cria, nada se perde tudo se transforma"
Alguns posts que incluem vídeos, foram alterados. Esperamos que as alterações sejam do agrado dos nossos leitores.
Foto: Google

O mundo é a nossa casa



"HOME - Documentário da autoria do realizador francês Jeann Arthus- Bertrand, é constituído por paisagens aéreas do mundo inteiro e pretende sensibilizar a opinião pública mundial sobre a necessidade de alterar modos e hábitos de vida."

É constituído por doze pequenos vídeos de aproximadamente 10 minutos cada um.

9.7.09

Revista de Ciência

A Universidade de Aveiro criou uma revista virtual de Ciência a "CAPTAR - Ciência e Ambiente para todos".
Informação do Público On-line

Apresentação:

“A Ciência ocupa hoje um lugar de relevo no desenvolvimento das sociedades. Assim, a aquisição de competências conducentes ao desenvolvimento do pensamento científico deve ser acessível a todos os cidadãos, e não apenas aos futuros cientistas, para que todos possam ter uma participação activa nas democracias modernas. (…)

(…) Pelo facto de se encontrar facilmente acessível on-line, a Revista Captar pretende ainda assumir-se como um campo de treino e aprendizagem de jovens investigadores, já que aqui os alunos do EBS, assim como os do ensino superior podem iniciar a sua actividade de comunicação em Ciência, submetendo artigos sobre os seus trabalhos de investigação na escola e passando pelo processo de revisão por pares, bem como pela tomada de consciência das responsabilidades e benefícios associados à publicação de um trabalho científico.

Mais ainda, esta é uma revista de divulgação científica junto do cidadão em geral, que, se a explorar, tomará conhecimento sobre as principais áreas de investigação na área das ciências naturais e ambiente, desenvolvidas em diferentes laboratórios e instituições de ensino superior nacionais. (…)”
In Revista CAPTAR, Nota de apresentação

Problemas da Filosofia





















" A noção de que, num sentido mais amplo, mesmo uma vida feliz é absurda costuma ser apoiada por duas ideias. Uma delas é que vamos morrer inevitavelmente; e outra é que o universo nos é indiferente.
Examinemos separadamente estas ideias.
Que atitude deveremos ter em relação à nossa mortalidade? Obviamente, isso depende do que julgamos que acontece quando morremos. Algumas pessoas acreditam que irão viver para sempre no paraíso. A morte, portanto, é como mudar para uma casa melhor. Se acreditamos nisto, devemos pensar que a morte é boa, pois ficaremos melhor depois de morrermos. Aparentemente, Sócrates tinha esta atitude, mas a maior parte das pessoas não a tem.
A morte pode ser, pelo contrário, o fim permanente da nossa existência. Se assim for, a nossa consciência extinguir-se-á e será o nosso fim. É importante compreender o que isto significa. Algumas pessoas parecem presumir que a inexistência é uma condição misteriosa, difícil de imaginar. Perguntam «Como será estar morto?» e ficam perplexas. Mas isto é um erro. A razão pela qual não conseguimos imaginar como é estar morto é o facto de estar morto ser como nada. Não conseguimos imaginar porque não há nada para imaginar.
Se a morte é o fim da nossa existência, que atitude devemos ter relativamente a isso? A maior parte das pessoas pensa que a morte é uma perspectiva terrível. Odiamos a ideia de morrer e estamos dispostos a fazer quase tudo para prolongar a nossa vida. Porém, Epicuro disse que não devemos recear a morte. Numa carta a um dos seus seguidores, defendeu que «A morte nada é para nós», já que quando estivermos mortos não existiremos e, não existindo, nada de mal poderá acontecer-nos. Não estaremos infelizes, não sofreremos (não sentiremos medo, preocupações ou aborrecimento) e não teremos desejos nem remorsos. Logo, concluiu Epicuro, a pessoa sábia não receará a morte. Epicuro acreditava que, ao eliminar o medo da morte, estas reflexões filosóficas podiam contribuir positivamente para a nossa felicidade durante a vida.
Há alguma verdade nisto. Ainda assim, esta perspectiva ignora a possibilidade de a morte ser má por constituir uma privação enorme - se a nossa vida pudesse continuar, poderíamos disfrutar de todos os géneros de coisas boas. deste modo, a morte é um mal porque põe fim às coisas boas da vida. Isto parece-me correcto. Depois de eu morrer, a história humana prosseguirá, mas não conseguirei fazer parte dela. Não verei mais filmes, não lerei mais livros e não farei mais amigos nem mais viagens. Se eu morrer antes da minha mulher, não conseguirei estar com ela. Não irei conhecer os meus bisnetos. surgirão novas invenções e far-se-ão novas descobertas sobre a natureza do universo, mas nunca irei conhecê-las. Será composta nova música, mas não irei ouvi-la. Talvez venhamos a estabelecer contacto com seres inteligentes de outros mundos, mas não saberei disso. É por esta razão que não quero morrer e que o argumento de Epicuro é irrelevante.
Mas será que o facto de ir morrer torna a minha vida absurda? Afinal, diz-se, o que interessa trabalhar, fazer amigos e constituir família se acabaremos por deixar de existir? Esta ideia tem uma certa ressonância emocional, mas envolve um erro fundamental. Temos de distinguir o valor de uma coisa da sua duração. Estas são questões diferentes. Uma coisa pode ser boa enquanto dura, mesmo que não vá durar para sempre. Enquanto controlaram o Afeganistão, os talibã destruiram diversos monumentos antigos. Isso foi uma tragédia porque esses monumentos eram maravilhosos, e o facto de serem vulneráveis não os tornava menos valiosos. Também uma vida humana pode ser maravilhosa, mesmo que tenha de terminar inevitavelmente. Pelo menos, o simples facto de que vai terminar não anula o [seu] valor."
James Rachels, Problemas da Filosofia, (2009) Gradiva, pp. 289-291, Tradução de Pedro Galvão.
Eminente filósofo americano, (1941-2003) James Rachels ficou conhecido pela sua intervenção no debate filosófico sobre a eutanásia e sobre o relativismo moral baseado na diversidade cultural. A presente obra, aborda as principais temáticas filosóficas da actualidade e destina-se a todos aqueles que gostam de pensar por si.

O Livro Oficial do Ano Internacional da Astronomia


Informação recebida da Gradiva. Clicar na imagem para ampliar.

3.7.09

A Finitude da Vida...

(…)
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
(…)



Fernando Pessoa, Tabacaria
Retrato de Fernando Pessoa por Almada Negreiros

Será a existência humana preferível à de um seixo?

"No século XIX, Schopenhauer, conhecido como sendo o filósofo do pessimismo, acentuou o sofrimento da vida humana: ou queremos alguma coisa que não temos ou temos o que queríamos. De uma maneira ou de outra, sofremos - através da falta do que queremos ou através do tédio pela falta de querer, agora que temos o que queremos. (...)
Se Shopenhauer estiver certo, não seria melhor ser um seixo, e não ter todas as experiências? Se fôssemos seixos na praia, as ondas e os tumultos seriam (...) levados pela maré. (...)
É um erro pensar que se desenvolvermos os meios para alcançar os fins, os meios são irrelevantes, sem qualquer valor em si mesmo e que são apenas os fins que importam. O nosso objectivo pode ser alcançar o topo do monte Everest, mas nós não queremos alcançá-lo simplesmente por qualquer meio. Queremos escalar a montanha, enfrentar as tempestades de neve, persistir na luta, sempre a subir. (...)
Shopenhauer pode ter razão no seu pessimismo, no sentido de a maior parte das vidas envolverem mais sofrimento do que satisfações. Muitos sofrimentos parecem mais ou menos inevitáveis - mesmo para os que são vencedores na vida. Há perdas de família, amigos e parceiros amorosos; a percepção da perda crescente de capacidades na velhice; e muito provavelmente, a experiência directa em nós próprios dessa perda de capacidades. (...) Há a percepção do sofrimento de milhões de outras pessoas, no passado, no presente e no futuro e dos animais. (...)
Qual é o propósito disto tudo? (...) Há objectivos e propósitos na minha vida - mas qual é o propósito ou objectivo da minha vida? (...) [E qual o] propósito de uma vida infinitamente longa?
Talvez devêssemos tomar consciência de que, para alguma coisa ter valor, ela não precisa de ter um propósito. (...)
As vidas podem ser valiosoas, em particular porque são vidas de pessoas apreciadoras das características do universo, da vida e de viver. É verdade, as vidas terminam; mas será que conseguiríamos sequer enfrentar a vida eterna? A consciência da morte envolve muitas pessoas em melancolias desanimadoras e opressoras de «Qual é o propósito?» Lembremo-nos de que não pode haver um propósito acima de todos os propósitos. Os propósitos devem acabar, assim como as explicações.
Todas as coisas que valorizamos, por mais raras e pequenas que sejam, trazem um propósito ou significado às nossas vidas - as amizades, os amores e os absurdos; essas memórias de paisagens entrelaçadas de paixões partilhadas e olhares dirigidos que magicamente seduzem e envolvem; a embriaguês de vinhos e palavras, meditações inconstantes e música, com os quais nos debatemos ao entrar nas noites nebulosas e sonolentas, os nossos sentidos revitalizados por águas cintilantes, tão necessárias de madrugada; as paisagens de mar com ondas selvagens, luares misteriosos e imagens e céus amplos que ampliam o olhar - deixam todas de existir; e curiosamente as mais encantadoras são muitas vezes aquelas nas quais nos perdemos e também deixamos de existir - se elas, e nós existimos em algum momento permanece intemporalmente verdade, fora de todo o tempo. Para os amantes da eternidade, melhor do que isso é impossível."
Peter Cave, Duas vidas valem mais que uma?, (2008), Academia do Livro, pp. 207 - 210. (Texto Adaptado)



Um bom livro para férias. Boas leituras!

2.7.09

Ler Mais...

O livro que eu recomendo? "Cosmos" de Carl Sagan.
As Razões? Além de ser uma obra prima sobre ciência, "Cosmos" é Arte, Filosofia, História... um "manual" sobre cultura, de leitura agradável e acessível a todos.
São razões mais do que suficientes para o reler nestas férias e o recomendar vivamente a todos, especialmente aos nossos alunos.
"A Terra é um lugar. Não é de modo nenhum o único lugar. Nem sequer é um lugar típico, porque o cosmos está, na sua maior parte, vazio. O único lugar típico é dentro do vácuo universal, vazio e frio, a noite eterna do espaço inter-galáctico, um lugar tão estranho e desolado que, em comparação os planetas, as estrelas e as galáxias parecem dolorosamente raros e belos."
Carl Sagan, Cosmos - As Costas do Oceano Cósmico, Gradiva, Pág. 19
Foi reeditado pela Gradiva, pode comprá-lo aqui.

Concurso: Ler + Ciência





"O Ler+Ciência é uma iniciativa conjunta do Plano Nacional de Leitura, da Fundação Calouste Gulbenkian e da Ciência Viva, que procura estimular a leitura de obras científicas (e de ficção científica) entre as crianças e os jovens."
O Concurso:
Cada concorrente deverá submeter uma apresentação de um livro de ciência, de divulgação ou de ficção científica, procurando suscitar o interesse de outras pessoas para a obra.
Ler mais aqui.

25.6.09

24.6.09

Concurso: "Faz Portugal Melhor"

“FAZ PORTUGAL MELHOR!» é o concurso dirigido aos alunos do 3º ciclo e do ensino secundário para o ano lectivo 2009-2010. [Em todas as áreas científicas, a Filosofia incluída nas ciências Sociais] A ideia mobilizadora é o desafio lançado aos jovens: intervir para conhecer e melhorar o mundo que os rodeia, gostar do seu país, da sua zona e de si próprios também."
Apresentação do projecto:
«Todo o acto educativo implica uma atitude optimista. Por isso, numa época em que dominam o cepticismo e a descrença é urgente que os professores, pais e encarregados de educação transmitam aos jovens a ideia de que é possível mudar o que não está bem, compreendendo o seu papel activo e interventivo. Assim, lançamos um desafio aos nossos jovens: o desenvolvimento de projectos sobre a realidade que os rodeia, identificando problemas, propondo soluções, promovendo mudanças. Para além dos professores que orientarão os seus alunos, espera-se a colaboração no desenvolvimento dos projectos, das famílias, das instituições do ensino superior, das autarquias, empresas e associações. O site do concurso reflectirá o trabalho produzido pelos alunos e a colaboração de toda uma rede de cooperação que por certo se constituirá.»
Para aceder ao site do concurso:

23.6.09

Os computadores, poderão ter uma vida mental com pensamentos e emoções?

A ficção científica criou a ideia de um dia se poderem conceber computadores capazes de pensar. No entanto, mesmo os computadores munidos dos programas mais avançados e capazes dos feitos mais impressionantes, não têm a menor consciência do que se passa quando executam os seus programas.
A Filosofia Contemporânea da Mente tem-se desenvolvido mantendo uma relação estreita com o avanço do estudo da Inteligência Artificial. Sendo assim, será que os computadores por mais sofisticados que sejam, alguma vez conseguirão ter um a vida mental com pensamentos e emoções?
Pensamos que não. Mesmo que a Inteligência Artificial tenha sucesso em simular as capacidades cognitivas humanas, esse sucesso indicaria apenas que essas capacidades são puramente materiais (cerebrais). Sendo assim, a ideia de que é possível a vida mental de um computador, só poderá ser defendida satisfatoriamente, se através dos progressos da Inteligência Artificial, esta for capaz de simular um âmbito muito mais vasto de estados mentais humanos, o que não acontece hoje em dia.
A Inteligência Artificial tem centrado os seus esforços na simulação de capacidades cognitivas humanas - na simulação da linguagem, da percepção, reconhecimento de padrões, mas não existem tentativas de simular outras capacidades humanas, como a afectividade, a personalidade, o sentido estético ou o juízo moral. Um programa de computador não faz isso, pois é apenas um conjunto de instruções formais para manipular símbolos, não tendo compreensão em relação aos aspectos psicológicos da humanidade.
O matemático Alan Turing (1912-1954) propôs a ideia de que se um computador passasse um determinado teste, conhecido como teste de Turing então estaria provado que os estados cognitivos humanos poderiam ser replicados pelos computadores, se um computador passasse o teste teria necessariamente uma mente.
O teste proposto por Turing consistia em levar a cabo uma experiência com duas pessoas e um computador. Nesta experiência uma pessoa isolada faz uma série de perguntas que são respondidas pelo computador e pela outra pessoa. O computador passa o teste se o indivíduo que faz as perguntas não conseguir descobrir qual dos interlocutores é a máquina e qual é humano. Turing previa que os computadores estariam brevemente aptos a passar o teste, contudo, nem os computadores tecnologicamente mais avançados da actualidade são capazes de o fazer. Este facto, obviamente, não invalida o teste.
O filósofo norte-americano John R. Searle propôs em 1980, outro teste conhecido como o argumento do Quarto Chinês. Consiste numa experiência mental na qual imaginamos um sujeito, que apenas fala português, fechado num quarto com um manual sofisticado que relaciona uns caracteres chineses com outros caracteres chineses. O indivíduo pratica a manipulação destes símbolos, seguindo as regras propostas no manual. Ele torna-se capaz de responder às mensagens enviadas pelos seus guardas chineses com tal eficácia que eles não conseguem descobrir se ele é ou não, Chinês. Esta experiência põe em causa o Teste de Turing. Mostra que a implementação de um programa de computador não é por si só suficiente para a atribuição de estados mentais genuínos aos computadores.
Na avaliação de ambas as experiências (Turing e Searl) é fundamental considerar as relações entre simulação e réplica. A distinção entre estas pode não ser tão clara como usualmente se considera. De facto, quando um sistema ou um organismo exprime as mesmas respostas perante as mesmas perguntas é cientificamente justificável pôr a hipótese de que existe um sistema causal interno semelhante. Quando se fazem experiências laboratoriais em qualquer ramo da ciência toma-se como garantida a credibilidade deste método: constroem-se situações artificiais e através dos resultados atingidos nessas situações, defendem-se hipóteses acerca dos sistemas causais internos. A Inteligência Artificial pode ser considerada como um método laboratorial complexo através do qual se testam as nossas hipóteses acerca dos sistemas causais internos responsáveis pela cognição humana.
Se assim é não podemos traçar uma distinção entre simulação e réplica, entre uma posição forte em relação à inteligência artificial e uma posição fraca. Se o Teste de Turing for executado com sucesso podemos dizer que o computador simula os estados mentais, mas temos de acrescentar que, se os simula com eficácia, a melhor explicação para esse facto é a de que os replica adequadamente. Por outro lado, se a experiência do Quarto Chinês for possível, a melhor explicação para esse facto seria a de que a linguagem é apenas manipulação de símbolos e que a nossa intuição de que o indivíduo não fala Chinês está relacionada com factores exteriores à experiência. Mas a linguagem é muito mais do que mera manipulação de símbolos. Pensamos que os computadores estão muito longe de terem estados mentais idênticos ao ser humano.

Imagem retidada do Google: Hal 9000, computador consciente da nave Discovery, no filme 2001: Odisseia no Espaço (1968)
Carolina Rufino, José Carlos Mateus e Juliana Belo
11.º C

19.6.09

Outra vez o sentido da vida...

“ Naquele pontinho azul, estamos todos...

Todas as nossas guerras…
Todos os nossos problemas…
Toda a nossa grandeza e toda a nossa miséria…
Toda a nossa tecnologia, a nossa arte, os nossos feitos…
Todas as civilizações…
Todas as religiões…
Todo o nosso amor… e o nosso ódio…

Seis mil milhões de almas em constante convulsão…”

Dá que pensar!…

Foto tirada por Cassini-Huygens,
Uma nave espacial não tripulada,
em 2004, ao chegar aos anéis de Saturno.
Imagem e texto adaptado da net, encontrados sem referência ao autor.
Carl Sagan é o autor original no seu best-seller: "Ponto Azul Claro", publicado pela Gradiva.
(informação recebida do nosso leitor: Carlos)
Parte do texto original pode ser lida em astroPT, bem como o vídeo: "Pale Blue Dot" legendado em português.
Edição posterior: